É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Nas últimas semanas, a Argentina voltou ao noticiário brasileiro devido aos imbróglios relativos à aplicação da chamada "Lei dos meios", responsável pela nova regulamentação dos serviços de comunicação. Alguns viram, no caráter antimonopolista da Lei, a expressão de uma sanha estatal visando limitar a liberdade de expressão, principalmente devido à arquirrivalidade entre o governo Kirchner e o maior grupo de mídia do pais: o grupo Clarín.

No entanto, há um debate importante que deve ser feito de maneira desapaixonada. Ele passa pela resposta à pergunta: "Precisamos ou não de leis que restrinjam a concentração da propriedade de canais de comunicação?". Ou seja, podemos afirmar que a concentração da mídia não afeta necessariamente o funcionamento da democracia?

Neste sentido, vale a pena lembrar que o mercado de mídia é, atualmente, um dos mais oligopolizados do mundo. Como vimos através do recente caso de Rupert Murdoch, isto não é sem consequências para nossa vida política.

Murdoch detinha um império mundial de TVs, jornais, editoras, revistas, rádios, estúdios de cinema, portais de internet que lhe dava uma capacidade de moldar o debate, pressionar governos e de intervir na política a ponto de prometer a um general norte-americano (David Petraeus) apoio irrestrito de seu império caso ele aceitasse concorrer à Presidência norte-americana.

Situações como esta não são exclusivas do mundo anglo-saxão. As últimas décadas conheceram uma tendência brutal à concentração de mídia que interfere, de maneira nociva, não apenas na política, mas também na cultura. Um grupo como Time Warner, por exemplo, controla, ao mesmo tempo, a produção, a difusão e o desenvolvimento das técnicas de reprodução. Por isto, podemos dizer que leis que impeçam a formação de oligopólios são uma forma da sociedade defender-se da uniformização forçada de opiniões e do silenciamento de perspectivas.

Pode-se contra-argumentar dizendo que a pulverização das mídias as deixa mais vulneráveis às pressões dos governos. Este é um argumento relevante. No entanto, a solução para esse problema não está na perpetuação de outro problema. Há de se pensar ações que impeçam os governos de moldarem as informações a partir de seus interesses.

No caso brasileiro, isso pede a limitação da capacidade de influência dos governos através da drástica limitação da publicidade governamental (reduzida apenas a campanhas de utilidade pública), do respeito à proibição de políticos e seus grupos operarem concessões de mídia, assim como de critérios absolutamente isonômicos de usos de verbas publicitárias de empresas estatais.

 escreve às terças-feiras nesta coluna.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
O retorno de José Genoino à Câmara dos Deputados é sintoma de uma bizarra compulsão de seu partido em relação ao chamado mensalão.

É compreensível levantar discussões sobre a extensão e a profundidade das penas, assim como sobre a necessidade de punir com o mesmo rigor a vertente tucana do escândalo. Não é aceitável, porém, agir como se nada tivesse ocorrido, como se o julgamento fosse simplesmente um complô urdido contra a esquerda brasileira.

Ao afirmar que os condenados no mensalão não seriam desligados do partido, ao aceitar organizar uma contribuição para auxiliar tais condenados a pagarem as multas aplicadas pelo STF e, agora, ao achar normal que alguém condenado em última instância assuma uma vaga no Congresso, o PT age como um avestruz que coloca a cabeça na terra e erra de maneira imperdoável.

O mínimo a ser feito depois do julgamento era apresentar uma autocrítica severa para a opinião pública. Tal autocrítica não deveria ser apenas moral, embora ela fosse absolutamente necessária.

Ela deveria ser também política, pois se trata de compreender como o maior partido de esquerda do Brasil aceitou, em prol do flerte com as práticas mais arcaicas de "construção da governabilidade", esvaziar completamente as pautas de transformação política do Estado e de aprofundamento de mecanismos de democracia direta.

Desde que subiu ao poder federal, planos interessantes, como o orçamento participativo, sumiram até mesmo da esfera municipal do PT, o que dirá a discussão a respeito da superação dos impasses da democracia parlamentar.

No seu lugar, setores do partido acharam que poderiam administrar a política brasileira com os mesmos expedientes de sempre e, ainda assim, saírem ilesos. Agora, mostram-se surpresos com o STF.

Para que todos não paguem por isso diante da opinião pública, há de se dizer claramente que não é a esquerda brasileira que foi julgada no mensalão, mas um setor que acreditou, com uma ingenuidade impressionante, poder abandonar a construção de novas práticas políticas sem, com isso, se transformar paulatinamente na imagem invertida daquilo que sempre criticaram.

Se uma autocrítica fosse feita, o Brasil poderia esperar que certos atores políticos começassem, enfim, uma reflexão sobre a necessidade do aprofundamento da participação popular como arma contra a corrupção do poder.

Ao que parece, no entanto, precisaremos de muito mais escândalos para que tal pauta seja, um dia, colocada em cena.

 escreve às terças-feiras nesta coluna.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
No dia 22 de janeiro, os israelenses escolherão um novo Legislativo. Tudo indica que Benjamin Netanyahu continuará como primeiro-ministro, mas agora à frente de um Parlamento ainda mais conservador, devido principalmente à ascensão do partido de extrema direita "Casa Judaica", que concorre à eleição em lista com a "União Nacional".

"Quando Netanyahu fala, o mundo o escuta". Esse é o slogan de sua campanha. De fato, ele tem razão, o mundo não é indiferente ao que o premiê israelense fala, mas talvez porque seja difícil acreditar que está realmente a dizer o que tem dito ultimamente.

Não por outra razão, nunca o governo de Israel se viu tão isolado diante da opinião pública. Haja vista a votação da ONU que elevou a Palestina à condição de Estado observador. A despeito de sua intensa movimentação política, apenas oito países votaram conforme posição defendida por Israel.

O que Netanyahu diz com suas ações é que seguirá à risca o programa de seu partido, Likud, que simplesmente não reconhece a existência de um Estado Palestino a oeste do Rio Jordão. Tanto é assim que ele ignorou soberanamente todos os pedidos para que parasse, de maneira definitiva, a construção de novos assentamentos e colônias na Cisjordânia. Seu último ato foi autorizar a construção, na região de Jerusalém, de novas colônias que inviabilizarão, de vez por todas, um Estado Palestino em território contínuo.

Mas talvez seja o caso de dizer que sua maneira de governar transformou Netanyahu no melhor sócio que o Hamas poderia ter. Primeiro, suas ações de punição coletiva em nada contribuíram para quebrar o Hamas. No último ataque a Gaza, Israel descobriu que o grupo palestino tem mísseis que podem alcançar Jerusalém, isto enquanto um de seus líderes, Khaled Meshal, era entusiasticamente recebido por uma multidão.

Na verdade, a retórica belicista de Netanyahu, assim como sua contínua humilhação aos esforços da Autoridade Palestina junto aos órgãos diplomáticos mundiais, apenas reforçaram o Hamas diante de largas parcelas de uma população palestina cansada de esperar uma intervenção internacional, capaz de resolver sua situação aberrante de povo apátrida.

Um governo israelense capaz de garantir a paz para seu povo, ao invés de usar a guerra como elemento de consolidação da unidade nacional, começaria por demonstrar, com atos concretos, que respeita o território do futuro Estado Palestino. Mas façam a seguinte pergunta: se o Hamas desaparecesse, assim como toda ameaça de ataques terroristas, o governo atual de Israel aceitaria entregar toda a Cisjordânia e parte de Jerusalém para um futuro Estado Palestino, como o direito internacional o obriga?

 escreve às terças-feiras
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Muitos dos que acompanham, com interesse, a produção cinematográfica recente se perguntam sobre o que acontece com o cinema nacional.

Alguns de nossos vizinhos, como a Argentina e o Chile, conseguiram estabelecer uma produção constante de qualidade, capaz de aliar força dramática e reflexão sociopolítica -como o recente "No", de Pablo Larraín, ou o mais antigo "O Segredo dos seus Olhos", de Juan José Campanella.

Em certos momentos, tal produção soube, inclusive, explorar, de maneira audaciosa, modificações na forma narrativa cinematográfica tradicional (como o imperdível "Pompeya", de Tamae Garateguy). Já a produção nacional se caracteriza pela intermitência.

Nos últimos dez anos, o Brasil conheceu alguns filmes que nos fizeram acreditar no possível aparecimento de um novo patamar na produção nacional. Eles vieram principalmente do Nordeste, como "O Céu de Suely", de Karim Aïnouz, e "Cinema, Aspirinas e Urubus", de Marcelo Gomes. No entanto, salvo honrosas exceções, a constância de boas produções acabou por não se confirmar, mesmo que, do Nordeste, ainda venham filmes capazes de fornecer bons retratos sociais, como o recente "O Som ao Redor", de Kleber Mendonça Filho.

Ao que tudo indica, o cinema nacional escolheu duas vias principais. De um lado, uma associação com a televisão e com diretores vindos majoritariamente da publicidade, com suas narrativas unidimensionais e estética espetacular. Daí vêm as produções nacionais com maior bilheteria, normalmente comédias de costumes, retratos de heróis da cultura de massa ou filmes cuja maior função é estilizar os fantasmas tradicionais da classe média assustada, como o já muito comentado "Tropa de Elite".

Desde a época da Vera Cruz e da Atlântida, o cinema brasileiro parece lutar para construir um polo de indústria cultural que abasteça o mercado nacional, como se estivéssemos no interior de uma espécie de lógica retardatária de substituição de importações.

Mas a via mais criativa do cinema brasileiro recente foi o documentário, como mostra a tese "Jogos de Cena - Ensaios sobre o Documentário Brasileiro Contemporâneo", de Ilana Feldman. O que não é de estranhar em um país onde mesmo sua tradi-ção literária do século 20 teve um forte peso realista. Realismo que não deixa de cobrar seu preço quando se trata de explorar a linguagem cinematográfica.

Diante dessas duas vias, preso entre sua tradição realista e a lógica da indústria cultural, o cinema brasileiro recente ainda não conseguiu abrir uma terceira via.

 escreve às terças-feiras
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Na semana passada, os egípcios tentaram comemorar os dois anos do início de sua revolução. Alguns poderiam dizer, no entanto, que não havia muito o que se comemorar.

O desejo de livrar-se dos dias mortos do passado parece soar hoje como uma promessa distante. Várias belas palavras foram ditas no calor do entusiasmo e muito pouco foi feito. Olha-se para trás com olhos decepcionados de quem, no final das contas, vê-se obrigado a dizer que, no fundo, nada aconteceu.

A princípio, melhor seria procurar outra coisa em outro lugar ou aceitar amargamente que quem sonhou com a reinvenção da democracia acorda hoje com a Irmandade Muçulmana. Mas há algo nos egípcios que impressiona e quebra tal leitura melancólica. Trata-se de sua incrível tenacidade.

Há dois anos, os egípcios mostram para nós o que significa não ceder em seu desejo. Tudo se passa como se eles estivessem preparados para as dificuldades e decididos a permanecer insistentemente nas ruas, a ocupar praças até que a vontade de uma vida reinventada seja enfim realizada.

Eles parecem fiéis a uma máxima fundamental dos povos que escrevem a história: "Real foi o momento em que sonhamos, as decepções que vieram depois são apenas ilusões que acabarão por se mostrar em sua inverdade". Pois o que teve a força de nos tirar do lugar é dotado de uma realidade que pode até enfraquecer, mas nunca desaparecer.

Marx, diante de mais uma revolução traída, não conteve sua ironia e disse: "Hegel escreveu em algum lugar que os grandes fatos são encenados duas vezes. Só que esqueceu de completar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa". Alguém deveria dizer a Marx: "Bem, Marx, nem sempre".

De fato, todo verdadeiro acontecimento, como é o caso de uma revolução ou um encontro, ocorre duas vezes. Nada de real existe sem repetir-se. Mas, em alguns momentos singulares, a primeira vez ocorre como tragédia e a segunda como (no fundo, esta é mesmo a melhor palavra) redenção. O que parecia completamente perdido demonstra que apenas procurava um melhor momento para fazer existir sua verdadeira força.

Por isso, povos fiéis a seu desejo nunca fracassam. Eles podem errar, como quem entra em uma errância e se perde, agindo às vezes de maneira irreconhecível. Como se não fossem mais capazes nem sequer de pronunciar corretamente o nome do que desejam. Mas tais situações de errância não são os capítulos finais.

Chega um momento em que os acontecimentos ocorrem uma segunda vez e as revoluções, por um caminho só compreensível ao final, enfim se completam.

 escreve às terças-feiras.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Diferentemente do publicado no texto  (Colunistas, 13/11/2012 - 03h30), de Vladimir Safatle, publicado na versão impressa e no site da , o Departamento de Defesa dos EUA notificou, em 9/11/2012, o Congresso sobre a possível venda de US$ 6,7 bilhões, e não milhões, em equipamentos militares para a Arábia Saudita. O texto também informou sobre um suposto negócio firmado em 2010. Na realidade, naquele ano foram realizadas quatro vendas para Riad. As transações somaram US$ 60,555 bilhões, e não US$ 60 milhões. O texto foi corrigido.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"A Carta Roubada" é um dos contos mais célebres de Edgar Allan Poe. Nele, o escritor norte-americano conta a história de um ministro que resolve chantagear a rainha roubando a carta que lhe fora endereçada por um amante.

Desesperada, a rainha encarrega sua polícia secreta de encontrar a carta, que provavelmente deveria estar na casa do ministro. Uma astuta análise, com os mais modernos métodos, é feita sem sucesso. Reconhecendo sua incompetência, o chefe de polícia apela a Auguste Dupin, um detetive que tem a única ideia sensata do conto: procurar a carta no lugar mais óbvio possível, a saber, em um porta-cartas em cima da lareira.

A leitura do conto de Edgar Allan Poe deveria ser obrigatória para os responsáveis pela educação pública. Muitas vezes, eles parecem se deleitar em procurar as mais finas explicações, contratar os mais astutos consultores internacionais com seus métodos pretensamente inovadores, sendo que os problemas a combater são primários e óbvios para qualquer um que queira, de fato, enxergá-los.

Por exemplo, há semanas descobrimos, graças ao Censo Escolar de 2011, que 72,5% das escolas públicas brasileiras simplesmente não têm bibliotecas. Isto equivale a 113.269 escolas. Um descaso que não mudou com o tempo, já que, das 7.284 escolas construídas a partir de 2008, apenas 19,4% têm algo parecido com uma biblioteca.

Mesmo São Paulo, o Estado mais rico da Federação, conseguiu ter 85% de suas escolas públicas nessa situação. Ou seja, um número pior do que a média nacional.

Diante de resultados dessa magnitude, não é difícil entender a matriz dos graves problemas educacionais que atravessamos. Difícil é entender por que demoramos tanto para ter uma imagem dessa realidade.

Ninguém precisa de mais um discurso óbvio sobre a importância da leitura e do contato efetivo com livros para a boa formação educacional. Ou melhor, ninguém a não ser os administradores da educação pública, em todas as suas esferas. Pois não faz sentido algum discutir o fracasso educacional brasileiro se questões elementares são negligenciadas a tal ponto.

Em política educacional, talvez vamos acabar por descobrir que "menos é mais". Quanto menos "revoluções na educação" e quanto mais capacidade de realmente priorizar a resolução de problemas elementares (bibliotecas, valorização da carreira dos professores etc.), melhor para todos.

A não ser para os consultores contratados a peso de ouro para vender o mais novo método educacional portador de grandes promessas.

 escreve às terças-feiras.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Tudo estava preparado para que nada mais acontecesse. Desde que os islamistas do Al Nahda ganharam a primeira eleição pós-revolução tunisiana, o jogo parecia armado.

Bastaria que eles controlassem por alguns anos suas demandas de islamização da sociedade, enquanto construíam paulatinamente políticas sociais capazes de minorar a extrema pobreza de grande parte da população. O impacto da melhoria econômica seria um capital valioso para o partido consolidar-se no poder, tendo então mãos mais livres. Mas a astúcia da história conta com o fato de o bom-senso político não ser a coisa mais bem partilhada do mundo.

Sem o esperado combate direto à pobreza e deixando os salafistas atuarem de maneira cada vez mais brutal, o Al Nahda permitiu que a oposição laica se unificasse, despertando um sentimento de desconfiança em relação à religião que se confunde com a formação da Tunísia moderna.

Os debates sobre laicidade atravessam a história tunisiana como em nenhum outro país árabe e têm raízes em sua própria tradição. Dificilmente encontraremos outro país onde poderíamos ver, na TV, o artífice da independência (no caso, Habib Bourguiba) bebendo suco de laranja em pleno dia, no Ramadã, mostrando ostensivamente não respeitar o preceito do jejum. A metáfora era clara: "Precisamos de menos religião e de mais desenvolvimento econômico".

Agora, com o assassinato do líder esquerdista Chokri Belaid, a Tunísia esta às portas da crise institucional. Diante da primeira greve geral desde 1978, o primeiro-ministro, Hamadi Jebali, afirmou que dissolverá seu governo para formar outro, composto basicamente por "tecnocratas apolíticos". No que foi pronta-mente desautorizado por seu próprio partido.

É difícil saber o que ocorrerá. O Al Nahda governava com uma coalizão de dois partidos laicos (Ettakatol e Congresso pela República). O primeiro já abandonou o governo. Sozinho, será impossível aos islamistas fazerem frente a uma oposição unida e mobilizada.

Uma revolução é um processo em que vários sistemas de freios são testados. Primeiro, quando o governo Ben Ali caiu, seus asseclas procuraram se conservar no poder, no que acabaram por ser todos rechaçados. Depois, como eram o grupo político mais organizado, os islamistas souberam se aproveitar da baixa participação popular na primeira eleição livre, assim como da dispersão da oposição, para subirem à cena.

Mas eles não esperavam que, pouco mais de um ano depois, fossem obrigados a ouvir a população gritando: "O povo quer uma nova revolução". No fundo, os islamistas esqueceram que muita gente quis tomar suco de laranja com Bourguiba naquele dia.

 escreve às terças-feiras nesta coluna.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Um dos pilares do paradigma liberal é a crença de que livre-mercado e democracia são termos que nunca podem entrar em contradição.

Segundo essa vulgata, por meio do livre-mercado garante-se a liberdade individual de empreender e defender seus próprios interesses.

Neste mundo, ser livre equivaleria a poder estabelecer contratos de maneira "não coercitiva", seja para vender a força de trabalho, seja para alugar o útero, seja para contrair matrimônio, seja para relacionar-se com o Estado por meio dos impostos ou para tomar empréstimos no banco. Diga-se de passagem, todas essas ações são, para os liberais, pensadas a partir de uma mesma lógica unidimensional.

Nesse contexto, "democracia" só pode significar "o regime que não interfere nos contratos firmados por pessoas livres". Quanto menos interferência estatal, mais liberdade; é o que diz o velho mantra. No entanto, foi esse mantra que levou o mundo a uma das piores crises do capitalismo. Por isso, sair da crise só será possível à condição de pararmos de nos deixar enfeitiçar por ele.

Se uma ideia ruiu nos últimos anos, foi exatamente a que vê, no livre-mercado, o modelo de uma sociedade civil livre. Deixado a si mesmo, o mercado é o regime que extorque contratos dos que não têm força social para afirmar sua liberdade, dos que não têm escolha real por estarem submetidos ao risco constante da precariedade e da vulnerabilidade. Por isso, o velho Hegel dizia que a sociedade civil nunca é suficientemente rica para acabar com a pobreza.

Tal extorsão mostra, nos dias de hoje, sua face mais clara quando vemos bancos e seus "experts" da grande imprensa mundial aterrorizarem populações com a ameaça do caos econômico, caso suas dívidas não sejam encampadas pelos Estados nacionais e transformadas em dívidas soberanas.

Ao aceitarem tal ameaça, os Estados destroem o sistema de segurança social que permitia um mínimo de liberdade à população diante da espoliação pelos economicamente mais fortes. Mas ao fazerem isso, eles destroem as verdadeiras bases da democracia.

Ou seja, a crise que o mundo vive hoje é a prova maior de que livre-mercado e democracia não andam necessariamente juntos, que há situações nas quais o primeiro pode destruir o segundo.

Com sua influência desproporcional, o sistema financeiro é, atualmente, a maior ameaça à democracia ocidental. Salvar tal sistema nos levará a uma nova forma de sociedade totalitária: a sociedade da precariedade generalizada.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
A filosofia moral, vez por outra, se vê confrontada com problemas mal formulados que gostariam de se passar por paradoxos astutos. Desmontá-los seria apenas um peculiar passatempo acadêmico, se eles não aparecessem periodicamente como premissas de raciocínios tortuosos na grande imprensa.

Tal astúcia constrói o que poderíamos chamar de "paradoxos morais de laboratório". Trata-se de pequenos paradoxos do tipo "podemos torturar alguém cuja confissão nos permitirá desativar uma bomba que matará dezenas de inocentes?", com todas as suas variantes possíveis.

Do ponto de vista da filosofia moral, não há exercício mais pueril do que procurar responder a tais inventivas. Pois elas pressupõem condições de laboratório, como "sei que o sujeito torturado sabe algo sobre a bomba", "sei que não há hipótese alguma de ter pego a pessoa errada", "sei que ele falará antes de morrer", "sei que a razão de sua ação é injustificável". Como ninguém mora em um laboratório, mas depende, no mais das vezes, da sabedoria da polícia ou desta "inteligência militar" na qual Groucho Marx viu a expressão mais bem-acabada de uma contradição em termos, tais condições nunca são completamente asseguradas.

Mas paradoxos dessa natureza têm como verdadeira finalidade fracionar a ação a fim de retirá-la de todo contexto possível. Boa maneira de não começarmos por perguntar como chegamos a essa situação.

Longe de ser uma enunciação neutra, essa é uma enunciação profundamente interessada. Ninguém coloca uma questão dessas de maneira inocente, como ninguém pergunta inocentemente se negros são, realmente, tão inteligentes quanto brancos ou se o Holocausto, de fato, existiu na dimensão normalmente descrita. Perguntar as reais motivações do enunciador é uma boa maneira de começar a desmontar o paradoxo.

Pode ser, porém, que o enunciador queira apenas insistir que, em situações excepcionais, a tortura aparece como o último recurso dotado de certa eficácia. De fato, se tortura fosse eficaz, as favelas brasileiras seriam um paraíso da paz. Melhor lembrar que a única eficácia realmente comprovada da tortura é sua força de corroer completamente o que restou das bases normativas do Estado. Pois se usamos a tortura contra o inimigo n° 1 da democracia, por que não usá-la contra o n° 2, o n° 3... o n° 54.327?

Ninguém pratica a tortura sem se transformar no verdadeiro inimigo da democracia. Por isso, seria o caso de perguntar: "Um Estado que recorre sistematicamente à tortura merece ser salvo? No que ele se transformou? Ele merece ser justificado diante de situações que, muitas vezes, ele próprio ajudou a criar?".
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Neste domingo, a Suíça aprovou, em plebiscito, uma lei contra "remunerações abusivas" de patrões e CEOs de grandes empresas.

A lei, aprovada por 67,9% dos eleitores, proíbe certas formas de remuneração, como os bônus e os incentivos comumente conhecidos como "paraquedas dourados". Tratam-se de complementos salariais que executivos recebem à ocasião de rescisão de contrato ou mesmo de contratações. Foi graças a eles que os executivos que quebraram boa parte dos grandes bancos mundiais foram para casa com os bolsos cheios de dinheiro.

A lei suíça obriga, ainda, que a duração do mandato de membros do conselho de administração de sociedades anônimas seja limitada a um ano, assim como obriga a que seus salários, com os salários dos membros da direção, sejam aprovados em assembleia geral de acionistas. Bônus que visam estimular executivos a comprar ou vender empresas também estão abolidos.

Ao ser aprovada, os analistas econômicos de sempre afirmaram que a lei seria um duro golpe à competitividade das empresas suíças, já que elas não teriam um importante instrumento de sedução de bons executivos. Esquecem tais analistas que, dentre alguns dos países com o maior nível de inovação estão Suécia, Dinamarca, Islândia e Finlândia. Países cuja diferença entre o menor e o maior salário em uma empresa não chega, muitas vezes, a um para quatro e cujo rendimento anual dos executivos está longe dos padrões obscenos que conhecemos no Brasil.

Na verdade, os suíços deram forma legal à consciência, cada vez mais presente em vários países, de que o Estado deve legislar sobre o salário máximo em vigor no mundo empresarial e financeiro. Maneira de controlar a fratura social, com suas consequências dramáticas para as populações. Pois uma casta de executivos com altos salários significa apenas consumo conspícuo inflacionando os preços do mercado e dinheiro indo em direção aos produtos do sistema financeiro.

No momento em que o Brasil acorda fazendo parte de um mundo de baixo crescimento, vale a pena lembrar como a luta contra a desigualdade econômica saiu, há muito, do horizonte das políticas de governo. Algo em torno de 94% dos empregos formais, criados nos últimos dez anos, têm remuneração de, no máximo, um salário mínimo e meio.

Aplicada ao Brasil, uma lei como essa aprovada pela Suíça levaria as empresas a se preocupar com a competitividade, dando salários decentes para seus funcionários, em vez de tentar utilizar a última teoria de administração da moda para justificar extorsões produzidas por seus executivos.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Em sua última coluna (, "Ilustrada"), Contardo Calligaris levantou uma série de objeções interessantes a respeito dos problemas indicados por mim e por Marcelo Coelho sobre sua maneira de insistir em certos paradoxos morais. Talvez esta seja a ocasião de levantar dois pontos que reflexões sobre filosofia moral não podem negligenciar.

Primeiro, a discussão sobre a eficácia de determinadas ações não pode sustentar-se na limitação artificial de suas consequências. Nesse sentido, falar em eficácia da tortura é tão racional quanto perguntar-se sobre a eficácia de um remédio contra dor de dentes, mas que infelizmente provoca ataque cardíaco.

Tomemos o exemplo das torturas (de eficácia duvidosa, diga-se de passagem) feitas para encontrar e matar Bin Laden. O que elas produziram? Notem que o verdadeiro objetivo nunca foi matar Bin Laden, mas transformar os EUA em um "lugar mais seguro". Nesse sentido, tais torturas apenas deixaram o verdadeiro objetivo ainda mais longe.

Antes, os cidadãos norte-americanos viviam em um país cujos governantes não temiam recorrer a torturas, execuções extrajudiciais, quebras de liberdades individuais e vazios jurídicos, quando entendiam que o país corria perigo, mas precisavam fazer isso em silêncio. Hoje, eles vivem em um país que não vê problema em declarar abertamente que faz tudo isso, como se esse fosse um mal menor diante do verdadeiro problema.

Assim, além da insegurança provocada pela Al Qaeda, agora os norte-americanos devem levar em conta a insegurança provocada pelo seu próprio governo, envolto em um estado de exceção permanente.

Segundo ponto: a enunciação de um "paradoxo moral" não pode negligenciar a experiência histórica a ele normalmente associado.

Durante décadas, "paradoxos" do tipo "você torturaria alguém com informações que poderão salvar a vida de seu filho" foram usados como a premissa maior de argumentos do gênero: "Da mesma forma que um pai deve proteger seu filho, governantes devem proteger seu povo; logo...".

Ignorar que a enunciação desse paradoxo porta uma experiência histórica dessa natureza não é moral. Esse é o problema de pensar questões morais de maneira abstrata, negligenciando a maneira com que certos enunciados circulam na história.

Diga-se de passagem, nunca entendi porque os interessados em paradoxos morais no Brasil raramente colocam problemas do tipo: "Alguém que certamente será torturado, provavelmente até a morte, bate à porta de sua casa pedindo ajuda. Caso aceite, você colocará em risco a tranquilidade de sua família. O que fazer?".
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
A morte de Hugo Chávez serviu, entre outras coisas, para mostrar quão maleável é o uso do conceito de "populismo" entre nós.

Normalmente utilizado como uma injúria, "populismo" deve ser inicialmente visto como a expressão do medo de alguns quando veem mobilizações populares nas ruas. Só assim pode-se explicar como vários de nossos livros de história descrevem o período entre 1945 e 1964, o primeiro momento de forte densidade popular na política brasileira, erroneamente como "República populista".

Fala-se muito da fragilidade institucional e da forte presença de lideranças carismáticas como características diferenciais do populismo. No entanto nenhum desses dois pontos devem ser vistos como excludentes em relação a um conceito substancial de democracia.

Primeiro, porque a democracia tem uma fragilidade institucional constitutiva, já que ela não ignora a plasticidade das formas e processos de governo. Acorrentar o futuro por meio de arranjos institucionais criados para referir-se a situações passadas, acostumando a sociedade a instituições e dinâmicas que funcionam mal, não tem relação alguma com a realização de uma sociedade democrática.

Segundo, uma questão importante a ser levantada, mas, entretanto, muito pouco pensada, consiste em perguntar pelo lugar da liderança no interior de uma sociedade democrática. Talvez estejamos muito marcados por um certo weberianismo que vê o carisma como a explosão do irracional no interior da política, sendo que ele é, muitas vezes, a condição para que identificações e investimentos libidinais se realizem.

A personalização de um processo histórico não é algo necessariamente ruim, como já dizia Hegel. Ao contrário, muitas vezes ela é a astúcia necessária para que tais processos ganhem força. Vários movimentos de transformação perdem força por não terem lideranças capazes de fornecer a imagem que leva a sociedade a atravessar seus medos. Ou seja, a democracia e sua inventividade política não exclui a função da liderança.

Mas a crítica do uso do conceito de populismo não implica, necessariamente, recusar toda sua força crítica. Há um uso restrito do conceito que talvez deva ser conservado, por retratar um risco de bloqueio em processos de transformação social. Ele se refere aos arranjos nos quais o poder converge para o fortalecimento de um polo altamente centralizado e personalizado, normalmente o Poder Executivo.

Quando isso ocorre, como foi o caso na Venezuela, a transferência do poder em direção a instâncias autônomas de democracia direta não se completa. No entanto nem nas democracias que conhecemos isso ainda ocorre.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Ao menos no quesito "exploração", o Brasil conseguiu chegar a patamares de Primeiro Mundo. Temos também entre nós a exploração sistemática de imigrantes ilegais postos em situação de trabalho escravo. Diga-se "sistemática" porque tudo indica que não se trata de situações isoladas produzidas por grupos empresariais gananciosos.

Na verdade, há setores inteiros da indústria brasileira que parecem funcionar de maneira criminosa.

Na semana passada, 28 trabalhadores bolivianos foram resgatados de condições análogas à escravidão em uma oficina da zona leste de São Paulo. Eles trabalhavam para a empresa GEP, formada pelas marcas Emme, Cori e Luigi Bertolli e pertencente ao mesmo grupo que representa a marca GAP no Brasil. Meses atrás, algo semelhante ocorreu com trabalhadores que produziam para a marca Zara.

Em todos esses casos, a reação é sempre a mesma: as empresas afirmam que nada sabiam sobre as reais condições dos trabalhadores que faziam seus produtos. A esse respeito, vale a pena dizer que esse "não saber" é bastante sintomático.

Tais empresas sabem tudo a respeito das condições de suas lojas, da maneira como a marca aparece nos letreiros, da qualidade e design de suas peças, dos gastos e dos resultados de seus múltiplos esforços de comunicação milimetricamente mensurados.

No entanto, vejam só vocês, elas nada sabem sobre quem faz seus produtos. Aparentemente, nunca foram nas oficinas a fim de pelo menos conhecer suas reais condições de trabalho. Há de perguntar de onde vem esse desejo de nada saber.

Talvez tal desejo seja uma bela forma de resolver uma contradição social. Pois, se no século 19, os donos das indústrias fabris eram obrigados a ver todos os dias seus operários doentes e moribundos, hoje tal cena, nem um pouco glamourosa, não sobressaltará seus corações.

Agora, ele pode apelar à "terceirização da exploração" e não ver nada. Assim, enquanto desfila suas roupas nas "fashion weeks" da cidade, prometendo aos consumidores acesso simbólico à modernidade, tais marcas podem remeter seus trabalhadores à noite brutal e silenciosa da exploração medieval. Tudo isso "sem saber".

Contra esse cinismo, um boicote aos seus produtos seria uma reação eficiente. Quem sabe, "hackear" seus sites com os dizeres: "Essa marca usa trabalho escravo". Assim, enquanto a legislação brasileira não eleva o trabalho escravo à condição de crime hediondo e inafiançável, empresários começariam a ter, pelo menos, alguma curiosidade em saber sobre como seus produtos são fabricados.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Os embates em torno da presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara talvez sejam o primeiro capítulo de um novo eixo na política brasileira.

A maneira aguerrida com que o deputado Marco Feliciano e seus correligionários ocupam espaço em uma comissão criada exatamente para nos defender de pessoas como eles mostra a importância que dão para a possibilidade de bloquear os debates a respeito da modernização dos costumes na sociedade brasileira. Pois, tal como seus congêneres norte-americanos, apoiados pelo mesmo círculo de igrejas pentecostais, eles apostam na transformação dos conflitos sobre costumes na pauta política central. Uma aposta assumida como missão.

Durante os últimos anos, o conservadorismo nacional organizou-se politicamente sob a égide do consórcio PSDB-DEM. Havia, no entanto, um problema de base. O eleitor tucano orgânico é alguém conservador na economia, conservador na política, mas que gosta de se ver como liberal nos costumes. Quando o consórcio tentou absorver a pauta do conservadorismo dos costumes (por meio das campanhas de José Serra), a quantidade de curtos-circuitos foi tão grande que o projeto foi abortado. Mesmo lideranças como FHC se mostraram desconfortáveis nesse cenário.

Porém ficava claro, desde então, que havia espaço para uma agremiação triplamente conservadora na política brasileira. Ela teria como alicerce os setores mais reacionários das igrejas, com suas bases populares, podendo se aliar aos interesses do agronegócio, contrariados pelo discurso ecológico das "elites liberais". Tal agremiação irá se formar, cedo ou tarde.

Nesse sentido, o conflito em torno dos direitos dos homossexuais deixou, há muito, de ser algo de interesse restrito. Ele se tornou a ponta de lança de uma profunda discussão a respeito do modelo de sociedade que queremos.

A luta dos homossexuais por respeito e reconhecimento institucional pleno é, atualmente, o setor mais avançado da defesa por uma sociedade radicalmente igualitária e livre da colonização teológica de suas estruturas sociais. Por isso, ela tem a capacidade de recolocar em cena as clivagens que sempre foram o motor dos embates políticos.

A história tem um peculiar jogo por meio do qual ela encarna os processos de transformação global em lutas que, aparentemente, visam apenas a defesa de interesses particulares.

Ao exigir respeito e reconhecimento, os homossexuais fazem mais do que defender seus interesses. Eles confrontam a sociedade com seu núcleo duro de desigualdade e exclusão. Por isso, sua luta pode ter um forte poder indutor de transformações globais.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"Não existe esse negócio de sociedade. Existem apenas homens e mulheres individuais, e há famílias." Foi com essa filosofia bizarra que Margaret Thatcher conseguiu transformar o Reino Unido em um dos mais brutais laboratórios do neoliberalismo.

Com uma visão que transformara em inimigo toda instituição de luta por direitos sociais globais, como sindicatos, Thatcher impôs a seu país uma política de desregulamentação do mercado de trabalho, de privatização e de sucateamento de serviços públicos, que seus seguidores ainda sonham em aplicar ao resto do mundo.

De nada adianta lembrar que o Reino Unido é, atualmente, um país com economia menor do que a da França e foi, durante um tempo, detentor de um PIB menor que o brasileiro. Muito menos lembrar que os pilares de sua política nunca foram questionados por seus sucessores, produzindo, ao final, um país sacudido por motins populares, parceiro dos piores delírios belicistas norte-americanos, com economia completamente financeirizada, trens privatizados que descarrilam e universidades com preços proibitivos.

Os defensores de Thatcher dirão que foi uma mulher "corajosa" e, como afirmou David Cameron, teria salvo o Reino Unido (Deus sabe exatamente do quê). É sempre bom lembrar, no entanto, que não é exatamente difícil mostrar coragem quando se escolhe como inimigo os setores mais vulneráveis da sociedade e quando "salvar" um país equivale, entre outras coisas, a fechar 165 minas.

Contudo, em um mundo que gostava de se ver como "pós-ideológico", Thatcher tinha, ao menos, o mérito de não esconder como sua ideologia moldava suas ações.

A mesma mulher que chamou Nelson Mandela de " terrorista" visitou Augusto Pinochet quando ele estava preso na Inglaterra, por ver no ditador chileno um "amigo" que estivera ao seu lado na Guerra das Malvinas e um defensor do "livre-mercado".

Depois do colapso do neoliberalismo em 2008, ninguém nunca ouviu uma simples autocrítica sua a respeito da crise que destroçou a economia de seu país, toda ela inspirada em ideias que ela colocou em circulação. O que não é estranho para alguém que, cinco anos depois de assumir o governo do Reino Unido, produziu o declínio da produção industrial, o fim de fato do salário mínimo, dois anos de recessão e o pior índice de desemprego da história britânica desde o fim da Segunda Guerra (11,9%, em abril de 1984). Nesse caso, também sem a mínima autocrítica.

Thatcher gostava de dizer que governar um país era como aplicar as regras do bom governo de sua "home". Bem, se alguém governasse minha casa dessa forma, não duraria muito.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Desde o início, as suspeitas em relação à possibilidade de bom funcionamento da Comissão da Verdade eram muitas. Número reduzido de membros, tempo escasso, foco amplo: esses eram apenas alguns dos problemas levantados por vários críticos. Hoje, parece claro que as críticas não estavam erradas.

Com sete membros, mas funcionando realmente com cinco, a comissão sente a falta de mais participantes. Um ano depois de sua instalação, amplos setores da sociedade civil ainda esperam o acesso às informações que poderiam fornecer uma história mais honesta dos atentados contra a humanidade e do governo criminoso instaurado no Brasil durante 20 anos.

A comissão mostrou, por exemplo, como a presença de empresários em locais de tortura era uma constante. Mas queremos uma visão clara de como funcionava o aparato civil-militar na ditadura. Quais foram as empresas que financiaram a Operação Bandeirantes, responsável por alguns dos crimes mais brutais da ditadura? Até onde foi a participação das empresas na formação do aparato repressivo?

Vimos também quão plausível é a possibilidade de presidentes como João Goulart e Juscelino Kubitschek terem sido assassinados pela Operação Condor. Seria a primeira vez na história do Brasil que descobriríamos governos que tramaram a morte de ex-presidentes. Mas qual foi a verdadeira participação do Brasil nessa internacional do terror? Como se deu a linha de comando?

Responder a tais questões tem razões muito claras. O Supremo Tribunal Federal tentou quebrar o trabalho da Justiça de transição no Brasil ao impedir que a Lei da Anistia deixasse de encobrir torturas, assassinatos, estupros e ocultação de cadáveres, perpetrados por agentes do Estado. O trabalho da Comissão da Verdade, no entanto, seria fundamental para os grupos de direitos humanos levarem o Brasil para as cortes internacionais, assim como para forçar o Estado brasileiro a fazer um verdadeiro dever de memória.

Nesse aspecto, é bom lembrar como a memória dos que lutaram contra a ditadura é cotidianamente insultada, enquanto o Estado permitir a existência de monumentos, logradouros, estradas e cidades que homenageiam ditadores e criminosos. É ainda pior quando livros de história para nossos alunos apresentam páginas a respeito da "revolução" de 1964.

A revelação constante de fatos pela Comissão da Verdade, em vez da proposta incompreensível de deixar tudo para um relatório final, seria importante por alimentar a mobilização e aumentar a pressão social contra a letargia do Estado brasileiro em respeitar sua própria história.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
No próximo dia 27, a Islândia elegerá seu próximo governo. Símbolo do sucesso de políticas heterodoxas no combate à crise financeira atual, a ilha escandinava ostentou um crescimento de quase 2% em 2012, com um desemprego de apenas 5,8%. Ela já vinha de um crescimento de 2,6% em 2011.

Sem desmontar seu sistema de assistência social mesmo nos momentos mais dramáticos da crise, a Islândia foi laboratório de políticas inimagináveis em outros países europeus.

Por exemplo, famílias cujo valor global de suas dívidas bancárias ultrapassavam o valor de 110% de seus imóveis tiveram tais dívidas perdoadas. Algo muito diferente de países como a Espanha, generosa em cenas de famílias sendo despejadas de suas casas para pagar empréstimos bancários.

Em um plebiscito histórico, a população recusou-se a transformar a dívida privada dos bancos em dívida soberana do Estado. Como os bancos islandeses foram generosos em empréstimos para ingleses e holandeses, uma decisão dessa natureza equivalia a uma declaração de guerra contra os governos dos dois países. Mesmo assim, há três meses, a corte da EFTA (The European Free Trade Association) deu ganho de causa aos islandeses afirmando que o Estado não tinha obrigação alguma de pagar a conta de seus bancos. O peso de tal dívida teria quebrado completamente a capacidade do Estado de reaquecer a economia.

Como se não bastasse, os islandeses compreenderam que a melhor resposta política contra a crise não era entregar o governo para tecnocratas, como vimos na Itália e na Grécia, mas reforçar mecanismos de democracia direta, transparência e controle popular. Assim, um processo de forte participação deu ensejo a uma nova Constituição, que garantia a posse estatal dos recursos do país e ampliava o controle da população sobre os governos.

No entanto, todas as pesquisas de opinião demonstram que a coalizão esquerdista no governo provavelmente perderá as eleições. Há de se perguntar a razão para tal aparente paradoxo. Paradoxo ainda maior se levarmos em conta que boa parte do descontentamento com o atual governo está em sua "excessiva contenção". Foi por isso, por exemplo, que a mais influente central sindical da Islândia (ASÍ) retirou seu apoio.

Mas o paradoxo se dissolve se lembrarmos que os islandeses perceberam que poderiam ir mais longe. Por exemplo, a decisão de colocar a negociação com os bancos em plebiscito foi uma decisão do presidente contra o Parlamento, comandado pelo governo. A partir deste momento, a batalha simbólica pela ousadia foi ganha pelo presidente. O Parlamento apareceu como "excessivamente contido". O mesmo Parlamento que agora irá embora.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
O atentado ocorrido em Boston no último dia 15 transformou-se, durante essas duas semanas, no evento mais discutido da imprensa mundial.

Não foram poucos aqueles que, rapidamente, clamaram aos céus pela nossa proteção diante da disseminação do chamado "terrorismo da terceira era da jihad". Pois, diferentemente do terrorismo operado por grupos guerrilheiros locais contra potências ocupantes (como os talebans contra o antigo Exército Vermelho no Afeganistão) ou por redes internacionais (como a Al Qaeda), estaríamos agora diante da proliferação potencial de ações sem unidade de comando, perpetradas por indivíduos fanatizados que se alimentariam, sobretudo, de material na internet e pequenas "viagens de estágio".

Dentro dessa narrativa, tanto ações como os atentados milimetricamente planejados da Al Qaeda em Madri, quanto a bomba caseira da maratona de Boston, seriam manifestações do mesmo fenômeno, que atenderia pela alcunha de "terror".

Tanto um quanto o outro justificariam a mobilização massiva dos afetos de medo e revolta pela imprensa, assim como a aplicação de um estado de emergência de fato, com direito a toque de recolher e discursos emocionados dos governos contra aqueles que "odeiam nossas formas de vida". Assim, abrem-se as portas para tratarmos todo indivíduo antissocial como uma organização terrorista em potencial.

É tal narrativa que nos explica por que os EUA se sentiram muito mais vulneráveis, exigindo mais ações diante de um atentado de baixa letalidade, do que diante de mais um de seus adolescente hiperarmados que aparecem todos os meses a descarregar suas metralhadoras em escolas ou universidades.

No entanto, temos o direito de nos perguntar se tal narrativa realmente se sustenta. Afinal, por que, por exemplo, não compreender o que aconteceu em Boston como mais um ato covarde e deplorável de delinquência que assola nossas grandes cidades mundiais? Por que tratá-lo como caso de alta segurança nacional, e não como um caso de polícia? Vincular tal ação ao islã, como querem vários, é tão sensato quanto vincular os massacres em escolas ao gosto que certos adolescentes assassinos tinham por Marilyn Manson ou Rammstein.

Esse tipo de violência, com seu ressentimento social paranoico, é de ordem completamente diferente daquelas ações terroristas animadas por grupos que procuram transformar a lassidão árabe contra a política ocidental em violência bruta.

Na verdade, criar o amálgama entre essas duas formas de violência é a melhor maneira de não encontrarmos as respostas concretas contra as verdadeiras causas de tal ressentimento.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Neste mês de maio, comemoram-se cem anos da estreia de "A Sagração da Primavera", de Igor Stravinsky. Este é um bom momento para se perguntar sobre o legado de um dos mais importantes compositores do século 20.

A primeira apresentação dessa obra instauradora, em Paris, com coreografia feita por Nijinsky, causou uma das mais célebres e violentas reações do público contra uma peça musical. Tal apresentação acabou por entrar para a história como a síntese maior do conflito que marcou a música a partir de então.

A reação agressiva de parte do público que ouviu Stravinsky prenunciou a forma com que a consciência, tão presente na Sagração, do esgotamento da capacidade expressiva da linguagem musical foi socialmente recebida. Uma reação que prenunciou a violenta recusa (que pode ir da agressividade à indiferença) com que, ainda hoje, boa parte da produção musical mais importante de nossa época é escutada.

Mas, como dizia Lacan, uma carta sempre chega a seus destinatários. Aqueles que reconheceram na obra de Stravinsky o anúncio de um horizonte de novas possibilidades acabaram por se impor atualmente como uma corrente hegemônica de produção musical. Haveria uma linha reta a traçar entre o compositor russo e alguns dos compositores contemporâneos mais prolíficos, como John Adams (com sua claramente stranviskiana "Son of Chamber Symphony", de 2007) e Thomas Adès.

Em todos esses casos, encontramos estratégias de composição levadas à maestria por Stravinsky, como o uso de elementos desgastados da linguagem musical enquanto modo de afirmação do esgotamento da capacidade construtiva da tonalidade, o recurso sistemático à ironia e à paródia (marca maior de sua fase neoclássica, como o balé "Pulcinella") e a transformação do desenvolvimento rítmico em parâmetro estruturador da forma musical, e não mais como um parâmetro secundário.

Mesmo que não seja Stravinsky aquele que pela primeira vez se serviu de tais estratégias (Mahler, por exemplo, já compunha com materiais desgastados e os quartetos de Haydn são plenos de ironias musicais), foi ele que as articulou dentro de um programa modernista de ruptura.

Foi graças à via inovadora de Stravinsky que nenhum musicólogo consciente falará em algo como o pós-modernismo em música. Seu modernismo já era a articulação de tudo o que posteriormente o pós-modernismo levantou contra os modernos. O que demonstra como uma reflexão mais atenta sobre a estética musical nos permitiria uma análise diferente de quem são, de fato, nossos contemporâneos e quando realmente começa a nossa época.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
A partir do final de maio, estará disponível a quinta e última versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). É de esperar que, a partir de agora, um importante debate a respeito da maneira com que as distinções entre normal e patológico foram modificadas chegue à opinião pública.

Utilizado de maneira cada vez mais extensiva como padrão de reflexão sobre a natureza do sofrimento psíquico, o DSM está longe de ter o fundamento científico e isento que ele gostaria de nos fazer acreditar. Influências de toda ordem entram em cena. Afinal, cada novo transtorno é promessa de novos investimentos bilionários da indústria farmacêutica, assim como garantia do aparecimento certo de verdadeiras epidemias visíveis do dia para a noite graças à divulgação maciça pela imprensa mundial e suas matérias de saúde.

Talvez isso explique ao menos um pouco essa verdadeira tendência de "patologização da vida cotidiana" levada a cabo pelo DSM-5, que elevou o número de patologias mentais a 450 categorias diagnósticas. Elas eram 265 no DSM-3, lançado em 1980, e 182 no DSM-2 (de 1968).

De fato, com modificações como as que diminui o luto patológico de dois meses para 15 dias ou que cria categorias bisonhas como o transtorno disruptivo de desregulação de humor, o vício comportamental (behavioral addiction) ou o transtorno generalizado de ansiedade, dificilmente alguém que passa por conflitos psíquicos e períodos de incerteza entrará em um consultório psiquiátrico sem um diagnóstico e uma receita médica.

Por trás desta estratégia clínica, com sua negação de perspectivas etiológicas, há a tentativa equivocada de transformar toda experiência de sofrimento em uma patologia a ser tratada. Mas uma vida na qual todo sofrimento é sintoma a ser extirpado é uma vida dependente de maneira compulsiva da voz segura do especialista, restrita a um padrão de normalidade que não é outra coisa que a internalização desesperada de uma normatividade disciplinar decidida em laborató- rio. Ou seja, uma vida cada vez mais enfraquecida e incapaz de lidar com conflitos, contradições e reconfigurações necessárias.

Há de se perguntar se tal enfraquecimento não será, ao final, o resultado social destas modificações no campo da saúde mental patrocinadas pelo DSM. Pois uma coisa é certa: há muito o que questionar na eficácia de tais sobrediagnósticos. Basta lembrar como houve, de 2000 a 2009, um aumento de 60% no consumo de antidepressivos nos países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico). Nada indica que a taxa de depressão tenha diminuído.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Os liberais gostam de criticar o Estado-providência por ver nele o paradigma de um funcionamento institucional da vida social que acomodaria os sujeitos a benefícios sem responsabilidades, desprovendo-os de capacidade de empreendedorismo e deixando-os sem coragem para assumir riscos. Tal como se fosse uma mãe superprotetora, tal Estado produziria apenas filhos letárgicos e sempre chorando por amparo.

É fato que há algo de verdadeiro nessa crítica ao caráter de "mãe má" próprio ao Estado-providência. Seu único problema é que ela erra de alvo quando procura identificar quem são, afinal, os filhos em questão. Vejam, por exemplo, o caso brasileiro. Na verdade, eis aí um verdadeiro Estado-providência, mas seus filhos são apenas certos setores da burguesia nacional e da sociedade civil associada ao governo. Há dois exemplos paradigmáticos ocorridos nas últimas semanas.

Durante os últimos anos, o governo investiu mais de R$ 1 bilhão na reforma do estádio do Maracanã. Obra feita a toque de caixa devido ao calendário da Copa do Mundo. Dias atrás, ficamos sabendo que um consórcio composto pela Odebrecht e pelo onipresente empresário Eike Batista ganhou o direito de administrar o estádio por (vejam só vocês) R$ 180 milhões pagáveis em 30 anos. Ou seja, só em reformas o Estado, principalmente via BNDES, gastou mais de R$ 1 bilhão para entregar a seus filhos, por menos de 20% do valor investido, um complexo esportivo com o qual nem mesmo o mais néscio dos administradores seria capaz de perder dinheiro.

Na mesma semana, descobrimos também que o governo paulista resolveu inventar um cartão que dá R$ 1.350,00 para viciados que queiram se internar em comunidades terapêuticas cadastradas. Nada de mais, à parte o Estado acabar por financiar comunidades terapêuticas privadas, normalmente vinculadas a igrejas e com abordagens "espirituais" de atendimento psicológico bastante questionáveis, enquanto sucateia vários Caps (Centro de Atenção Psicossocial) pelo Estado.

Assim caminha o paulatino abandono da capacidade governamental de formular políticas públicas em saúde mental. Mas pelo menos alguns de seus filhos, por coincidência com grande influência nos próximos embates eleitorais, serão amparados.

Diante da generalização de ações dessa natureza, há de perguntar se a crítica liberal clássica ao Estado-providência não é, no fundo, uma cortina de fumaça que visa esconder quem são os verdadeiros protegidos. O que demonstra como precisamos, na verdade, de uma crítica aos processos de privatização branca do Estado brasileiro. Privatização feita à base de negócios de mãe para filho.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Motivada por afirmações de membros da Comissão da Verdade referentes à necessidade de reinterpretação da Lei da Anistia, esta  abriu mais uma vez espaço importante para o debate a respeito do problema. Artigos assinados e editoriais apareceram nos últimos dias mostrando como esta é uma discussão da qual o Brasil não pode escapar.

Neste momento, a Comissão da Verdade começa a desmontar antigas mentiras veiculadas pelo regime militar, como assassinatos travestidos de suicídios e desaparecimentos ou aquela afirmação patética de que as ações de tortura não eram uma política de Estado decidida pela alta cúpula militar. Ela também colocou à luz a profunda relação entre empresariado e militares na elaboração e gestão do golpe.

No entanto, uma das maiores mentiras herdadas daquele período é a história de que existiu uma anistia resultante de ampla negociação com setores da sociedade civil e da oposição. Aquilo que chamamos de "Lei da Anistia" foi e continua sendo uma mera farsa.

Primeiro, não houve negociação alguma, mas pura e simples imposição das condições a partir das quais os militares esperavam se autoanistiar.

O governo de então recusou a proposta do MDB de anistia ampla, geral e irrestrita, enviando para o Congresso Nacional o seu próprio projeto, que andava na contramão daquilo que a sociedade civil organizada exigia.

Por não ter representatividade alguma, o projeto passou na votação do Congresso por míseros 206 votos contra 201, sendo todos os votos favoráveis vindos da antiga Arena. Ou seja, só em um mundo paralelo alguém pode chamar de "negociação" a um processo no qual o partido governista aprova um projeto sem acordo algum com a oposição. Há de se parar de ignorar compulsivamente a história brasileira.

Segundo, mesmo essa Lei da Anistia era clara a respeito de seus limites. No segundo parágrafo do seu primeiro artigo lê-se: "Excetuam-se dos benefícios da anistia os que foram condenados pela prática de crimes de terrorismo, de assalto, de sequestro e atentado pessoal". Por isso, a maioria dos presos políticos não foi solta em 1979, ano da promulgação da lei (por favor, leia a frase mais uma vez). Eles permaneceram na cadeia e só foram liberados por diminuição das penas.

Os únicos anistiados, contra a letra da lei que eles próprios aprovaram, foram os militares que praticaram terrorismo de Estado, sequestro, estupro, ocultação de cadáver e assassinato. A Lei da Anistia consegue, assim, a proeza de ser, ao mesmo tempo, ilegítima na sua origem e desrespeitada exatamente pelos que a impuseram.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Por erro de digitação, foi grafado "ouve" no lugar de "houve" no texto  (Colunistas - 28/05/2013 - 03h30), publicado na versão impressa e no site da . O texto foi corrigido.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Franklin Roosevelt, até segunda ordem, não era comunista. Na verdade, ao que tudo indica, o sr. Roosevelt foi presidente dos EUA de 1933 a 1945 sem que ninguém tenha encontrado indícios de que ele estaria envolvido em alguma forma de complô contra o capitalismo e seus grandes empreendedores. Esses mesmos empreendedores que fazem fortunas, como todos nós sabemos, graças exclusivamente ao trabalho árduo e dedicado.

Lembrar do sr. Roosevelt hoje é algo que faz bem. Pois eis aí um dos poucos homens que poderiam ter escrito um livro com o título: "Como salvei o capitalismo de sua pior crise". Tal livro, se existisse, seria uma leitura recomendável para diretores do FMI envolvidos em escândalos de todo tipo, altos executivos de bancos salvos pelo Estado (mas que gostam de ensinar receitas perfeitas de como vencer crises) e, por fim, presidentes de países que um dia foram vistos como promessas de desenvolvimento.

Nele, o velho Franklin poderia contar como, em 1935, passou uma lei de imposto progressivo que taxava os ricos de seu país em até 75% (o estrategicamente esquecido "Revenue Act").

Ele poderia ainda selecionar alguns de seus discursos, como um que foi pronunciado no Congresso americano em 1942, no qual afirmava que "nenhum cidadão deve ter um rendimento líquido, depois de pagar seus impostos, de mais de US$ 25 mil dólares anuais", o que daria atualmente algo em torno de US$ 350 mil.

Com essa política que hoje os grandes sábios da economia chamariam de demente, louca ou simplesmente "comunista", Franklin tirou seu povo da miséria, permitindo ao Estado oferecer serviços públicos básicos para seus cidadãos, fazendo com que eles tivessem mais tranquilidade para planejar seu futuro, assim como dinheiro para consumir e desenvolver seu empreendedorismo.

Mas, se fosse remetido ao Brasil atual, Franklin estaria coçando a cabeça para entender um dos maiores enigmas da humanidade. Petrificado, ele se perguntaria como é possível que, depois de 25 anos, uma lei constitucional que institui o imposto sobre grandes fortunas (artigo 153, inciso VII) simplesmente não foi regulamentada e, por isso, não foi implementada. Uma lei que não legisla: um verdadeiro paradoxo digno da mais astuta dialética.

Juntem, entretanto, dois lados de uma mesma equação: no momento em que a economia brasileira patina e os investimentos do empresariado nacional somem, o Brasil produz 23 novos milionários por dia, atingindo a marca de 155,5 mil milionários.

Agora, façam esta pergunta rooseveltiana: onde está o dinheiro?
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"Não é possível ter, ao mesmo tempo, 100% de segurança e 100% de privacidade com inconveniência zero."

Com essa frase, digna do cinismo mais patético, o presidente Barack Obama tentou justificar o fato de seu país ter se transformado em um verdadeiro ciber-Estado policial.

Graças à imprensa, descobrimos que o governo norte-americano usa o dinheiro dos contribuintes para espionar suas próprias vidas, por meio do monitoramento contínuo de ligações telefônicas e atividades na internet. Mas eles podem ficar tranquilo, pois, como disse Barack, "não vemos o conteúdo das ligações, só a duração e os números". Esta é a sua maneira de glosar o slogan preferido de Bill Clinton: "Fumei, mas não traguei".

Julian Assange, o mais conhecido preso político das ditas democracias liberais, já havia advertido: "A internet, nossa maior ferramenta de emancipação, está sendo transformada no mais perigoso facilitador do totalitaris- mo que já vimos".

Com a invenção do fantasma da ameaça terrorista permanente, os Estados democráticos encontraram, enfim, uma justificativa para agirem, de fato, como Estados totalitários, fazendo a Stasi [polícia secreta da antiga Alemanha Oriental], com suas técnicas grosseiras de vigilância, parecer uma brincadeira de criança.

Ninguém precisa grampear seu telefone ou colocar um espião na sua cola quando tudo o que você escreve alegremente no Facebook acaba, necessariamente, nas mãos de um iluminado da Agência de Segurança Nacional (NSA).

Eu mesmo tenho uma ideia: por que não colocar câmeras de observação nas televisões, em vez de só se focar nos telefones e na internet? George Orwell já demonstrou como essa técnica pode ser eficaz.

Mas a boa questão levantada pela frase de Obama é a seguinte: afinal, de onde veio a ideia demente de que precisamos de 100% de segurança?

Nunca nos livraremos de jovens desajustados que montam bombas caseiras ou fanáticos empunhando machadinha. Não há absolutamente nada que possamos fazer para evitar isso. Podemos minorar a letalidade dessas pessoas controlando a circulação de armas, e só.

O verdadeiro problema é termos chegado à situação de todo um país entrar em pânico quando se associa um crime comum à palavra "terrorismo". Pois, ao tentar realizar o sonho dos 100% de segurança, como se nossa utopia social fosse um paraíso de condomínio fechado, acabamos por acordar no pesadelo de um Estado que vira, ele sim, a fonte da pior das inseguranças.

A insegurança da submissão voluntária ao controle contínuo de alguém que reforça sua autoridade alimentando-se de nossos medos. A insegurança do fim da vida privada.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Há várias maneiras de esconder uma grande manifestação. Você pode fazer como a Rede Globo e esconder uma passeata a favor das Diretas-Já, afirmando que a população nas ruas está lá para, na verdade, comemorar o aniversário da cidade de São Paulo.

Mas você pode transformar manifestações em uma sucessão de belas fotos de jovens que querem simplesmente o "direito de se manifestar". Dessa forma, o caráter concreto e preciso de suas demandas será paulatinamente calado.

O que impressiona nas manifestações contra o aumento do preço das passagens de ônibus e contra a imposição de uma lógica que transforma um transporte público de péssima qualidade em terceiro gasto das famílias é sua precisão.

Como as cidades brasileiras transformaram-se em catástrofes urbanas, moldadas pela especulação imobiliária e pelas máfias de transportes, nada mais justo do que problematizar a ausência de uma política pública eficiente.

Mas, em uma cidade onde o metrô é alvo de acusações de corrupção que pararam até em tribunais suíços e onde a passagem de ônibus é uma das mais caras do mundo, manifestantes eram, até a semana passada, tratados ou como jovens com ideias delirantes ou como simples vândalos que mereciam uma Polícia Militar que age como manada enfurecida de porcos.
Vários deleitaram-se em ridicularizar a proposta de tarifa zero. No entanto, a ideia original não nasceu da cabeça de "grupelhos protorrevolucionários". Ela foi resultado de grupos de trabalho da própria Prefeitura de São Paulo, quando comandada pelo mesmo partido que agora está no poder.

Em uma ironia maior da história, o PT ouve das ruas a radicalidade de propostas que ele construiu, mas que não tem mais coragem de assumir.

A proposta original previa financiar subsídios ao transporte por meio do aumento progressivo do IPTU. Ela poderia ainda apelar a um imposto sobre o segundo carro das famílias, estimulando as classes média e alta a entrar no ônibus e a descongestionar as ruas.

Apenas nos EUA, ao menos 35 cidades, todas com mais de 200 mil habitantes, adotaram o transporte totalmente subsidiado. Da mesma forma, Hasselt, na Bélgica, e Tallinn, na Estônia. Mas, em vez de discussão concreta sobre o tema, a população de São Paulo só ouviu, até agora, ironias contra os manifestantes.

Ao menos, parece que ninguém defende mais uma concepção bisonha de democracia, que valia na semana passada e compreendia manifestações públicas como atentados contra o "direito de ir e vir". Segundo essa concepção, manifestações só no pico do Jaraguá. Contra ela, lembremos: democracia é barulho.

Quem gosta de silêncio prefere ditaduras.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Há de se admirar a ironia. Passamos décadas esperando por uma grande mobilização popular e, quando ela ocorre, alguns querem desqualificá-la por ver risco de guinada conservadora ou profusão de pautas genéricas.

Em vez de explorar as potencialidades das manifestações, alguns parecem mais preocupados em construir, o mais rápido possível, uma explicação para o fracasso que pretensamente virá. Mas política popular sempre foi conflito e embate em torno de significantes que circulam em gritos e gestos de recusa.

Há um exemplo ilustrativo nesse sentido. Um dos tópicos mais presentes nas manifestações é a rejeição aos partidos. Já faz anos que ouvimos manifestantes, em todas as partes do mundo, recusarem as mediações dos partidos em prol da invenção de mecanismos de democracia direta. São pessoas que adquiriram a consciência de sua força política e que não veem razão para transferir tal força para partidos profundamente hierárquicos e guiados pelo raciocínio tático. Elas têm razão.

Vimos, no entanto, uma profusão de análises insistindo em não haver democracia sem partidos e instituições fortes, que a recusa a partidos é necessariamente conservadora. Tais análises são simplesmente equivocadas.

Quem acredita nelas de- ve estar acometido de um "fetichismo da representação" que nos fixa na ideia da necessidade insuperável da representação política, isso em uma época na qual a participação popular pode ser fei- ta, cada vez mais, por meio da pulverização de mecanismos de decisão.

De fato, democracia pe- de modelos de organização, mas nada exige que tais organizações políticas sejam necessariamente partidos.

Mesmo se aceitarmos a necessidade da estrutura parlamentar, por que, por exemplo, um eleitor não poderia votar em um candidato independente ou em candidatos de movimentos sociais? De onde saiu a ideia de que partidos de- vem ter o monopólio da representação política? Nesse sentido, a rejeição aos partidos pode ser a base da reinvenção de uma política muito mais democrática.

Partidos tiveram sua importância em vários momentos da história brasileira e mundial. Por meio deles, demandas sociais ganharam força e pressão junto ao Estado. Esse tempo, porém, passou e não voltará mais.

O problema não é com a decadência dos principais par- tidos brasileiros e mundiais, mas com a forma-partido enquanto tal, que perde mui- to facilmente sua função de caixa de ressonância das insatisfações populares e de espaço de criatividade política. Se abandonarmos nossos medos, outras formas de organização virão.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Assim como o povo brasileiro, o povo da pequena Islândia um dia descobriu que estava em crise de representação. A crise econômica lhes havia mostrado a relação profundamente incestuosa entre classe política, imprensa e interesses econômicos do sistema financeiro.

Essa situação não seria superada por meio da troca dos partidos no comando, pois crises de representação exigem um movimento de outra natureza. Elas só podem ser realmente superadas quando saímos da própria esfera da representação, ou seja, quando fazemos apelo a uma força política bruta e instituinte fora do universo da representação.

Com essa consciência em mente, o povo islandês decidiu que era hora de ter outra Constituição. Mas, em vez de chamar juristas e políticos para preparar um esboço inicial do texto constitucional, eles fizeram algo mais ousado: mandaram, ao acaso, 950 cartas convocando 950 cidadãos a se reunirem em um estádio a fim de preparar as bases do que seria discutido na Assembleia Constituinte.

Essa incrível confiança no acaso, essa crença de que o acaso é o nome que desperta a potência da invenção democrática não foi a porta aberta para todos os delírios possíveis. Sua Constituição é uma das mais fantásticas peças da democracia contemporânea.

Há um tipo de pessoa incapaz de ter o único sentimento que realmente funda a democracia: confiança no povo. Para tais pessoas, toda vez que o povo é chamado à cena da instauração política, isso só pode significar convite ao caos e à desordem. O povo só pode aparecer dentro de um filme cujo cenário já está desenhado de antemão, seja para sorrir no dia da "festa eleitoral", seja para plebiscitar perguntas que a classe política previamente decidiu.

Nesse sentido, a única ideia sensata depois de semanas de ações paliativas para aplacar as manifestações populares foi a proposta de uma constituinte da reforma política capaz de colocar em questão todo o sistema atualmente em funcionamento. A ideia era tão sensata que foi abandonada em menos de 24 horas.

No seu lugar, ficou um plebiscito canhestro, em que a população será chamada a responder perguntas que ela não colocou. Ou alguém imagina que o povo brasileiro foi às ruas para decidir se as eleições teriam lista fechada ou aberta, voto distrital ou estadual? Há algo de piada de mau gosto nesse tipo de manobra.

Se alguém realmente ouvisse a população em nossos governos, a solução islandesa seria aplicada e as propostas de reforma política sairiam de fóruns de participação direta pela sábia mão do acaso. Isso, entretanto, seria pedir demais para quem, no fundo, tem medo das massas.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Um dos revisionismos mais evidentes da história brasileira diz respeito às leituras do levante que se iniciou em 9 de julho de 1932.

Faz parte do exercício da historiografia conservadora, em sua matriz paulista, vender a ideia de que uma típica revolta oligárquica teria sido uma revolução popular. Dessa maneira, somos obrigados, desde 1997, a comemorar as aspirações da elite paulista de outrora em retomar o controle do país.

Não se trata aqui de fazer a apologia do varguismo, o que seria um exercício míope e equivocado.

A ditadura instaurada por Getúlio Vargas a partir de 1937 foi um dos momentos mais sombrios da história brasileira. Querer vender, entretanto, a ideia de que os paulistas se revoltaram para fundar uma institucionalidade democrática e defender a legalidade constitucional é algo da ordem da piada malfeita.

Expulsa do poder por ser o eixo de uma República de fachada, assentada sobre os piores laivos autoritários e periodicamente sacudida por revoltas populares, a elite paulista procurou criar para si uma história de glória e resistência.

O descontentamento popular com os pilares da República oligárquica e com a sua política dos governadores era de ordem tal que governos como o do mineiro Arthur Bernardes somente foram possíveis sob estado de sítio permanente.

Outros, como o do presidente Washington Luís, governaram sob a Lei Celerada, de 1927, que censurava a imprensa e restringia o direito de reunião. Contudo, na defesa entusiasta do "espírito insubmisso de nosso povo", tal descontentamento desaparece.

O fato impressionante é como tal momento é usado atualmente por alguns que procuram recriar nossa história como se ela fosse a luta contínua contra o "perigo populista".

Estes que têm um cuidado especial para com o risco populista, sempre prontos a denunciar as pretensas derivas em direção às modalidades de "chavismo", são estranhamente complacentes com os fundamentos oligárquicos dos Poderes no Brasil e em nosso Estado de São Paulo. Talvez porque eles gostem mesmo é de uma República nos moldes da que existia no país até 1930.

Isso apenas demonstra como o escritor George Orwell estava certo ao lembrar que "quem controla o passado controla o futuro".

Os embates históricos têm a característica de nunca terminarem completamente, de ressoarem como matriz de compreensão das lutas presentes. Por isso, quando levarmos hoje nossas crianças para desfiles, seria bom nos perguntarmos o seguinte: o que estamos mesmo comemorando?

 escreve às terças-feiras nesta coluna.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Se procurarmos um ensaio geral para as manifestações de junho, deveríamos voltar os olhos para a Amazônia. Lá se encontra o megacanteiro de obras da usina de Jirau: uma das peças principais da política energética brasileira.

Em 15 de março de 2011, o Brasil viu uma das mais violentas manifestações do subproletariado contra suas condições degradantes de trabalho. Sem se sentirem representados por sindicatos e outros atores políticos tradicionais, os trabalhadores de Jirau, que descobriram como as condições de trabalho no novo Brasil continuam insuportáveis, atearam fogo em alojamentos e ônibus. Eles atearam fogo também na afirmação de que o subproletário brasileiro preza a ausência de radicalismo e a segurança.

Foi assim que começou o governo Dilma, ou seja, com um sinal de alerta gritante para a frustração da sociedade com os limites do desenvolvimento social brasileiro.

Depois de Jirau, veio uma sequência quase ininterrupta de greves: de policiais, bombeiros, professores, coveiros. Todos reclamando dos baixos salários, incapazes de dar conta dos gastos em um país onde somos obrigados a pagar por educação e saúde, onde não se pode contar com transporte público e onde o preço dos imóveis explodiu devido à especulação imobiliária. Um país onde o banco estatal de desenvolvimento (o BNDES) foi capaz de aplicar uma política de incentivo à formação de grandes "players" internacionais que acabou por oligopolizar ainda mais a economia.

Sendo assim, não é nem um pouco estranho que um dos eixos das manifestações de junho tenha sido a incapacidade de o Estado brasileiro parar o processo de corrosão dos salários e criar serviços públicos universais e de qualidade. Pois, se há algo que une tanto o subproletário quanto a classe média, é a consciência de que o processo de ascensão social produzido pelo lulismo esgotou. Ele só poderia continuar por meio da criação de um Estado capaz de oferecer serviços públicos que eliminassem os gastos das famílias com educação, transporte e saúde.

Para tanto, contudo, não há milagre. Como dizem os liberais, não há almoço de graça. O problema brasileiro é que, quanto mais rico você é, menos paga seu almoço. Para impedir que rentistas, herdeiros, empresários que recebem mapas da mina das mãos do pai privatista e outras figuras do bestiário nacional continuassem almoçando sem pagar, o governo deveria ter partido para uma reforma fiscal que obrigasse os ricos a fazer o que não fazem em nenhum país latino-americano: pagar impostos.

Mas, para isso, seria preciso outra ideia do que significa "garantir a governabilidade". Ela é necessária agora, quando não dá mais para esconder Jirau no meio da floresta.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"Eu não tenho nada para esconder. Por isso, pouco me importa que os EUA vejam meus e-mails, desde que isso nos permita vivermos em um mundo mais seguro."

Eu encontrei tal afirmação em um "post" no qual seu autor comentava uma notícia sobre o caso Edward Snowden. A primeira coisa que me veio à mente foi a lembrança de ter ouvido essa frase antes, mas em um contexto relativamente diferente.

Décadas atrás, um conhecido que estudava na antiga Alemanha Oriental, dissera: "Pouco me importa saber que a Stasi [polícia secreta da antiga Alemanha Oriental] me espione. Esse é o preço para defender o socialismo".

Ele só esquecera de per-guntar quanto valia um so- cialismo construído por meio da completa destruição da noção de espaço privado. Regime no qual os cidadãos alimentam a confiança infantil de que estão sendo escutados por alguém que perceberá quão bons e ordeiros eles são e que, por isso, merecem a proteção que os reis dedicavam aos bons súditos.

De fato, eu me perguntava se não havia algo de "amor ao agressor" e de necessidade neurótica de amparo nessa estranha tendência psicológica à servidão voluntária.

Hoje, quase 25 anos depois [da queda do Muro de Berlim], impressiona perceber quão parecidos são, em sua cegueira ideológica, essas duas pessoas que julgam defender mundos diferentes. É engraçado perceber como, no fundo, eles querem a mesma coisa: sacrificar, de uma vez por todas, a liberdade no altar de seus medos e obsessões.

Mesmo o filósofo Thomas Hobbes costumava dizer, à sua maneira: a soleira da minha porta é o limite do poder do Estado. O que pode significar que o Estado não entra, não legisla e nada diz sobre o que faço em meu espaço privado. Alguns dirão: "Salvo em situações excepcionais". O que explica por que governar, hoje, significa, em larga medida, perpetuar as ditas situações excepcionais a fim de o Estado poder legislar fora da lei.

Em um mundo onde até mesmo um louco assassinando alguém a machadinha transformou-se em um atentado terrorista, não é difícil imaginar como viveremos em um Estado de exceção permanente. O que me intriga é por que ainda chamar de "democracia" a uma situação assim.

Nesse sentido, devemos exigir do governo brasileiro, depois de descobrir que a privacidade de seus cidadãos foi violada sistematicamente por uma empresa que prestou serviços ao próprio governo brasileiro no período FHC, que forneça asilo a Snowden. Seu gesto foi eminentemente político. Talvez o gesto político por excelência em um momento como o nosso. Que pessoas como ele possam continuar a fazer gestos como o seu.

 escreve às terças-feiras nesta coluna.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Ao que tudo indica, a África do Sul, dentro de algum tempo, irá se confrontar com as obséquias de seu herói nacional, Nelson Mandela.

É certo que a reconciliação sul-africana está longe de ser uma operação completamente bem-sucedida. Embora uma classe média negra tenha aparecido e negros possam ser encontrados na direção de certas empresas, a desigualdade econômica entre raças ainda é gritante. Casamentos mistos continuam sendo extremamente raros.

A experiência sul-africana liderada por Mandela nos deixa, no entanto, uma questão que merece longa reflexão. O apartheid foi inventado por um povo, à sua maneira oprimido.

A colonização branca começou com os holandeses, na região onde hoje se encontra a Cidade do Cabo. A partir do início do século 19 e impulsionados pela luta pela posse dos recursos naturais sul-africanos, os britânicos se estabeleceram no país, começando um longo processo de conquistas que culminou na Guerra dos Bôeres, no final do mesmo século. Nesta guerra entre britânicos e principalmente holandeses (africâneres), apareceram os primeiros campos de concentração nos quais toda uma população foi alvo sistemático de encarceramento.

Foi esse povo oprimido pela pela experiência do domínio britânico e pelos campos que, logo após a Segunda Guerra Mundial, alimentado por um nacionalismo vivenciado como defesa contra a humilhação, proclamou a República da África do Sul, instaurando o regime do apartheid. Ou seja, a experiência da opressão não levou à alguma forma de consciência social do trauma da colonização. Ela levou à justificação do direito de defender seu povo, custe o que custar, usando o pior sistema ideológico possível.

Talvez tenha sido a consciência do ciclo interminável no qual a vítima de outrora, animada pelo ressentimento, se transforma no próximo agressor que levou Mandela a procurar a reconciliação que acabou por ser implementada. A África do Sul tinha tudo para entrar em uma verdadeira guerra civil, mas ao menos isto não ocorreu.

Essa reconciliação foi, entretanto, baseada em uma ideia fundamental: só é possível perdoar quem reconhece seu crime. A experiência social do perdão exigiu, em contrapartida, que os responsáveis por atos racistas pedissem perdão e confessassem seus crimes diante das vítimas ou de seus familiares.

Isso não significa que a justiça foi feita, mas implica, ao menos, que o solo mínimo da anistia é a culpabilização social de quem praticou crimes contra a humanidade. Por isso, quando Mandela morrer, o Brasil também merecerá parar e pensar.

 escreve às terças-feiras nesta coluna.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Um dos fatores mais importantes para o desenvolvimento das manifestações de junho foi a revolta da população contra a Polícia Militar. Foi depois de a PM ter fechado a avenida Paulista e demonstrado toda a sua covardia e brutalidade contra quem estivesse à sua frente que a população brasileira ocupou massivamente as ruas.

Já no ano passado, ficamos sabendo, graças a estudos do Ipea, que 62% da população não confiava na PM, enquanto 63,5% afirmava que tais policiais tratavam pessoas com preconceito. No entanto, governadores como os senhores Sérgio Cabral e Geraldo Alckmin continuavam a se vangloriar das barbáries cometidas por suas polícias, sem ao menos ter a dignidade de se perguntarem porque elas eram tão rejeitadas pelo povo.

Não passou pelas suas cabeças perguntar-se se há espaço para uma polícia militar em sociedades democráticas. Talvez haja uma razão para país democrático algum ter uma polícia militar ocupando as ruas. Nesses países, ela se restringe à segurança de áreas militares. Pois ninguém aceita uma força que procura, entre outras coisas, mediar conflitos internos à sociedade civil através da lógica militar da distinção amigo/inimigo, algo próprio a situações de guerra.

Quem é o inimigo quando estamos falando das tensões presentes nos combates da sociedade civil? Quem é o inimigo quando é questão de desapropriações de famílias miseráveis e jovens que ocupam as ruas para protestar contra a ausência de prioridade social dos governos?

Mas como se não bastasse um certo "problema de concepção" na estrutura de segurança interna brasileira, ainda somos obrigados a aceitar algo mais intolerável. No Brasil, não é evidente conseguir distinguir polícia e bandido, dado o comportamento criminoso de vários "agentes da ordem", como ficou mais uma vez evidente com o caso Amarildo. No entanto, nada disso parece tirar o sono de nossos governadores.

Mas é interessante perceber como, desta vez, algo diferente ocorreu. Há algumas semanas, Peter Pelbart lembrou, nesta , como um verdadeiro acontecimento exige compreender como pessoas se transformam. Ele lembrava uma frase inspirada de Deleuze, que reclamava daqueles que falam muito sobre revoluções, mas esquecem de tentar compreender o devir revolucionário das pessoas.

Pois desta vez a população mostrou sua indignação concreta diante do que parece ser mais uma manifestação da brutalidade criminosa da polícia contra as classes sociais mais vulneráveis. Esta solidariedade é nova e mostra como estamos diante de uma transformação real.

Nessa sociedade em transformação, não há mais lugar para a Polícia Militar.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"Se for confirmado cartel, o Estado é vítima." Esta é uma frase que o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, pode anexar ao seu compêndio.

Ela poderá vir na mesma página de outra que gosto muito, proferida à ocasião de mais uma ação espetacular de sua polícia: "Quem não reagiu, está vivo". As duas têm em comum a mesma capacidade de tentar, digamos, usar o óbvio para esconder o absurdo.

De que há um cartel comandando a construção do metrô de São Paulo não precisávamos esperar as últimas semanas para desconfiar. O caso Alstom roda nas cortes europeias há anos, com denúncias substantivas contra o governo paulista.

Notícias que davam conta de concorrências forjadas frequentaram as páginas dos jornais mais de uma vez. Devido a elas, o presidente da companhia estadual de metrô chegou a ser afastado pelo Ministério Público por suspeita de fraude em licitações, para em seguida ser reconduzido e, meses depois, pedir demissão.

Com uma lista dessas nas mãos, não era difícil juntar os pontos e perceber que havia indícios extremamente plausíveis de que o Metrô paulistano se tornara um celeiro de propinas para o partido que governa São Paulo há tanto tempo que a maioria até parou de contar.

Não são poucos os paulistas que esperam uma devassa capaz de explicar por que, afinal, o Metrô ultimamente aparece mais nas páginas policiais do que nas páginas dedicadas à inauguração de obras públicas.

De fato, o Estado é vítima em toda essa história, como bem lembrou o governador. Falta perguntar de quem. Pois, ao que tudo indica, o Estado é, neste caso, vítima de seu próprio governo.

É difícil acreditar que um cartel dessa monta passe décadas a operar no Estado sem que seu governo simplesmente não soubesse de nada. Claro que os membros do governos poderão dizer: "Eu não sabia". Já vimos esse filme antes, só que em outro canal.

De toda forma, temos diante de nós um belo instante para recuperar a luta contra a corrupção, para além do udenismo que a colonizou nos últimos tempos.

Até o momento, tentou-se atrelar a indignação popular ao raciocínio seletivo de quem acusa seus inimigos corruptos para proteger seus amigos igualmente corruptos.

Agora que a exigência de uma outra política aparece de maneira ampla, o fastio com a corrupção pode ser uma arma importante para a conscientização da necessidade de uma reinvenção democrática radical.

Neste modelo de democracia que temos, com suas relações incestuosas entre empresariado e classe política, todo inverno termina em um mar de lama.

 escreve às terças-feiras nesta coluna.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Um estudo publicado no "Journal of Clinical Psychology" afirma que em torno de 20% das mães terão um episódio depressivo nos primeiros três meses após o parto, sendo que 7,1% terão um episódio grave. Ou seja, uma em cada cinco mulheres passará por depressão ao tornar-se mãe.

Esse número extremamente alto deveria nos levar a perguntar sobre o tipo de fenômeno que tal sofrimento psíquico expressa. Talvez exista algo nesses episódios depressivos que diga muito a respeito não apenas de situações patológicas específicas, mas da experiência social da maternidade enquanto tal, principalmente em nossa época.

Ao menos desde sociólogos como Max Weber e Émile Durkheim, tendemos a nos ver como sujeitos de sociedades nas quais a autoridade tradicional, com seus modelos tipificados de comportamento e julgamento, sofre processo contínuo de erosão.

A radicalização desse movimento teria levado sujeitos a se sentirem em situações extremamente angustiantes quando precisam assumir papéis nos quais novos afetos aparecem. Como a transmissão tipificada de modelos é questionada, uma mulher não sabe se deve repetir o padrão de maternidade que encontrou em sua própria mãe, nem sabe até que ponto deve acreditar no discurso impessoal de especialistas.

Talvez, no entanto, tal questionamento sobre as normas a seguir seja vivenciado de maneira depressiva porque nosso imaginário social de maternidade não prepara as mulheres para situações nas quais ela descobrirá afetos contraditórios que a acompanharão para sempre. Situações em que ela precisará cuidar de uma criança cujo desejo ela nunca compreenderá completamente.

Em um contexto social submetido à tradição, você sabe o que deve fazer e age independentemente do seu sentimento do momento. Há um preço a pagar por isso, pois é permitido agir sem autenticidade. Mas, em um contexto de erosão das autoridades tradicionais, o discurso social dirá o seguinte (e isso pode ser tão violento quanto submeter-se à tradição): "Principalmente, siga seus sentimentos com autenticidade e você será uma mãe suficientemente boa".

Como somos cada vez menos preparados a lidar com sentimentos ambíguos e ambivalentes, a sensação depressiva de que nunca uma mulher será uma mãe suficientemente boa sobe à cena.

Nesse sentido, talvez não levaríamos tantas mães à depressão se entendêssemos como a exigência social de autenticidade pode se transformar em uma forma de submissão a uma imagem inatingível, que só terá por função desqualificar a maneira concreta como lidamos com o que não sabemos como lidar.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"Quando um amigo estilista se denomina artista, eu sempre lhe pergunto: 'Como assim? Você parou de desenhar vestidos?'." Essa é uma das frases de Karl Lagerfeld, que tem ao menos a virtude de possuir um cinismo capaz de se voltar contra os arroubos de sua própria profissão.

Seria bom que alguém no Ministério da Cultura tivesse lembrado dela antes de permitir que desfiles de modas fossem autorizados a captar R$ 2,8 milhões por meio da Lei Rouanet.

Claro que haverá sempre os que afirmarão que moda é cultura, já que é expressão da criatividade de um povo em sua produção simbólica. Mas, seguindo essa noção demasiado larga e pouco operacional de cultura, teríamos que colocar no mesmo conjunto a culinária, a publicidade e até mesmo o jornalismo.

Sendo assim, por que não usar as leis de incentivo cultural para financiar agências de publicidade, restaurantes glamourosos e jornais?

Se um desfile de moda pode, uma agência de publicidade formada por "criativos" teria o mesmo direito. No entanto, se for para assumir tal lógica, melhor seria transformar o Ministério da Cultura em uma "secretaria especial de produção de glamour e de gestão da economia criativa", ligada ao Ministério da Indústria e Comércio. Ao menos seria mais barato para o contribuinte.

Essa descoberta recente da possível natureza artística da moda nos leva a perguntar se não haveria um equívoco maior referente às políticas culturais aplicadas por uma certa esquerda.

Presa entre exigências genéricas de integração social e o fascínio pelo uso econômico do conceito de cultura, ela acabou por aprisionar os debates sobre cultura às planilhas de economistas que louvam a força do "imaterial" e ao bom coração das ONGs, com seus discursos de assistência social.

Há de perguntar se uma política cultural não estaria mais bem assistida se estivesse focada na multiplicação de equipamentos de formação para a cultura, assim como na defesa daquela produção artística que tem dificuldade em circular por não fazer parte dos circuitos da rentabilização financeira e da indústria do entretenimento.

Pois talvez seja a hora de perguntar, depois de tanto tempo, quantos conservatórios foram abertos, quantos polos de cinema foram criados, quantas escolas de artes visuais existem hoje em nossas periferias frutos de políticas federais.

O mais engraçado nisso tudo é que lembrar disso será considerado, por alguns, "elitista". Em minha época, "elitista" era financiar desfiles de moda em Paris com dinheiro público.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Diante da repercussão a respeito da decisão de permitir que estilistas financiassem desfiles de moda por meio da Lei Rouanet, o Ministério da Cultura procurou se defender.

Usando um raciocínio eminentemente estratégico, em que as palavras de ordem são a importância econômica da cultura e seu papel na ampliação do poder do Brasil no jogo internacional, o MinC acabou por demonstrar a rendição final da política cultural brasileira aos argumentos do mais crasso economicismo.

Primeiro, ninguém discute que, de uma certa forma, moda é cultura, assim como telenovelas, futebol e práticas sexuais. Todos são modos de produção simbólica de valores.

Uma definição, porém, tão genérica de cultura não tem função alguma para a construção de políticas focadas de Estado. Muito menos a alegada definição de que aquilo que colabora para a internacionalização do Brasil e a divulgação de sua simbologia deve ser financiado. Pelo argumento, a TV Globo pode pedir isenção fiscal para as suas próximas telenovelas.

Como não podia deixar de ser, é no campo da cultura que se vê, de forma mais brutal, a deposição de toda e qualquer aspiração crítica e contestadora de certa esquerda brasileira. Fala-se em "quebra de paradigma", mas o Ministério da Cultura apenas implementa o paradigma, cada vez mais hegemônico, de indistinção geral entre arte, entretenimento e mercadoria.

Afinal, há de chamar de "gato" um gato. Estilistas são, acima de tudo, comerciantes donos de loja que organizam sua produção a partir da sensibilidade às demandas de mercado e a exigências de máxima rentabilização de seu capital. Mas grupos de teatro não são empresas, escritores não são comerciantes e um quadro não é uma mercadoria, mesmo que tenha um preço.

As políticas culturais foram criadas exatamente para garantir autonomia para a produção artística contra sua colonização pela lógica mercantil, contra sua restrição à condição de mero entretenimento "cool", além de pensar formas de impedir a consolidação de práticas de dirigismo cultural.

Contudo, para que algo dessa natureza fosse possível, estruturas como a Lei Rouanet deveriam ser radicalmente modificadas. Um bilhão e duzentos mil reais foram perdidos pelo Estado para que empresas fizessem políticas de marketing às custas do erário, financiando, principalmente, musicais, Oktoberfest, festas gastronômicas, atividades da torcida do Palmeiras e, agora, desfiles de moda.

Pergunte, no entanto, quanto desse dinheiro foi direcionado à construção de conservatórios de música, bibliotecas ou em auxílio a saraus literários na periferia.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Amanhã fará 40 anos que o Chile passou por um dos mais brutais golpes de Estado da história recente. País historicamente avesso a intervenções militares, o Chile era, até 11 de setembro de 1973, um dos mais inovadores laboratórios de transformação social do Ocidente.

Salvador Allende liderou um governo que procurava, ao mesmo tempo, superar índices vergonhosos de desigualdade econômica, enquanto aprofundava mecanismos de democracia direta e de respeito às estruturas da democracia parlamentar. Seu caminho era uma via inovadora entre as sociedades burocráticas do Leste Europeu e as dos países capitalistas.

Na verdade, tal caminho encarnava o medo mais profundo de países como os EUA em plena Guerra Fria. Tratava-se do medo de uma experiência capaz de aproximar práticas socialistas de redistribuição de riquezas com uma democracia pluripartidária.

Por isso, Salvador Allende foi vítima de um conjunto de ações de sabotagem econômica e de criação de clima de instabilidade política que mereceriam levar Henry Kissinger, então secretário de Estado norte-americano e hoje saudado como grande diplomata, ao banco dos réus do Tribunal Penal Internacional. Tais ações encontram-se fartamente registradas em documentos norte-americanos que passaram, nos últimos anos, ao domínio público.

Mesmo sendo vítima dessa política covarde, os votos aos partidos da base de Allende cresceram nas eleições legislativas de 1973, o que redundou em aumento da participação parlamentar. Estava claro que a única saída para derrubá-lo seria o golpe.

Alguns gostam de relativizar o período Pinochet, apelando para a falácia de que, apesar da ditadura, foi um momento de crescimento econômico e riqueza. Eles procuram esconder que, entre 1950 e 1971, o PIB chileno cresceu, em média, 2% ao ano. Já entre 1972 e 1983, ele recuou (sim, recuou) 1,1%. Foi apenas nos últimos cinco anos, com o comando econômico de Hernán Büchi, que o governo Pinochet conseguiu recuperar-se parcialmente desse abismo.

Mesmo assim, em 1970, a relação entre o PIB por habitante do Chile e o dos EUA era de 35,1%. Em 1992, esse mesmo índice era de 33,6%. O mínimo que se pode dizer é que os liberais latino-americanos têm uma concepção bastante peculiar do que devemos entender por "sucesso".

Hoje, com os chilenos voltando a descobrir a força das ruas, que redundou em manifestações populares massivas por serviços públicos de qualidade, e prestes a despachar o impopular único governo direitista de sua história recente, pode-se dizer que a experiência de Allende não foi em vão.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Depois das grandes manifestações de junho, com sua revolta explosiva capaz de colocar em chamas o Palácio Itamaraty e levar mais de um milhão e meio de pessoas às ruas, tudo pode parecer calmo.

A dimensão reduzida das manifestações do Sete de Setembro parece corroborar tal visão, o que leva a classe política a passar ao ataque e procurar aprovar leis que restrinjam manifestantes que escondam o rosto, que puna com até oito anos de prisão degradação de patrimônio em contextos de revoltas políticas, entre outras pérolas.

Mesmo os debates políticos parecem, cada vez mais, restringirem-se à descrição da ciranda de acordos partidários a fim de viabilizar candidaturas.

No entanto a primeira lição a tirar de junho é a seguinte: a política brasileira transformou-se em algo profundamente instável. Nada nos garante que não estamos vendo apenas um momento de calmaria antes de uma nova tempestade. Note-se como, desde junho, este país viveu, de maneira praticamente ininterrupta, em um estado contínuo de manifestações de toda ordem.

A maioria delas é ligada a pautas como desmilitarização da polícia, melhores condições para professores, indignação contra a corrupção no Metrô de São Paulo, entre tantas outras. Isso é um sintoma importante de uma inquietude na política brasileira, que talvez não passará até que novos atores políticos se constituam.

Por um momento, parecia que certas instituições brasileiras tinham sentido o golpe. O Congresso Nacional votou leis que estavam engavetadas há anos, a Polícia Militar sentiu-se acuada em sua barbárie, os partidos prometeram ouvir mais os setores que exigiam mudanças estruturais. Tudo isso durou um instante. Logo em seguida, tais instituições demonstraram seu caráter radicalmente irredutível em relação a reformas e voltaram a operar como sempre operaram.

Esse é um modelo de lógica de avestruz que apenas acelera o desabamento. Nada mais equivocado do que confiar em uma calmaria aparente.

Quando uma sociedade acorda, ela não volta a dormir completamente. Na verdade, sua elaboração passa a um estado de latência.

Em latência, ela vai aos poucos se desacostumando de suas antigas formas, até que chega o momento em que provocar mudanças equivale a chutar uma porta podre.

Muitas das transformações fundamentais ocorrem assim, ou seja, o trabalho mais importante foi feito em silêncio aparente.

Como dizia T. S. Eliot, essa é a forma com que o mundo termina: não com um estrondo, mas com um lamento silencioso.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Na última quarta-feira, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu dar continuidade ao procedimento jurídico do chamado "mensalão", abrindo as portas para a revisão das sentenças de vários condenados.

A reação popular a isso foi mínima, o que parece demonstrar um descolamento entre o interesse popular e os desdobramentos do julgamento. Há de perguntar a razão.

Talvez fosse o caso aqui de lembrar que o resultado do julgamento foi inicialmente saudado como capaz de elevar o patamar jurídico de luta contra a corrupção. Alguns acreditaram que, a partir dele, abria-se uma jurisprudência capaz de facilitar a criminalização de práticas cotidianas de assalto ao bem público. No entanto nada disso aconteceu.

Depois de julgada a fatia do escândalo envolvendo membros do governo e do Partido dos Trabalhadores (PT), era de esperar que a nossa suprema corte se voltasse com sede de justiça à outra ponta do problema, envolvendo os membros do PSDB e seus consorciados. Esta seria uma bela maneira de mostrar que os juízes não estavam agindo motivados pela mera felicidade de se transformarem em celebridades midiáticas, mas por um desejo imparcial e apartidário de justiça.

Ao que parece, eis aí um ledo engano. Senão como explicar a lentidão inacreditável e a peculiar discrição que marcam o julgamento do outro lado do escândalo (alguém realmente lembra dele)?

Essa parcialidade matou tudo o que o julgamento poderia representar. Assim, do ponto de vista de sua potência política, ele perdeu completamente seu interesse.

Na verdade, quem mais ganharia com um desfecho completo do problema do mensalão seria uma esquerda brasileira renovada. Pois ela conseguiria se livrar da chantagem dos que procuraram transformar toda tentativa de julgar os erros e a corrupção de certos grupos governistas em luta ideológica.

Ela também poderia ver selado o reconhecimento de que os dois maiores consórcios de poder dos últimos 20 anos tinham se afundado nas mesmas práticas, o que colocaria de maneira mais evidente a necessidade urgente de rever os impasses reais que corroem a carcomida política brasileira. Entretanto, mais uma vez, nada disso aconteceu.

Que ao menos fique a lição de que nenhuma nova invenção democrática neste país será possível sem um processo amplo, geral e irrestrito de combate à corrupção, no qual o último mensaleiro petista será, enfim, enforcado nas tripas do último mensaleiro tucano.

 escreve às terças-feiras nesta coluna.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Há alguns meses, as livrarias, enfim, receberam a última versão do "Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5)".

Ainda sem tradução em português, o "Manual" foi objeto de críticas virulentas vindas até mesmo de psiquiatras que trabalharam em versões anteriores dele, como Allen Frances. As acusações giravam em torno da verdadeira "psiquiatrização da vida cotidiana" que a profusão de categorias clínicas produzidas pela nova versão do "Manual" parece acarretar.

Longe de ser uma discussão que interessa apenas profissionais da área de saúde mental, a querela em torno do DSM-5 é uma questão social da mais alta importância, pois define como valores sociais travestidos de normalidade médica são naturalizados. Ela não pode ser esquecida.

Tomemos, a título de ilustração, um exemplo. Quem abrir a página 667 da versão inglesa do DSM-5 encontrará o peculiar "transtorno de personalidade histriônica".

Seus oito critérios diagnósticos, que definem se alguém tem ou não o referido transtorno, comportam as seguintes pérolas: sente-se desconfortável em situações nas quais não é o centro das atenções; tem comportamento inapropriadamente provocativo e sedutor; usa constantemente a aparência para chamar a atenção; é sugestionável; tem um estilo de fala excessivamente impressionista; tem expressões exageradas de sentimentos e considera as relações mais íntimas do que realmente são.

Talvez você pergunte se, afinal de contas, esses são critérios clínicos de definição de transtornos ou simplesmente critérios morais sobre comportamento, que ten- tam esconder sua verdadeira natureza.

Afinal, qual o marcador para definir "estilo de fala impressionista", "expressões exageradas de sentimentos", a não ser o que o assentimento social e seu psiquiatra entendem como tal? Mas, se este for o caso, não estaria o psiquiatra a dar lugar à figura do bom e velho educador?

De fato, não é difícil perceber como, nesses "critérios diagnósticos", encontram-se todos os clichês crassos sobre o comportamento feminino que assombravam a antiga categoria clínica de "histeria", com sua "feminilidade teatralizada": a verdadeira base para o dito transtorno de personalidade histriônica.

Alguém poderia imaginar que tais "personagens morais" a habitar o mais avançado tratado de psiquiatria, resultado de anos de trabalho árduo e caro, não são simples desvios de rota a serem expurgados nos próximos anos, mas sintomas que mostram a verdade de todo o projeto.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Na última semana, a Universidade de São Paulo foi objeto de várias notícias, desde sua queda brusca em um ranking internacional de avaliação até a invasão da reitoria por alunos. Diante dessas situações, nosso reitor achou por bem estabelecer um amálgama perguntando, em entrevista concedida a esta : "Há alguma universidade muito bem classificada nos rankings mundiais em que aconteçam tomadas violentas de espaço, como as que voltaram a ocorrer na USP? Obviamente que não".

Sim, ele tem razão. Por isso, nunca entendi por que nossos reitores costumam chamar policiais militares munidos de metralhadora e bomba de gás lacrimogêneo para mediar conflito com estudantes. Também sempre me perguntei se não seria terrível para nossa reputação ter imagens nos jornais internacionais de policiais dispersando manifestações estudantis com balas de borracha.

Creio que a reputação ficaria ainda pior se alguém se perguntasse por que os estudantes se manifestam periodicamente: por uma estrutura acadêmica mais democrática. Pois há uma relação entre democracia e qualidade acadêmica.

Uma instituição mais democrática ouve sistematicamente seus professores e alunos, permitindo que as decisões fiquem mais próximas das reais necessidades de pesquisa e ensino. A luta por democracia na universidade não é estratégia para criar uma instituição mais corporativa, como alguns gostam de acreditar. É defesa de uma instituição mais racional em suas decisões e mais representativa das condições de trabalho que permitam o desenvolvimento de seus corpos docente e discente.

Por exemplo, na sacrossanta questão da internacionalização da USP, há prioridades que mereceriam um debate com nossos pesquisadores. A universidade gasta prioritariamente na concessão de bolsas para alunos de graduação, além de ter dispensado grande energia na abertura de escritórios em Londres, Boston e Cingapura, que ainda não demonstraram sua real função.

Não são poucos os pesquisadores que acham mais racional compreender que a USP chamará alunos estrangeiros quando suas pesquisas e pesquisadores forem melhor conhecidos em outros países. Isso exigiria priorizar não a graduação, mas a pós-graduação, pois é lá que está a pesquisa. Por outro lado, se a citação de artigos é uma questão que pesa de maneira decisiva nos rankings internacionais, melhor seria priorizar linhas de financiamento para a tradução de artigos acadêmicos de nossos professores, como várias universidades não anglófonas fizeram.

Em uma instituição mais democrática, a decisão sobre questões dessa natureza seria tomada por quem realmente trabalha e vivencia o "chão de fábrica" da academia.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Há algumas semanas, completaram-se dez anos da morte de Edward Said [em 25 de setembro]. Um dos críticos literários mais originais de sua geração, Said foi um dos poucos autores das últimas décadas capazes não apenas de discutir, ao mesmo tempo e com rigor, arte e questões políticas contemporâneas. Ele era um dos poucos a pensar esteticamente a política, ou seja, compreender como a experiência estética era capaz de induzir novas sensibilidades no campo do político.

Por exemplo, seu último livro, "Estilo Tardio", fornece uma leitura original a respeito de um conceito estético desenvolvido por Theodor Adorno para descrever as últimas obras de Beethoven. Em um texto de juventude, Adorno expunha a linguagem musical das últimas sonatas e quartetos de Beethoven como uma experiência limite na qual princípios de organização e de unidade estilística até então respeitados eram radicalmente questionados.

Assim, o estilo tardio não aparecia como um gesto de maturação da linguagem em sua força de ordenação, mas como um flerte com o que poderia desagregá-la. Flerte que era a verdadeira prova de maturidade, pois só as obras realmente seguras podem trazer para dentro de si o que parece negá-las, transformando tal convivência com a heterogeneidade em potência criadora.

Porém havia mais do que reflexão sobre arte nessa discussão. Um pouco antes da publicação de seu último livro, Said proferira uma impressionante palestra sobre "Moisés e o Monoteísmo", texto no qual Freud elabora uma teoria a respeito da filiação e da fundação da nacionalidade. Intitulada "Freud e os não europeus", ela explora o sentido político da ideia do psicanalista a respeito de Moisés.

Said centra-se no fato de não haver para Freud apenas um Moisés, mas dois. O primeiro seria egípcio, assassinado pelo próprio povo judeu em momento de desespero e cujo lugar seria posteriormente ocupado por outro Moisés, um midianita. Nessa figura do duplo Moisés, no qual o esquecimento do primeiro volta como sintoma a assombrar os vivos, Said encontrara a saga de uma identidade nacional que traz em seu bojo um corpo não idêntico, que porta as marcas indeléveis do heterogêneo. Como se, na origem, houvesse sempre algo a desestabilizar a ordem que apela à identidade originária.

Assim, o texto de Sigmund Freud aparece como o fundamento de uma política pós-identitária, ou como a versão política da ordem do estilo tardio. Política que muitos veem como atualmente impossível. Talvez porque eles nunca deixaram que sua sensibilidade fosse transformada pela nossa experiência estética mais corajosa.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Passeatas de professores que acabam em depredações e batalhas campais, invasões de institutos que fazem pesquisas com animais, manifestantes que ateiam fogo no Palácio Itamaraty. Ao perguntarmos sobre o que pode significar a constância, cada vez maior na política brasileira, de fenômenos violentos como esses, duas grandes explicações são fornecidas.

A mais clássica gostaria de nos levar a acreditar que estaríamos diante de simples atos de vandalismo, normalmente feitos por jovens protodelinquentes inebriados por seus delírios narcísicos de onipotência e infiltrados em meio a manifestantes de boa vontade.

A segunda é o mero resultado da inversão de sinais, fornecendo-nos uma visão romanceada daqueles que responderiam à violência policial com uma violência legítima. Melhor seria se procurássemos analisar tal violência como um profundo sintoma social da vida política nacional contemporânea.

O psicanalista Jacques Lacan gostava de lembrar como aquilo que é expulso do universo simbólico sempre retorna no real. Quando não é possível simbolizar uma experiência ou um desejo, ele retorna como uma reação bruta, que acaba por expressar como o próprio universo simbólico se encontra bloqueado.

Já há algum tempo, a política brasileira tem expulsado muita coisa de seu interior. Tendendo, cada vez mais, a se limitar a discussões gerenciais sobre modelos relativamente consensuais de gestão socioeconômica (vide o debate recente sobre o dito "tripé econômico", do qual ninguém parece discordar), ela perde a possibilidade de mobilizar populações por meio de alternativas não testadas e que ainda contenham um forte potencial criativo. Assim, ela perde também a capacidade de acolher demandas que, mesmo sendo urgentes, sempre colidem com boas justificativas tecnicistas para serem deixadas para mais tarde.

A política brasileira tem se transformado, com isso, na arte do silêncio. Arte de passar em silêncio sobre democracia direta, como pagar dignamente professores, como implementar uma consciência ecológica radical, como quebrar a oligopolização da economia, como taxar mais os ricos e dar mais serviços aos pobres. Mas também a arte de tentar silenciar descontentes.

Nesse contexto de mutismo, a violência aparece como a primeira revolta contra a impotência política. A história está cheia de exemplos nos quais as populações preferem a violência genérica à impotência. Ainda mais quando se confrontam com uma brutalidade policial como a nossa. Como todo sintoma, há algo que essa violência nos diz. A resposta a ela não será policial, mas política.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Até agora, Dilma Rousseff deveria agradecer a Deus pelos concorrentes que se apresentam à Presidência da República. Para eles, as manifestações de junho, em larga medida, não existiram. Continuam construindo discursos e estabelecendo prioridades como se estivéssemos na década de 90, com seus arroubos liberais. Dessa forma, Dilma aparece como a candidatura mais à esquerda no páreo.

Quando a população foi às ruas em junho, ouvimos um conjunto de exigências que acabaram por se destacar. Certamente, ninguém saiu gritando slogans em defesa do sacrossanto tripé econômico: câmbio flutuante, superavit primário e meta inflacionária. Na verdade, o povo falou, com força, que queria priorizar um outro tripé, a saber, o social: transporte público de qualidade, educação pública "padrão Fifa" e saúde pública sem subfinanciamento.

Nesse sentido, não é por acaso que as mais recentes manifestações giram em torno do sucateamento da profissão de professor em escolas públicas.

O governo esboçou uma reação mínima ao requentar duas propostas que já circulavam: o programa Mais Médicos e a vinculação da renda do pré-sal à educação e à saúde. Em si, as propostas eram boas e mereciam ser implementadas, mesmo que a segunda não passasse de promessas em cima de lucros potenciais, que demorarão anos para entrar nos cofres da União. Uma estranha maneira de responder à urgência das ruas com promessas de longo prazo.

No entanto não se ouviu praticamente nada dos outros candidatos até agora no páreo.

Nenhuma proposta minimamente ousada sobre o fortalecimento dos serviços públicos e as modalidades de capitalização do Estado para tanto. Todos eles preferiram seguir o mesmo figurino e centrar seus discursos em tópicos como a diminuição do pretenso estatismo do governo, a reiteração do eterno mantra dos impostos altos e a criação de melhor ambiente para investimentos estrangeiros. Os mesmos que já apareceram em outras eleições e foram derrotados.

Era de esperar que alguém lembrasse, ao menos, dos nossos absurdos nacionais, como a ausência de uma fiscalidade que sirva de base de combate à desigualdade econômica e a inacreditável oligopolização de nossa economia atual.

Mesmo a respeito da reinvenção de uma democracia com forte densidade popular e menos mediações institucionais, outro tópico claramente posto pelas manifestações, não se ouviu, até agora, nenhuma proposta concreta. Dessa forma, cria-se um verdadeiro vazio político, que beneficia indiretamente quem está no governo.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Pode um governo ter informações sigilosas de seus cidadãos? Essa pergunta deveria estar atualmente no centro dos debates, pois 2013 será lembrado como o ano em que descobrimos o fim inelutável da privacidade. Não houve fato mundial mais paradigmático em 2013 do que as revelações a respeito da extensão cinematográfica do sistema de espionagem norte-americano.

A privacidade foi, entre outras coisas, uma invenção política ligada à defesa da autonomia dos sujeitos em relação ao poder governamental. Mas, como diz o governo norte-americano, "Todo mundo espiona". O que vimos, no entanto, não foi "espionagem" como a conhecemos, ou seja, essa procura de informações estratégicas sobre a vida política e econômica por meio do monitoramento das atividades de políticos, empresários e congêneres.

O que Edward Snowden nos fez ver, e isso fica cada vez mais claro com o passar dos dias e das descobertas, está para além da espionagem. O ato de monitorar toda e qualquer pessoa em toda e qualquer circunstância é, na verdade, um novo paradigma de governo.

Para controlar pessoas, não preciso estar atento a todos os seus movimentos. Necessito apenas que elas acreditem que, a qualquer momento, posso entrar em seu espaço privado, abrir a porta de seu quarto e quebrar todos os cadeados. Posso armazenar 70 milhões de telefonemas em um mês e nunca saber o que fazer com tudo isso. Não importa. O que importa é você saber que seu telefonema pode, Deus sabe lá por que, acabar no espaço público.

No fundo, isso mostra como a caça ao terrorismo sempre foi um pretexto fraco e uma manobra diversionista. Na verdade, o terrorista é você. O verdadeiro alvo era controlar você, dissolver os discursos que ainda faziam da privacidade uma defesa e fazer você sentir a desproporção brutal entre seu poder e o poder da plutocracia que tomou de assalto boa parte dos governos ocidentais.

Como mostrou a França quando criou um grande banco de dados de segurança nacional chamado Hadopi, começa-se fichando pretensos terroristas e termina-se fichando sindicalistas, manifestantes, jornalistas e ativistas.

Nesse sentido, a melhor defesa é proibir que governos tenham direito a armazenar informações sigilosas de seus cidadãos. Todos os cidadãos devem ter o direito a ter acesso a todas as informações armazenadas sobre eles que estejam em posse dos governos.

As dificuldades produzidas em processos jurídicos por uma ideia dessa natureza são infinitamente menores que a corrosão --produzida pela transformação das vidas privadas em espaços de extrema vulnerabilidade-- do pouco que tínhamos de democracia.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Principal equipamento cultural da cidade de São Paulo, o Theatro Municipal é, há alguns meses, objeto de polêmica. As razões são estas: denúncias de corrupção e propostas de modificações em seus corpos artísticos estáveis.

Como maior patrimônio cultural da metrópole, palco de alguns dos mais importantes momentos da cultura brasileira, o destino do Municipal é algo que não interessa apenas a artistas e músicos, mas a todos os cidadãos.

Nos últimos meses da gestão passada, o sr. Gilberto Kassab resolveu aprovar a criação de uma fundação que seria responsável pela gestão não apenas do Municipal, com suas orquestras, seus corais, seu corpo de baile e seu quarteto de cordas, mas também de escolas como o Conservatório Municipal e a Escola de Dança. Todo o processo foi obscuro, sem participação da sociedade e discussão aprofundada.

Durante anos, boa parte dos músicos e professores viveram em regime inacreditável de precarização, com contratos de apenas três meses, periodicamente renovados. Obras como a da Praça das Artes chegaram a ter o fosso dos elevadores inundado após apenas alguns meses de sua entrega. Tudo isso demonstra a maneira inadequada com que as questões referentes a um dos corações da produção cultural da cidade foram cuidadas.

Nesse momento, denúncias de corrupção contra o Coral Paulistano aparecem. Elas merecem ser tratadas da maneira mais dura possível. Há, no entanto, uma sobreposição de problemas em que tais denúncias parecem colonizar os debates a respeito do destino tanto do coral quanto da Orquestra Experimental de Repertório (OER). Certamente, não é bom que isso ocorra.

O Municipal tem agora o projeto de se transformar em uma casa lírica de referência. Tal projeto só pode ser bem-vindo, já que, de fato, a cidade de São Paulo se ressente de tal ausência. Mas isso não implica, necessariamente, desconhecer a natureza historicamente multifuncional de um espaço com vários corpos estáveis.

Corpos como o Coral Paulistano e a OER desempenham funções de extrema importância, como produzir encomendas para compositores nacionais, apresentar repertório contemporâneo desconhecido do grande público e fazer pesquisas sobre música brasileira. Sucateá-los ou fundi-los não parece a melhor solução.

Um dos principais pontos do programa de cultura da atual gestão era a "democratização do Theatro Municipal". Isso significava que as decisões relativas ao Municipal seriam tomadas levando-se em conta todos os atores envolvidos em suas atividades. Esse é o melhor momento para mostrar que tais palavras não são letra morta.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Há alguns dias, uma revista francesa publicou na sua capa uma foto da ministra da Justiça da França, a negra Christiane Taubira, comparando-a a uma macaca à procura de banana.

Ela já havia sido comparada ao nosso parente distante por uma criança em uma manifestação anticasamento homossexual, sem que ninguém esboçasse uma reação indignada. A maior indignação partiu, vejam só vocês, da revista em questão, que inverteu o jogo alegando que tudo era apenas uma piada e que não suportava a "ditadura do politicamente correto".

É interessante perceber como, atualmente, todos os que são pegos em franco delito de racismo e preconceito (contra imigrantes, ciganos, árabes, negros, índios, homossexuais, ecologistas, feministas) alegam, na verdade, serem perseguidos pela implacável polícia do politicamente correto. Estamos diante de uma legião de humoristas incompreendidos a lutar contra burocratas da língua que procuram impor à sociedade um discurso asséptico e uma maneira de ser.

Afinal, que época é esta em que não se pode mais chamar uma negra de macaca, ou dizer, com uma ironia calculada, que mulher gosta é de apanhar? Será que todos perderam seu senso de humor?

Há anos, isso era tão engraçado, mas, agora, as pessoas parecem que se deixam policiar por todos os lados, abrindo mão de sua liberdade de livre-pensar e brincar de adolescentes à procura da opinião mais bombástica capaz de chocar seus pais intelectualizados. Sim, meus amigos, a mais nova moda é chamar racismo e preconceito de afirmação rebelde da liberdade.

Esses estilistas do ressentimento social apareceram travestindo inicialmente seu discurso político de indignação moral. Foram imbuídos do dever de denunciar todos os que usavam o palavreado da igualdade e da tolerância e que, segundo eles, procuravam ganhar dinheiro em ONGs ou aumentar sua vontade de poder.

Mas, em vez de criticar a pretensa hipocrisia em questão e defender a igualdade e a tolerância de seus usurpadores, eles preferiram aproveitar o que entendiam como fraqueza moral de seus oponentes e colocar na avenida todo o ressentimento escondido durante décadas.

Assim, aquele sentimento de desconforto diante da diferença e da transformação social, de recusa a autocrítica de seus próprios valores, de mediocridade medrosa e de colonialismo xenófobo mal disfarçado podiam, enfim, voltar. Pior, voltar com o selo da liberdade. Poucos, entretanto, se enganam com o tipo de mundo medieval e pequeno que tal "liberdade" produz.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Os eleitores petistas podem não ter razão em tentar canonizar seus antigos líderes envolvidos em escândalos de corrupção, mas têm razão em se indignar com a maneira seletiva, própria à Justiça do Brasil, de tratar os partidos brasileiros. Não é preciso ser petista para reconhecer que algo de estranho acontece quando o partido-alvo não é o PT.

Por exemplo, uma mutação peculiar ocorre com o ímpeto investigativo e punitivo do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), sr. Joaquim Barbosa, quando o dito escândalo do mensalão passa à sua segunda fase, aquela na qual se conta a incrível história de sua origem nas campanhas tucanas mineiras e que, segundo o próprio deputado federal Eduardo Azeredo (PSDB-MG), teria também ajudado a encher os cofres da campanha de reeleição do então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, em 1998.

Tomado por certa paralisia e horror, é como se nosso presidente do Supremo não pudesse tocar no processo, deixando-o adormecer durante meses, anos, até que os porões do Palácio da Justiça lacrem tudo com o devido silêncio do esquecimento redentor.

Algo semelhante ocorre com um dos mais impressionantes escândalos de corrupção do Brasil recente, o que envolve o metrô paulistano. O mesmo metrô que se expande na velocidade de um carro subindo a rodovia dos Imigrantes em dia de volta de feriado com chuva.

Empresas multinacionais julgadas em tribunais suíços e franceses, pedidos de informação vindos da Justiça suíça e inacreditavelmente "esquecidos" por procuradores brasileiros, denúncias feitas por funcionários das empresas envolvidas citando nominalmente toda a cúpula dos tucanos bandeirantes que vão à imprensa apenas para encenar sua indignação por seus anos de dedicação franciscana à política serem jogados no lixo: nada, mas absolutamente nada disso foi capaz de abrir uma reles CPI.

Uma série de denúncias sobre assalto ao bem público durante quase duas décadas, tão bem fundamentadas que tiveram a força de abrir inquéritos em países europeus, não foi capaz de justificar uma reles CPI na província de São Paulo.

Ao menos nesse ponto, os eleitores do PT têm razão em não levar a Justiça brasileira a sério. Se o escândalo do metrô fosse com seu partido, meus amigos, vocês poderiam esperar um comportamento bastante distinto da Justiça e de certos setores caninos da imprensa nacional.

Agora, o próximo passo será um assessor de imprensa tucano mandar uma carta ao Painel do Leitor, neste jornal, tentado fazer, como sempre, o velho jogo da desqualificação "ad hominem". Assim caminha o ritmo torto da indignação brasileira.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Ao que parece, chegou a hora de saudar o Brasil como o novo país "do mais caro do mundo". Foram necessárias décadas para alcançar tamanha conquista e, ao que parece, desta vez ela veio para ficar. Afinal, anos de trabalho árduo permitiram aos brasileiros ter o prazer de pagar o dobro no mesmo carro que outros mortais compram sem tanto sacrifício.

Atualmente, ser brasileiro é ter a satisfação de levar para casa o console Xbox mais caro do mundo. É poder humilhar os estrangeiros ao dizer o preço que pagamos em passagens aéreas, escolas, aluguéis e imóveis arrebentados em lugares com fios elétricos na frente da janela.

Para chegar a este estágio, foi necessário não apenas um conjunto substantivo de equívocos econômicos. Foi preciso muita cegueira ideológica para engolir a ladainha de que nosso troféu de "o mais caro do mundo" foi conquistado exclusivamente através dos impostos mais elevados e dos altos custos trabalhistas.

Não, meus amigos. Só em um mundo (como esse em que alguns liberais vivem) sem países como França, Alemanha ou Suécia o Brasil teria os impostos mais altos. Se nos compararmos aos EUA, veremos que a contribuição fiscal per capita de um brasileiro (US$ 4.000) é bem menor do que a de um norte-americano (US$ 13.550).

Na verdade, depois que se inventa o inimigo, é mais fácil esconder o verdadeiro responsável. Nosso troféu de "o mais caro do mundo" deve ser dedicado a esses batalhadores silenciosos do desastre econômico, a esses companheiros de todos os governos brasileiros: o oligopólio e a desigualdade.

A desigualdade econômica, esta tudo mundo conhece. Ela fingiu por um momento que estava se deixando controlar, mas deu não mais que uma unha para permanecer com todos os gordos dedos. Sempre se combateu desigualdade com revolução fiscal que taxasse os ricos, punisse radicalmente a evasão fiscal e limitasse os grandes salários. Mas, no país "do mais caro do mundo", o tema é tabu. Assim, uma classe de milionários pode empurrar alegremente os preços para cima porque não tem problema algum em pagar pelo mesmo o seu dobro, desde que as lojas ofereçam manobrista VIP e água com gás na saída do estacionamento.

Já a nova onda de oligopólios é uma das grandes contribuições da engenharia econômica do lulismo: os únicos governos de esquerda da galáxia que contribuíram massivamente para a cartelização de todos os setores-chaves da economia. Com uma política de auxiliar a formação de oligopólios via empréstimos do BNDES, o governo conseguiu fazer uma economia para poucos empresários amigos. Nela, não há concorrência. Assim, os preços descobriram que, no Brasil, o céu é o limite.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
No último domingo, o Instituto Datafolha publicou uma pesquisa a respeito do posicionamento ideológico dos brasileiros. Essa não foi a primeira vez que pesquisas dessa natureza foram feitas pelo instituto, mas foi a primeira vez que questões econômicas ligadas à função do Estado, às leis trabalhistas e à importância de financiar serviços públicos apareceram. O resultado foi simplesmente surpreendente.

Se você ler os cadernos de economia dos jornais e ouvir comentaristas econômicos na televisão e no rádio, encontrará necessariamente o mesmo mantra: os impostos brasileiros são insuportavelmente altos, as leis trabalhistas apenas encarecem os custos e, quanto mais o Estado se afastar da regulação da economia, melhor. Durante décadas foi praticamente só isso o que ouvimos dos ditos "analistas" econômicos deste país.

No entanto décadas de discurso único no campo econômico foram incapazes de fazer 47% dos brasileiros deixarem de acreditar que uma boa sociedade é aquela na qual o Estado tem condição de oferecer o máximo de serviços e benefícios públicos.

Da mesma forma, 54% associam leis trabalhistas mais à defesa dos trabalhadores do que aos empecilhos para as empresas crescerem, e 70% acham que o Estado deveria ser o principal responsável pelo crescimento do Brasil.

Agora, a pergunta que não quer calar é a seguinte: por que tais pessoas praticamente não têm voz na imprensa econômica deste país? Por que elas são tão sub-representadas na dita esfera pública?

A pesquisa ainda demonstra que, do ponto de vista dos costumes, os eleitores brasileiros não se diferenciam muito de um perfil conservador. O que deixa claro como suas escolhas eleitorais são eminentemente marcadas por posições ideológicas no campo econômico. Uma razão a mais para que tais posições possam ter maior visibilidade e estar em pé de igualdade com as posições econômicas liberais hegemônicas na imprensa brasileira.

É claro que haverá os que virão com a velha explicação ressentida: o país ama o Estado devido à "herança patrimonialista ibérica" e à falta de empreendedorismo congênita de seu povo. Essa é a velha forma de travestir egoísmo social ressentido e preconceituoso com roupas de bricolagem histórica.

Na verdade, o povo brasileiro sabe muito bem a importância da solidariedade social construída por meio da fiscalidade e da tributação dos mais ricos, assim como é cônscio da importância do fortalecimento da capacidade de intervenção do Estado e da defesa do bem comum. Só quem não sabe disso são nossos analistas econômicos, com suas consultorias milionárias pagas pelo sistema financeiro.

 escreve às terças-feiras nesta coluna.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
O presidente do Uruguai, José Mujica, entrará para a história latino-americana como alguém que colocou de vez a pauta da modernização de costumes no centro da política. Em seu governo, o Uruguai aprovou a legalização do aborto, o casamento homossexual e, agora, uma ousada legislação de regulamentação da produção e do comércio de maconha.

O Uruguai partiu de uma constatação cada vez mais assumida nos debates internacionais sobre o problema: "A guerra contra as drogas fracassou". A abordagem policialesca hegemônica é cara e ineficaz, além de infantilizar o debate ao considerar todo consumidor de droga um viciado, ainda que potencial.

Por mais que isso possa parecer estranho a alguns, não há princípio moral que justifique a proibição do uso de drogas por adultos responsáveis por seus atos. As modalidades de prazer do corpo, bem como a decisão sobre os alimentos e substâncias que consumo, são fruto de deliberações individuais. Cabe ao Estado simplesmente alertar seus cidadãos sobre os riscos de suas decisões.

Dois argumentos poderiam ser contrapostos a essa maneira de pensar o problema do uso das drogas. Primeiro, usuários de drogas estariam, necessariamente em situação de perda de autonomia. O argumento é ruim por não distinguir usuários esporádicos daqueles que têm estrutura patológica de drogadição.

Segundo, haveria uma equação indissociável entre droga e violência. Assim, combater a primeira seria, necessariamente, diminuir a segunda. No entanto, há duas violências pressupostas aqui. A primeira é resultado exatamente do tráfico e da ilegalidade do comércio de drogas. Nesse sentido, a lei uruguaia é astuta ao criar um mecanismo estatal capaz de retirar a produção da maconha das mãos de grupos criminosos.

Por outro lado, haveria a violência resultante da pretensa modificação de comportamento de quem consome drogas. O problema é que, no caso da maconha, o argumento é risível, assim como é risível o argumento de que ela seria necessariamente uma porta de entrada para o consumo de drogas mais pesadas.

Note-se ainda que nunca houve e, provavelmente, nunca haverá sociedade sem drogas. Assim, melhor do que ficar à procura de um paraíso onde elas não existiriam, procura que no mais das vezes só consegue produzir infernos, é saber como viver com elas. É bem provável que muito de seu consumo seria diminuído se nossas sociedades retirassem a aura transgressiva das drogas.

Ao abandonar a lógica da guerra, os governos poderiam enfim pautar suas políticas pela lógica médica da discussão sobre o uso e seus riscos, como já é feito com bebidas e cigarros.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Passaram-se 30 anos de sua morte até que Ana Cristina Cesar (1952-1983) tives- se uma edição completa de seus poemas.

Uma das mais vigorosas poetas da literatura nacional contemporânea precisou esperar incontáveis 30 anos para que, enfim, aparecesse "Poética" (Companhia das Letras), compilação organizada com esmero por Armando Freitas Filho com poemas publicados e espólio.

Tal compasso de espera demonstra a necessidade de maior atenção de nossas editoras para a poesia brasileira produzida a partir dos anos 70.

Não são poucos os livros importantes esgotados há décadas, assim como autores que há muito sumiram das prateleiras das livrarias. Neste último quesito, a situação de Ana Cristina Cesar era a mais aberrante.

Em sua vida curta, ela conseguiu produzir uma obra que aliava reflexão formal apurada e força expressiva para descrever situações-limites de desterro e de incomunicabilidade passional.

Sua poética do limite aparece na maneira muito própria de reconstruir o lugar da poesia, empurrando sua linguagem para o limite da prosa, do diário, da escrita epistolar; procurando encontrar lirismo no limite da linguagem ordinária com suas figuras gastas e sua urgência de falar sempre na primeira pessoa.

No entanto, como a mais recente crítica literária brasileira nos mostra, a força dessa recuperação singular da primeira pessoa vem do fato de a expressão subjetiva "se mostrar como uma forma de espelhar o esgotamento da linguagem lírica". O que não poderia ser diferente para alguém que conseguiu conservar, até o limite, o estranhamento adolescente diante do desejo e a raiva diante dos códigos do estilo (de ser e escrever).

Nesse sentido, a impressionante produção de Ana Cristina Cesar aos 15 e 16 anos revela muito da fonte de força de sua poesia. Força de quem irá procurar sempre a experiência do limite para, no fim, poder dizer, não sem ironia: "Por mais que se gaste sete vidas, a pressa do discurso começa a recontá-las".

A grande literatura, porém, aparece quando a matriz intencional-subjetiva acaba por encontrar-se com os impasses sociais de seu tempo. Não foi diferente com Ana Cristina Cesar. Sua poética é também a escrita de um tempo censurado, emudecido, traumatizado pela violência da palavra vazia que circula de mão em mão como se ainda tivesse algum valor e do silêncio imposto à palavra plena.

Essa escrita traumática é um belo documento de uma linguagem que registra a destruição da experiência em uma sociedade que parece se acostumar às ditaduras de toda ordem.

 escreve às terças-feiras nesta coluna.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
James Fallon era um neurocientista norte-americano envolvido em pesquisas sobre as relações entre padrões anatômicos do cérebro de psicopatas e comportamento criminoso. Sua hipótese era a de que existiam distinções anatômicas sensíveis entre criminosos violentos e pessoas "normais". Imbuído da certeza de que a anatomia é o destino, lá foi Fallon tentar mostrar que a baixa atividade em certas áreas do lobo frontal e temporal, responsáveis pela empatia e compaixão, poderia nos auxiliar a identificar um psicopata.

Mas eis que o inimaginável ocorre. A fim de construir um quadro comparativo, o neurocientista resolveu servir-se de tomografias de si mesmo e de membros de sua própria família. Aterrorizado, Fallon descobriu que seu próprio cérebro tinha similitudes fundamentais com a anatomia cerebral dos psicopatas. Sim, ele mesmo era um psicopata potencial, um "protopsicopata".

"Eu sempre soube", disse sua mulher. Afinal, anos a fio esquecendo o dia do rodízio do carro e não se comovendo com relatos das desfortunas do câncer do seu tio-avô só podiam significar uma indiferença fria e tendencialmente psicopata. "É verdade, eu sempre fui insensível", responde o neurocientista. Mesmo suas ações de caridade, ele agora reconhece, eram feitas sem empatia e sem "real envolvimento", ou seja, sem aquela lágrima no canto dos olhos que escorre furtivamente, como Hollywood nos ensinou.

Mas havia um problema: Fallon não matou ninguém, ninguém reclamou de ter sido estuprada por ele. Por que então o protopsicopata não passou ao ato? "O amor da família me salvou. Ele conseguiu neutralizar o pior". Ao que só podemos responder: "Aleluia, aleluia".

Esta história real demonstra a inanidade especulativa primária de certos setores das neurociências. Pois o que Fallon descobriu não foi sua "protopsicopatia" nem a força redentora do amor familiar, mas a simples ausência de relações diretas entre estados cerebrais e "comportamento criminoso".

A neurologia conseguiu identificar áreas do cérebro, como o giro supramarginal, cujas atividades são fundamentais para a empatia e a compaixão. Mas se eu fosse kantiano, lembraria que a apatia e a desconfiança em relação à compaixão são condições, não apenas para a psicopatia e para o comportamento antissocial, mas para todo comportamento moral, já que a universalidade do julgamento moral exige o não envolvimento especial com sujeitos particulares determinados.

Ou seja, o mesmo estado cerebral pode estar na base de dois comportamentos sociais divergentes, o que demonstra que não há causalidade direta alguma entre estado cerebral e comportamento social. Mas admitir tal evidência deixaria muita gente sem emprego.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
A verdadeira tarefa política é a reconstrução de nossos afetos. Inebriados por discussões a respeito de sistemas de normas e instituições, demoramos muito tempo para perceber que a política é, acima de tudo, uma questão de mobilização de afetos. Discursos circulam e levam os corpos a sentirem de uma determinada forma, a temerem certas situações.

A política é a arte de afetar os corpos e de levá-los a impulsionar certas ações. Devido a isso, nunca entenderemos nada das dinâmicas dos fatos políticos se esquecermos sua dimensão profundamente afetiva.

Por exemplo, não é difícil perceber como, nas últimas décadas, uma máquina de medo e ressentimento foi colocada em funcionamento.

Esses são, há tempos, os principais afetos que circulam no campo político. Medo do tempo que não conhecemos e que pode ser diferente do passado e do presente. Medo de ficar longe demais da segurança da "nossa terra", de ser assaltado, de ter sua propriedade violada, da morte violenta. Mas, principalmente, um ressentimento travestido de pessimismo prudente a respeito dos acontecimentos e da errância necessária à toda procura.

A política baseada no ressentimento é, de fato, algo a ser pensado. Talvez possamos dizer que, em política, o ressentimento é sempre o sentimento mobilizado contra a errância.

Quando um acontecimento ocorre, muitas vezes ele não instaura imediatamente uma nova ordem. Só em situações muito amadurecidas, e por isso mesmo muito raras, vemos essa passagem imediata de uma ordem a outra. Normalmente, acontecimentos são aquilo que instaura uma nova errância, com seus erros, suas perdas, seu tempo confuso.

Esse tempo confuso é, em certas situações, onde acontecimentos ocorrem "cedo demais", praticamente inevitáveis. Contra ele, o ressentimento sempre dirá: melhor que nada tivesse ocorrido, melhor ter ficado na situação passada, por mais que ela fosse insatisfatória, ou seja, vamos dar um jeito de voltar à antiga morada, mesmo que ela esteja em ruínas. Basta ver o que hoje lemos a respeito das revoltas no mundo árabe.

No entanto, esse tempo confuso produzirá sua própria superação, por mais que ela demore, por mais que refluxos ocorram, mas à condição de produzirmos novos afetos.
Nesses momentos, cria-se uma divisão entre os que se voltam aos velhos afetos de sempre e aqueles capazes de adquirir uma nova confiança, uma nova força, mesmo quando o céu é turvo. Pois eles sabem que nunca haverá nova política com os velhos sentimentos de sempre.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Poucos problemas político-filosóficos têm o dom de produzir tantos conflitos quanto aquele a respeito da função do Estado. A divisão entre os que querem pensar uma sociedade sem Estado e os que não veem sentido algum nessa empreitada ultrapassa a dicotomia tradicional entre esquerda e direita. De toda forma, qualquer reflexão possível sobre o Estado na política contemporânea deve partir da internalização das críticas por ele sofridas nos últimos quarenta anos.

Várias delas insistiam no Estado como aparato disciplinar responsável pela perpetuação de uma vida social normatizada na figura do direito. O cidadão do Estado era, acima de tudo, alguém que deveria se conformar a um aparato normativo legal e uniformizador a fim de ser reconhecido como pessoa capaz de contrair contratos, assumir propriedades, direitos positivos, deveres e funções sociais.

A crítica, peça maior de uma teoria renovada do poder, era pertinente. No entanto, ela não implicava, necessariamente, o abandono do reconhecimento do Estado como instituição política central, mas, sim, sua metamorfose. Pois seu puro e simples abandono trazia problemas insolúveis.

Não queremos apenas a possibilidade de se desenvolver como singularidades, queremos ser reconhecidos enquanto singularidades. Mas não quero ser reconhecido apenas na minha comunidade, entre os meus amigos. Quero ser reconhecido em todo e qualquer contexto social do qual participo e porventura participarei.

Abre-se assim uma dimensão de demanda de universalidade que nos impulsiona em direção a um arranjo institucional de garantias de reconhecimento que nos leva, necessariamente, a um conceito pós-nacional de Estado. Sem tal arranjo, demandas dessa natureza perdem seu direito.

Por outro lado, a atividade econômica é produtora de desigualdades. A ampliação da posse comum minora tais desigualdades, mas uma defesa abstrata do fim da propriedade apenas faria com que o desejo de individualização presente na propriedade se voltasse contra o espaço comum. Hegel era suficientemente astuto para perceber que a propriedade não era o problema, mas sua generalização a toda a esfera social e sua transformação em direito fundamental acima de todos os outros.

Mas que instituição tem a força de quebrar os interesses individuais no campo da economia a fim de impedir o desenvolvimento da desigualdade? Claro que poderíamos recorrer a teoria do Estado como agente da classe dominante, mas, mais de uma vez na história, foi a pressão das classes desfavorecidas sobre o Estado que quebrou tais interesses de classe. O que nos obriga a desenvolver, no mínimo, uma figura um pouco mais contraditória do Estado.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Há algo de rara beleza em "Ninfomaníaca", último filme de Lars von Trier. Depois de algumas semanas em cartaz, boa parte dos leitores interessados em cinema já viram ou ouviram falar da história da ninfomaníaca que "confessa" a um pescador sua história inesgotável de sexo com todo o tipo de homem. Por meio desse cenário improvável, Trier consegue fornecer mais uma vez as imagens de nossos impasses.

"Não sou uma pessoa boa", diz Joe ao pescador, enquanto narra sua maneira compulsiva e sem limites de fazer sexo. Em uma inversão dos papéis tradicionais, o pescador Seligman responde com metáforas primárias e discurso pseudocientífico não para levá-la ao arrependimento, mas para simplesmente tentar aliviá-la de sua culpa. Não há nada de errado em sua vida sexual, diz, no fundo, Seligman. O desejo constrói circuitos, alguns mais elásticos do que outros. Foi-se a época em que esconder suas fantasias sob recalques era sinal de normalidade.

Mas Joe sabe que errou; em algum momento ela errou. O filósofo francês Georges Bataille costumava dizer que o erotismo era uma das poucas formas que nos restavam para realmente nos perdermos pois, quando assumido em todas suas consequências, ele sempre nos levava para além do cálculo utilitarista de maximização do prazer e afastamento do desprazer. Do ponto de vista da lógica utilitária dos indivíduos modernos à procura da melhor rentabilização de suas experiências, o erotismo é um desperdício desprovido de sentido, algo inútil e completamente imprevisível.

Joe bem que gostaria de organizar toda essa bagunça, colocar horários em seus encontros, decidir o que falar para seus "amantes" apenas lançando dados. Então, para botar ordem, Joe começa a contar como, no fundo, sua procura se resume a três tipos de homens: os que se preocupam primeiro em fazê-la gozar, os que a tomam com força e... aquele que ela ama. Mas é exatamente esse que ela descobre, aterrada, nada sentir.

Esse nada que o amor trouxe não é o nada da indiferença própria ao caráter intercambiável dos seus amantes. Ele é o nada do que não tem lugar, não tem nome, do que quebra a música. Essa anestesia é aterradora porque demonstra que Joe errou, mas ela errou como quem entrou em uma errância cuja verdadeira função era descobrir o que não podia ser intercambiável.

Esse impossível de trocar não vem do fato de Joe estar diante de alguém que traz uma intensidade descomunal ou fantasias totalmente novas. Ela está simplesmente diante do que se sente de outra forma. Mas, para alguns, não há nada de mais aterrador.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Neste final de semana, o Brasil voltou a ver manifestantes nas ruas. Era de esperar que, em algum momento, a insatisfação voltasse a explodir, pois, se há algo que caracteriza a política brasileira pós-junho, é a tentativa autista de fingir que nada aconteceu no país.

Um exemplo maior e quase cômico é o destino dado às exigências populares de uma "outra política". Elas pararam na lata de lixo mais próxima. Depois de apresentar com uma mão um projeto de Assembleia Constituinte para a reforma política e retirá-lo com a outra, o governo prometera pressionar o Congresso Nacional para debater as propostas. O resultado foi cosmético, se quisermos ter um mínimo de generosidade. Não há nenhuma reflexão sobre o aprofundamento da participação popular na pauta. Não há nada sobre democracia direta, nem sequer como promessa de campanha de algum candidato. Ou seja, não há coisa alguma.

Já a revolta popular contra a inexistência de um segundo ciclo de políticas contra a desigualdade baseadas na universalização de serviços públicos de qualidade também passou em silêncio.
Ações pontuais não são mudanças estruturais e, se existe algo que os brasileiros conhecem muito bem, é a arte milenar do ajuste aqui e ali ou a agora nova arte de tentar abaixar o fogo da panela de pressão com a cantilena do "quando o pré-sal chegar, tudo será diferente".

Quando o pré-sal chegar, teremos dinheiro para resolver os problemas da educação, mesmo que isso signifique prometer algo em um prazo em que os governos serão outros e em cima de um pretenso rendimento que não sabemos sequer de quanto ele realmente será. Não parece que isso possa ser chamado de "solução" para problemas. Por isso, nada mais sábio do que manifestantes que gritam: "Se não houver direitos, não haverá Copa".

A Copa do Mundo virou a melhor expressão da irracionalidade econômica brasileira. Dinheiro gasto em vários estádios de futebol que servirão para nada, promessas de melhoria na mobilidade urbana que ninguém verá, aeroportos de lona que durarão o tempo de as comitivas passarem, índios desalojados para sair da frente dos tratores e, principalmente, desconsideração sobre o que a população realmente entende como prioridades.

Alguém deveria lembrar que talvez os brasileiros não tenham nascido para ser figurantes de campanhas de patrocinadores da Copa.

Mas, ao que parece, nós vamos precisar ainda de muita vitrine de banco quebrada e de muita pedra atirada contra a polícia para que certas insatisfações sejam realmente ouvidas.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Foi de maneira brutal que o Brasil perdeu um de seus melhores cineastas.

Eduardo Coutinho, assassinado no domingo passado, aos 80 anos, foi responsável por elevar o documentário a um dos gêneros fundamentais do cinema nacional contemporâneo, funcionando como um dos motores de reflexão sobre a linguagem cinematográfica entre nós.

Filmes como "Cabra Marcado para Morrer" (1985), "Edifício Master" (2002), "Peões" (2004) e "Jogo de Cena" (2007) são, certamente, algumas das melhores obras cinematográficas produzidas no Brasil. Emblemática é a dinâmica interna que gerou "Cabra Marcado para Morrer".

Em 1964, Coutinho começa a filmar a história do assassinato de João Pedro Teixeira, um dos líderes das Ligas Camponesas. Semanas depois do início da filmagem, o golpe militar eclode, vários membros de sua equipe são presos e o filme desaparece. Em 1981, os negativos são reencontrados e Coutinho decide continuar o projeto, mas agora na forma de um documentário que retraça a trajetória da viúva de Teixeira e de seus filhos.

Nessa mudança, da ficção para o documentário, cria-se um dos filmes mais fortes a respeito da experiência subjetiva de viver em uma ditadura militar. Seu tempo não é o tempo dos fatos a serem descobertos ou das ficções narradas. Ele é o tempo do filme que interfere no presente e desencadeia elaborações que, até então, não puderam ser feitas.

Sua matéria-prima é o silêncio, o filme perdido, a vida cortada e a transformação do que se corta, do que se perde em um novo arranjo.

De certa forma, essa é a tônica de outro documentário maior produzido por Coutinho, a saber, "Peões". Seu assunto são as grandes greves do ABC paulista, nos anos 70.

Greves que, a princípio, fracassaram, já que as reivindicações centrais dos trabalhadores não foram contempladas. Mas, ao contar a história de vários personagens "menores" da época, cujos nomes não foram parar nos livros de história, Coutinho consegue mostrar a transformação pela qual sujeitos passam ao viver um acontecimento ou, se quisermos, como sujeitos são produzidos por sua fidelidade a acontecimentos. Mais do que fatos, seu documentário mostra aquilo que o filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995) um dia nomeou de "o devir revolucionário das pessoas".

Dessa maneira, os documentários de Eduardo Coutinho quebraram a dicotomia entre fato e ficção para instaurar uma categoria singular. Uma categoria performativa da produção, das imagens que produzem o que filmam.

Talvez não tenha sido por outra razão que, graças a obras como as dele, algumas das mais belas páginas da história do cinema nacional foram escritas.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
A esta altura, todos conhecem a história do rapaz negro amarrado nu em um poste e espancado por populares no Rio de Janeiro por pretensamente ser um assaltante e ter supostamente roubado uma bicicleta. Todos devem conhecer também o teor dos comentários de certos apresentadores do noticiário televisivo que resolveram surfar na onda da mais nova modalidade de "indignação popular contra a insegurança e a ausência de mão forte do poder público".

Mas, ainda mais surpreendente do que os dois acontecimentos, é o teor da reação monitorada na internet, em sua ampla maioria favorável ao velho "justiça feita com as próprias mãos" ou ao "chegou o momento da revolta do homem comum".

Quem já estudou a ascensão do regime nazista sabe como esse era o tema central de sua retórica política: "os homens comuns e cidadãos de bem estão cansados da insegurança. Está na hora de atitudes enérgicas".

E então apareciam dois tipos de personagens: os que saiam vociferando sua raiva canina e os que diziam que não concordavam exatamente com tais métodos, mas que deveríamos dar uma reposta sem angelismos ao problema. São aqueles que dizem, atualmente, que a sociedade brasileira sofre com tanta violência e merece parar de ser importunada com essa conversa de direitos humanos de bandido. Ou seja, o velho truque do policial mau e do policial bom.

As pessoas que amarraram o jovem negro no Rio de Janeiro não apareceram do nada. Seus pais já apoiavam, com lágrimas de felicidade nos olhos, os assassinatos perpetrados pelo esquadrão da morte. Seus avós louvaram as virtudes do golpe militar de 1964, que colocaria de vez a ordem no lugar da baderna. Seus bisavós gostavam de ver a polícia da República Velha atirando contra grevistas com aquele horrível sotaque italiano. Seus tataravós costumavam ver cenas de negros amarrados a postes com um cer- to prazer incontido. Afinal, já se dizia à época, alguém tinha que pôr ordem em um país tão violento.

Sim, tais pessoas sempre estiveram no mesmo lugar. Só mudaram as gerações. Não há como compreendê-las nem nunca haverá acordo possível com elas. Que acordo haveria com alguém que nem sequer é capaz de estranhar seus próprios gestos no momento em que espanca, arranca a roupa e amarra alguém em um poste? Ou com alguém que não teme em justificar ação tão nobre e edificante?

Contra pessoas desse tipo, não se procura um acordo nem se deve esperar que elas mudem. Luta-se contra elas, sem trégua, até que tenham medo de mostrar sua barbárie na rua e a escondam dentro de suas próprias casas.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Cleonice Viera de Moraes, Douglas Henrique de Oliveira, Valdinete Rodrigues Pereira. Luiz Felipe Aniceto de Almeida. Esses são apenas alguns nomes de pessoas que morreram devido à atuação da po-lícia após o início das manifestações, em junho.

São pessoas que morreram devido a bombas de gás lacrimogêneo, que foram atropeladas ao fugir da violência policial, que caíram de viadutos quando pressionados pela Polícia Militar, entre outros casos.

Poucas pessoas ouviram esses nomes, poucos se lembram deles e não consta que suas mortes tiveram força para gerar indignação naqueles que, hoje, gritam por uma bisonha "lei de antiterrorismo" no Brasil.

Para tais arautos da indignação seletiva, tais mortes foram "acidentais", por isso, merecem ser esquecidas.

Não há nada a se pensar a partir delas. No fundo, elas não significam nada. Mas a morte do cinegrafista, ao menos na narrativa que assola o país há uma semana, não foi um acidente infeliz e estúpido, que merece certamente ser punido de forma clara por sua irresponsabilidade.

Não, ela é a prova maior de que o Brasil caminha para o caos e que a melhor coisa a fazer é parar com o angelismo diante de "vândalos".

Bem, é sintomático que a única resposta efetiva às demandas vindas das manifestações de junho seja uma lei que visa transformar o uso de máscaras em crime contra a segurança nacional.

Como nada foi feito a respeito das exigências de melhores serviços sociais, contra os gastos absurdos para a realização da Copa do Mundo, por democracia efetiva, melhor pedir para senadores do porte moral de Renan Calheiros (PMDB-AL) que aprovem uma lei antiterrorista.

Da minha parte, os únicos terroristas que consigo enxergar estão exatamente no Congresso Nacional.

Se querem uma nova lei, uma simples proibição –de uma vez por todas– da venda de rojões resolveria muita coisa. A melhor maneira de lutar contra a violência é com a escuta. A surdez dos governos em relação às exigências de ação, visando criar as condições para uma qualidade de vida minimamente suportável nas grandes cidades, é a verdadeira causa da violência nas manifestações.

Escutar significa, por exemplo, não prometer uma Assembleia Constituinte, de-pois uma reforma política e acabar por apresentar apenas o vazio.

Significa não baixar o valor das passagens de ônibus para, meses depois, quando tudo parece mais calmo, voltar com o mesmo aumento.

Significa parar de usar a morte infeliz de alguém para tentar criminalizar a revolta da sociedade brasileira.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Há uma divisão que quebrou boa parte da dinâmica criativa da esquerda mundial. Ela se deu entre aqueles que, animados pelo ímpeto de Maio de 1968, levaram a política em direção às lutas ecológicas, libertárias e aqueles que permaneceram, durante décadas de assalto ideológico neoliberal no campo do pensamento de esquerda, pautando suas ações pela sensibilidade aos conflitos de classe e pela defesa de políticas de combate à desigualdade.

Tal divisão conseguiu, por exemplo, enterrar a esquerda em países como a França e a Alemanha.

No primeiro, enquanto a extrema direita racista cresce exponencialmente, a esquerda perde sua força de sinergia por se clivar entre uma frente que agrupa comunistas, sociais-democratas radicais e outros grupos (Front de Gauche, "frente de esquerda", em francês) e os ecologistas, estirados entre arroubos em direção ao centro e lembranças de seu velho passado de esquerda.

Na Alemanha, a situação não é muito diferente, com atores bastante parecidos (Die Linke, "a esquerda", em alemão, e os verdes).

Essa realidade poderia ser diferente no Brasil. As causas ecológicas têm um radical potencial de crítica do capitalismo, por expressarem a luta contra a versão monopolista mais brutal do nosso sistema econômico –o agronegócio–, por serem fruto da problematização de uma ideia de desenvolvimento e produção que não libera os sujeitos daquilo que mais os aliena, a saber, o sequestro de seu tempo pelo tempo do trabalho.

Tais modificações, para poderem realmente ocorrer, exigem modelos de produção coletiva e de aumento da autonomia em relação ao tempo de trabalho que, se radicalizadas, podem nos ajudar a nos colocar fora da lógica do sistema econômico que conhecemos. No entanto, ao invés disto, vários ecologistas no Brasil se deixam pautar, muitas vezes, por economistas neoliberais com sua lógica ecológica Starbucks.

Por outro lado, o Brasil, com suas idiossincrasias, é um país no qual os liberais são, no fundo, contra as liberdades individuais.

Por aqui, ser liberal é, via de regra, ser contra o aborto, criticar o casamento homossexual, desconfiar das discussões sobre o Estado radicalmente laico, ridicularizar o embate contra a destruição da vida privada na esteira do "combate ao terrorismo" e ser contra a legalização das drogas. Por essas ironias do destino, quem defende liberdade individual no cenário político-partidário brasileiro é a esquerda.

Tais elementos do cenário nacional demonstram como há um rearranjo possível do espectro político, à condição de superar velhas dicotomias.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"Quando vejo um filme, interesso-me pelo jogo de sentimentos mais do que pelos personagens. Imagino que podemos chegar a um cinema sem personagens psicologicamente definidos, no qual o jogo dos sentimentos circularia. Como em uma pintura contemporânea, o jogo das formas chega a ser mais forte do que a história". Foi assim que o diretor francês Alain Resnais, morto no último domingo, fez do cinema uma arte que não temia sua própria destruição.

Em 1959, Resnais apareceu com seu primeiro longa-metragem, "Hiroshima Mon Amour" ("Hiroshima, Meu Amor"). Em 1961, saia esta que é uma das maiores obras-primas do cinema, "L'Année Dernière à Marienbad" ("O Ano Passado em Marienbad"), com seu roteiro escrito por Alain Robbe-Grillet e fotografia dirigida por Sacha Vitry.

Com ela, Resnais produziu, no cinema, a forma do que a França procurava pensar por meio do setor mais avançado de sua literatura na época (o "nouveau roman", de Grillet, Marguerite Duras, Samuel Beckett e Natalie Sarraute), da psicanálise (Jacques Lacan) e da filosofia (não por acaso, é de Deleuze uma das mais belas páginas sobre Resnais).

Resnais nos forneceu a imagem de um mundo no qual não éramos mais sujeitos, ao menos no sentido tradicional que demos a esse termo. Não nos encarnávamos mais em personagem portadores de narrativas cheias de conflitos psicológicos que pareciam todos descritos em um romance de Balzac. Não habitávamos mais o tempo linear de uma história, mas o tempo simultâneo, no qual passado, presente e futuro entravam continuamente em colapso. Um tempo no interior do qual não se progride, mas no qual se circula.

Tempo no qual a circulação do jogo de afetos produz repetições que nos fazem repetir os mesmos gestos, falar as mesmas palavras para, apenas dessa forma, habitar vários instantes. Essa repetição, que incomoda mais de um espectador de Marienbad, é a procura de movimentos imperceptíveis que anunciariam uma outra percepção.

Este mundo de outros tempos e movimentos, que se apresentava em um grande hotel, que podia também ser um sanatório ou um espaço termal de repouso, era um gesto de adeus às ideias que haviam se colado em nós, moldando nossa forma de ver e filmar. Ideias que produziram nosso cinema.

O mundo desvelado por Resnais continuou a produzir obras-primas nos lugares mais improváveis. Não haveria a fúria antinarrativa de Peter Greenaway ou o tempo libidinal de David Lynch, só para ficar em dois cineastas mais recentes e conhecidos, sem a destruição produzida por Resnais.

Sua condição de antecipador marcou para sempre a arte de nossa época.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
É de admirar a simbologia. Na semana passada, o Rio de Janeiro foi palco de uma greve de garis. Dificilmente encontraremos uma classe de trabalhadores tratados de maneira tão explícita como subempregados desqualificados.

Recolher lixo, colocar a mão naquilo que os outros desprezaram e jogaram fora parece transformar tais pessoas na representação natural do fracasso humano, gente que alguns prefeririam não ver, pessoas invisíveis.

Assim, quando os garis do Rio de Janeiro declararam greve, logo na semana do sacrossanto Carnaval, o governo municipal compreendeu isso como um verdadeiro crime.

Como tais pessoas invisíveis ousavam manchar o mais belo cartão-postal do país?

Talvez não por outra razão o alcaide do momento, o senhor Eduardo Paes, resolveu colocar seu quepe de capitão de fragata e declarar estarmos, pura e simplesmente, diante de um motim.

Garis em greve só podem ser amotinados que esquecem qual é o seu lugar na escala de valor humano. Ou então, o que não deveria nos surpreender, agentes de Cuba, da Coreia do Norte, capachos de Hugo Chávez e comandados do último vilão do 007 estariam infiltrados na Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana) pervertendo a boa índole do nosso povo.

Mas, sem se incomodar com a situação de amotinados de solo firme, lá foram os garis a fazer uma marcha de greve pelas ruas do Rio. E eis que o improvável acontece: a população sai às ruas para aplaudi-los. Nos meus 40 anos de passagem pelo mundo sublunar, não me lembro de ter visto grevistas serem aplaudidos na rua por populares. Dessa vez foi diferente.

Isso demonstra como parcelas da população não querem esquecer a situação de desprezo e espoliação na qual os trabalhadores pobres brasileiros vivem.

Eles estão dispostos a passar por situações individuais de desconforto, como não ter seu lixo recolhido, a continuar fingir não ver que ainda vivemos em uma brutalidade social insuportável.

Aplaudir sempre foi um gesto de quem reconhece a dignidade do que vê. Aplaudimos artistas pela dignidade da beleza. Aplaudimos oradores pela dignidade da inteligência e da força retórica. Aplaudimos garis pela dignidade dos humilhados que não temem bravatas e ameaças.

As pessoas que aplaudiram garis em greve deram a este país uma dignidade que nem sempre aparece.

Eles fizeram um pequeno gesto de forte carga política e que recupera o sentido do afeto político mais importante: a implicação e a solidariedade dos que deixam de lado, ao menos por um momento, interesses individuais. Naquele dia, o Rio de Janeiro mostrou ao país o caminho a seguir.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"Há quase 50 anos, o Brasil assistiu a um golpe militar que impôs a pior ditadura de sua história, responsável por crimes contra a humanidade, terrorismo de Estado, censura e arbítrio."

Essa frase deveria ser atualmente a descrição de fatos históricos, aceitos como evidências. Fatos que, por si só, teriam a força de provocar a indignação coletiva e o rechaço dos restos dessa época que ainda permanecem entre nós.

No entanto, para setores expressivos, tanto da população quanto daquilo que um dia foi chamado de "formadores de opinião", a frase "não é bem assim". Ela deve ser nuançada e colocada melhor em seu contexto.

O resultado da ausência de uma política forte baseada na justiça de transição e no dever de memória fez com que o Brasil fosse obrigado a ver, no limiar dos 50 anos do golpe militar, análises que procuram nos levar a crer que a ditadura não foi tão ditadura assim, que no fundo ela começou mesmo em 1969, com o Ato Institucional nº 5, e que não faz muito sentido processar torturadores, exigir mea culpa das Forças Armadas e das empresas que financiaram o regime. Não faz muito sentido exigir o reconhecimento da culpa e o pedido de perdão.

Tais análises são dignas do puro e simples negacionismo. Pois será sempre negacionista toda historiografia que visa minimizar crimes contra a humanidade, servindo-se de leituras tortas para dirimir o ímpeto social por punição e justiça contra os que se serviram do Estado para impor um regime assentado na violência bruta e na eliminação de setores descontentes da população.

Sim, agora temos uma literatura negacionista "made in Brazil". Ela se traveste de argumentos do tipo "os dois lados tiveram excessos" para fazer o pior de todos os exercícios: a relativização do governo ilegal e criminoso que tomou de assalto o Brasil por duas décadas.

Assim, já faz algum tempo que os interessados na história brasileira alertam para a repetição a qual as sociedades estão submetidas quando são incapazes de elaborar seu passado. Essa lei é tão forte quanto a lei da gravidade.

Não é de se estranhar que, dos esgotos do conservadorismo nacional, apareça novamente esse cortejo de fetichistas de quarteis, apolíticos amantes de políticos de direita, defensores da família brasileira com sua produção em série de neuróticos e membros do Grupo Armado do Menino Jesus.

Sim, para aqueles que diziam que a reconciliação já tinha sido alcançada milagrosamente no Brasil, a história apresenta a mais nova edição da "Marcha da Família com Deus pela Liberdade".

Um agradecimento especial aos negacionistas por esse desrecalque.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Há várias maneiras de você dar a impressão de resolver um problema. Uma delas é deixando de nomeá-lo.

Se alguém pergunta sobre o problema você corrige e diz que o infeliz está usando o termo errado, que esse problema não descreve o caso em questão. É uma tática tão boa como esconder um elefante tentando impedir as pessoas de verem a totalidade do animal, ou seja, mostrando uma hora uma pata, na outra a tromba, como se elas fossem partes que não pertencessem a um mesmo objeto.

Assim, a cidade de São Paulo acredita que vai resolver seu problema de racionamento de água. O primeiro passo é dizer com insistência e segurança: "a falta periódica de água que afeta grandes cidades como Osasco, Guarulhos, entre outras não é um racionamento". Claro, claro, e isso não é um cachimbo, como disse um dia René Magritte.

O segundo passo é fazer de tudo para que a incapacidade humana de planejamento e cuidado ecológico se transforme em vontade arbitrária divina. Se São Paulo está em processo não declarado de racionamento de água é porque choveu pouco.

Fazer o quê, não é verdade? Não tem água porque não choveu. Ou seja, podemos estar no século 21, mas al- guns acham que ainda vale a pena aparecer com argumentos do século 18.

Não passa na cabeça de alguns administradores que –há muito tempo– o mais importante Estado da federação deveria ter um sistema apto a lidar com as instabilidades do meio ambiente.

Nestes últimos dias, não faltaram especialistas e acadêmicos a desnudar tal inépcia planificadora do governo paulista. O sistema responsável pelo abastecimento de São Paulo foi inaugurado em 1985 e, desde então, nada mais se fez –isso a despeito do crescimento vertiginoso da população paulistana.

O uso industrial de água poderia ser limitado em prol do uso humano desse recurso, estimulando o reúso da água pelas indústrias. Mas a política de defesa e preservação dos mananciais é, principalmente, apenas uma peça de propaganda.

Pressionado pela fraqueza do poder público em barrar a especulação imobiliária e a ocupação do solo, os mananciais veem sua capacidade de produção de água ser seriamente afetada. Fato que demonstra o preço que se paga por acreditar que ecologia é apenas uma palavra que deve aparecer de quatro em quatro anos, durante as campanhas eleitorais e ao som de cantos de pássaros.

O produtivismo sem consciência ecológica alguma é a marca maior do desenvolvimento econômico do nosso Estado há tempo demais.

Por isso, lidamos com problemas que há muito já deviam ter sido superados.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Hoje é o dia que marca, afinal, os 50 anos do golpe militar ocorrido em 1º de abril de 1964. Durante as últimas semanas, a sociedade brasileira foi obrigada a ler afirmações de personagens como o senhor Leônidas Pires Gonçalves, primeiro ministro do Exército pós-ditadura, insultando o país ao dizer que: "a revolução (sic) não matou ninguém" e que ela teria sido uma necessidade histórica.

Antes, correntistas do banco Itaú, uma instituição tão organicamente ligada à ditadura que teve um de seus donos, o senhor Olavo Setúbal, nomeado prefeito biônico da cidade de São Paulo, receberam uma singela agenda onde se lia que o dia de hoje seria o aniversário da dita "revolução". Ninguém, nem nas Forças Armadas nem no setor empresarial que tramou e alimentou o golpe teve a dignidade de pedir à sociedade perdão por um regime que destruiu o país.

É claro que ainda hoje há os que procuram minimizar a ditadura afirmando que ela foi responsável por conquistas econômicas relevantes. Raciocínio semelhante foi, por um tempo, utilizado no Chile.

Tanto em um caso quanto no outro esse raciocínio é falso. A inflação brasileira em 1963 era de 78%. Vinte anos depois, em 1983, era de 239%. O endividamento chegou, ao final da ditadura, a US$ 100 bilhões, legando um país de economia completamente cartelizada, que se transformara na terceira nação mais desigual do mundo e cujas decisões eram tomadas não pelo ministro da economia, mas pelos tecnocratas do Fundo Monetário Internacional chefiados pela senhora Ana Maria Jul. A concentração e a desigualdade se acentuaram, o êxodo rural destruiu nossas cidades, a educação pública foi destroçada, a começar por nossas universidades.

Mas o maior exemplo desse revisionismo histórico encontra-se na crença, de 68% da população brasileira, de que aquele era um período de menos corrupção. Alguém deveria enviar para cada uma dessas pessoas os dossiês de casos como: Coroa-Brastel, Capemi, Projeto Jari, Lutfalla, Banco Econômico, Transamazônica e Paulipetro.

Tudo isso apenas demonstra o fracasso que foi, até agora, o dever de memória sobre a ditadura.

Mas o que poderíamos esperar de governos, como o de Fernando Henrique Cardoso, cujos fiadores eram Antônio Carlos Magalhães e Jorge Bornhausen, e de Luiz Inácio Lula da Silva/Dilma Rousseff, que tem em José Sarney um de seus pilares e em Antonio Delfim Netto um de seus principais conselheiros?

Como esperar uma verdadeira política contra a ditadura de governos que dependem de figuras vindas diretamente da ditadura?

Foi assim, de maneira silenciosa, que a ditadura venceu.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
O número aproximado de pessoas presas no Brasil é de 550 mil. Trata-se do quarto maior contingente do mundo, atrás apenas dos EUA, da China e da Rússia.

Desses, pouco mais de 10% estão presos por homicídio (simples ou qualificado). Nos outros 90% encontram-se pichadores, pessoas que "desacataram" a autoridade policial e ladrões de quase todo o tipo (os que dilapidam o erário público e corrompem funcionários estão em outro lugar).

Um dos maiores grupos, a saber, 138 mil pessoas, representa aqueles presos por problemas ligados a drogas; na maioria das vezes são casos que, com um pouco de boa vontade, um sobrenome "classe média alta" e um bom advogado, seriam vistos como consumo, não como tráfico.

Apesar dessa população carcerária em crescimento vertiginoso (lembre-se que há 20 anos haviam "apenas" 129 mil presos), apesar da polícia brasileira matar a esmo, nem a sensação de segurança aumentou, nem os números de crimes diminuíram. O que mostra como o Brasil é a maior prova da ineficácia brutal da política massiva de encarceramento.

Assim, quando as campanhas eleitorais começam, sempre há alguém a prometer maior número de vagas em cadeias, construção de mais presídios e, como se diz, uma política dura de "guerra" contra o crime. No entanto, seria o caso de insistir que esse encarceramento massivo é caro, burro e completamente ineficaz.

Se por volta de 60% dos encarcerados reincidem no crime, é porque as condições medievais das cadeias, a humilhação cotidiana e o contato com o crime organizado acabam por anular qualquer esperança de reorientação. É no encarceramento sistemático de sua população pobre que o Brasil demonstra sua verdadeira face totalitária.

Levando isso em conta, há de se lembrar que o Brasil não precisa de mais vagas nas cadeias. Ele precisa de menos pessoas presas. Na verdade, as autoridades do nosso país normalmente prendem quem não precisa e deixam solto quem deveria estar na cadeia.

Neste sentido, uma verdadeira discussão a respeito da descriminalização de drogas leves, nos moldes do que vimos ser feita de maneira corajosa no Uruguai, seria algo muito mais eficaz para encontrar respostas aos problemas prisionais do Brasil do que as velhas propostas que sempre ouvimos. Uma política massiva de transformação de penas em trabalhos comunitários e soluções alternativas seria, por sua vez, algo não apenas mais humano, mas simplesmente mais eficaz.

No entanto, como há uma parcela canina da população, que tem orgasmos quando vê o porrete da polícia acertar a cabeça de alguém que ela não conheça, colocar tal debate não é das coisas mais fáceis.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
O presidente da França, François Hollande, conseguiu. Era um páreo duro, pois havia concorrentes de peso como Nicolas Sarkozy e Jacques Chirac, mas o socialista conseguiu. Com 18% de aprovação, ele se tornou o presidente mais impopular da história da Quinta República, esse período republicano francês que começa em 1958.

A princípio, tal fato poderia ser apenas uma curiosidade hexagonal. No entanto, ele é um sintoma que expressa o desconforto com uma patologia maior a acometer a esquerda mundial, a saber, o transformismo.

Ninguém esperava de Hollande uma segunda Revolução Francesa com direito a enforcamento da nova nobreza encastelada no sistema financeiro. Afinal, antes de eleito, ele havia garantido aos investidores da City inglesa: "I'm not dangerous" (eu não sou perigoso, em inglês). Talvez poucos se tenham dado conta de como a social-democracia encontrara há anos seu grau zero.

Suas políticas econômicas não têm nada, mas absolutamente nada a oferecer de diferente em relação às receitas vigentes de "austeridade". A mesma ladainha a respeito da diminuição do "custo do trabalho" e dos "gastos públicos" (ou seja, precarização do trabalho, menores salários e bancos com lucros recordes).

A função dos partidos sociais-democratas resume-se, atualmente, a desmontar o sistema de seguridade social que eles próprios construíram há décadas, isso por meio de um reformismo infinito que parece terminar só na autoimolação dos trabalhadores.

Mas a inovação maior de Hollande –já que essa miséria do pensamento econômico de uma certa esquerda é vista desde, ao menos, os anos 90– foi a incorporação, sem complexos, dos temas mais racistas e xenófobos da direita europeia.

Prova disso é a nomeação de seu novo primeiro-ministro, o senhor Manuel Valls, alguém que como ministro do Interior era exímio patrocinador das milenares tradições da caça aos ciganos, um verdadeiro marco do Iluminismo. Seu discurso securitário, exaltador dos "valores nacionais" e brutalizado fez dele alguém muito mais popular entre os eleitores de direita do que aqueles de esquerda. Foi a ele que Hollande recorreu depois de ter levado uma das maiores surras eleitorais na eleição municipal de semanas atrás.

Com esse mimetismo ideológico e essa prova de ausência completa de ideário próprio, os eleitores franceses se perguntam por que não entrar logo com os dois pés na direita do tipo Front National (frente nacional, em francês), não por acaso o partido que mais cresce atualmente. Tudo isso demonstra que nada pior do que uma esquerda que tem medo de dizer seu nome.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Todos os anos você precisa pagar o IPVA do seu carro. Como o nome diz, trata-se de um Imposto de Propriedade sobre Veículos Automotores. Bem, um veículo automotor é, pasmem vocês, "aquele dotado de motor próprio".

Por exemplo, um carro de boi não pagará IPVA por não ter motor próprio: o motor é o boi, a saber, uma entidade ontologicamente a parte do aparato técnico de motricidade desenvolvido pelo saber humano. A bicicleta não pagará o imposto pela mesma razão, assim como o helicóptero do banqueiro, o jato particular do escroque e o iate do Naji Nahas.

 

"Assim como o helicóptero, o jato particular e o iate"? Sim. Você poderá procurar todos os meandros do saber jurídico, encontrar explicações surreais, como aquela que afirma que o atual IPVA substituiu a antiga TRU (Taxa Rodoviária Única), logo os veículos automotores que pagarão impostos são apenas aqueles colados no chão.

No entanto, a verdade é uma só: helicópteros, jatos particulares e iates não pagam IPVA porque, no Brasil, os ricos definem as leis que protegerão seus rendimentos e desejos de ostentação. Bem-vindo àquilo que economistas como o francês Thomas Piketty chamam de "capitalismo patrimonial": um capitalismo construído para quem ganha mais continuar a ganhar mais, a não precisar devolver nada para a sociedade, enquanto quem ganha menos é continuamente espoliado e recebe cada vez menos serviços do Estado.

Se os 20 mil jatos particulares e os 2.000 helicópteros que voam livremente no Brasil pagassem IPVA, teríamos algo em torno de mais R$ 8 bilhões. Esse valor é o equivalente a, por exemplo, dois orçamentos da USP. Ou seja, se aqueles que têm mais capacidade de contribuição simplesmente pagassem para ter seu singelo helicóptero o mesmo que você paga para ter seu carro, poderíamos financiar mais duas universidades com 90 mil alunos estudando gratuitamente.

Esse é apenas um dentro vários exemplos de como o Brasil se organizou para ser um país onde ser rico é um ótimo negócio. Um país que, só em 2014, deverá ter mais 17 mil milionários e nenhum deles pagando aquilo que você paga. Porque, aqui, quanto mais você sobe (de preferência de jato ou helicóptero), mais você é protegido. Isso pode parecer uma explicação primária, mas muitas vezes o óbvio é o que há de mais difícil a enxergar.

Como disse, não um esquerdista de centro acadêmico, mas o megainvestidor norte-americano Warren Buffett: "Quem disse que não há luta de classe? Claro que há, e nós estamos vencendo".
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Na semana passada, o colunista desta  Vinicius Torres Freire  minha defesa da cobrança do IPVA para embarcações de lazer e esporte, helicópteros e outras aeronaves privadas.

Aproveitando-se de uma imprecisão –que reconheço– a respeito do montante aproximado do valor arrecadado, ele termina por concluir que propostas dessa natureza seriam demagógicas e irrelevantes, pois desproporcionais a respeito da relação entre meios e fins. Melhor seria discutir o "crescimento do PIB", em vez de perder tempo a debater desigualdade econômica.

A meu ver, há uma compulsão de repetição que acomete o liberalismo brasileiro há muito, que consiste em mimetizar discursos pretensamente racionais para justificar os arcaísmos de nossa sociedade. Em vez de reconhecer o caráter insuportável de tais arcaísmos, eles preferem deixar isso de lado, prometendo encarar "coisas mais importantes".

Já no Império, o escritor José de Alencar, que se julgava expoente da elite pensante brasileira, criticava os que lutavam contra a escravidão por não perceberem a pretensa racionalidade econômica por trás de um fenômeno que, a seu ver, não deveria ser apenas julgado moralmente.

Chamar de "demagógica" a indignação por um motoboy pagar IPVA enquanto Eike Batista voa livremente em seu jato sem pagar nada é algo, a meu ver, similar.

Mas, bem, esperar que certas pessoas compreendam a justiça social como valor inegociável e, principalmente, fundamental para a coesão social talvez seja pedir demais. Esperar que essas mesmas pessoas entendam a desigualdade como um problema econômico maior por tirar o sentido do crescimento, já que impede à riqueza se transformar em bem socialmente partilhado, aí é quase esperar que elas andem de cabeça para baixo.

Por fim, lembro que o valor de R$ 8 bilhões que afirmei ser o montante do IPVA para helicópteros e jatos particulares, de fato, não estava correto. Peço desculpas aos leitores e agradeço ao colunista pela indicação. Dos meus muitos defeitos, nunca fez parte a vaidade de esconder erros.

Neste sentido, melhor trabalhar com o valor de R$ 5,8 bilhões, calculado pelo Sindifisco Nacional, resultante do IPVA sobre aviação executiva e embarcações de esporte e lazer, mesmo que possamos ampliar essa base ao agregar todas as 16.342 aeronaves privadas que nunca pagaram o imposto.

Agora, para alguns, R$ 5,8 bilhões dados de presente para os ricos deste país, em vez de usá-los para melhorar serviços públicos, é irrelevante. Para eles, US$ 1,25 bilhão para comprar a refinaria de Pasadena, nos EUA, talvez também o seja.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Diferentemente do informado na coluna  (Opinião - 22/04/2014 - 03h30), de Vladimir Safatle, publicada na versão impressa e no site da , a frota de jatos particulares do Brasil não é de 20 mil, mas, sim, de 1.206 aeronaves, segundo dados de 2012 da Anac. O dado se referia, na verdade, ao número total de aeronaves no país (jatos, monomotores, helicópteros etc.), que não pagam o Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Eis mais um capítulo do "Maravilhoso Livro Onde se Narram os Deleites de Ser Rico em Solo Brasileiro".

Em um estranho país, não muito distante daqui, quando as pessoas morrem e deixam heranças, seus descendentes precisam pagar impostos que, caso o indivíduo seja muito rico, podem chegar a 40% do valor total dos bens.

O raciocínio por trás da taxação pode ser compreendido até mesmo por um liberal. A partir de um certo limite, mesmo os defensores da chamada "meritocracia" reconhecem que deixar herança não passa de uma forma de perpetuar desigualdades e estimular a criação de uma classe parasitária de rentistas. Melhor usar esse dinheiro para financiar serviços públicos ou obrigar empresas a abrir fundações baseadas em filantropia.

Esse estranho país onde o Estado pode levar até 40% de sua herança não é uma república comunista que faria parte, juntamente com a Coreia do Norte, Cuba, Venezuela, Baal e Belzebu, do Império do Mal. Trata-se dos Estados Unidos da América, do qual suponho que todos já ouviram falar.

Já em terras brasileiras, o máximo que acontecerá é ter de pagar o Imposto sobre Transmissão, Causa Mortis e Doação (IPCMD) que varia de Estado a Estado, mas que normalmente não passa de 4%.

Aqui, nenhuma necessidade de abrir fundações e partilhar sua fortuna.

Dessa forma, o desenvolvimento produzido no Brasil não circulará, mas irá parar sempre nas mãos das mesmas famílias especializadas em "fazer negócios" (normalmente com benesses estatais) e passar heranças para seus filhos que poderão, se quiserem (e normalmente eles preferem que assim seja), viver de rendas explorando aluguéis de uma rede infindável de imóveis.

O Brasil tem um desafio decisivo para seu futuro: criar um segundo ciclo de políticas de combate a desigualdade por meio da consolidação de serviços públicos gratuitos e de qualidade.

Outros países latino-americanos passam atualmente por desafios semelhantes, como o Chile. O mesmo Chile que discute hoje como fazer os ricos e as grandes fortunas pagarem serviços para os mais pobres.

No entanto, os discursos eleitorais que atualmente circulam no Brasil, em vez de apresentarem propostas de como financiar mais escolas e hospitais públicos, parecem competir para ver qual é o mais amigável ao mercado e desconectado em relação ao descontentamento popular.

Talvez porque, entre os que pensam tais discursos existam pessoas que acham tão normal "viver de herança" que não passa pela cabeça deles que o país seria mais justo se adotasse práticas de partilha que já mostraram sua utilidade na história.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Ontem, descobri que estou em uma luta contra os pobres. Como eu não havia percebido isso antes?

Preciso me lembrar de agradecer ao jornalista Leandro Narloch e seu luminoso artigo, cujo singelo título é "Safatle contra os pobres", publicado ontem na seção Tendências/Debates.

É obvio, alguém como eu, que afirma ser absurdo um motoboy pagar IPVA de sua moto enquanto milionários não pagam nada parecido com seus iates e helicópteros, só pode lutar contra o verdadeiro interesse dos pobres.

Eu deveria ter dito: "Pobres deste grande Brasil, seu verdadeiro interesse é continuar trabalhando para iates não pagarem IPVA". Mas corria o risco de acharem que se tratava de uma peça de Bertolt Brecht e tudo iria por água abaixo.

Pois bem, juro que acreditava que nem os liberais mais ideologicamente envenenados defenderiam coisas parecidas, mas eu devia ter lembrado que o Brasil surpreende qualquer um. Ele certamente surpreendeu o compositor francês Jacques Offenbach, que compôs, no século 19, uma opereta chamada "La Vie Parisienne". Nela, Offenbach criou o personagem de um rico brasileiro que chega em Paris a fim de gastar uma fortuna em consumo conspícuo e despesas suntuárias. A ideia lhe veio à mente simplesmente observando os brasileiros ricos em Paris, que deixaram seus escravos trabalhando no café e o povo na miséria enquanto alguém estava nos jornais a defender seus interesses de classe.

Mas para não ficar muito evidente seu papel secular de escriba do gozo alheio, o sr. Narloch quis falar das virtudes do crescimento econômico.

Da minha parte, nunca disse ser contra o crescimento (embora compartilhe com os ecologistas a crítica a um produtivismo tosco que não se pergunta primeiro pela qualidade de vida e defesa ambiental). Afirmei que deveríamos colocar a questão: crescimento para quem? De nada adianta crescimento com concentração de renda, uma especialidade brasileira condizente com um mundo que retornou a padrões de desigualdade e acumulação dignos do século 19.

Mas faz parte do velho mantra liberal querer travestir a defesa da riqueza de alguns com as roupas do pretenso interesse de muitos.

Enquanto alguns saem em luta contra impostos sobre herança e aderem a campanha do "deixe meu jatinho em paz", as famílias brasileiras veem seus salários erodidos por gastos desproporcionais com educação, saúde e transporte privados.

Quem realmente se preocupa com tal situação pensa em como dar ao Estado mais capacidade de investimento nesses setores, inaugurando um novo ciclo das políticas de combate à desigualdade.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
O filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995) costumava dizer que algo novo nunca aparece de uma vez. Pois, quando se nasce, sempre se nasce frágil e titubeante, acostumando-se aos poucos com a situação na qual o recém-nascido se encontra pela primeira vez.

Por isso, o que é novo, para poder sobreviver, precisa revestir-se por um tempo com a capa do já visto. Assim, as forças que, no fundo, tudo fazem para deixar as estruturas intocadas não irão destruir o que acabou de nascer. Elas nem sequer perceberão sua singularidade, até que seja tarde demais para reagir.

Essa descrição de Deleuze era, na verdade, uma espécie de conselho que talvez seja a nossa versão contemporânea para as virtudes da prudência. O tipo do conselho de que sempre nos esquecemos quando agimos.

Na maioria das vezes, nossos desejos são maiores do que a nossa capacidade de preparar as nossas ações. Por isso, talvez, tantos projetos de transformação acabem abortados, muitas vezes por interesses de conservação do que já perdeu seu tempo, mas que faz de tudo para esconder dos outros que já está morto.

Acho que tal perspectiva vale, principalmente, para o que se passa agora no campo da política. Estamos em um momento que está apenas começando e exigirá toda nossa criatividade e paciência para a construção de novas experiências políticas.

Alguns gostariam de confiar na espontaneidade da revolta, mas como mostram os desdobramentos da Primavera Árabe no Egito, o entusiasmo por si só não garante a realidade de nossos sonhos.

Outros entendem que a potência do novo sempre traz no seu bojo novas formas de organização, mas permitir que tais novas formas não sejam destruídas em seu nascedouro nem sempre é fácil.

No que diz respeito ao campo das esquerdas, há de se dizer que ainda conseguiremos criar uma esquerda não dirigista, que não seja refém de interesses eleitorais comezinhos travestidos de necessidade histórica, que pare de usar o discurso do medo para esconder sua falta de capacidade de produzir futuros.

Uma esquerda que demonstre à sociedade não os seus conflitos internos ou as suas depressões seguras, mas, sim, sua força criativa. Uma esquerda que entenda como é impossível defender a transformação da experiência democrática na sociedade enquanto continua a ter as piores práticas no interior de certos aparelhos partidários. Pois ninguém confiará em alguém incapaz de fazer na própria casa aquilo que se propõe a fazer na casa dos outros.

Há uma juventude combativa e dinâmica que sabe isso e que aprendeu a não se contentar com pouco.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Um terremoto nem sempre é percebido quando ocorre. Não porque ele seja fraco, mas porque é próprio da natureza de certos homens e mulheres querer acreditar que as dificuldades de hoje apenas repetem as dificuldades de ontem e que, sendo assim, não devemos nos preocupar mais hoje do que ontem. A força de um terremoto, no entanto, ocorre mesmo a despeito do desejo de negá-la.

Dessa maneira, há de se dizer: um terremoto ocorreu na Europa no último domingo (25). Nunca em sua história uma eleição para o Parlamento Europeu foi tão dominada por partidos de extrema direita. Antes, ela ganhara eleições em países menores, como na Dinamarca e nos Países Baixos, e participara de governos, como na Itália e na Áustria. Mas a extrema direita nunca fora vitoriosa de maneira tão clara em países absolutamente centrais, como agora o foi no Reino Unido e na França.

Agora, partidos racistas e xenófobos, com programas claramente protofascistas, influenciarão como nunca a política europeia. Não devemos imaginar que a eleição do último domingo foi um ponto fora da curva. Na verdade, ela foi apenas o começo.

As marchas contra o casamento homossexual, a islamofobia medieval, o recrudescimento da "identidade nacional": todos esses fenômenos são sintomas de uma bem-sucedida estratégia de mobilização do medo como afeto central da política que veio para ficar. Medo do fim das "nossas tradições e formas de vida", medo da insegurança, medo da pauperização.

A raiva contra as decisões impessoais dos tecnocratas opacos de Bruxelas se transformou em ódio contra o vizinho imigrante com suas pequenas diferenças. O continente europeu parece, mais uma vez, incapaz de sair de suas crises sem que sua impotência em construir alternativas econômicas se transforme em pânico paranoico contra populações que vivem em seu território.

Depois dessa eleição na Europa, discursos preconceituosos –até então feitos entredentes– circularão sem receios, ações que muitos temiam fazer a céu aberto serão cada vez mais banais, violências contra populações mais vulneráveis serão vistas como ações de autodefesa.

Muitos são os responsáveis por tal catástrofe, mas mesmo quando governos ditos de esquerda se esmeram em agir com a lógica securitária da extrema direita, chega um momento em que as pessoas irão preferir escolher o original.

A ausência de coragem da social-democracia europeia em quebrar de vez com a política de brutalidade identitária herdada de seus antecessores será certamente um das maiores dívidas que a história cobrará de seus líderes enfraquecidos e sem rumo.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
A  desta segunda-feira (2) deu destaque à informação de que, segundo critérios do Prouni, 64% dos alunos de graduação da USP deveriam estar a pagar mensalidade. Dentro dessa lógica, alunos vindos de famílias que ganham entre cinco e dez salários mínimos deveriam pagar 50% do valor da mensalidade, enquanto aqueles cuja família tem renda maior do que R$ 7.240 deveriam pagá-la integralmente.

A reportagem vem no momento em que a universidade volta a estar em greve devido ao congelamento de salários, a suspensão de contratações e aos cortes em pesquisa, intercâmbios e gastos administrativos. Há algum tempo, nosso novo reitor afirmou que 105% do orçamento é gasto com pessoal, o que dá à opinião pública a impressão de que a situação de crise seria resultante da USP ter se tornado alguma forma de "cabide de empregos".

No entanto, uma discussão mais honesta sobre o assunto deveria começar por se perguntar sobre o que de fato aconteceu nesses últimos anos. Pois durante anos você abriu os jornais e viu fotos de estudantes e professores se manifestando por uma universidade mais transparente e de gestão democrática.

Enquanto isso, vários segmentos da imprensa aplaudiam a antiga reitoria, comandada por alguém que gostava de se ver como um "xerife" a colocar ordem em terra comandada por vândalos. Hoje, descobrimos que por anos a universidade teve uma gestão financeiramente irresponsável sem que ninguém se perguntasse se era realmente prioritário construir tantos prédios, abrir escritórios em Cingapura, alugar imóveis fora do campus, entre tantas aberrações.

Por isso, antes de qualquer discussão, seria muito mais honesto exigir com você, contribuinte que paga a universidade com seus impostos, uma auditoria pública feita por órgão independente a fim de realmente saber como o rombo foi feito e responsabilizar quem deve ser responsabilizado. Antes disso, qualquer ilação parecerá um jogo para empurrar nas costas dos professores e funcionários problemas gerados por outros.

Sobre a eterna questão das mensalidades, há de se lembrar que, se quisermos falar em justiça social, deveríamos ser um pouco mais radicais.

Se há gente a achar que a parcela mais rica da população deve pagar pelo ensino universitário, eles deveriam parar de olhar para essa classe média e essa classe média baixa pauperizada por gastos crescentes com aluguéis, transporte, saúde e educação. Seria mais correto taxar a renda e os bens dos realmente ricos deste país, utilizando o dinheiro para financiar nossa universidade ou criar uma CPMF da educação, deixando a classe média e a média baixa em paz.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
A coluna  (Opinião - 03/06/2014 - 02h00), de Vladimir Safatle, foi publicada com o título errado. O erro já foi corrigido.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
A ideia parecia perfeita. Depois de 12 anos de continuidade com programas importantes de transferência de renda, que levaram 32 milhões de brasileiros à classe média, o Brasil estaria em condições de mostrar ao mundo sua nova imagem. Seria a consagração do país diante do cenário internacional.

Mostraríamos um Brasil alegre, orgulhoso de si mesmo, onde empreiteiras e trabalhadores cantam de mãos dadas o hino nacional e se veem como sócios em um novo e radiante momento de desenvolvimento. Publicitários estariam a postos para mobilizar afetos de superação entre um gole e outro de Coca-Cola. Só sorriso no ar.

Essa era a verdadeira função da Copa do Mundo: completar a narrativa política da transformação nacional apelando ao acolhimento do olhar estrangeiro.

Bem, o problema é que não teve Copa. Houve jogos, um campeão, estádios em Brasília, Cuiabá e Manaus, mas não houve Copa. Não apenas porque apareceu uma outra imagem do país: essa da nação que se estagnou em um ponto no qual o desenvolvimento não consegue se transformar mais em qualidade efetiva de vida. Ponto no qual operários são mortos em construção como algo que, nas palavras de Pelé, "acontece mesmo", quase como uma lei da natureza. Na verdade, não houve Copa do Mundo porque o povo brasileiro saiu do lugar.

Ele tinha um lugar previamente definido. Sua função era celebrar e aclamar. Com casas pintadas de verde e amarelo e, como se diz, com "alegria contagiante", o povo brasileiro deveria abraçar seu novo lugar no mundo. Mas algo saiu definitivamente do lugar. O enorme aparato policial-militar montado para impedir que o povo saia da coreografia da felicidade imposta e a brutalidade governamental contra grevistas, como vemos mais uma vez em São Paulo, tudo está aí para não deixar negar. Não, o povo brasileiro não está feliz, pois se sente como alguém que teve sua paixão usada por outros.

Sinal dos tempos.

No chamado "país do futebol" pela primeira vez uma Copa do Mundo não trará dividendos políticos, mas mostrará uma população consciente da tentativa de espoliar seus sonhos. População cuja revolta pode explodir a qualquer momento, da forma mais inesperada possível, mesmo que seja governada por pessoas que nada mais têm a oferecer a não ser a polícia.

Algo mudou de maneira profunda, mas os publicitários, estrategistas e políticos não perceberam. Não há grande evento que consiga esconder o desencanto de um povo.

Por isso, nada mais honesto do que dizer: não teve Copa. E quem mais ganhou com isso foi o Brasil.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Na esteira das discussões a respeito da pertinência de se cobrar mensalidades na Universidade de São Paulo, mais debates apareceram a respeito de nossas universidades públicas em outras partes do Brasil. Alguns deles se colocaram sob o signo de clamores de "justiça social", tentando passar a ideia de que nossas universidades públicas seriam espaços de espoliação do dinheiro do Estado pela elite.

Contra essa pretensa espoliação, não se apresentam novas formas de financiamento para assegurar a gratuidade e o maior número de vagas. Ao contrário, com esses amálgamas, só mesmo possíveis no mundo invertido do liberalismo brasileiro, procura-se passar a ideia inacreditável de que universidades pagas seriam socialmente mais justas. Essa ideia, no entanto, não tem sustentação alguma.

Segundo esta mesma  informou, algo em torno de 60% dos estudantes da Universidade de São Paulo vêm de famílias que ganham até dez salários mínimos (ou seja, até R$ 7.240). Digamos que essa "elite" devesse pagar mensalidades de R$ 2.000 por aluno matriculado na universidade. Para alguns, "justiça social" significa tal família ser obrigada a pagar quase 30% de seus salários para que seus filhos estudem em uma universidade pública.

Imagine se essa família, ou mesmo uma família que ganhe R$ 10 mil, tiver dois filhos estudando em universidades. Como no Chile de hoje, ela deverá escolher um dos filhos para seguir na vida acadêmica. Um belo exemplo de justiça.

Neste ano de eleição, colocar tal tema em pauta mostra a inanidade de nosso debate político atual. Ela mostra também o quanto a classe rica deste país está disposta a fazer para defender seus rendimentos. Deveríamos estar debatendo formas de taxar os realmente ricos para financiar melhor as nossas universidades públicas. Países como o Uruguai, que conseguiram conservar sua educação pública, têm impostos exclusivos para a educação.

No entanto, estamos a debater como espoliar a classe média para evitar usar a capacidade de contribuição dos muito ricos para financiar nossos serviços públicos.

Uma universidade como a USP representa 25% de todas as pesquisas feitas neste país, mesmo sendo administrada de maneira, no mínimo, temerária, como mostraram os resultados da nossa última reitoria. Muitos gostariam de impedir o Estado de financiar tais pesquisas submetendo-as aos interesses imediatos do mercado, transformando-nos em pesquisadores pagos por indústrias farmacêuticas, multinacionais, empreiteiras, bancos e outros amantes do saber desinteressado.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Nesta quarta-feira (25), a morte de Michel Foucault completará 30 anos. Um dos mais influentes filósofos da segunda metade do século 20, Foucault produziu uma obra inovadora por seu método e por seus objetos. Obra cuja influência só aumentou desde sua morte, chegando hoje à condição de incontornável.

Não há setor das ciências humanas, da filosofia à história, da crítica literária aos estudos de comunicação, do direito à sociologia no qual não encontraremos problemas foucaultianos em operação. Na verdade, Foucault se transformou em um desses autores cujo desconhecimento implica divórcio profundo a respeito dos modos de pensamento que marcam nossa época. Quer dizer, desconhecer Foucault é estar exilado de nosso próprio tempo.

De fato, Michel Foucault conseguiu produzir dois feitos notáveis: complexificar nossa compreensão a respeito dos mecanismos de funcionamento do poder e injetar uma desconfiança profunda a respeito do pretenso realismo de conceitos e práticas científicas, em especial no campo das ciências humanas e das práticas clínicas.

Como se não fosse o bastante, seus últimos trabalhos compõem uma reflexão sistemática a respeito de um modo de autonomia e governo de si que abre caminhos para a reflexão ética distantes daqueles que a filosofia moderna conheceu, com sua fixação pelas figuras jurídicas da lei, do tribunal e da norma universalizável. Dessa forma, nasce uma experiência filosófica na qual epistemologia, ética e teoria social caminham de forma compacta.

Foi Foucault quem mostrou, de maneira mais sistemática, que nada entenderemos do poder enquanto o pensarmos a partir da temática da dominação das vontades, ou seja, o exercício do poder como sobreposição de uma vontade à outra. A verdadeira dimensão decisiva do poder se encontra nas disciplinas que sujeitam a todos por meio de instituições como a família, as prisões, as escolas, empresas, o Estado.

Tais disciplinas não são fruto da vontade de uma classe ou de um grupo. Elas resultam, na verdade, de uma vontade de saber que, ao mesmo tempo, nos sujeita e nos constitui. Ela está presente em nossos discursos científicos e na maneira por meio da qual eles moldam nossas vidas, organizam nossos conceitos de saúde e de doença, de sexualidade, de normalidade e de patologia, de regra e de desvio.

Dessa forma, Foucault deu instrumentos para que nossa época desenvolvesse sua capacidade de suspeita e desconfiança em relação a suas próprias ideias de progresso e de esclarecimento. Por isso, ele será sempre um dos nossos mais claros contemporâneos.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Aqueles dispostos a permanecer de esquerda e defender o governo federal deveriam pensar melhor sua maneira de compreender as críticas feitas à Copa do Mundo. A tentativa de desqualificar toda crítica a partir do clássico sintagma "você está fazendo o jogo da direita" deveria ser motivo de vergonha. Tal argumentação estratégica só aparece quando não é mais possível utilizar raciocínios realmente programáticos.

Muitas das críticas mostraram com clareza como tais grandes eventos esportivos são um presente envenenado por potencializar um modelo de desenvolvimento excludente. Remoções brutais de populações, estádios construídos em condições deploráveis de trabalho, cidades atravessadas por megaprojetos feitos a partir da lógica da rentabilização máxima da especulação imobiliária, relações incestuosas entre recursos públicos e interesses de pequenos grupos de grandes empresários, incompetência gerencial feita expressamente para ajudar empreiteiras a lucrar mais: esta foi a mesma história encontrada na África do Sul, no Brasil e, certamente, será repetida na Rússia.

Nos primeiros dois casos, ela conta como antigos grupos de esquerda, tais quais o partido CNA (Congresso Nacional Africano) sul-africano e o PT brasileiro, naturalizaram o fato de se transformarem em parceiros privilegiados da hiper-rentabilização do capital por meio do esporte. Hiper-rentabilização comandada por uma entidade eivada até a medula por acusações pesadas de corrupção.

Como se não bastasse, é triste não estranhar mais que uma política que se veja de esquerda abrace sem complexos a dinâmica anestesiante da sociedade do espetáculo.

Parece o sintoma mais acabado de falência ideológica usar megaeventos como dispositivo de mobilização nacional. Tentar reeditar luta de classes por meio da defesa da Copa do Mundo é uma situação patética que alguns defensores do governo deveriam nos poupar. Mais um pouco e teremos gente que se dizia de esquerda gritando: "Brasil, ame-o ou deixe-o".

Enquanto isso, temos pessoas que são presas como criminosos por participarem de protestos e funcionários públicos que são demitidos por utilizarem a visibilidade da Copa a fim de organizarem greves cuja função era expor suas péssimas condições de trabalho. Seria bom nos atentarmos primeiramente para eles neste momento.

Eles não procuravam "estragar a festa" da população, mas lembrar que há muita gente que não foi convidada para dela participar.

A esquerda morre quando negocia sua força crítica por alguns ingressos de futebol.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Há meses o governo federal procura apresentar uma Política Nacional de Participação Social. Ela visa, como diz o projeto de lei, "fortalecer e articular os mecanismos e as instâncias democráticas de diálogo e a atuação conjunta entre a administração pública federal e a sociedade civil". Essa foi a maneira que o governo encontrou para tentar responder à consciência da necessidade de uma reinvenção democrática capaz de nos retirar das imperfeições e limites da democracia representativa.

De fato, não há tarefa mais urgente do que criar as condições para que a política deixe de ser necessariamente pensada sob o signo da "representação". Ou seja, trata-se de parar de acreditar que apenas aquilo que pode ser representado deve ter direito à existência política. Pois a representação política não é a organização, em escala reduzida, da diversidade da vida social. Ela é simplesmente a organização mais adequada ao jogo de forças e aos ditames hegemônicos do nosso momento histórico. O que explica a verdade desses momentos nos quais populações afirmam que as representações são, no fundo, muito pouco representativas.

Nesse sentido, muito haveria a se avançar no projeto tímido de participação popular, que se exime de tocar, de maneira efetiva, no funcionamento geral da representação política. É importante que ele seja discutido sem repetir as críticas absurdas, que apareceram nas últimas semanas, contra a própria ideia de participação popular. Para alguns, quanto menos povo, mais democracia. Quanto mais a vontade popular estiver amordaçada a processo de representação e controlada pelas imperfeições do presente, melhor.

Na verdade, há de se insistir que a verdadeira participação popular não pode ser apenas consultiva, mas deliberativa, com poder de veto em relação aos outros poderes e, principalmente, com capacidade de gestão. Faz parte da democracia representativa nos fazer acreditar que decisões racionais só podem sair da "tecnocracia" ou de detentores do discurso da competência gerencial. O Brasil deveria servir de melhor exemplo para a natureza falaciosa dessa afirmação, já que a "racionalidade" dessas pessoas é do tamanho de viadutos que caem, de metrôs tomados de assalto por corrupção, de rios que nunca são despoluídos etc.

Na verdade, decisões realmente racionais só aparecerão quando formos capazes de realmente escutar a inteligência prática de professores, enfermeiras, metroviários, médicos que estão efetivamente envolvidos no cotidiano do que foi, normalmente, mal planejado por algum tecnocrata ou consultor com fórmulas mirabolantes. Essa recuperação política da inteligência prática é um dos nossos maiores desafios.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Não serei o primeiro a lembrar que, dentre os vários legados da Copa do Mundo, um dos mais duradouros será certamente a ampliação da zona de suspensão de direitos. O Brasil já era conhecido por seu histórico de violência policial, de desrespeito aos direitos civis e pela proximidade entre bandidos e a polícia. Nesta Copa do Mundo, a despeito da segurança contra manifestações políticas, tal processo chegou muito próximo da perfeição.

Enquanto todo o mundo se preparava para ver a final entre as seleções da Alemanha e da Argentina, a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro mostrava, na praça Saens Peña, porque tem a palavra "militar" em seu nome.

Transformando praça pública em verdadeiras praças de guerra nas quais pessoas ficaram confinadas por horas à força, espancando jornalistas, moradores, advogados e ativistas de maneira indiscriminada –ao menos nisto eles são democráticos– e prendendo por "formação de quadrilha" pessoas cujo maior crime foi manifestarem-se politicamente, as "forças da ordem" conseguiram impor um padrão de excelência em matéria de indistinção entre democracia e passado ditatorial.

Já em São Paulo, a ocasião de manifestações para a liberação de pessoas presas por estarem protestando, em vez de ficarem em casa vendo a gloriosa campanha da nossa grandiosa "famiglia Scolari" em sua luta renhida e emocionante contra os teutônicos, a polícia havia mostrado quão pouco realmente se deixa intimidar por certas "ideias abstratas", como respeito ao direito popular de contestação e às garantias constitucionais. Neste ponto, a Fifa fez bem em escolher países como o Brasil e a Rússia para sediar a Copa do Mundo. O nível da política de segurança interna dos dois países é, hoje, praticamente o mesmo.

O problema, como costumava dizer o filósofo italiano Giorgio Agamben, é que práticas de exceção, quando aparecem devido a situações, digamos, excepcionais (como Copas, Olimpíadas, uma invasão de argentinos, guerras ou catástrofes naturais) não desaparecem mais. Elas vão se tornando uma espécie de jurisprudência muda, que pode existir nas entrelinhas, sem precisarem ser claramente enunciadas para serem efetivamente seguidas.

Assim, ao ritmo de Copas do Mundo e Jogos Olímpicos, o Brasil joga fora suas máscaras para mostrar a mais clara ausência de complexo em relação a seus arcaísmos. Mas, para um país que conseguiu, no século 19, o feito de ser, ao mesmo tempo, liberal e escravocrata, qual, afinal, é a dificuldade em ser, agora, democrático e com uma polícia fora da lei?
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Jake Tapper é jornalista da CNN norte-americana.

Ao entrevistar uma representante da Autoridade Palestina, não lhe veio ideia melhor à cabeça do que acusar os palestinos que morrem atualmente em Gaza de serem possuídos por uma "cultura do martírio", expressa por eles pretensamente se deixarem matar enquanto suas cidades são devastadas.

Sim, Jake, você deve ter razão, palestinos não passam de fanáticos irracionais, cuja única razão de existência é obrigar perversamente os ocidentais a saciarem seu estranho desejo de martírio.

Enquanto Jake desfilava seu racismo sem complexos, o governo francês impedia sua população de se manifestar contra a mais recente ação de punição coletiva do governo israelense contra os palestinos.
O argumento era que a última manifestação teve confrontos na frente de uma sinagoga envolvendo manifestantes e uma autonomeada Frente de Defesa Judaica (FDJ).

Difícil, neste caso, não lembrar de outra proibição, ocorrida na Inglaterra anos atrás.

Na ocasião, a BBC resolveu produzir uma campanha pedindo donativos para as vítimas de Gaza. No entanto, a mobilização foi vetada. Certamente porque, para a cúpula da emissora, ter compaixão por palestinos já é ser cúmplice do terrorismo internacional. Manifestar-se contra ações militares em um território transformado, segundo o próprio primeiro-ministro britânico, David Cameron, em "campo de concentração", deve ser algo da mesma natureza.

Tudo isto demonstra como os palestinos são o verdadeiro sintoma da hipocrisia internacional. Já temos mais de 400 mortos, quase um quarto de crianças, e preferimos não apelar ao "direito de ingerência humanitária", que permite ignorar soberanias nacionais em caso de catástrofes humanitárias ou lutar por campanhas de boicotes econômicos contra o governo israelense.

Talvez porque os palestinos já foram há muito retirados de sua humanidade. Para uma certa opinião internacional, eles morrerem é algo tão natural quanto as marés. Outros choram lágrimas de silicone ao afirmar que os dois lados estão envoltos em uma "espiral de violência".

No entanto, não há simetria alguma nesta situação.

Os palestinos tem seu território invadido há décadas em flagrante violação de direito internacional. Hoje sua condição é de milhões de apátridas, desprovidos de qualquer direitos, segregados, vivendo em bantustãs sem cidadania ou sequer um reles passaporte.

Mas, afinal, como dizem alguns que escreveram nesta , os palestinos sequer seriam um povo. Ou seja, eles já foram exterminados simbolicamente. Só falta exterminá-los efetivamente.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Daniel Barenboim não é apenas um dos músicos mais completos da atualidade; pianista e maestro com interpretações maiores. Na verdade, Barenboim é um homem de rara coragem e visão, capaz de atitudes políticas de forte significado. Judeu argentino, o músico é atualmente cidadão palestino e israelense e, por atos políticos desta natureza, sua voz deveria ser mais ouvida no momento atual.

Há alguns dias, ele escreveu um impressionante artigo, "Podemos viver juntos", no qual lembrava que nunca haverá solução militar para o conflito Israel-Palestina.

Ações como as que vemos atualmente não levarão a aumento algum da segurança de Israel, nem destruirão o Hamas. Por isto, diz Barenboim: "Não faz sentido que Israel se recuse a negociar com o Hamas ou que se recuse a reconhecer o governo de unidade; não, Israel deve escutar os palestinos que estão dispostos a falar a uma só voz".

Claro que alguns dirão: "Mas como negociar com alguém que não reconhece seu direito de existência?". Se assim fosse, não haveria razão alguma para os palestinos negociarem com um governo israelense comandado pelo Likud, partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Em seu programa, o Likud simplesmente não reconhece o direito de existência de um Estado palestino a oeste do rio Jordão. No entanto, os palestinos negociam com representantes de um partido que nega seu direito de existência.

Sim, mas como negociar com "terroristas"? Esta era, vejam vocês, a mesma pergunta feita pela administração colonial britânica na Palestina, referindo-se a grupos judaicos de luta armada atuantes nos anos 40, como Irgun, Stern e Haganá. Tanto foi assim que os britânicos sequer votaram a favor da criação do Estado de Israel.

"Terrorista" foi também a palavra usada por Albert Einstein e Hannah Arendt em carta ao "New York Times" (4/12/1948) para se referir ao futuro primeiro-ministro de Israel, Menachen Begin, líder do futuro Likud. Mas, se há algo que a história das lutas de ocupação (Argélia, Vietnã, Irlanda etc.) nos ensina, é: chega uma hora em que você terá que negociar com os "terroristas". Foi isso que a Inglaterra fez com o IRA (Exército Republicano Irlandês), e será isso que, um dia, Israel terá que fazer com o Hamas.

Não é o caso aqui de justificar o Hamas. Trata-se de um grupo que representa o que há de pior no mundo árabe, com um projeto autoritário, destrutivo e demente de sociedade religiosa. Mas seu destino será, provavelmente, o mesmo de grupos muçulmanos como a Irmandade Muçulmana ou o Nahda tunisiano: serão expulsos do poder pelo próprio povo que eles julgam representar. Mas para tanto, o governo de Israel deveria começar por parar de dar a ocasião perfeita para eles posarem de mártires.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"Bem-vindos ao Tucanistão, a terra da plena felicidade. Vocês acabam de desembarcar no aeroporto internacional que leva o nome do fundador de nossa dinastia, governador de nossa terra há 32 anos. Desde então, nossa amada dinastia está presente no coração de nosso povo de maneira praticamente ininterrupta.

Em nossos planos, haveria um Expresso Bandeirante que ligaria o aeroporto ao centro de nossa capital por trens rápidos. Ele não saiu do papel, mas isso não importa. Isso permitirá vocês passarem de carro lentamente pelo mais novo campus de nossa grande universidade, que leva o nome de nosso Segundo grande líder. No momento, ela está falida, com um deficit de 1 bilhão de reais produzido depois da passagem de um interventor nomeado pelo nosso Quarto grande líder. O próprio campus está sem aula por ter sido construído em terreno contaminado, mas tudo isso também não importa.

Depois do campus, vocês conhecerão o caudaloso rio Tietê. Há décadas ele está sendo despoluído. Grandes especialistas internacionais garantem que seu nível de poluição está caindo, mas ainda demorará algumas décadas para que os incautos sejam capazes de enxergar tal maravilha. Por falar em água, estamos passando atualmente por um "estresse hídrico de proporções não negligenciáveis", mas não se preocupem. Como disse uma rainha francesa: quem não tem água que tome suco.

Se vocês olharem mais à frente verão nosso maravilhoso metrô cruzando velozmente nossa marginal. Não se deixem impressionar pelo fato de ele ser menor do que o de cidades como Santiago, Buenos Aires ou Cidade do México. Nós amamos nosso metrô do jeito que ele é, mesmo que inimigos tenham espalhado a informação de que investigações na Suíça e na França descobriram esquemas milionários de desvio e superfaturamento. Todos sabem que nossa dinastia é incorruptível. Se algo aconteceu, nosso Terceiro-Quinto grande líder não sabia de nada.

Não se espantem também com o tamanho dos muros e aparatos de segurança. Nossa polícia, que mata mais do que toda a polícia norte-americana junta, um dia conseguirá dar conta de todos esses bandidos. Nosso Terceiro-Quinto grande líder está pessoalmente empenhado nisso.

Alguns podem se impressionar com o fato de tanto fracasso não abalar nosso amor por nossa dinastia. É que eles ainda acham que devemos avaliar nosso líderes por aquilo que eles são capazes de fazer, mas nós descobrimos o valor do amor incondicional. Nós os amamos porque... nós os amamos. Por isso, nossa terra é o lugar da pura felicidade. O Tucanistão é a locomotiva do progresso imaginário, alimentada por choques tortos de gestão."
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
A Universidade de São Paulo está em greve desde o fim de maio. Se lembrarmos que no final do ano passado ela também estava em greve, chegaremos a duas longas greves em menos de um ano. Ou seja, vivemos em situação constante de crise.

Além de formar 92 mil alunos, a USP representa 25% de toda a pesquisa produzida pelo Brasil. Como sabemos que não há desenvolvimento sem criatividade e tecnologia, não haverá futuro para o Brasil sem passar pela discussão aprofundada sobre qual o destino de sua principal universidade e centro de pesquisa. No entanto, em pleno ano eleitoral, a última coisa da qual os candidatos a governo do Estado falam é sobre a crise das universidades paulistas.

A USP passa por uma situação bastante conhecida de todo brasileiro: uma instituição administrada de forma opaca que, no momento de modernizar-se, luta com todas suas forças para preservar seus arcaísmos. Agora, há um embate a respeito da natureza deste arcaísmo. Nosso reitor tem usado seu tempo para ir a imprensa e falar de regimes de trabalho arcaicos, profissionais acomodados, máquinas administrativas inchadas, entre outros. Para o cidadão, fica a parecer que a universidade tem atualmente um deficit de R$ 1 bilhão porque ela sustenta uma classe de funcionários semi-ociosa e atrasada.

No entanto, talvez seja mais correto afirmar que estamos em franco declínio porque somos administrados por pessoas que não se responsabilizam pelos seus próprios fracassos. Nossa atual reitoria fez parte da antiga reitoria, a mesma que deixou como legado a conhecida catástrofe orçamentária. Mas, em meio a um processo de construções de prédios sem recursos, abertura de escritórios de representação em Cingapura, Boston, Londres e gasto irresponsável do dinheiro público com projetos agora abandonados, tudo o que nossa burocracia universitária responde atualmente é: "Eu não sabia". Ou seja, ninguém sabia, ninguém viu. Pobre dinheiro público, administrado de tal forma.

Em qualquer lugar do mundo, isso levaria a sociedade a se perguntar sobre se nossa administração universitária é, de fato, adequada para os desafios que o Brasil se deu, se não seria o caso de repensar radicalmente a maneira com que nossas universidades são administradas, modernizá-las ouvindo sua comunidade e reformar nossas instituições. Ou seja, a sociedade poderia conhecer os modelos de administração universitária em outras partes do mundo e se perguntar porque o nosso não é adotado por praticamente ninguém. Mas aqui, por enquanto, só temos silêncio, cortes de pontos de funcionários e um governo do Estado que produziu a crise (pois impôs o reitor responsável por ela) e se finge de morto.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Todo brasileiro reconhece que educação e pesquisa são nossos problemas mais decisivos. Por isso, a sociedade tem o direito de formar sua opinião a respeito do que acontece em seu mais importante centro de pesquisas e formação a partir do maior número de dados possíveis. A solução da crise pela qual passa a Universidade de São Paulo exige um debate público e aberto a respeito das responsabilidades do estado brasileiro e de seus entes federados.

No entanto, há de se reconhecer que a sociedade não tem recebido as informações necessárias para criar um quadro claro a respeito das causas da situação difícil pela qual a USP passa atualmente. Como se costuma dizer, números não mentem.

Nos idos de 1989, a USP tinha 31.897 alunos de graduação, além de 8.486 mestrandos e 4.428 doutorandos.

Em 2012 este número era 58.303 alunos na graduação (aumento de 83%), além de 13.836 mestrandos (aumento de 63%) e 14.662 doutorandos (aumento de 231%). Só entre 1995 a 2012, a universidade passou de 132 cursos oferecidos a 249, contabilizando um aumento de 88,6%, com toda a necessidade de investimento em infraestrutura para tais cursos novos. O que não deveria nos estranhar, já que, neste período, a universidade incorporou ou criou campi como os de Lorena, Santos e a USP Zona Leste.

Agora, e isto deve ser realmente sublinhado, mesmo com tal ampliação substantiva, o número de professores no mesmo período cresceu apenas 4%, passando de 5.626 a 5.860, ou seja, praticamente nada. Mas o mais impressionante é que o número de funcionários simplesmente caiu (sim, caiu) 5%, passando por sua vez de 17.735 a 16.839.

Dessa forma, a relação aluno/professor aumentou de 8 por 1 para 15 por 1 neste período, o que está longe de configurar uma instituição "inchada", como nos foi sugerido.

Só a título de comparação a relação aluno/professor em Harvard é 7 por 1. A Universidade Católica do Chile teria passado a USP em certos rankings internacionais exatamente por ela ter uma relação aluno/professor menor. Com o congelamento da contratação de novos professores, a situação será ainda pior.

O que se tira disto é que os professores e funcionários da universidade precisam responder por mais atividades com um salário que, comparado ao recebido em 1989 por um docente, teve o seu poder de compra reduzido em 9,5%.

Estes números demonstram que a USP tornou-se uma universidade de massa em plena expansão sem ter recebido do Estado as condições para tanto. Ela é apenas um capítulo a mais da demissão do Estado em relação à educação pública.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Em sua coluna desta segunda-feira (25), Gregorio Duvivier levantou um tema de grande relevância a respeito dos embates eleitorais brasileiros, a saber, o conservadorismo das pautas ligadas a costumes. A seguir as declarações ou o silêncio covarde da maioria de nossos políticos, tem-se a impressão de habitarmos o século 19. Mesmo comparado a seus vizinhos, como Uruguai e Argentina, o Brasil parece em vias de se transformar em um país exemplar no quesito arcaísmos sociais.

Isto não deveria nos impressionar. Um dos espaços fundamentais de atuação do poder é o aparato jurídico que regula os corpos, desejos e sexualidade de seus cidadãos.

Como nos lembram filósofos como Michel Foucault (1926-1984) e Judith Butler, 58, trata-se de decidir que tipos de vidas podem ser vividas, como elas devem ser vividas e quais, ao contrário, serão excluídas como inumanas, "não-naturais", aberrantes.

Por exemplo, quais serão as formas de vida afetiva garantidas pelo direito e quais serão aquelas que o direito não reconhecerá, tratando-as como juridicamente inexistentes. Quais serão as substâncias que posso aplicar a meu corpo, ingerir, tragar e quais serão as que não posso. Que roupa posso usar, quem decide sobre o que se passa no corpo de uma mulher.

A possibilidade de viver de outra forma (e mesmo de morrer de outra forma como, por exemplo, por decisão própria) é vista por alguns como a pior de todas as afrontas, a mais perigosa das sedições políticas. Por isso, uma questão política central diz respeito à visibilidade desta plasticidade própria à vida social.

Uma das formas de coibir tal visibilidade consiste em criar um regime peculiar de permissividade no interior do qual a distinção entre o permitido e o proibido funcionará de maneira flexível.

Por exemplo, um país autoritário não é necessariamente aquele que impede seus cidadãos de fazerem certas práticas. Todos nós sabemos que o aborto é legal no Brasil. Todo mundo conhece o endereço de uma clínica de aborto, inclusive a polícia, e se a filha adolescente do deputado conservador engravidar sem querer ele será o primeiro a aparecer por lá. O que é proibido no Brasil é reconhecer tal prática. Proibido é dar visibilidade, é quebrar o discurso consensual, ao menos na classe política. Assim, o autoritarismo encontra-se no fato de aceitarmos a lógica do: "pouco importa o que você realmente faz, desde que você continue a falar e dar a impressão de agir como quem defende nossos 'valores'".

Desta forma, o Brasil conseguiu protagonizar o espetáculo deprimente de uma política que não cria nem produz mudanças, mas repete compulsivamente os arcaísmos de sua sociedade.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Pouco antes de morrer, o presidente francês François Mitterrand ouviu de um jornalista: "Qual a principal virtude de um governante?". Sua resposta: "A indiferença". O jornalista não conseguiu esconder seu espanto, no que Mitterrand completou dizendo que aqueles que se deixam tocar por tudo não são capazes de pensar, operar escolhas difíceis, calcular a longo termo. Para bem governar, deveríamos saber cultivar certa insensibilidade.

Essa resposta parecia conter sabedoria, mas na verdade continha apenas covardia. Pois o bom governante, aquele disposto a operar transformações reais, é, ao contrário, capaz de sentir o que a maioria da sociedade não quer sentir.

Não há sociedade sem exclusão e violência contra quem não tem força nem amparo nas normas e procura viver de outra forma. Por isso, a verdadeira ação política consiste em se perguntar quem são, onde estão os mais vulneráveis. Não é difícil encontrá-los. Basta se perguntar quem, de forma repetida, é expulso da categoria "humanidade" pela maioria da sociedade, visto como selvagem, doente, miserável e, por isso, merecedor de contínua violência.

Marx cunhou a ideia de "proletário" exatamente para descrever como a miséria eliminou da "humanidade" levas de operários que não tinham nada, a não ser sua própria miséria. Junto a eles estão hoje índios expulsos da grande narrativa do progresso, palestinos expulsos da condição de "povo", homossexuais tratados como doentes, travestis tratados como monstros. A lista pode parecer heteróclita, mas todos eles são ligados entre si por serem objetos da pior violência –a baseada no não reconhecimento de sua humanidade integral.

Pensem, por exemplo, em homossexuais vistos por muitos como "anormais", que não podem se casar, contentando-se com um reconhecimento legal de segunda classe. Um verdadeiro governante seria capaz de sentir o sofrimento de tal vulnerabilidade, lutar com todas suas forças contra a tentativa de jogar tal sofrimento à invisibilidade, mudar as leis e usar as escolas como espaço de sensibilização.

Porém, o que vemos no Brasil é o espetáculo deplorável de programas políticos que, ou não mencionam tais questões, ou são modificados do dia para a noite por medo de represálias de setores conservadores.

Mais cínico é justificar tal exclusão dizendo "não haver consenso" sobre o tema. Mitterrand, quando ganhou sua primeira eleição, ainda era capaz de agir politicamente. Uma de suas primeiras decisões foi abolir a pena de morte, mesmo contra a vontade da maioria. Hoje, quase todos os franceses reconhecem que ele tinha razão. Ele teve a capacidade de sentir e a coragem de decidir sem consenso, mas em nome de um sofrimento que deveria parar. Coragem que boa parte de nossos políticos desconhece, dentro ou fora do governo.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
A economia brasileira entrou em recessão técnica.

Esta foi a notícia que podíamos ler na semana passada. Há dois trimestres temos retração da atividade econômica. No entanto, há algumas semanas o leitor deve também ter lido algumas notícias surpreendentes.

Por exemplo, o lucro líquido do banco Itaú Unibanco chegou a R$ 9,3 bilhões no primeiro semestre do ano: um recorde na história da instituição neste período e que representa um aumento de 36,7% em um ano.

Já o lucro líquido ajustado do Bradesco, no mesmo período, foi de R$ 7,2 bilhões. O que representa, por sua vez, um aumento de 20,7% em relação ao ano passado.

Sim, vejam vocês, há alguém que ganha quando nós não ganhamos.

As crises não são para todos, apenas para aqueles que não vivem de renda ou de especulação financeira. Sei que alguns dirão ser um resquício de marxismo vulgar enxergar as coisas pelas lentes de antagonismo tão redutor. Eu bem que gostaria de abandonar tais lentes, mas os números não ajudam. Quando os números do lucro bancário param de brilhar, outros aparecem. Como os dados da consultoria WealthInsight (um belo nome) afirmando que, só em 2014, teremos mais 17 mil milionários.

Inveja, dirão alguns.

Claro. Ficar estarrecido com a situação de um país que para sua economia enquanto bancos têm recorde de lucro e milionários não param de crescer só pode ser mesmo um sentimento patológico e doentio. Afinal, tudo isso é tão normal quanto as marés. O mundo não pode ser diferente, senão os valorosos soldados do empreendimento e da oportunidade que lutaram bravamente com seus méritos próprios e nenhuma ajuda não serão recompensados.

E o que acontecerá ao Brasil se, meu Deus, deixarmos de ser uma bela sociedade que recompensa os que merecem, como banqueiros, rentistas, diretoras de ONG de bancos?

Pensar em mudar isso, impondo políticas claras de transferência dos lucros do sistema financeiro para serviços sociais públicos e gratuitos, obrigando milionários a partilhar socialmente seus rendimentos, só pode ser mesmo um absurdo. Uma conversa velha e ultrapassada de diretório acadêmico adornado com cartazes de Guevara.

Novo mesmo é se conformar com a catástrofe e não ver relação alguma entre a economia que para e o sistema financeiro que drena todas as riquezas do país. Tanto é assim que você não ouve propostas de reconhecimento de antagonismos econômicos vindas de nossos principais candidatos.

A corrida agora é ver quem é mais liberal. Ou seja, o pior nem começou.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
De quatro em quatro anos, ocorre no Brasil um fenômeno interessante. Ele poderia ser chamado de: "estação das cerejas vermelhas".

Por volta no mês de agosto dos períodos pré-eleição presidencial, aparecem cerejas muito vermelhas, quase protorevolucionárias, vindas de árvores governistas que pareciam há muito dar apenas os conhecidos frutos amargos da austeridade.

Então, quase que em um passe de mágica, começamos a ouvir na campanha eleitoral discursos com sabores proibidos de luta de classe, diatribes contra o sistema financeiro, promessas de investimento massivo em educação pública.

Mutações incríveis ocorrem, como governos que permitiram os mais fantásticos lucros bancários da história, alimentando o sistema financeiro com títulos da dívida pública e juros exorbitantes, apresentarem os bancos como inimigos do povo.

Tudo muito bonito.

Infelizmente, a estação das cerejas vermelhas termina de forma abrupta no dia 27 de outubro, logo após a consagração do segundo turno das eleições presidenciais. Então as árvores voltam a dar os frutos cinzas que todos conhecem.

Esta é a situação cômica na qual a política brasileira atualmente se encontra. Os mais sagazes sabem que as eleições presidenciais se ganham flexionando o discurso à esquerda. Já esta Folha demonstrou, em uma pesquisa do ano passado, que, em temas econômicos como a função do Estado no crescimento e na viabilização de serviços públicos, leis trabalhistas e garantias sociais, o eleitor brasileiro tende à esquerda.

Neste sentido, ai daqueles que acreditam poderem embalar os sonhos das manifestações de junho vestindo o figurino de uma Margaret Tatcher da Floresta, ou seja, prometendo o futuro com aquelas ombreiras medonhas da década de oitenta. Eles não herdarão o reino do cerrado candango.

No entanto, como todos no fundo sabem que esta é apenas uma estratégia eleitoral, já nos preparamos para quando a estação das cerejas vermelhas passar. Pois chegamos em um momento no qual o discurso de esquerda permaneceu como referência de combate na política, mesmo que sem atores na cena principal.

No momento de desespero, alguém vai à frente e começa a falar como há muito não víamos. De toda forma, há algo de brechtiano em pessoas que vêm à cena para enunciar proposições que todos sabem que, no fundo, elas não acreditam mais.

Dá um efeito interessante e quase onírico de distanciamento.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Na semana passada vimos mais uma intervenção brutal da Polícia Militar de São Paulo na desocupação de prédios vazios no centro da capital. Nada que não tenha se tornado um clássico em nossa cidade: espancamento, gás lacrimogêneo, fogo. Tudo isso para tirar 200 famílias que viviam em um prédio desocupado havia dez anos.

Em uma imagem sintomática que passou na televisão, um policial entra no prédio e afirma: "Isso aqui mostra bem que eles estavam preparados para enfrentar a gente".

No caso, "isso aqui" era uma pilha de cocos. Como se sabe, cocos são artefatos bélicos de última geração com poder de letalidade amedrontador. Pergunto-me como o poder público permitiu que tais famílias portassem tantos cocos sem registro de porte de armas.

No entanto, vejam vocês, estamos em campanha eleitoral e nada disso parece ter o menor significado para a maioria dos postulantes a cargos políticos.

Nada sobre o absurdo de existir uma cidade eivada de prédios vazios enquanto parte de sua população continua sem moradia por, muitas vezes, ser incapaz de aguentar os aumentos de aluguel resultantes de especulação imobiliária descontrolada.

Nada sobre uma polícia que reiteradamente mostra tratar a população que luta por condição mínimas de vida digna como uma manada de porcos pronta para o abate.

O nível de uso da violência canina para a defesa da propriedade de alguns poucos e de seu rentismo é tal que ficamos à frente até mesmo de pátrias do liberalismo, como o Reino Unido.

Lá, que não é nenhuma república comunista, vale a lei da casa vazia, que permite a pessoas sem moradia ocupar imóveis vazios que servem apenas para a especulação. A coesão social mínima passa por cima do direito à propriedade de alguns.

Mas isso não será objeto de debate por parte de nossos candidatos mais importantes a cargos eletivos.

Eles estão mais preocupados em cantar as "grandes conquistas do passado", em pregar lutas contra a corrupção dos seus inimigos (enquanto dizem que a corrupção dos seus amigos "não é bem assim") ou em pregar cândidas uniões nacionais (entre o dono do imóvel e as famílias expulsas? Bem, o dono do imóvel agradece).

Assim, nos preparamos para uma espécie de não-eleição que mostra, no fundo, o esgotamento da capacidade de agir politicamente por parte dos principais atores nacionais.

Nesse regime de esgotamento, sabemos que o sofrimento dos que só tem cocos para se defender continuará onde sempre esteve, ou seja, no silêncio absoluto.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"Então, gente, vamos ter coragem, somos maioria. Vamos enfrentar essa minoria. Vamos enfrentá-los, não ter medo. Dizer que sou pai, mamãe, vovô. E o mais importante é que esses que têm esses problemas realmente sejam atendidos no plano psicológico e afetivo, mas bem longe da gente. Bem longe, mesmo, porque aqui não dá."

Essas são frases de um candidato à Presidência da República quando indagado pela candidata do PSOL, Luciana Genro, em debate no domingo (28), sobre o que achava do Brasil liderar o número de mortes violentas contra homossexuais, travestis e transgêneros.

Bem, se ainda houver um resto de seriedade na política brasileira, o senhor que proferiu tal crime evidente de preconceito e incitação ao ódio será processado e sua candidatura cassada.

No entanto, para muitos, seu pedido de que homossexuais fiquem "bem longe" daqueles que se veem como "normais", seus chamados de enfrentamento, são apenas "derrapadas" de um candidato inexpressivo e caricato. A típica afirmação da qual é melhor rir de seu caráter patético do que realmente levar a sério.

Essa é, no entanto, a pior violência. Pois ela consiste em ignorar quão brutal é não se sentir no lugar dos que recebem as palavras mais brutais.

Melhor seria lembrar da lição dada por um professor norte-americano de filosofia, Arnold Farr, sobre o que significa realmente tolerância.

Ao ser indagado sobre como conseguia implicar seus alunos em lutas contra a discriminação, ele lembrava que nada melhor do que mostrar a eles como nós, eu, você, agimos inconscientemente para reforçar processos de exclusão. Somos agentes inconscientes e involuntários, mas nem por isto menos eficazes.

Farr contou então a história de sua relação com seu irmão homossexual.

Disse que, quando adolescente, gostava de levar suas namoradas para a casa dos pais a fim de orgulhosamente apresentá-las e ouvir depois elogios de todos.

Anos depois, em um certo dia, ele se deu conta de como seu irmão nunca pode fazer algo parecido e como ele, Arnold, nunca se importara com isso. Ele sequer sentia a tristeza de seu irmão por não poder ser reconhecido, por ter que conservar seu desejo invisível e em silêncio para seus próprios familiares.

Um dia, no entanto, ele foi capaz de sentir. Mesmo não sendo homossexual, ele pode por um momento sentir o que pode ser o sofrimento de um homossexual. Então, ele pegou o telefone e pediu-lhe desculpas. Esse telefonema foi o gesto político por excelência.

Se continuarmos a não sentir a violência que tais grupos sofrem, continuaremos a ouvir, do outro lado da linha, apenas piadas que matam.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Esta é uma especialidade brasileira, muito utilizada em momentos de impasse no qual os modelos se esgotam e só produzem resultados pífios. Depois de um jogo catastrófico, todos percebem que uma transformação é necessária. As ruas começam a clamar por mudanças, renovação. Então, os dirigentes convocam a imprensa e, com ar grave, como se estivessem sob o tribunal de um limiar histórico, dizem às câmeras: "Diante do clamor por mudanças e pelo novo, precisamos ter coragem de inovar. Por isto, apresentamos o novo técnico da seleção... Dunga".

Você olha para toda aquela pantomima, coça os olhos e pensa: "Dunga?". No que só resta a resposta, telegráfica e que no entanto diz tudo: "Sim, meu amigo, o próprio". É assim que o Brasil diz que inova.

Bem, diante do esgotamento evidente do lulismo como motor de transformação social, temos nessas eleições alguém que hoje corre o risco de fazer involuntariamente o papel de Dunga da política brasileira, a saber, o senhor Aécio Neves e seu partido. Com um time herdado do antigo governo FHC, incapaz de fazer qualquer avaliação crítica de seu próprio passado e capitaneado por alguém que não viu problemas em afirmar que: "o salário mínimo cresceu demais", ele partirá para a conquista de corações e mentes à procura de renovação e mudança. Mas, para isso, seria bom tentar inovar ao menos no comportamento.

Por exemplo, é regra do jogo acreditar que quem grita mais alto "corrupção" leva tudo. Mas e se mudássemos o jogo e exigíssemos, primeiro, uma autocrítica a respeito das histórias escusas que circulam dentro de sua própria casa? Que tal criticar o mensalão só após explicar como é possível fazer parte de um grupo político composto por pessoas que idealizaram o próprio mensalão em sua versão 1.0 (o famoso mensalão mineiro)?

Da mesma maneira, a maioria da população espera ainda ser convencida sobre ações, digamos, controversas, como por exemplo o aeroporto público construído em terras de familiares e com chaves nas mãos de parentes. Melhor não fazer o que sempre faz seu partido quando cobrado por questões sobre a corrupção do metrô paulista ("Não vi a bola"), sobre o envolvimento de governadores como o goiano Marconi Perillo em esquemas ilícitos ligados a contraventores ("O juiz me prejudicou") e outros clássicos.

Aproveitando, valeria a pena explicar direito, entre outras tantas coisas, por que seu Estado não paga o piso salarial nacional mínimo aos professores, por que somente 35% das crianças mineiras conseguem vaga na educação infantil, por que efetivou sem concurso mais de 98 mil servidores, deixando essas pessoas em situação de fragilidade jurídica.

Neste jogo, repetir compulsivamente "renovação" não dá resultado algum.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
A política sempre foi a força da divisão. Ela nomeia os interesses esquecidos, nos faz ver o sofrimento de quem até então não tinha voz claramente identificável, mostra o que muitos gostariam de esconder. Por isto, a política divide. Sua matéria-prima é a consciência dos antagonismos, é a coragem de enunciar conflitos e de dizer, claramente: "não, não temos os mesmos interesses".

Faz parte do discurso oficial brasileiro, meio político meio cultural, afirmar que nossa "natureza" é a conciliação mansa dos contrários no ritmo do batuque. Na verdade, eis um discurso que convém para os que não querem deixar as contradições à mostra. Ele é o discurso antipolítico por excelência. Desde a República Velha, ouvimos a cantilena de que os interesses do povo brasileiro convergem para uma redentora união da diversidade. Chico Mendes e o Banco Itaú, o dono de imóveis que especula e o sem-teto que ocupa casas vazias, você que acorda cedo, trabalha duro, ganha pouco e os rentistas que aproveitam sua condição de bem-nascidos.

Nesta eleição, tivemos candidatos que tentaram vender essa concepção "baby Johnson" de política. Não durou duas semanas, sólida como uma bolha de sabão. Uma "nova política" sempre nas bocas dos que querem quebrar a força de transformação da consciência dos antagonismos. Não impressiona que seus arautos terminem nos braços de quem sempre governa e nunca tem conquistas sociais concretas para colocar na balança.

Agora, o Brasil se vê claramente dividido, como no fundo sempre esteve. Não seria diferente com sua concentração de renda brutal, suas disparidades regionais, seus preconceitos nunca claramente combatidos. Não foi a polaridade PT-PSDB que a produziu. Essa polaridade apenas permitiu que a divisão se expressasse, mesmo que com atores políticos que não estão mais a altura de seus papéis.

Neste sentido, talvez a atual eleição tenha ao menos um saldo positivo: colocar na nossa frente o retrato de um país clivado. Retrato que esperemos não ter mais volta. Pois pior é não deixar tal clivagem desdobrar sua força produtora, impedir que ela opere reordenamentos devido ao medo de enunciá-la claramente.

Mas tal divisão, e isto é regra já há algum tempo, costuma ser esquecida depois das eleições. Depois delas, os interesses esquecidos e sofrimentos sem vozes perdem muito de sua visibilidade, até porque os atores hegemônicos que lembraram das clivagens nas eleições não sabem o que significa governar sendo fiel à consciência dos antagonismos.

Este seria um bom momento para começar a aprender.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Quem realmente se importa com a educação nacional não pode decidir seu voto sem antes refletir sobre alguns dados a respeito de nossas universidades. Queiram seus protagonistas ou não, esta é uma eleição de retrovisor. Não só o governo apoia-se principalmente naquilo que já fez, usando o discurso da perda possível do que foi conquistado como motor de mobilização. A oposição também se apresenta com basicamente os mesmos personagens vindos do finado governo FHC.

Desde o responsável pelo programa econômico até a responsável pelo programa de educação, todos, a começar pelo próprio Aécio Neves, estiveram organicamente ligados aos oito anos de governo FHC. Não houve autocrítica alguma nem renovação ou reposicionamento a partir dos fracassos passados. Por isso, impossível não esperar a reedição do que o país já viu nos anos 90.

Vale a pena insistir neste ponto porque o legado educacional desses anos foi lamentável. Durante oito anos, o país não inaugurou nenhuma (há de se sublinhar, nenhuma) nova universidade federal. Ao contrário, quando o sr. Paulo Renato entregou seu cargo de Ministro da Educação, o país conhecera oito anos sem concursos públicos para professores universitários, deixando um déficit de 7.000 professores no sistema nacional.

Apenas a título de exemplo, a UFRJ, uma das mais importantes universidades do país, diminuiu (sim, diminuiu) em 10%, sendo obrigada, entre outras coisas, a fechar cursos noturnos por não ter dinheiro para pagar a conta de luz (não, isso não é uma metáfora). Bem, depois de 2002, 18 novas universidades federais foram inauguradas.

Como se não bastasse esse legado, seu partido, no governo do Estado de São Paulo há mais de duas décadas, é atualmente responsável direto pela situação falimentar das universidades paulistas. Afinal, é o governador do Estado que indica os reitores, muitas vezes contra as escolhas da maioria da comunidade acadêmica, como foi com o polêmico senhor João Grandino Rodas. Nestes anos de Tucanistão, o Estado paulista impôs um ritmo de crescimento às universidades desprovido de dotação orçamentária para tanto. O resultado é a crise que aí está.

Agora, se isso não basta, façam uma pesquisa e perguntem qual é a situação da Universidade Estadual de Minas Gerais, esta sim sob a responsabilidade direta do senhor Aécio e seu grupo. Suas condições deterioradas de trabalho, com seus professores "designados" e sua infraestrutura precária, são conhecidas no meio acadêmico e motivos de greves periódicas.

Com toda esta história e este presente, há de se perguntar: é essa "renovação" que o país precisa?
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Fechadas as urnas e proclamado o resultado das últimas eleições, as primeiras palavras foram em direção à reconstrução da união nacional. Afinal, esta eleição teria levado o país a um ponto perigoso no qual parecem aflorar inimizades, preconceitos e outras coisas que gostaríamos de acreditar ultrapassadas. Vamos então esquecer um pouco tudo isso, voltar à vida normal, reintegrar os expulsos do Facebook. Mas, e se isso não for mais possível?

Desde as manifestações de 2013 o discurso da união nacional havia entrado em colapso. Quando massas foram às ruas, descobrimos que alguns gritavam pelo fim da PM enquanto outros queriam a expulsão de médicos cubanos do país. Daí as leituras díspares sobre o sentido ideológico daquela explosão de descontentamento: de classe média golpista nas ruas à situação pré-revolucionária. No entanto, talvez lá havíamos simplesmente descoberto que não haveria mais união, nem mesmo o silêncio complacente de sempre. Placas tectônicas se moveram.

O Brasil que conhecemos até agora acabou. Os amigos perdidos talvez não voltem mais. Por isso, arriscaria dizer que o maior saldo dessas eleições foi mostrar que não somos algo parecido a um povo dotado de identidade coletiva. Não há nada, absolutamente nada que me una a pessoas que tomam a avenida Faria Lima para gritar: "Viva a PM". Apenas ocupamos o mesmo espaço e tentamos politizar nosso desencontro absoluto, mas não fazemos parte de identidade coletiva alguma. Por isso, nosso encontro político sempre será violento.

Esta divisão não é apenas expressão de um conflito de classe. Desde que Lula ganhou sua primeira eleição, o PSDB tem, em média, 40% dos votos, chegando agora a 48%. Não há 40% de classe média no Brasil. A classe média e a classe pobre sempre estiveram ideologicamente divididas, com algo como um terço de seus eleitores oscilando entre dois polos.

Creio que é importante dizer isso porque as reconciliações nacionais na história brasileira foram sempre reconciliações extorquidas, na qual os mais vulneráveis são obrigados a engolir discursos conciliatórios enquanto as desigualdades e os comportamentos medievais de certas parcelas da população continuam a circular sem culpa. Não há razão alguma para continuar esta compulsão de repetição.

Seria bom para o país que os atores políticos estivessem à altura deste novo cenário.

*

PS: Pedi à Redação do jornal um mês de férias para dedicar-me às pesquisas para um novo livro que me é muito caro. Nos encontraremos novamente no início de dezembro.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
O colunista está em férias até dezembro.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Dilma conseguiu criar uma situação politicamente inusitada. A confirmar as previsões, seu ministério será um dos mais conservadores desde o fim do governo Collor.

Caso seu governo "dê certo", ela terá provado quanto seu partido é atualmente desnecessário, já que foi simplesmente alijado da política econômica, assim como das políticas industrial e agrícola, limitando-se a ser um gestor das relações políticas do Estado e do sistema estatal de cooptação da sociedade civil.

A política a ser implementada é dificilmente distinguível do que seria um governo tucano ou marinista. Ao contrário, caso o governo "dê errado", então Dilma terá mostrado como nem na base do transformismo brutal o consórcio governista consegue ainda ficar de pé.

Esse é apenas um sintoma clássico de esgotamento de ciclo político. Em várias partes do mundo, vemos a mesma história envolvendo partidos que vieram da esquerda.

Na França, o governo do Partido Socialista tem o presidente mais impopular da história da Quinta República a aplicar políticas sociais e econômicas que deixam seus opositores conservadores vermelhos de inveja.

Na Alemanha, os sociais-democratas do SPD acostumaram-se a fazer parte do gabinete de Angela Merkel, sendo nada mais que um aliado meio incômodo com quem, no entanto, é possível governar.

Nos casos francês e alemão, tais partidos de esquerda são apenas "conservadores com um rosto humano", o que –há de se dizer as coisas às claras– é também a situação no Brasil. Esta esquerda não existe mais enquanto tal.

O problema é que nem sempre o que deixou de existir desaparece. Às vezes, ele continua a vagar como zumbi, entre a vida e a morte, à espreita de sangue novo para continuar seu vagar arrastado, melancólico. Vagar de choques recessivos anunciados com olhares depressivos, de "planos de austeridade" vindo do além-túmulo. Deste sangue novo vampirizado, ela não fará nada, a não ser paralisar todo movimento possível e transformar outros corpos em mortos-vivos que vagam junto ao zumbi governamental alimentados pela ilusão narcísica de estarem perto do poder. Sim, meus amigos, preparem-se para a esquerda zumbi.

Enquanto isto, em países que cansaram desse show de horrores, uma vida política reconstruída começa a aparecer.

Olhem para a Espanha do Podemos! e a Grécia do Syriza: dois partidos de uma esquerda renovada que estão atualmente em primeiro lugar em todas as pesquisas.

Pois o que há de pior quando se está diante de um tempo morto é acreditar que todos os tempos são iguais.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Na próxima quarta-feira (10), a Comissão Nacional da Verdade deve apresentar o relatório de seus trabalhos. Espera-se que nomes de torturadores e assassinos sejam enfim publicados, que seus crimes sejam fartamente descritos, a fim de que, ao menos, ganhem força processos para terminar com a impunidade aos que cometeram crimes contra a humanidade durante a ditadura militar.

Mas, como por ironia da história, neste exato momento, o Brasil conhece manifestações periódicas de pessoas que saem às ruas pedindo por um golpe militar. Não uma mobilização pelo dever de memória, mas um clamor para a repetição da destruição do país.

Mas o que dizer destas pessoas? Estariam elas a exercer seu direito de liberdade de expressão expondo seu descontentamento com a situação política atual ou estariam a cometer o mais vil e torpe de todos os crimes, o mais imperdoável, a saber, este que clama pela destruição do mínimo de liberdade que dispomos atualmente?

Notem, quem sai à rua e levanta um cartaz pedindo "intervenção militar" não está fazendo a mesma coisa que alguém a gritar "Fora Dilma" ou "Fora FHC". "Fora X, Y ou Z" é algo que se ouve em todas as partes do mundo onde há descontentamento. Significa normalmente um pedido de impeachment, de renúncia ou a afirmação da deslegitimação do poder.

Já quem clama por um golpe militar pede, necessariamente, a implementação de um regime de exceção, com assassinatos sistemáticos de Estado contra oponentes, comandado por uma casta militar que fará o que o Brasil nomeará na quarta: a destruição física e simbólica de quem não está acostumado com o silêncio.

Quem quer a causa quer as consequências. Por isto, pedir por uma "intervenção militar" não é uma "opinião" política, mas pura e simplesmente o crime por excelência.

Claro que haverá aqueles a dizer que eu deveria então criticar os que saem às ruas e pedem, por exemplo, por "revolução" (onde? Faz tempo que não vejo ninguém fazer isso). No entanto, uma revolução é uma sublevação popular que dá voz ao poder instituinte. Nada a ver com um golpe que, por sua vez, é a forma máxima do fim da política.

Por isso, quem levanta um cartaz a favor de um golpe militar não pode estar na rua, mas deveria estar ou respondendo a processos por incitação à forma máxima de violência ou diretamente na cadeia.

Uma sociedade que não pune quem pratica tal violência, mas convive com os que a elogiam como se fosse algo meio pitoresco, cava sua própria cova.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Depois de pressões vindas de vários setores da sociedade pelo reconhecimento dos excessos cometidos por ambos os lados, o governo alemão resolveu inaugurar um memorial aos oficiais da Gestapo mortos por militantes comunistas alemães.

"Devemos colocar o problema da ascensão do nazismo em seu contexto. Afinal, havia o medo da ameaça comunista, por pouco uma revolução comunista não eclodiu na Alemanha. Claro que ninguém apoia o nazismo, mas do outro lado não havia apenas santos", disse a chanceler Angela Merkel na inauguração.

Não, esta não é uma notícia verdadeira. Mas, guardada as devidas proporções, alguns querem nos levar a um raciocínio parecido diante das exigências postas pelo relatório da Comissão Nacional da Verdade.

Depois de dois anos e meio de trabalho, a CNV mostrou como o país foi governado, durante vinte anos, por governos que implementaram uma política sistemática e consciente de medo, assassinato, tortura, estupro e ocultação de cadáveres, não apenas contra militantes comunistas, mas contra todos os que podiam se apresentar como ameaça à perpetuação do regime. Durante vinte anos, o Brasil foi simplesmente um Estado ilegal governado por bandidos.

Diante disso, o mínimo que se poderia esperar era uma pressão nacional para que as Forças Armadas oferecessem à nação um mea-culpa, como foi feito em países como Argentina e Chile, entre tantos outros. As Forças Armadas brasileiras devem decidir se querem ser uma instituição à altura das exigências de uma sociedade democrática ou um clube de defesa de torturadores, estupradores e assassinos.

Mas, como não poderia deixar de ser, levantam-se vozes para falar sobre "as vítimas do outro lado". Então, militares aparecem com listas de vítimas das ações de grupos de luta armada (para variar, listas falsas com pessoas ainda vivas), filhos de torturadores escrevem cartas indignadas contra o governo. Pessoas que morreram por defender uma ditadura criminosa ou que são atualmente denunciadas por isso querem agora ser vistas como vítimas. Mas vítimas do quê? Do direito de resistência contra a tirania? Os colaboracionistas franceses mortos pela resistência foram "vítimas"?

Como se não bastasse, há de se lembrar que todos os membros da luta armada que participaram de crimes de sangue NÃO foram anistiados (por favor, leiam novamente, "não foram anistiados"). Eles ficaram na cadeia depois de 1979 e, por isso, pagaram suas penas. Os únicos que não pagaram nada foram os militares.

A Lei de Anistia, como aplicada no Brasil, é uma simples farsa imoral. Como é farsesca a ideia de, agora, dar voz àqueles que passaram à história brasileira eliminando as vozes dos descontentes.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Liran Razinski é um professor israelense de literatura que mora em Jerusalém e milita pelo reconhecimento do Estado Palestino. Seu filho estuda em uma das raras escolas em Jerusalém para árabes e judeus. Há algumas semanas, a escola foi queimada e pichada com os dizeres: "Não é possível coexistir com o câncer". Mesmo queimada, ela teima em continuar funcionando.

As ações de Liran não se resumem, no entanto, a matricular seu filho em uma escola na qual ele poderia aprender a coexistência ou participar de manifestações pela paz. Logo depois que uma criança árabe foi sequestrada e queimada viva em represália à morte de três adolescentes colonos judeus, ele e mais outros ativistas israelenses organizaram brigadas que rondavam bairros árabes de Jerusalém à noite a fim de impedir que ações parecidas ocorressem novamente. Enquanto vários diziam temer pela escalada de violência enquanto viam tudo pelo sofá da televisão, Liran agiu, mesmo sabendo que sua ação era vista com desprezo pela grande maioria de seus concidadãos.

Mas, agora, ele sabe que talvez tenha chegado a hora de esperar o pior. Há algumas semanas, a coalização de Netanyahu foi dissolvida. Os membros mais "moderados" (se é que o termo ainda faz algum sentido) abandonaram o governo no momento em que ele investia toda sua força para aprovar a transformação do Estado israelense em um "Estado judeu". Certamente isto será feito nos próximos meses.

Ou seja, Israel será um Estado no qual, entre outras coisas, 20% da população (os não-judeus) estará definitivamente relegada à condição de cidadão de segunda classe. Algo tão brutal quanto definir o Brasil como um país no qual a cidadania plena é reservada aqueles que têm laços de sangue e cultura capazes de constituir uma identidade social excludente. O mínimo que se pode dizer é que um Estado dessa natureza está a meio caminho para institucionalizar uma forma profundamente perversa de racismo.

A invenção do Estado moderno teve, como uma de suas principais virtudes, a dissociação entre nação, Estado e povo. Ele construiu uma noção de cidadania assentada na indiferença em relação às diferenças culturais, religiosas, étnicas e a toda e qualquer determinação identitária. Por mais que tal construção tenha sido constantemente destruída pelas forças mais obscuras da vida social, a ideia de uma igualdade política baseada na abstração radical das diferenças é a única coisa que impede nossos Estados de se transformarem em clubes comunitaristas militarizados.

Se Israel der esse passo, seu Estado será um trágico exemplo de clube dessa natureza e crianças como o filho de Liran terão que achar outra escola.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Um dos passes de mágica preferidos do lulismo consistia em tentar fazer os mesmos atores políticos desempenharem o papel de governo e oposição. Talvez alguns aqui se lembrem do que aconteceu, por exemplo, na visita do ex-presidente George W. Bush ao Brasil. Enquanto Bush fazia um discurso no Palácio do Alvorada ao lado de Lula, afirmando estar feliz por encontrar seu mais importante aliado na América Latina, as ruas das capitais brasileiras eram ocupadas por manifestações contra a presença do presidente norte-americano no Brasil. Manifestações capitaneadas... pelo partido do presidente Lula.

Dessa forma, o lulismo tentava, ao mesmo tempo, fornecer a ação política e a forma de sua crítica, organizando o descontentamento a partir dos limites determinados pelos interesses governistas. O resultado era a paralisia da crítica no interior de um jogo que, invariavelmente, terminava com meras compensações simbólicas.

Agora, vemos o mesmo truque a caminho. Depois de fazer a população engolir um ministério que Dilma roubou da prancheta de projetos de seus adversários, vemos setores do seu partido subir à cena para conclamar a esquerda a "pressionar o governo".

Movimentos sociais combativos e setores da sociedade civil são chamados a "agir a partir das ruas" a fim de recriar a esquerda e influenciar o rumo de um governo capitaneado por Joaquim Levy, Kátia Abreu, Gilberto Kassab e outras pérolas do pensamento socialista brasileiro.

Será uma cena digna do Pai Ubu ver Kátia Abreu a escutar de forma compenetrada reivindicações do MST, ou Kassab fazer o mesmo com o MTST. Tais movimentos são os primeiros a não se deixarem enganar e saber o que tais pessoas representam.

Ou seja, para a pantomima final, não basta nos fazer engolir o argumento cínico do "cálculo desfavorável de correlação de forças", como se ele fosse expressão de realismo político maduro. Faz-se necessário também paralisar toda e qualquer construção real de uma alternativa à esquerda através da organização das vozes dos descontentes no interior do coro dirigido por setores do próprio consórcio governista.

Ao lado da degradação política, há sempre a tentativa de controlar toda insurreição possível cirando hegemonias sobre o menor movimento, fornecendo a eles os limites prévios de suas ações.

Será prova maior da miséria da política brasileira, em especial da esquerda nacional, mostrar a incapacidade de escapar das sístoles e diástoles do lulismo num momento em que seus resultados serão desastrosos.

Pois não se trata de mudar de polo, mas sair do pêndulo e procurar outro movimento.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Na semana passada, vimos uma polêmica com palavras duras envolvendo a ex-ministra da Cultura e seu sucessor. Talvez seja o caso de aproveitarmos o momento e nos perguntarmos sobre o sentido e resultado das políticas culturais aplicadas pelo governo federal nestes últimos 12 anos.

Criado no início da Nova República e idealizado pelo seu primeiro ocupante, o economista Celso Furtado, o Ministério da Cultura tinha um objetivo duplo. Primeiro, garantir condições institucionais e financeiras para o desenvolvimento da atividade cultural brasileira. Mecanismos de fomento e isenção fiscal foram criados para dar à sociedade civil maior protagonismo nas decisões sobre cultura.

No entanto, quase 30 anos depois, distorções profundas ocorreram desde que os mecanismos criados por Furtado foram extintos para serem reconfigurados nos anos Collor. Desde então, eles permitem que diretorias de marketing das grandes corporações tenham palavra final sobre o financiamento da produção cultural. Nada foi feito de substancial para que isso mude. Ao contrário, pressionado por interesses comerciais, o MinC permite que programas de isenção fiscal para cultura sejam utilizados para desfile de moda, gastronomia, atividades de torcida de futebol etc.

Na verdade, as ações recentes do MinC se concentraram na criação de editais de fomento e em programas de estímulo ao que se chama atualmente de "consumo de bens culturais", como o Vale-Cultura.

Com isto, o segundo objetivo e talvez o mais importante foi completamente negligenciado. Tratava-se de criar os mecanismos para desenvolver políticas de formação cultural. Isto significaria, principalmente, criar espaços e instituições voltadas à formação continuada.

Na periferia de São Paulo, há uma profusão de saraus literários organizados pela Cooperifa. Mas pergunte-se quantas bibliotecas foram abertas em Cidade Ademar, Parelheiros e São Miguel Paulista nos últimos 12 anos. Pergunte-se sobre quantos conservatórios, escolas de teatro, dança, cinema, artes plásticas foram abertos no país e verá uma das principais razões para o fato de o crescimento econômico da primeira década não ter sido acompanhado por um processo de explosão criativa nos campos da cultura.

Nunca houve políticas efetivas de avaliação das carências de formação, em especial nas áreas desfavorecidas, bem como um planejamento de ações para reverter a situação. Se um adolescente da periferia quiser ser ator e frequentar uma escola de teatro, não será o governo federal que irá ajudá-lo.

Tal negligência à formação indica importante deficiência da política cultural implementada no Brasil neste último período. Ações positivas existem, como a criação dos Pontos de Cultura. Mas já deveríamos estar a discutir novos passos.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Depois da semana passada, vemos a afirmação em coro de que o extremismo muçulmano é um dos maiores problemas da atualidade. Mas nem sempre o coro se dispõe a dar um passo à frente e se perguntar pelas coordenadas sociopolíticas do aparecimento de tal problema.

Ao que parece, alguns acreditam que simplesmente colocar a questão nesses termos já é ser cúmplice e não demonstrar solidariedade pelas vítimas. É querer ser racional com o irracional, relativizar o que seria motivado pelo mal radical, pelo ódio milenar contra nós e nossa liberdade, apoiar a superstição contra as luzes. Em nome de tal visão de combate que nada quer saber sobre causas pois não se interessa em mudá-las, estamos em "guerra contra o terror" há quase 15 anos.

No entanto, depois de 15 anos em guerra, não estamos mais seguros do que em 2001. O que temos são: três países invadidos (Afeganistão, Iraque e Mali), um conjunto impressionante de leis e práticas de controle que cerceiam a liberdade em nome da defesa da liberdade, um Estado Islâmico a controlar áreas de antigos países do Oriente Médio, o aumento exponencial da xenofobia e da islamofobia em países europeus e novas levas de jovens muçulmanos europeus dispostos a serem mártires do jihadismo internacional.

Ou seja, enveredar pela "guerra ao terror" é a melhor maneira de se afundar no problema. Pois qual seria o próximo passo: reforçar as fronteiras, uma nova intervenção militar? Mas para que, se os novos jihadistas são cidadãos europeus, morando nas periferias? Quem sabe então tentar concentrar os muçulmanos europeus em campos nos quais eles poderiam ser melhor controlados?

Insistiria que, se quisermos vencer o extremismo muçulmano, melhor começar por parar de reeditar teorias coloniais sobre o pretenso caráter arcaico da religião dos antigos colonizados, como se nós mesmos não tivéssemos nos acomodado aos nossos próprios arcaísmos. Pois se tem alguém que agradecerá de joelhos aqueles que usam a imprensa para falar que o islã não é compatível com a democracia (como se alguma religião realmente fosse) são os terroristas da Al Qaeda e do Estado Islâmico. É exatamente o que eles sempre falaram. Infelizmente, para propagar esta boa nova, eles tem bastantes aliados entre nós.

Não é vitimizar assassinos dementes tentar sair desta toada surda e entender o sentimento, a assombrar os descendentes de árabes vivendo na Europa, de impotência política, de exclusão econômica brutal, de não ter ninguém que os defenda de ataques racistas vindos de partidos e da vida ordinária. É a melhor maneira de tentar impedir que novos assassinos apareçam.

 escreve às terças-feiras nesta coluna.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
São Paulo é um Estado em vias de degradação. Há momentos em que você deve olhar para as coisas que ama e deixar de se iludir sobre sua situação. Quando a população acompanha ansiosa as notícias do dia para saber até quando os reservatórios de água terão algo para ser bombeado, quando moradores de um bairro da capital sequestram um funcionário da companhia de eletricidade como condição desesperada para que, depois de três dias sem luz, eles sejam enfim atendidos pela companhia que foi privatizada, há anos envolta em promessas de choque de gestão e eficiência, quando as únicas notícias sobre a universidade mais importante do Estado estão nas páginas policiais e na página de falência, é porque está na hora de juntar os pontos e dizer que há algo em degradação.

Claro que, diante de tudo isto, alguns podem exercitar a arte milenar de esconder elefantes. Ela consiste em, diante de um elefante, descrever suas patas, depois o rabo, depois a tromba, depois as orelhas, como se elas fossem algo em si, e não partes de um todo. O que temos aqui em frente? Ah, temos umas patas de elefante, um rabo de elefante, uma tromba de elefante. Assim, o elefante passa incólume. O que temos aqui em frente? Ah, temos uma gestão catastrófica de recursos hídricos, privatizações muito boas para os investidores e péssimas para os usuários, um sistema educacional subfinanciado e mal gerido. Ok, agora junte os pontos.

Ou melhor, antes de juntar os pontos, acrescente a polícia que mata mais do que toda a polícia dos EUA. Uma polícia capaz de prender durante semanas manifestantes portando artefatos altamente periculosos como garrafa de Nescau e vinagre e achar que estava agindo de forma correta.

Acrescente também casos internacionais, nunca alvo de uma reles CPI na Assembleia Legislativa, de corrupção milionária no metrô de expansão mais lenta e patética da galáxia. Acrescente a despoluição de rio mais farsesca que se tem notícia. Então, que figura temos?

Bem, temos a figura de um Estado em degradação, que não quer olhar para seus próprios fracassos e fazer uma autocrítica profunda de seu "modelo" de desenvolvimento, com seus espasmos liberais de privatização e terceirização. Assim como não quer olhar o fracasso de quem pretensamente o administra (se é que há algo para administrar).

São Paulo teve toda a continuidade administrativa que os políticos sonham. O mesmo grupo há mais de duas décadas, com as mesmas palavras de ordem e o mesmo penteado. E o que acontece quando se junta os pontos? Muito pouco se comparado ao que o povo de São Paulo é capaz de criar e merece.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Uma das propostas do partido grego Syriza, que venceu as eleições gregas neste domingo, consiste em religar a luz das casas que tiveram a eletricidade cortada por falta de pagamento. Só entre janeiro e setembro de 2013, 240 mil residências tiveram sua eletricidade cortada. Hoje, 1 milhão estão com a conta de luz atrasada, ou seja, 10% da população da Grécia.

Esta é uma bela metáfora do que pode significar a vitória do primeiro partido de esquerda radical na história a governar um país da Comunidade Europeia.

A dita racionalidade econômica aplicada na crise grega levou boa parte da população de volta à era das trevas, isto enquanto a banca internacional aplaudia as "reformas" implementadas pelo antigo governo conservador de Antonis Samaras com sua taxa de 25% de desemprego.

Pouco importa se as políticas de "austeridade" e de "responsabilidade fiscal" jogam a população no breu e na fome, desde que as obrigações das dívidas sejam todas corretamente pagas aos bancos internacionais –os mesmos que costumam extorquir seus países quando entram em rota de falência.

Syriza será a primeira expressão, na forma de um governo, de um radical sentimento de recusa a este capitalismo de espoliação e acumulação rentista.

É fruto de um movimento de indignação que apareceu a partir de 2009, que passou pela Primavera Árabe e pelos Occupy.

Trata-se de um partido que não tem nenhuma semelhança com os partidos tradicionais de esquerda. Não é por acaso que o Partido Comunista Grego os odeia.

Sua lógica não é dirigista, nem centralista. Ela é uma frente multipolar composta por múltiplos grupos, de ecologistas a trotskistas, maoístas, nacionalistas e sociais-democratas radicais.

Se há algo na história da esquerda próximo à vitória grega é a experiência chilena de Allende com sua frente de Unidade Popular.

Quarenta anos depois, a história de um socialismo democrático e transformador será jogada novamente. Dessa vez, será aos pés do monte Olimpo.

Representante de uma nova geração política, Syriza tem neste momento a tarefa de sobreviver e ser bem-sucedido contra as tentativas de impedir que o fantasma do descontentamento que assombra a Europa saia de sua forma meramente espectral e ganhe, enfim, corpo político. Um corpo que poderá contaminar outros países e modificar o cenário de inanidade atual.

A favor dos gregos, há o espírito do tempo e o desejo de todos os que cansaram da escuridão, do medo e da miséria, seja miséria econômica, seja miséria de ideias.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Na semana passada, em artigo nesta própria , o colunista Gregorio Duvivier lembrou com propriedade uma das mais aberrantes heranças da Copa do Mundo de 2014: 23 ativistas processados por associação criminosa armada. Alguns deles, como a professora de filosofia Camila Jourdan, impedidos de sair do Estado do Rio de Janeiro mesmo para ministrar palestras. Outros, como Rafael Braga, preso e condenado a cinco anos de prisão até hoje por ser pobre, analfabeto e participar de protestos portando uma periculosa garrafa de Pinho Sol, além de água sanitária. É de se esperar que mais pessoas falem contra tal situação intolerável.

Poucos foram os momentos nos quais a máscara democrática do Estado brasileiro foi jogada no lixo de forma tão tranquila. Colocando à frente da Polícia Militar oficiais, como o coronel Fábio de Souza, que exigiam de seus subordinados "Padrão Alemanha de 1930" no combate aos manifestantes, declarando-se candidamente a favor da "instauração do Reich" em mensagens, o Estado brasileiro não viu problemas em montar inquéritos nos quais um cidadão chamado Bakunin, quem sabe escondido em Santa Teresa, era acusado de ser o mentor de quadrilhas prestes a acabar com a paz em nosso território. Vinagre e garrafa de Nescau foram elevados a estatuto de armas cujo porte justificava prisão.

Depois das manifestações de 2013, o Estado brasileiro colocou em operação sua conhecida tática de infiltração entre manifestantes e incitação a fim de justificar ações cada vez mais brutalizadas. Como estamos atualmente na era do vídeo fácil, fomos brindados com cenas nas quais policiais infiltrados saiam de grupos de manifestantes para, em meio ao conflito, ocupar seu lugar na tropa. Todos viram, mas muito agiram como se não houvessem visto.

Esta aposta no aumento da violência foi a única resposta encontrada pelos governos para as demandas e a revolta social que explodiu no país há dois anos. Infelizmente, ela parece ter dado certo. Mas como é praxe, o Estado e sua polícia parecem ter se animado e continuam a agir como se todos acreditassem em suas histórias farsescas. Faz parte do modo brasileiro de governar esta capacidade cínica de continuar a agir em nome da legalidade mesmo sabendo que os primeiros a saírem da legalidade são os próprios representantes do poder.

O que estas pessoas fizeram foi, basicamente, protestar contra o absurdo que foi o gasto com a Copa do Mundo e contra o desprezo para com o descontentamento social em nosso país. Tratá-los como criminosos e prototerroristas é a única resposta que o Estado brasileiro tem a dar.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Quando você sai de um avião e entra no "finger" de quase todos os aeroportos do mundo, normalmente a primeira coisa que vê são frases edificantes sobre as oportunidades do futuro, a sinergia produzida pelos criativos e empreendedores, a necessidade de estar preparado para novos desafios e todas essas frases feitas vindas de manual de autoajuda de administradores de empresas à procura de uma "recolocação". As frases são uma contribuição desinteressada das campanhas publicitárias do banco HSBC para um mundo melhor.

Bem, enquanto um dos maiores bancos do mundo gastava uma pequena fortuna para criar a imagem de uma corporação preocupada com algo mais do que seus próprios interesses, sua filial suíça ajudava toda a escória do rentismo mundial a burlar impostos, operar fraudes fiscais por meio da abertura de empresas "offshores", lavar dinheiro de tráfico de armas e drogas e de desvios de verbas públicas feitos por ditadores, déspotas e seus asseclas, além de outras formas singelas de crimes.

Só entre 9 de novembro de 2006 e 31 de março de 2007, 180,6 bilhões de euros circularam por cem mil clientes de sua filial em Genebra e por 20 mil empresas offshore.

Desta forma, o sistema financeiro mundial mostra como é composto de corporações especializadas em destruir toda perspectiva de futuro, isto ao viabilizar crimes os mais variados possíveis e fornecer proteção mafiosa àqueles que acumulam fortunas, muitas vezes de forma criminosa.

Enquanto isso, seus países não têm mais dinheiro para subvencionar saúde decente e educação pública de qualidade para seus cidadãos.

Enquanto você paga impostos em cima de partes substantivas de sua renda sob uma fiscalização implacável, o pessoal do topo conta com o auxílio inestimável de corporações como o HSBC para defender seu dinheiro, venha ele de onde vier.

Um dos capítulos mais interessantes dessa história se passa, para variar, aqui mesmo. O Brasil aparece como o nono país em número de clientes envolvidos em tais operações. No entanto, nenhum nome de brasileiro foi divulgado.

Sabemos de nomes dos mais variados: do rei do Marrocos ao ator John Malkovich; do primo do presidente sírio Bashar Al-Assad ao dono de salões de beleza Jacques Dessange.

Porém, dos 8.667 clientes com vínculos com o Brasil, sendo 55% de nacionalidade pátria, não se sabe, por enquanto, absolutamente nada.

Como sempre, o Brasil é especialista em blindar os negócios escusos de sua classe de sonegadores e em defender seus rendimentos.

Mas as peças publicitárias do HSBC continuam sorrindo para nós em todos os grandes aeroportos do país.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Diferentemente do informado na coluna  (Opinião - 10/02/2015 - 02h00), entre 9 de novembro de 2006 e 31 de março de 2007, 180,6 bilhões de euros circularam por cem mil clientes (não entre cem clientes) da filial do HSBC em Genebra e por 20 mil empresas offshore (e não 20 empresas). O texto foi corrigido.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Em 1999, os cineastas belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne passaram a ser mundialmente conhecidos devido à Palma de Ouro dada a seu impressionante filme "Rosetta". No limiar do início do século 21, eles haviam conseguido um feito maior do que ganhar um dos mais importantes prêmios do cinema mundial. Eles haviam inventado, uma vez mais, o cinema de denúncia social.

"Inventar uma vez mais" porque o cinema do século 21 não seria, nem saberia como ser, o cinema de denúncia do século 20. Em uma situação histórica na qual as vidas precárias entravam em uma era de flexibilização na qual não haveria partidos, sindicatos ou associações para dar visibilidade a seus sofrimentos, o cinema recuperava uma de suas funções centrais: construir perspectivas "impossíveis".

O cinema sempre foi questão de construir perspectivas que parecem socialmente impossíveis por pressupor um olhar que normalmente não conseguimos ter. Daí porque mais de um crítico nos lembrou como o cinema inventou um olhar que não tínhamos, nos fez enxergar o que até então era "impercebido". Esta invenção é, no entanto, sua criação política mais importante.

De fato, foi a partir dela que os irmãos Dardenne produziram uma filmografia impressionante, que se acresce agora de "Dois dias, uma noite", em cartaz nos cinemas brasileiros. Neste filme de rara força, somos obrigados a seguir os passos de uma operária que luta por conservar seu emprego. É sexta-feira e ela recebe uma ligação que lhe informa que sua empresa convocara os outros funcionários a fim de exigir que eles escolhessem entre demiti-la ou ganhar um bônus de 1.000 euros. Por 14 a 2, ela foi demitida. Na segunda-feira, a votação será refeita, o que lhe dá dois dias e uma noite para tentar reverter a situação.

Impulsionada por seu marido, quebrada pela humilhação, ela bate à porta de cada um dos seus colegas de trabalho. Entramos assim no tempo angustiante da expectativa e do encontro, na repetição de gestos que denuncia a vulnerabilidade, vemos a tristeza de seu corpo abatido a procura desesperada de forças para sobreviver ao sentimento de impotência. Desvela-se assim uma perspectiva que nunca vemos, que aprendemos a não perceber, na qual é possível sentir, em toda sua brutalidade muda, a experiência individual do sofrimento social produzido pela destruição da solidariedade de classe no mundo do trabalho. Na verdade, todo nosso sistema econômico é construído sob o silêncio de tal perspectiva.

Por isto, ao final de sua saga, a operária descobrirá como toda sujeição começa pela destruição de laços de defesa comum. Seus afetos mudaram. Depois disto, a política pode começar.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"A situação desesperadora da época na qual vivo me enche de esperanças." A frase é de Marx, enunciada há mais de 150 anos. Ela lembrava como situações aparentemente sem saída eram apenas a expressão de que enfim podíamos começar a realmente nos livrar dos entulhos de um tempo morto.

Há tempos, insisti que o lulismo entraria em um esgotamento. Era uma questão de cálculo. Chegaria um momento em que o crescimento só poderia continuar por meio de políticas efetivas de combate à desigualdade e acumulação. Afinal, estamos falando de um país que, ao mesmo tempo, apresenta crescimento econômico próximo a zero e bancos, como o Itaú, com lucro anual de 20 bilhões de reais. Um crescimento de 29% em relação a 2013, com inadimplência recuando para mínima recorde.

"Políticas efetivas de combate à desigualdade e acumulação" significam, neste contexto, ir atrás do dinheiro que circula no sistema financeiro e seus rentistas blindados. Mas isto o governo não seria capaz de fazer. Difícil fazê-lo quando você também se torna alguém a frequentar a roda dos dançarinos da ciranda financeira. Ninguém atira no próprio pé, ainda mais quando se é recém-chegado à festa.

Restaram ao governo federal duas coisas. Primeiro, chorar por não ser tratado como um tucano. É verdade. Nada melhor no Brasil do que ser tucano. Como acontece hoje no Paraná, você pode quebrar seu Estado, colocar quatro de suas universidades públicas em risco de fechamento por falta de repasse e, mesmo assim, irão te deixar em paz. Nenhuma capa de revista sobre seus desmandos nem sobre seus casos de corrupção.

Por estas e outras, o sonho de consumo atual de todo petista é ser tratado como um tucano. Eles até que se esforçaram bastante.

Fora isto, resta ao governo ser refém de um Congresso que ele próprio alimentou. Na figura de gente do porte de Eduardo Cunha e seus projetos de implementar o "dia do orgulho heterossexual", entregar o legislativo à bancada BBB (Bíblia, Boi e Bala) e contemplar cada deputado com seu quinhão intocado de fisiologismo, o Brasil encontra a melhor expressão da decadência e da mediocridade própria ao fim de um ciclo.

Neste contexto, podemos enfim ver claramente como as alternativas criadas após o fim da ditadura militar não podiam de fato ir muito longe. Nenhuma delas sequer passou perto da necessidade de quebrar tal ciclo de miséria política dando mais poder não aos tecnocratas ou aos "representantes", mas diretamente ao povo, que continua a esperar seu momento.

Por isto, a situação desesperadora me enche de esperanças.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"M, o Vampiro de Dusseldorf" é certamente um dos maiores filmes da história do cinema. Nele, Fritz Lang conta a história de um assassino de crianças que coloca uma cidade em pânico.

A polícia pressiona por todos os lados, mas ele parece inapreensível. Tanta pressão policial, no entanto, acabou por atrapalhar a vida de todos os outros bandidos da cidade. No que eles decidem que o melhor a fazer era procurar o assassino e dar um fim nele.

A cena final é antológica: capturado, o assassino é julgado por um tribunal composto de bandidos travestidos de juízes. Um termina acusando o outro, criando uma situação na qual todos estão errados e todos têm razão.

Bem, é difícil seguir as discussões recentes sobre impeachment sem pensar nesta cena final do filme de Lang: bandidos querendo julgar bandidos para ver se, ao final, tudo volta ao normal e os criminosos travestidos de juízes possam continuar a fazer seus negócios em paz.

Afinal, quem acusa o governo é, em grande parte, uma oposição envolvida até o pescoço no mesmo mar untuoso de lama. O que não poderia ser diferente, já que ela partilha exatamente as mesmas práticas políticas, chega até a usar os mesmos agentes corruptores, embora seja um pouco mais esperta na arte da blindagem e da fala dura.

Contra ela, o governo conclama o povo a defender a Petrobras da sanha de seus destruidores. Não aqueles que corromperam a empresa, mas os que os denunciaram. Parece o pobre vampiro de Dusseldorf acusando seus juízes.

Desde o começo da Nova República, o Brasil afunda periodicamente em mares de lama desta natureza. Este é quase um ciclo natural da política brasileira. Como resultado, alguns são afastados dos holofotes, execrados pela opinião pública, presos por um tempo, perdem seus postos e tudo volta ao mesmo lugar.

A razão não é muito difícil de encontrar: este teatro, esta pantomima miserável é feita para dar a impressão de que o sistema político brasileiro funciona. Ela é a forma de tentar nos fazer crer, ao menos por um momento, que seus processos escusos de financiamento usados por todos, sua partidocracia, sua densidade popular baixa nos processos decisórios de Estado e sua ideia falida de representação podem continuar como estão.

Ela é maneira de dizer que a cidade ficará tranquila se afastarmos alguns bandidos e deixarmos que os velhos bandidos de sempre atuem em paz. Mas melhor seria se julgássemos os velhos e os novos juntos, acusados e acusadores, e déssemos um fim a uma experiência política que termina implorando pela reinvenção da democracia.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Neste final de semana, esta  publicou editorial criticando a proposta de ampliar a pena daqueles que assassinam mulheres por "razões de gênero". O texto alega que tal "populismo" jurídico seria uma extravagância, já que todas as circunstâncias agravantes que poderiam particularizar o homicídio contra mulheres (motivo fútil, crueldade, dificuldade de defesa) estariam contempladas pela legislação vigente. Neste sentido, criar a categoria jurídica "razões de gênero" de nada serviria, a não ser para quebrar o quadro universalista que deveria ser o fundamento da lei.

No entanto, é difícil concordar com o argumento geral. Primeiro porque não é correta a ideia de que dispositivos jurídicos que particularizam a violência de grupos historicamente vulneráveis sejam ineficazes. A Lei Maria da Penha, só para ficar em um exemplo, mostra o contrário. Pois, ao particularizar, o direito dá visibilidade a algo que a sociedade teima em não reconhecer. Ele indica a especificidade das causas, aumentando gradativamente a sensibilidade para um tipo de violência que só pode ser combatido quando nomeado. Neste contexto, apagar o nome é uma forma brutal de perpetuação da violência.

Estudo do Ipea estima anualmente, no Brasil, algo em torno de 527 mil tentativas e casos de estupros, sendo que 88,5% das vítimas são mulheres e mais da metade tem menos de 13 anos. Só em 2011, foram notificados no Sinan 33 casos de estupros por dia, ou seja, este foi o número de vítimas que procuraram o serviço médico. Diante de números aterradores, é difícil não reconhecer que existe uma violência específica contra as mulheres, assim como há violências específicas contra homossexuais, travestis, entre outros. Que o direito sirva-se de sua capacidade de particularizar sofrimentos para lutar contra tais especificidades, eis uma de suas funções mais decisivas em sociedades em luta para criar um conceito substantivo de democracia.

Neste sentido, há de se lembrar que não se justifica usar o argumento da necessidade de respeitar a natureza universalista da lei em situações sociais nas quais tal universalidade mascara desigualdades reais. O direito deve usar, de forma estratégica e provisória, a particularização a fim de evidenciar o vínculo entre violência e certas formas de identidade, impulsionando com isto a criação de um universalismo real. Se a sociedade brasileira chegou a este estágio de violência contra a mulher é porque há coisas que ela nunca quis ver e continuará não vendo enquanto o direito não nomeá-las. Quando tal violência passar, podemos voltar ao quadro legal generalista. Desta forma, ao menos desta vez, o governo agiu de maneira correta.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Você na rua, de novo. Que interessante. Fazia tempo que não aparecia com toda a sua família. Se me lembro bem, a última vez foi em 1964, naquela "Marcha da família, com Deus, pela liberdade". É engraçado, mas não sabia que você tinha guardado até mesmo os cartazes daquela época: "Vai para Cuba", "Pela intervenção militar", "Pelo fim do comunismo". Acho que você deveria ao menos ter tentado modernizar um pouco e inventar algumas frases novas. Sei lá, algo do tipo: "Pela privatização do ar", "Menos leis trabalhistas para a empresa do meu pai".

Vi que seus amigos falaram que sua manifestação foi uma grande "festa da democracia", muito ordeira e sem polícia jogando bomba de gás lacrimogêneo. E eu que achava que festas da democracia normalmente não tinham cartazes pedindo golpe militar, ou seja, regimes que torturam, assassinam opositores, censuram e praticam terrorismo de Estado. Houve um tempo em que as pessoas acreditavam que lugar de gente que sai pedindo golpe militar não é na rua recebendo confete da imprensa, mas na cadeia por incitação ao crime. Mas é verdade que os tempos são outros.

Por sinal, eu queria aproveitar e parabenizar o pessoal que cuida da sua assessoria de imprensa. Realmente, trabalho profissional. Nunca vi uma manifestação tão anunciada com antecedência, um acontecimento tão preparado. Uma verdadeira notícia antes do fato. Depois de todo este trabalho, não tinha como dar errado.

Agora, se não se importar, tenho uma pequena sugestão. Você diz que sua manifestação é apartidária e contra a corrupção. Daí os pedidos de impeachment contra Dilma. Mas em uma manifestação com tanta gente contra a corrupção, fiquei procurando um cartazete sobre, por exemplo, a corrupção no metrô de São Paulo, com seus processos milionários correndo em tribunais europeus, ou uma mera citação aos partidos de oposição, todos eles envolvidos até a medula nos escândalos atuais, do mensalão à Petrobras, um "Fora, Alckmin", grande timoneiro de nosso "estresse hídrico", um "Fora, Eduardo Cunha" ou "Fora, Renan", pessoas da mais alta reputação. Nada.

Se você não colocar ao menos um cartaz, vai dar na cara de que seu "apartidarismo" é muito farsesco, que esta história de impeachment é o velho golpe de tirar o sujeito que está na frente para deixar os operadores que estão nos bastidores intactos fazendo os negócios de sempre. Impeachment é pouco, é cortina de fumaça para um país que precisa da refundação radical de sua República. Mas isto eu sei que você nunca quis. Vai que o povo resolve governar por conta própria.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Dele, o filósofo Michel Foucault disse que era capaz de "ter a força de romper as regras no ato mesmo em que as implementa". Ou seja, pelas suas mãos, a máxima organização e determinação prévia da forma musical era, no final, apenas a astúcia para se produzir uma liberdade completamente nova, pois liberdade em relação à maneira com que as convenções da linguagem musical haviam se depositado em nossa sensibilidade, moldando as possibilidades de nossa percepção. Organizar ao máximo era a maneira de se livrar de todos as camadas de uma ordem antiga que exercia sua maior violência em silêncio, pois era ordem travestida de naturalidade.

Neste momento em que Pierre Boulez faz 90 anos (26 de março), nada melhor do que lembrar como sua música, muitas vezes chamada de "difícil" e "cerebral" devido ao seu alto grau de elaboração, sempre foi uma das mais originais indagações contemporâneas sobre o conceito de liberdade.

Boulez não é apenas o maior compositor vivo, responsável por uma obra que influenciou de forma decisiva a história da música do século 20. Uma história impossível de ser contada sem passarmos por algumas de suas obras, como "Le Marteau Sans Maître", "Sonata para Piano Número 3", "Pli Selon Pli" e a bela "Répons". Boulez é também um dos grandes maestros dos últimos 50 anos, com gravações maiores de Béla Bartok, Stravinsky, Mahler, Alban Berg, entre outros. Sua produção teórica sobre música também se conta entre as mais relevantes, embora apenas dois de seus livros tenham tradução em português ("A Música Hoje" e "Apontamentos de Aprendiz").

Tanto como compositor quanto como teórico, o compositor francês soube manejar como poucos a dialética de uma forma que vai sempre em direção ao que parece inicialmente não se deixar formar. O acaso, a abertura, a recuperação imediata do som acústico pela manipulação eletrônica: todos elementos que faziam das obras de Boulez um impressionante jogo da razão com aquilo que parece inicialmente lhe escapar. Mas um jogo no qual a capacidade de reencontrar a expressão, de constituir motivos musicais, de dar ao tempo uma nova forma de continuidade tinham a possibilidade de dar a última palavra. Nem que, para isto, as obras precisassem estar em estado constante de acabamento, de construção e desconstrução.

Desta forma, em suas obras, a música aprendeu como o domínio técnico estrito era a condição para a mais ampla liberdade. Talvez por isso a escuta do nosso tempo ainda seja tão avessa à sua música. Que o aniversário de seus 90 anos não passe em branco.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"Nobres deputados, digníssimos senadores. Estamos em um limiar da história nacional. Chegou o momento de assumirmos a responsabilidade à qual somos conclamados pelas ruas e dizer ao país que eis que se projeta o fim do presidencialismo de coalização. Raiz de todos os males da governabilidade de nossa pátria, este presidencialismo morreu de inanição" (aplausos, aplausos).

"O país pede mais ousadia, mais vigor e lideranças ilibadas (neste momento, um popular grita: "Mas o senhor é diretamente indiciado no escândalo da Petrobras". No que os seguranças do Congresso dão um jeito de tirá-lo rapidamente de cena, à custa de alguns hematomas. Parlamentares gritam: "Respeite esta Casa"). Como estava dizendo, o país pede mais ousadia, por isto proclamo o fim do presidencialismo de coalização e o início de uma nova era: a era do parlamentarismo de espoliação" (fortes aplausos e choro de comoção no plenário).

"Sim, aproveitemos da fraqueza congênita do governo para passarmos as pautas que realmente interessam a este país. Viagem para mulheres de deputado subsidiada pelo dinheiro público, triplicação da verba de custeio de partidos, R$ 10 milhões em emendas para os novos parlamentares em pleno ano de recessão, reforma política que coloque, de uma vez por todas, o fantasma da participação popular direta para longe de nossas terras. É isto que o povo quer."

"Para diminuir a pressão que os inimigos da pátria podem querer fazer contra nossa legítima espoliação, lembremos ao povo que o caos espreita nosso país. As famílias não sabem mais o que são famílias. O Estado precisa explicar à sociedade qual é o conceito de família. A ditadura gay atinge até mesmo nossas novelas. Gays, nobres deputados e senadores, querem ter os mesmos direitos que nós (alguém grita: "O sangue de Jesus tem poder", "Sai, Satanás"). O cidadão de bem clama pela redução da maioridade penal, por uma lei contra o terrorismo. O deputado Bolsonaro, aquele que diz que só estupra mulher que merece, será nosso relator."

"Quem se volta contra o Parlamentarismo de espoliação se volta contra a democracia. Pois fomos eleitos pelo povo, mesmo que, em vários Estados, mais de um terço da população não votou para o Congresso Nacional ou que, segundo o Instituto Data Popular, 75% da população diz não confiar nos candidatos a deputado federal da última eleição, e 65% não confiar nos candidatos ao Senado."

(Fim do terceiro ato. Alguém diz ter visto dois urubus em cima de um edifício no cerrado. Mas, na verdade, era uma instalação de Nuno Ramos).
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
O Congresso Nacional conseguiu chegar ao seu ponto mais baixo nos últimos dias com o envio da proposta de redução da maioridade penal para o plenário da Câmara.

Lutando desesperadamente para ganhar alguma popularidade em uma situação de descrédito completo, comandadas por dois senhores diretamente indiciados no escândalo da Petrobras, as duas Casas dão agora seus primeiros passos no projeto de remeter o Brasil à Idade Média.

Por trás da proposta de redução da maioridade penal não está uma reflexão sobre as formas mais eficientes de se combater a violência. Na verdade, ela é apenas a expressão de um forte sentimento social de vingança e de tentativa desesperada de materializar uma sensação difusa de insegurança que anima setores da sociedade civil.

Para tais setores, o afeto político sempre foi o medo. É o medo que os mobiliza e que os leva a constituir personagens que encarnem seus fantasmas mais primários, como o "delinquente juvenil que pode matar impunemente", mesmo se o percentual de assassinatos cometidos por pessoas entre 16 e 18 anos é menos de 1%.

Qualquer discussão séria sobre o assunto deveria começar lembrando que o índice de reincidência dos que passam por medidas socio-educativas é de 20% a 30%, enquanto o do sistema prisional é de 70%.

Mas para mascarar o medo patológico de setores da população, vemos a profusão de argumentos compostos de retalhos. Um dos mais usados ultimamente consiste em lembrar vários países "desenvolvidos" cuja maioridade penal é menor que a brasileira.

No entanto, eles deveriam começar por se perguntar se uma prisão brasileira pode ser realmente equiparada a uma prisão sueca.

Ao contrário, o Brasil é referência mundial para um sistema prisional medieval, ineficiente, criminoso, que prefere encarcerar sistematicamente a usar práticas punitivas alternativas. Apenas 10% das pessoas atualmente encarceradas estão lá por homicídio. Mas mesmo tendo a quarta população carcerária do mundo, uma das polícias mais violentas e assassinas da galáxia, nosso país não conseguiu diminuir seus índices de violência.

Ou seja, essa discussão sobre maioridade penal é mais uma cortina de fumaça usada por aqueles que, no fundo, não se interessam em combater a violência.

Se realmente estivessem, estariam a punir banqueiros que lavam dinheiro do tráfico, policiais que agem como bandidos alimentando um forte sentimento de revolta social, a lutar contra a extrema vulnerabilidade e invisibilidade dos que moram nas periferias.

O melhor remédio contra o crime nunca foi "a punição como espetáculo", mas a construção da coesão social.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"Foi a pior derrota dos trabalhadores brasileiros desde o golpe de 64." Essa frase do sociólogo Ruy Braga descreve muito bem o que significou a aprovação do projeto que facilita a terceirização e a subcontratação do trabalho (lei 4.330), na semana passada, pela Câmara dos Deputados.

Ele visa fragilizar os vínculos trabalhistas, criando uma situação de precarização na qual, em um futuro próximo, não haverá mais empregos, apenas funcionários flexíveis alocados temporariamente em empresas por período incerto.

As escolas não terão mais professores contratados e com o mínimo de estabilidade para planejar seu futuro, apenas "pessoas jurídicas" que prestarão serviços para outras pessoas jurídicas, podendo ser trocadas sem dificuldades. O mesmo em empresas e hospitais.

Não por acaso, logo ficamos sabendo que salários de funcionários terceirizados tendem a ser 24% menores do que salários de empregados formais. Terceirizados trabalham, em média, três horas a mais do que empregados formais. Ou seja, vemos se abrir um cenário de intensificação brutal do trabalho e achatamento de salários. Vendem-se as imagens de um paraíso neoliberal de flexibilização, mas o que se entrega é o inferno medieval da espoliação no trabalho.

De fato, essa é a tendência mundial. Relações trabalhistas são relações de força e há de se perguntar quem tem mais força hoje. Àqueles que acreditam em situações nas quais patrões e trabalhadores saem todos ganhando, gostaria de lembrar que entrou em cartaz nos cinemas "Cinderela": um filme que vem da mesma região desses pensamentos, a saber, a terra dos contos de fada.

Nessa terra, ninguém consegue entender por que, enquanto o PIB norte-americano por habitante cresceu 36% entre 1973 e 1995, o salário horário de não-executivos (a maioria dos empregos) caiu em 14%. No ano 2000, o salário real de não-executivos nos EUA retornou ao que era há 50 anos.

De nada serve também afirmar que leis dessa natureza aumentam o nível de emprego. Faz parte do velho mantra neoliberal tentar nos fazer crer que direitos trabalhistas dificultam a contratação, como se fosse do seu interesse não ter direitos que lhe protejam.

Que uma lei dessa natureza tenha sido aprovada pelo Congresso que temos não é de se espantar. Os 324 deputados que votaram a favor da lei que irá destruir o seu emprego não representam o povo. Eles representam os empresários que pagam suas campanhas e são comandados por um presidente da Câmara que entrará para a história como aquele que permitiu os trabalhadores brasileiros serem fuzilados em um conflito no qual eles, cada vez mais sem defesas, caminham para o aprofundamento de sua espoliação. Agradeça a eles quando você sentir as maravilhas da terceirização.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Uma das maiores aberrações que tramitam em um Congresso Nacional pleno de propostas aberrantes é o chamado Estatuto da Família (PL 6.583/2013).

O projeto de lei decide, de forma normativa, o que deve ser o conceito de família por meio de uma imposição do Estado. Sua proposta restringe a noção de "família" à "união entre um homem e uma mulher, por meio do casamento ou união estável", compreendendo tal "esclarecimento" como peça central contra, segundo o texto, "a desconstrução do conceito de família, aspecto que aflige as famílias e repercute nas dinâmicas psicossociais do indivíduo".

Nesse sentido, se o problema é a desconstrução do conceito de família, um boa sugestão seria impedir as tais famílias de lerem Jacques Derrida, ao que parece responsável, com suas pretensamente perigosas propostas de desconstrução, pela aflição e sofrimento social de que nossas uniões entre homens e mulheres seriam vítimas.

Os que não estão dispostos a seguir tal via surreal deveriam perguntar-se quem, afinal, deu ao Estado a prerrogativa de decidir o que é uma família e como ela deve ser composta. De onde saiu a ideia de que o Estado deve decidir qual relacionamento afetivo está apto a ser visto como família e qual não está?

Há de se insistir que essa não é uma atribuição do Estado. A ele cabe simplesmente reconhecer a multiplicidade de formas de vínculos afetivos que a sociedade produz, respeitando a todos eles. Ele não legisla, mas inscreve simbolicamente e reconhece o que a sociedade produz.

Nesse sentido, precisamos não de mais leis, mas de menos leis. Quanto mais desregulados forem os aparatos que visam definir a produção afetiva dos sujeitos, menos teremos o risco de acordar com alguém travestido de legislador moral a definir como deve ser nossa vida.

Faz-se necessário insistir nesse ponto, pois caminhamos para uma situação singular, na qual a vida social dos cidadãos brasileiros tende a ser altamente regulada (por meio de leis que visam restringir a configuração da família, do casamento, das identidades de gênero etc.), enquanto sua vida econômica será brutalmente desregulada e submetida a uma zona onde irá imperar a vontade do mais forte.

Em suma, enquanto a bancada evangélica quer decidir por você como devem ser as famílias, seu emprego será destruído por uma lei que visa acabar com o que entendemos por "emprego formal", ou seja, mínimas garantias trabalhistas de estabilidade.

Melhor seria se tivéssemos o inverso: forte regulação econômica e baixa regulação biopolítica.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Não há nada mais patético no Brasil do que ouvir políticos falarem sobre educação.

Todos concordarão que a educação é a prioridade nacional, assim como descreverão programas maravilhosos aplicados em seus Estados que teriam redundado em inquestionável impacto na qualidade do ensino. Então, números fabulosos aparecem corroborando mais uma história de sucesso, até que um mal intencionado programa internacional de avaliação joga todos os números nacionais no chão.

O princípio vale para o problema central do ensino brasileiro, a saber, a destruição da carreira de professor. A Coreia do Sul é sempre lembrada como exemplo de salto educacional. Seus professores do ensino público ganham em média US$ 4.000, ou seja, ao menos quatro vezes mais do que seus similares brasileiros.

Com isso, não admira que nossos melhores alunos não queiram mais ser professores, criando uma profissão completamente sucateada e precarizada. Sem bons professores, não haverá tablet, matemática em 3D ou consultor de Harvard que conseguirá transformar nossa educação pública em algo minimamente aceitável.

Então você lê, em algum pé de página de jornal, que "professores do Estado de São Paulo estão em greve há 44 dias" ou "professores do Estado do Paraná entram em greve por tempo indeterminado". Começam a aparecer relatos das condições precárias de trabalho, salas de aulas fechadas para a concentração de alunos em outras unidades, professores com mestrado e doutorado há dois anos sem reclassificação salarial e defasagens inexplicáveis de salários entre professores e outros funcionários públicos com o mesmo nível de formação.

Em outras épocas, depois de 44 dias de greve, você esperaria que o poder público se mobilizasse para dar alguma resposta ou que a sociedade civil se indignasse com a passividade daqueles que gerem o dinheiro de seus impostos. Mas, ao menos em São Paulo, temos outra forma de resolver problemas. Aqui, o governo desenvolveu um método incrivelmente eficaz que pode ser chamado "eliminação nominalista". Por exemplo, perguntado sobre a greve de seus professores, o governador de São Paulo afirmou nesta segunda-feira (27): "Não existe greve de professores em São Paulo".

Ele é particularmente bom nisso. Há alguns meses, confrontado com racionamentos de água que afetavam a população de seu Estado, não temeu em afirmar: "Não existe racionamento de água em São Paulo".

Você também pode tentar isso em casa. Faça cara de sério, pense em algum problema grave e diga de maneira firme e pausada: "Este problema não existe". Ao menos em São Paulo, a técnica funciona.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Quem escreve este artigo é alguém que é professor universitário há quase 20 anos e que gostaria de estar neste momento escrevendo o contrário do que se vê obrigado agora a dizer. Pois, diante das circunstâncias, gostaria de aproveitar o espaço para escrever diretamente a meus alunos e pedir a eles que não sejam professores, não cometam esse equívoco. Esta "pátria educadora" não merece ter professores.

Um professor, principalmente aquele que se dedicou ao ensino fundamental e médio, será cotidianamente desprezado. Seu salário será, em média, 51% do salário médio daqueles que terão a mesma formação. Em um estudo publicado há meses pela OCDE, o salário do professor brasileiro aparece em penúltimo lugar em uma lista de 35 países, atrás da Turquia, do Chile e do México, entre tantos outros.

Mesmo assim, você ouvirá que ser professor é uma vocação, que seu salário não é assim tão ruim e outras amenidades do gênero. Suas salas de aula terão, em média, 32 alunos, enquanto no Chile são 27 e Portugal, 8. Sua escola provavelmente não terá biblioteca, como é o caso de 72% das escolas públicas brasileiras.

Se você tiver a péssima ideia de se manifestar contra o descalabro e a precarização, caso você more no Paraná, o governo o tratará à base de bomba de gás lacrimogêneo, cachorro e bala de borracha. Em outros Estados, a pura e simples indiferença. Imagens correrão o mundo, a Anistia Internacional irá emitir notas condenando, mas as principais revistas semanárias do país não darão nada a respeito nem do fato nem de sua situação. Para elas e para a "opinião pública" que elas parecem representar, você não existe.

Mais importante para eles não é sua situação, base para os resultados medíocres da educação nacional, mas alguma diatribe canina contra o governo ou os emocionantes embates entre os presidentes da Câmara e do Senado a fim de saber quem espolia mais um Executivo nas cordas.

No entanto, depois de voltar para casa sangrando por ter levado uma bala de borracha da nossa simpática PM, você poderá ter o prazer de ligar a televisão e ouvir alguma celebridade deplorando o fato de o país "ter pouca educação" ou algum candidato a governador dizer que educação será sempre a prioridade das prioridades.

Diante de tamanho cinismo, você não terá nada a fazer a não ser alimentar uma incompreensão profunda por ter sido professor, em vez de ter aberto um restaurante. Por isso o melhor a fazer é recusar-se a ser professor de ensino médio e fundamental. Assim, acordaremos um dia em um país que não poderá mais mentir para si mesmo, pois as escolas estarão fechadas pela recusa de nossos jovens a serem humilhados como professores e a perpetuarem a farsa.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Pode parecer um mero problema ligado à vida acadêmica nacional, mas infelizmente é muito mais que isto. Trata-se da expressão perfeita de um sintoma de obscurantismo que parece, aos poucos, tomar conta de setores importantes da sociedade brasileira.

Há alguns anos, alguns dos mais destacados professores de filosofia da PUC de São Paulo, associados a várias universidades francesas, ibéricas e latino-americanas, juntamente com o Consulado Geral da França em São Paulo, criaram a cátedra Michel Foucault. Seu objetivo era fornecer a estrutura institucional para o estudo e pesquisa de um dos filósofos mais importantes do século 20, com grande influência no desenvolvimento do pensamento brasileiro. Graças a tal iniciativa, o Brasil recebeu, por exemplo, um precioso acervo das gravações de suas aulas no Collège de France.

No entanto, há algumas semanas um dos conselhos dirigentes da PUC-SP vetou a criação da referida cátedra. Motivo: o pensamento de Foucault não coadunaria com os valores defendidos por uma instituição católica de ensino. Por ironia do destino, e isto diz muito sobre o Brasil atual, a mesma PUC-SP foi, nos anos setenta e oitenta, uma das instituições responsáveis pela introdução do pensamento de Foucault e outros filósofos franceses entre nós.

Alguns podem ver nisto certa coerência, como seria coerente, seguindo este mesmo raciocínio, impedir os alunos da PUC terem aula sobre Nietzsche (já que este anunciou a morte de Deus), Freud (que chamou a religião de "o futuro de uma ilusão"), Voltaire (o anticlerical por excelência) ou quiçá mesmo sobre Spinoza (visto pela teologia oficial como a expressão cabal da heresia panteísta).

Mas, se assim for, por que chamar de "universidade" o que, cada vez mais, se aproxima de um seminário católico ou de uma maquinaria de proselitismo religioso? "Universidade" significa espaço livre de saber, no interior do qual podemos oferecer um formação na qual visões em conflito são apresentadas. Por isto, o conteúdo de ensino de uma universidade deve estar livre dos limites impostos pelos interesses de igreja, mercado, Estado ou de qualquer outro poder político.

Se a PUC quer seguir tal caminho obscurantista, então ela deve assumir as consequências de sua escolha e abrir mão de sua creditação como universidade. Pois tal creditação é fornecida pelo Estado brasileiro a partir do respeito a valores elementares de abertura e pluralidade. Várias outras universidades católicas no mundo achariam aterrador uma atitude como a recusa de uma cátedra de filosofia por motivos teológicos. Se esta for a regra daqui para a frente, o Estado brasileiro deve defender o conceito de universidade fruto do Esclarecimento.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Hoje deve ocorrer a votação do projeto de reforma política na Comissão Especial composta pelo Congresso para este fim.

Desde as manifestações de 2013, com o claro descontentamento da população com sua classe política igualmente corrupta e seu sistema movido a acordos de bastidores, permeado por interesses dos agentes econômicos mais fortes, este tema veio a tona.

Era clara a vontade popular por uma experiência política na qual a população tivesse presença mais direta e efetiva nos processos de decisão, veto e gestão. O slogan "não me representa" dizia ainda algo a mais, a saber, "cansei de existir politicamente apenas se sou representado por outro".

Em várias partes do mundo, fica evidente os limites da democracia representativa e a necessidade de pararmos com esta postura cínica que consiste em repetir que a "a democracia é a pior forma imaginável de governo, à exceção de todas as outras que foram experimentadas", isto na esperança de que nenhuma transformação estrutural do que entendemos por democracia seja sequer tentada. A constituição de novas formas de democracia é uma necessidade não apenas brasileira, mas mundial.

Foi com o espírito de discutir uma experiência política capaz de fazer jus às demandas que o tema da reforma política tem circulado nos últimos dois anos. No entanto, o projeto que o Congresso propõe a votar é um desrespeito ao povo brasileiro. Ele foi feito sob medida para a perpetuação da classe política que é parte atual do problema. Há uma casta que se consolidou através de uma estrutura partidária viciada e distorcida.

Com propostas como o "distritão", o mandato de dez anos para senadores e o financiamento misto de campanha, a vida política nacional corre o sério risco de ficar pior do que está.

Não há nada, absolutamente nada a respeito do problema político central de nosso país, a saber, a baixa densidade da participação popular nos processos decisórios e de gestão.

O povo brasileiro é algo que é pontualmente convocado em época de eleição para aclamar e referendar coeficientes eleitorais. Depois disto, ele desaparece.

Afinal, alguém perguntou ao povo brasileiro o que a maioria acha sobre projetos como a terceirização geral das relações trabalhistas?

Mesmo sobre o famigerado projeto de redução maioridade penal, alguém organizou um verdadeiro debate calmo com a população para que os vários aspectos do problema fossem expostos?

É assim, de costas para a população, que a casta que nos governa continuará seu trabalho, com ou sem reforma política.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Em 1974, Celso Furtado escreveu um pequeno livro que ainda hoje impressiona pela sua capacidade crítica em relação a um dos fundamentos da noção econômica de progresso. Nele, a própria noção de desenvolvimento econômico era descrita como um "mito".

Furtado se bateu constantemente contra a maneira com que a visão do desenvolvimento se circunscrevia à lógica dos meios, ou seja, como a simples ampliação quantitativa do "crescimento", do "investimento", da "exportação" nunca nos levaria a uma real transformação. Daí por que ele dizia que a fixação em tal mito do desenvolvimento econômico era responsável pela paralisia da criatividade social.

Nesse contexto, "criatividade" significava a capacidade de transformar globalmente o horizonte do progresso da vida social, colocando em questão meios e fins para abrir o espaço à constituição de novas formas de vida.

Agora, no momento em que o Brasil termina um ciclo de desenvolvimento que teria durado uma década e recebeu o nome de "lulismo", é salutar voltar os olhos à teoria de Celso Furtado a fim de se perguntar se, afinal de contas, ela não foi a mais bem acabada expressão de um "mito".

Não se trata aqui de negar como, no final de 2010, assistimos a fenômenos como a ascensão social de 42 milhões de pessoas com sua ampliação da capacidade de consumo, a elevação do salário mínimo a 50% acima da inflação, entre outros.

Mas trata-se de perguntar se a circunscrição do pretenso sucesso do modelo econômico lulista à tal "lógica dos meios" não expressa claramente a incapacidade de setores hegemônicos da esquerda brasileira de assumir como tarefa maior a crítica do mito de desenvolvimento econômico e a absorção da "criatividade social" como conceito fundamental para a definição do que pode ser entendido como "progresso".

Por exemplo, é claro que o que vimos no lulismo não foi o combate à desigualdade, mas a capitalização dos setores mais pobres da população, o que é muito diferente. Os rendimentos dos mais ricos continuaram aumentando, mesmo que os mais pobres tenham sido relativamente capitalizados. Com isso, os rendimentos dos mais ricos puxaram preços para cima, transformando São Paulo e Rio em algumas das cidades mais caras do mundo. Isso corroeu o ganho dos mais pobres, fazendo com que as conquistas do modelo rapidamente se esvaíssem, como vemos agora.

Por não ter pensado o desenvolvimento fora da chave de sempre, o lulismo foi mais um capítulo de um mito que a própria esquerda brasileira havia diagnosticado há 40 anos.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Trata-se de uma foto parecida com muitas que vemos atualmente. Nela, há uma mulher, sentada no chão em uma manifestação contra despejos de pessoas que não conseguem mais pagar seus alugueis.

Vemos também dois policiais, com seus capacetes e armas levantando a mulher pelo braço. Só há um detalhe que faz desta foto uma das mais comentadas da semana passada: esta mulher, que até então era uma ativista a brigar sempre com a polícia, acaba de se tornar prefeita de Barcelona. A polícia de Barcelona tem agora como chefe uma velha conhecida.

Ada Colau é apenas o exemplo mais visível de um processo de uma reconfiguração contemporânea da política. Seu partido não é um partido, mas uma plataforma cidadã, ou seja, um grupo de ativistas, professores que constituiu uma lista eleitoral aliando-se a vários grupos e partidos como o Podemos.

Os candidatos não foram escolhidos em convenções cheias de militantes-fantasmas filiados apenas para vencer embates internos, como acontece em tantos partidos de esquerda e direita. Nem seus candidatos foram decididos em conchavos em mesa de restaurante. Eles foram indicados em assembleia aberta, na qual escolhe quem está presente.

Foi assim que a provável futura prefeita de Madri, Manuela Carmena, foi escolhida candidata mesmo sem ter vínculos diretos com os partidos e grupos que compuseram sua coalização.

As pessoas esperam que você faça no poder aquilo que você já pratica em sua organização política. Esta foi a maior lição que os espanhóis estão a mostrar. Estranho falar em democracia quando nós da esquerda continuarmos a aceitar estruturas dirigistas, hierárquicas, hegemonistas e centralizadas.

Mais estranho ainda é ganhar eleições apresentando programas que nunca serão realmente aplicados. Pois o script todo mundo já conhece: depois da eleição, fala-se que o último governo deixou as contas públicas em estado de calamidade, reclama-se da pressão da oposição, da "correlação de forças" e, assim, as belas imagens apresentadas pelo programa precisarão esperar. Isto quando o último governo não foi você mesmo em versão Mr. Hyde.

Os espanhóis quiseram deixar para trás esta mesma história de sempre. O que eles farão, agora nós veremos. Mas eles não temeram procurar reinventar a força da política através de uma confiança renovada no povo.

Enquanto isto, no Brasil, a casta de políticos profissionais passou a semana passada brincando de reforma política e procurando a melhor maneira de usar as leis para perpetuar sua própria existência.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Na semana passada, o sr. Francisco Borba Ribeiro publicou (, 2/6) uma defesa da decisão tomada pela PUC-SP, de rejeitar a criação de uma Cátedra Michel Foucault. Não, disse o sr. Ribeiro, não se trata de nenhuma reação obscurantista contra um filósofo que não "tem afinidade com o pensamento católico". Trata-se apenas de uma reafirmação aparentemente legítima dos princípios de uma instituição que, "num mundo repleto de identidades líquidas, pensamentos débeis e opiniões passageiras", acredita ter encontrado a verdade há séculos.

Os professores poderão continuar a dar seus cursos sobre Foucault, diz o representante da PUC, mas não esperem que a referida instituição permita que eles desenvolvam cátedras responsáveis por federar pesquisas envolvendo outras instituições, conservar materiais que possam alimentar o interesse dos alunos e receber professores convidados. Segundo ele, uma cátedra é um "ente honorífico", e não há questão de honorar alguém como Foucault. Mas a colocação é simplesmente falsa. Qualquer universitário no mundo inteiro sabe que uma cátedra é um instrumento academicamente importante de fortalecimento de pesquisa, visibilidade e intercâmbio.

Tudo isto é uma afronta inaceitável ao ensino de filosofia no Brasil. Não cabe à igreja e às suas pretensas verdades seculares limitar a possibilidade do desenvolvimento de saberes na área de filosofia. No entanto, é isto o que está a ocorrer. Faz parte da espinha dorsal de um estado laico defender suas universidades como espaços nos quais diferentes concepções de verdade podem se confrontar e serem igualmente respeitadas. Uma universidade não conhece "verdades encontradas há séculos", mas está disposta a permitir o questionamento de toda e qualquer verdade que queira se colocar enquanto tal.

Se a PUC quer agir como um seminário católico, então ela deve abrir mão de seu credenciamento como universidade e se contentar em ser um seminário católico. Uma universidade que não aceitaria, por exemplo, uma Cátedra Voltaire ou uma Cátedra Spinoza por eles não terem afinidades como o pensamento do dono não pode ser chamada de universidade. Nossos departamentos de filosofia ensinam São Tomás de Aquino e o ateu Diderot, Marx e o liberal John Locke, Santo Agostinho, Nietzsche, o protestante Kierkegaard e qualquer um deles poderia receber uma cátedra em qualquer universidade pública brasileira. Não há razão alguma para aceitarmos ser diferente na PUC.

As áreas de filosofia e teologia são ligadas nas agências federais de fomento. Por esta razão, é de se esperar que os responsáveis pela área de teologia se manifestem contra tal ataque ao ensino de filosofia. Do contrário, não sei por que nos colocaram juntos.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Houve ao menos um belo momento na última eleição presidencial francesa, há alguns anos. O então candidato da Frente de Esquerda, Jean-Luc Mélenchon marcou um comício na praça da Bastilha, no dia em que se comemora a Comuna de Paris. Ninguém sabia quantas pessoas estariam presentes até que uma massa impressionante apareceu de maneira inesperada. Algo em torno de 100.000 pessoas. Diante de todas aquelas pessoas, o candidato teve a sagacidade de começar seu discurso perguntando: "Onde todos nós estávamos?".

Digo isto porque virou um ponto recorrente a impressão de que o Brasil está atualmente tomado por uma onda conservadora que se manifesta através de deputados evangélicos com faixas contra a Parada Gay no Congresso, população a favor da redução da maioridade penal, suspeita generalizada a respeito de tópicos de política contra a desigualdade, discurso canino contra tudo que parece ligado à esquerda, entre outros. Tal impressão faz com que aqueles que se identificam com pautas progressistas sejam invadidos por uma profunda melancolia.

Sim, tudo parece nos levar a crer que um fantasma conservador assombra o Brasil. Mas a verdade talvez seja outra. Mais do que um fortalecimento do pensamento conservador nacional, o que temos atualmente é uma implosão da praça na qual os que sempre se identificaram com o pensamento de esquerda possam se fazer ver.

Vemos atualmente um processo impressionante de redefinição dos atores na política brasileira. Há tempos, estava claro que a tendência da política em nosso país era ir para os extremos. Os atores políticos definidos na eterna transição da Nova República paulatinamente perderam sua força de mobilização. As grandes manifestações conservadoras do início do ano foram feitas a despeito dos partidos tradicionais. Mesmo partidos como o PSDB se veem, atualmente, em luta entre antigas personalidades mais centristas e seus novos parlamentares mais conservadores.

No entanto, se o campo conservador conseguiu avançar na constituição de uma nova visibilidade, o campo dos que se identificam com a esquerda ficou paralisado. Uma das razões foi a incompreensão de que este novo momento pede novas formas de estar junto e agir junto. Não será tentando ressuscitar nossas antigas formas de mobilização e organização que conseguiremos sair desta paralisia atual. Se formos capazes de tal reinvenção, estaremos em breve falando a mesma frase do candidato francês: "Onde estávamos durante todo este tempo?".
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"A felicidade é uma ideia nova na Europa." Com esta frase, Louis Antoine de Saint-Just proclamava, em meio à Revolução Francesa, o início de um tempo inquieto. Um tempo que lutaria de todas as formas para que esta ideia nova fosse ouvida em toda a Europa, constituindo uma nova aliança dos povos. Nela, enunciava-se o desejo de uma felicidade que não seria apenas fruto da crença na possibilidade autônoma de autorrealização individual, mas que só seria plena através da constituição de sociedades igualitárias e profundamente solidárias.

Mais de 200 anos depois, o significante "Europa" voltou a circular no interior de um novo projeto sociopolítico. Era o início da constituição da Comunidade Europeia, sem dúvida uma das mais impressionantes engenharias políticas da história ocidental. Muitos viram, na época, a oportunidade de uma "Europa social" e plural, no interior da qual poderia emergir, pela primeira vez, um poder constituinte pós-nacional.

Falar isto hoje soa quase como uma piada. Em algumas horas, a Europa irá morrer. Infelizmente, não morrerá o corpo de tecnocratas da Comunidade Europeia com sua ortodoxia econômica feita sob medida para salvar bancos falidos à procura de dinheiro estatal para sobreviver. Não morrerá o corpo político que só consegue estar de acordo para colocar em marcha políticas cada vez mais vergonhosas contra imigrantes. Não morrerá a Europa dos medos seculares. Morrerá a Europa que um dia quis encarnar uma ideia nova de felicidade.

Independentemente do resultado das negociações com a Grécia, o papel deplorável de uma Europa incapaz de reconhecer que os empréstimos gregos serviram apenas para realimentar os bancos europeus, que luta para levar o povo grego ao abatedouro intervindo, em um nível inimaginável de ingerência, em suas aposentadorias e políticas contra a precarização, estará selado.

Não há nenhuma ideia nova na Europa, apenas a velha irracionalidade econômica de sempre. Neste sentido, os alemães, arautos atuais da ortodoxia, deveriam lembrar que, se tivessem sido tratados da mesma forma com os empréstimos para a reconstrução nacional depois da Segunda Guerra, estariam até hoje vivendo sob ruínas. Até o Plano Marshall era mais novo que a política atual da Troika.

Se o governo grego do Syriza fez algum erro foi o de acreditar na racionalidade dos gestores do capitalismo atual. Mais sensato do que ver seu povo destroçado por uma política econômica suicida é pedir moratória e sair de uma vez da zona do euro. De toda forma, a Europa morreu, pois nada vive sem ideia.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Ao que tudo indica, a casta partidocrática que encontrou guarida no Congresso Nacional irá aprovar nos próximos dias a redução da maioridade penal. Obra de um presidente da Câmara que tenta, custe o que custar, desviar os holofotes de seu indiciamento em um dos mais badalados casos de corrupção da Nova República, assim como esconder seus fracassos na imposição cesariana de pautas ao Congresso, a redução parece uma grande unanimidade nacional, ao menos segundo as pesquisas.

Dentre os apoiadores da redução há um tipo social peculiar e bastante interessante. Trata-se dos "progressistas com uma face dura", o contrário do velho "socialista com uma face humana". Eles se perguntam se a luta de alguns contra a redução da maioridade penal não seria fruto de uma visão idealizada da infância que luta para retirar nossos adolescentes da trilha da responsabilidade de seus atos. Normalmente, são pessoas que na juventude tiveram seus momentos de desejos de transformação. Mas, com o tempo, aprenderam a cultivar um "desencanto saudável". Na verdade, começaram por aumentar o tamanho do carro, colocar grades na casa, comprar passagens de primeira classe, frequentar vernissages de publicitários travestidos de artistas, reclamar dos impostos e da segurança para terminar tendo muitas posições políticas idênticas aos conservadores, mas por "outras razões, muito mais sensatas".

Desta forma, eles podem racionalizar os medos de sua nova classe social sem perguntar-se sobre quão estúpido é falar em aumentar o número de presos em um país no qual o sistema prisional é falimentar, criticado por uma miríade de instituições internacionais. Um país que detém a quarta maior população carcerária do mundo sem nunca conseguir reduzir de forma efetiva a criminalidade.

Ao invés de estarmos discutindo a diminuição desta população, assim como a reversão de tal lógica e o uso mais sistemático de penas alternativas, estamos propondo aumentar os casos passíveis de encarceramento, mesmo sabendo que os adolescentes que serão encarcerados não são, em absoluto, apenas aqueles que praticarão crimes hediondos. Estamos falando de um país que, dependendo do juiz, prende pessoas que cometeram furtos de R$ 150 e que andam com alguns cigarros de maconha.

O que vocês acham que realmente acontecerá após a redução da maioridade? Andaremos mais seguros na rua? Como a resposta é óbvia, melhor seria se perguntar o que realmente quer quem apoia tal absurdo: segurança, vingança estéril ou mais um espetáculo medieval de expiação do medo, agora patrocinado por algumas revistas que compõem a maior imprensa marrom do planeta?
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Uma das armas mais perversas do poder é levar os sujeitos a se verem como impotentes e incapazes de operar grandes transformações. O poder age deprimindo-nos, ou seja, levando-nos a crer que não temos força, que as causas de nosso sofrimento social são demasiado complexas para termos o disparate de querer mudar o rumo dos acontecimentos.

Durante a semana passada, o mundo observou o espetáculo patético de tecnocratas europeus e chefes de governo de grandes países tentando inocular no povo grego o medo em relação à sua própria força de decisão. Isto quando não apelavam a um discurso moral rasteiro digno de caixeiro viajante de província e composto de pérolas como: "Se deve, tem que pagar", "vocês aproveitaram dinheiro fácil, gastaram mais do que tinham". Como se a crise grega fosse uma invenção exclusivamente grega. Como se outros países como Espanha, Portugal, Itália, Irlanda não estivessem em crise devido ao assalto que o sistema financeiro internacional fez aos cofres da União Europeia, levando-a a gastar mais de um trilhão de euros no salvamento de bancos privados podres e fragilizando as economias mais vulneráveis da região.

Tais arautos da hipocrisia já tinham feito a mesma coisa com a Islândia, quando seu povo votou por não pagar a dívida de seus bancos privados. Os mesmos "especialistas" pagos com consultorias para bancos foram à imprensa internacional dizer que a Islândia viraria um pária internacional. Bem, nada do que eles disseram aconteceu. Hoje, a Islândia é uma economia próspera e sem crise.

O impressionante em toda esta pantomima é que, em momento algum, os tecnocratas da Troika reconheceram seus erros, seu papel de médico medieval que, mesmo com o paciente moribundo, continua a aplicar o mesmo remédio. Quem, com o mínimo de racionalidade, conseguiria explicar como foi possível emprestar 130 bilhões de euros à Grécia e, ao final de cinco anos, 25% do seu PIB ter encolhido, um terço da população estar abaixo da linha de pobreza e 60% dos jovens estarem desempregados? Tudo isto demonstra o tipo de ignorância que procura nos governar.

Contra tudo isto, o povo grego disse "não". Pois eles têm um governo que sabe como a política é a definição clara do inegociável, do que não estamos dispostos a negociar. Um governo que mostrou como a força popular é a maior arma contra a arrogância destrutiva da tecnocracia. Dizem que a Grécia saltou no desconhecido. Mas o desconhecido só é ameaçador para aqueles que têm medo. Desde Ulisses, os gregos sabem que a verdadeira vida, esta que vence desafios e cria, é uma vida sem medo.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
De todos os estelionatos eleitorais que o governo Dilma produziu nesses últimos meses, o mais deplorável é aquele que levou os profissionais de marketing de sua campanha a decidir que o slogan de seu governo seria "Pátria educadora". Ao se ouvir algo dessa natureza, o cidadão acredita que está diante de um governo que fará da educação sua prioridade maior.

Isso significa, por exemplo, que ele livrará os gastos com educação da sanha dos cortes inventados por economistas funcionários de bancos privados travestidos de ministros. Economistas contratados para requentar a velha receita do "ajuste fiscal" que pune os pobres e a classe média, isso enquanto deixa intocado os rendimentos da elite rentista e do sistema financeiro.

No entanto, eis que no início do mês de julho somos contemplados com a notícia de que a Capes, órgão do Ministério da Educação responsável pela pós-graduação, será obrigada a cortar 75% da verba de custeio de todos os programas de mestrado e doutorado no país.

Isso significa uma restrição brutal das atividades de pós-graduação, com consequências para a pesquisa desenvolvida entre nós e para o processo de internacionalização de nossas universidades.

Em um momento de crise, os investimentos em educação e pesquisa tornam-se ainda mais decisivos. Países que entraram em crise econômica profunda, como a Islândia, criaram um sistema de bolsas para que desempregados se inscrevessem na pós-graduação, isso a fim de qualificá-los melhor.

Mas imaginar que os economistas que controlam o atual governo compreendam algo dessa natureza é como pedir que andem de cabeça para baixo.

Ao impor ao Ministério da Educação a obrigação de produzir um corte dessa natureza, o governo federal demonstra, mais uma vez, sua falta de compromisso com suas próprias promessas. Se ele realmente quisesse tratar a educação nacional como prioridade poderia lutar por criar um imposto, vinculado exclusivamente à educação, sobre os lucros bancários estratosféricos, sobre as grandes fortunas ou sobre transações bancárias.

Quem sabe, tocado pela situação, o Congresso Nacional, com sua casta recém-contemplada com aumentos de verbas, poderia voltar atrás no aumento do Fundo Partidário e o senhor Eduardo "dia do orgulho heterossexual" Cunha anunciaria que os líderes partidários resolveram que melhor seria abrir mão de tal aumento em prol da defesa do orçamento da educação.

Em uma hora de miséria nacional, não custa delirar um pouco.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Na semana passada, o país assistiu, estarrecido, o presidente da Câmara dos Deputados atacar os outros poderes da República por ter sido denunciado em casos de corrupção da Operação Lava Jato. Não, o senhor Cunha não procurou dar explicações a respeito das graves acusações encaminhadas pelo procurador-geral. Ele resolveu chantagear explicitamente o poder Executivo e acusar o Ministério Público de um complô contra a sua distinta pessoa.

Tratando o povo brasileiro como uma banca de idiotas, o senhor Cunha saiu-se com a história de uma ação conjunta entre o governo e o Judiciário para prejudicá-lo. Ou seja, o juiz Sergio Moro, o mesmo que denunciou membros do governo e parlamentares governistas, estaria agora agindo juntamente com o governo para derrubar Cunha. Esta é melhor do que aquela história do policial que, vendo um morto cujo corpo estava dentro de um saco amarrado e a arma do lado de fora, afirmou que se tratava de suicídio.

Em qualquer outra situação, um deputado indiciado em um dos maiores escândalos de corrupção da história recente do país nunca poderia assumir o terceiro cargo da República. A razão para tanto foi mostrada na semana passada: ele fará tudo o que estiver a seu alcance para constranger as investigações, até mesmo tentar transformar seu problema pessoal em problema nacional. Afinal, o que poderíamos esperar de um senhor que era tesoureiro, no Rio de Janeiro, da campanha presidencial de Fernando Collor, que tinha relações orgânicas com PC Farias –chegando a ser réu em um dos maiores processos do esquema PC– além de acusado de vários casos de corrupção quando presidente da Telerj e da Cehab? Infelizmente, atualmente, basta o distinto deputado ser antigovernista para ser poupado por certo setor da imprensa nacional com sua indignação moral seletiva. Pois pergunte-se quantas vezes você leu algum artigo sobre o histórico completo do senhor Cunha.

O fato é que mal começou a legislatura e temos um Congresso com 10% de seus deputados investigados lutando desesperadamente para se salvarem. Ele mais parece um sindicato de indiciados por crime comandado por um indiciado por crime. É neste ambiente que o país viu feitos congressuais notáveis como o aumento do fundo partidário em plena situação de crise econômica, a votação de uma lei que desmantela por completo os direitos trabalhistas, deputados evangélicos votando a redução da maioridade penal e dando uma grande mostra de sua leitura peculiar de amor cristão, além da criação de uma reforma política que visa garantir as condições para a perpetuação da casta de políticos que temos. Tudo isto capitaneado pelo senhor Cunha. O Brasil agradece por seus feitos notáveis.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Há anos, escrevi aqui que um país em involução mental só consegue contar até dois. Seus debates organizam-se a partir de um polaridade simplória na qual nenhum pensamento um pouco mais elaborado é possível.

Tudo deve encaixar em dois conjuntos, sendo que um deles serve apenas para ser sumariamente descartado e esconjurado. Este é um dos aspectos daquilo que Christian Dunker chamou recentemente de "lógica do condomínio" a organizar a vida intelectual do país.

De fato, há algo de cômico em ter que ouvir cada vez mais frases como "Vá para Cuba" ou "Aqui não é a Coreia do Norte" todas as vezes que alguém defende políticas esquerdistas de combate à desigualdade social e de regulação econômica.

Não passa na cabeça destas pessoas que é possível ser radicalmente de esquerda e contrário, por exemplo, ao Estado degenerado que acabou sendo implantado em Cuba. Não, isso é muito complicado para alguém que, no fundo, só consegue pensar com as dicotomias mais primárias da Guerra Fria.

Da mesma forma, é patético ter que receber afagos como "você faz o jogo da direita" todas as vezes que critica de forma dura os descaminhos do governo federal. Normalmente, tais afagos vêm de pessoas que procuram esconder sua capacidade de pensar criticamente sob a fantasia da luta constante e inglória contra as forças do atraso.

Há meses, apareceu em uma livraria um dos títulos mais inacreditáveis que um livro poderia ter: "10 livros que estragaram o mundo". Entre eles estavam listados obras de Freud, Darwin, Lênin, Hitler, Nietzsche e Marx. Esta é a melhor síntese deste pensamento binário que nos assola nos dias atuais.

Não se trata de dizer que você discorda do encaminhamento de certas ideias. Trata-se de dizer que tais ideias "estragaram o mundo", que é melhor queimar os livros que as expressam, nunca mais lê-los, colocando-os ao lado de Hitler (que também gostava de falar de livros que estragaram o mundo e que mereciam ser queimados). Engraçado saber que livros que dizem que outros livros estragaram o mundo são o deleite de alguns.

Gilles Deleuze costumava mostrar a grandeza de seu pensamento fazendo algo que irritava mais de um de seus colegas. Mesmo sendo alguém vinculado à tradição do pensamento radical francês, ele não deixava de mostrar a genialidade de certos autores claramente conservadores, como Charles Péguy e Paul Claudel, ou de autores "moderados", como Henri Bergson. Era uma maneira de mostrar verdadeira abertura ao pensamento e à criação, independentemente de onde ela viesse. Eis um bom exemplo a meditar nos dias de hoje.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
A Nova República acabou. Qualquer análise honesta da situação brasileira atual deveria partir dessa constatação. O modelo de redemocratização brasileiro, que perdurou 30 anos, baseava-se em um certo equilíbrio produzido pelo imobilismo.

Desde o momento em que FHC se sentou com ACM e o PFL para estabelecer a "governabilidade", a sorte da Nova República estava selada. Frentes heteróclitas de partidos deveriam ser montadas acomodando antigos trânsfugas da ditadura e políticos vindos da oposição em um grande pacto movido por barganhas fisiológicas, loteamento de cargos e violência social brutal.

O resultado foi um sistema de freios que transformou os dois maiores grupos oposicionistas à ditadura (o PT e o núcleo mais consistente do PMDB, a saber, o que deu no PSDB) em gestores da inércia. Com uma "governabilidade" como essa, as promessas de mudanças só poderiam gerar resultados bem menores do que as expectativas produzidas.

Mas a Nova República tinha também um certo princípio de contenção por visibilidade. No auge da era FHC, José Arthur Giannotti cunhou a expressão "zona cinzenta de amoralidade" para falar do que ele entendia ser um espaço necessário de indeterminação das regras no interior da dita democracia com sua "gestão de recursos escassos".

Essa zona de amoralidade, mesmo tacitamente aceita, deveria saber respeitar uma certa "linha de tolerância", pressuposta na opinião pública. Havia coisas que não poderiam aparecer, sob pena de insuflar a indignação nacional.

Giannotti acreditava falar da essência da democracia, mas estava, na verdade, a fornecer involuntariamente o modo de funcionamento das misérias da Nova República: um acordo fundado sobre uma zona cinzenta de amoralidade resultante de disfunções estruturais e democratização limitada.

Mesmo isso, no entanto, é coisa do passado. O primeiro sintoma do fim da Nova República é a pura e simples gangsterização da política e a brutalização das relações sociais. Não há mais "linha de tolerância" a respeitar, pois não é mais necessário um "pacto pelo imobilismo".

Pacto pressupõe negociação entre atores que têm força e querem coisas distintas. Mas todos os principais atores políticos da Nova República já estão neutralizados em seu risco de mudança. Os que não querem a mesma coisa não têm mais como transformar seu desejo em ação.

Assim, como não há mais linha de tolerância a respeitar, o outrora impensável pode ser mostrado, desde que sirva para desestabilizar o governo de plantão.

Por exemplo, foi como um sindicato de gângsteres que o Congresso Nacional e seu presidente agiram na semana passada ao convocar, para uma CPI de fantasia, a advogada de defesa de denunciantes da Operação Lava Jato, a fim de intimidá-la.

De toda forma, só uma política gangsterizada pode aceitar que o presidente da Câmara seja um indiciado a usar seu cargo para, pura e simplesmente, intimidar a Justiça, como se estivesse na Chicago dos anos 1930.

Dilma acreditava ainda estar na Nova República ao rifar seu governo para economistas liberais. Seu cálculo era: "Se eu garantir que não haverá nenhuma mudança drástica de rota, serei preservada no governo". Esse raciocínio, no entanto, não serve mais.

Como é, atualmente, indiferente saber quem está no governo, pois todos sabem que nenhuma mudança drástica de rota virá, a rifa de Dilma não garantirá sua sobrevida.

Em um contexto de crise dessa natureza (e, antes de ser econômica, a crise brasileira é política, é a marca do fim de uma era política) a única solução realmente possível é caminhar ao que poderíamos chamar de "grau zero da representação".

Não há, hoje, mais atores políticos no Brasil. Os principais foram testados e falharam, e é desonestidade intelectual acreditar que uma simples troca de presidente mudará algo. Por isso, o poder instituinte precisa se apresentar diretamente, com o mínimo de representação possível. Ao apresentar-se enquanto tal, o poder instituinte pode impulsionar um processo de constituição de novos atores e novas formas.

O parlamentarismo tem a possibilidade de convocação de eleições em situações de crise. O presidencialismo brasileiro precisaria de tal flexibilidade para, no caso, convocar eleições gerais, tendo em vista, entre outros objetivos, a dissolução deste Congresso e a convocação de uma assembleia constituinte capaz de refundar a institucionalidade política nacional.

Assembleia para a qual poderiam se apresentar candidatos independentes, fora de partidos políticos, com controle estrito do poder econômico. A saída da crise não se dará por meio de conchavos de bastidores, mas pela radicalização da democracia. Como já se disse antes, há horas que você precisa deixar os mortos enterrarem seus mortos e seguir outro caminho.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
O sociólogo Francisco de Oliveira costumava contar uma história envolvendo Celso Furtado. Na época em que era presidente da Sudene, cuja sede estava no Recife, Furtado chamou Oliveira para irem juntos a uma reunião no Rio de Janeiro.

Depois da reunião, os dois foram para seus quartos de hotel. Quando chegou ao quarto, Chico de Oliveira recebeu uma ligação de Furtado: "Chico, acabo de entrar no quarto e vi que há duas camas aqui. Você poderia vir para cá e assim devolvemos a diária do segundo quarto". De certa forma, creio que há gente que ainda não entendeu esta ideia simples: o que a população esperou da esquerda no poder é que ela começasse por querer devolver a segunda diária do hotel.

Quando os escândalos de corrupção estouraram de forma sistemática, não foram poucos os que procuraram "contextualizar" o problema, como se dar muita importância a eles fosse fazer o velho jogo do moralismo udenista. "Focar tudo no problema da corrupção é uma pauta da direita."

Alguns não temeram em dizer que a corrupção era um dado intrínseco do capitalismo, não para porventura mudar o capitalismo, mas para tentar vender a ideia de que ela seria o preço a pagar para se operar no interior das falhas da democracia parlamentar.

Nessa explicação funcionalista crassa, havia uma dose inacreditável de cinismo. A descrição não servia para aumentar a indignação e recusa contra um sistema corrompido, no qual a política se submete aos interesses econômicos do momento, mas para justificar a acomodação subjetiva à lama.

Ao contrário, é hora sim de falar, e muito, sobre corrupção. É claro que, no Brasil, a arte de falar sobre corrupção costuma ser conjugada só na terceira pessoa. Corrupto é "ele", o outro. A corrupção do partido que grita "corrupto" é outra coisa, não é assim tão grave.

Segundo essa lógica, o mensalão tucano não teve nada a ver com o mensalão petista. A compra de deputados feita por FHC foi "outra coisa", assim como a corrupção no metrô de São Paulo: mesmo abrindo processos nas justiça da França e da Suíça, ela não justificaria uma reles CPI no Tucanistão, vulgo Estado de São Paulo. A corrupção do PT foi caixa dois, como sempre foi feito.

Todos nós conhecemos bem esses raciocínios. Mas não, meus amigos, a corrupção do seu partido do coração não é "outra coisa". Ela é a "mesma coisa". É por pensar assim que estamos nesta situação. Ela só terminará quando o último corrupto petista for enforcado nas tripas do último corrupto tucano.

Pois há de se mostrar que é possível falar contra a corrupção de forma ampla, geral e irrestrita. Lembrar que toda e qualquer corrupção é a destruição da noção de bem comum e, ao mesmo tempo, da possibilidade de falar em nome do bem comum.

Ela destrói o ethos do enunciador que se quer anunciador do novo. Na política, tão importante quanto o que você fala é qual sua legitimidade. Por isso, a corrupção é sempre o começo do fim da política.

Como nos ensina Robespierre (que até onde consta não era alguém que "fazia o jogo da direita"), neste ponto não há atenuantes. Valeria lembrar que "contextualizar" a corrupção é mostrar uma ignorância fundamental a respeito do que é a política.

Mais do que um embate a respeito da partilha do poder e da riqueza, a política é uma luta a respeito de formas de vida. Não apenas um problema de redistribuição, mas um problema ligado à possibilidade de criar formas de vida novas.

De maneira astuta, o filósofo italiano Giorgio Agamben um dia afirmou: "O verdadeiro problema da esquerda italiana é que eles, no fundo, gostariam de ter a vida que leva Berlusconi". Era sua maneira de dizer: não é possível combater Berlusconi se você não quer recusar radicalmente uma forma de vida baseada na fixação doentia às ideias de propriedade, posse, bens e primado do indivíduo.

Uma vida que alguém como Berlusconi representa tão bem. Pois se você se deixa afetar da mesma forma que aqueles contra os quais combate, se você no fundo deseja da mesma forma, então chegará um dia que você fará as mesmas coisas. Esse é o verdadeiro sentido de uma bela frase de Pepe Mujica: "O poder não muda as pessoas, ele apenas mostra quem elas realmente são".

Em um país que sempre teve de aturar uma elite rentista e ociosa, que vive de "patrimônios" e é especializada em tomar de assalto o bem público como se fosse posse privada, socializando dívidas e privatizando ganhos, ser revolucionário começa por ter decência em relação à função pública e ter respeito absoluto pelo bem comum. Por isso, vale a pena começar a governar devolvendo a diária do segundo quarto.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"Em suma, toda filosofia, mesmo e sobretudo se ela é suportada por saberes científicos complexos, obras de arte inovadoras, políticas revolucionárias, amores intensos, é uma metafísica da felicidade, ou então ela não vale sequer uma hora de esforço". Há de se admitir que esta é uma frase que pode parecer um certo lugar comum.

Partamos da hipótese de que a filosofia é impulsionada por um afeto, ou seja, de que haveria um regime específico de afetos que nos levaria a criticar nossos discursos correntes, a nos afastarmos das certezas do senso comum e produzir um "desejo de filosofia". Spinoza falaria da beatitude, Hegel falaria de um "delírio báquico no qual todos os membros estão ébrios", Kant lembraria do contentamento. Freud, com sua voz dissonante, preferia denunciar filósofos como sujeitos animados pelo desejo de tapar, de forma meio paranoica, os buracos do mundo. Vários outros, no entanto, apostariam suas fichas na felicidade. Alain Badiou, o autor da frase acima, é um deles.

Autor do recém-lançado "Métaphysique du bonheur réel" (PUF, 88 páginas), infelizmente ainda sem tradução em português, Badiou sabe que falar de felicidade em eras atuais não é um exercício simples. É da felicidade e do direito em procurá-la que mais dissertam os conselheiros midiáticos, psicólogos, publicitários, assim como todos os arquitetos simbólicos da ideologia liberal contemporânea. Por que um dos filósofo mais relevantes do cenário atual, reconhecidamente radicalmente avesso a tal universo, resolveria falar da felicidade com a qual uma certa filosofia nos afetaria, desta "felicidade real"?

Certamente porque um dos eixos fundamentais da experiência intelectual de Badiou pode ser descrita como uma filosofia do engajamento (tema que ele trouxe de Sartre) e da transformação. Perguntando-se sobre as condições para uma filosofia capaz de pensar acontecimentos que nos engajam em verdades com a força de romper a normalidade de uma situação, filosofia capaz de reconhecer sujeitos que não se configuram como indivíduos com seus sistemas particulares de interesses e sua lógica de maximização utilitarista de benefícios, Badiou precisa se perguntar sobre o que leva os indivíduos que nós nos tornamos a se disporem a experiências de forte potencial de transformação e de destruição.

Sua ideia consiste a lembrar como uma certa tradição filosófica abre o caminho para uma felicidade que não é compreendida mais como satisfação doméstica de interesses individuais, como consumo de férias pagas, mas como "a experiência afirmativa de uma interrupção da finitude", como gozo daquilo que, do ponto de vista dominante das formas de reprodução material de nosso mundo com suas demandas de segurança, é impossível. Daí uma bela afirmação como: toda felicidade é o gozo finito de um infinito".

Tal reflexão visa problematizar os afetos do indivíduo moderno, todos eles submetidos a um cálculo de "custos e benefícios". Desta forma, trata-se de insistir que somos, muitas vezes, impulsionados pelo que nos desacostuma de nossa finitude e que se apresenta a nós através de amores intensos que nos despossuem, obras de arte inovadoras que quebram a capacidade de esquematização de nossa imaginação, políticas revolucionárias que nos fazem recusar um mundo que teima em não morrer e saberes científicos complexos, ou seja, através de acontecimentos que, ao mesmo tempo, instauram novas sequências e destroem o que até então vigorou como condições de possibilidade da experiência.

De fato, nossas sociedades liberais tem a percepção da existência de tal afeto, daí porque ela tenta nos vender a imagem de que se tratam de "sociedades de risco". Mas seus riscos são apenas as perdas, certas para muitos e inexistentes para alguns, pressupostas por um sistema impulsionado pelo ritmo de levas de despossessão econômica e destruição da solidariedade social. Riscos que nunca colocam em questão a lógica de rentabilização e valoração do que nos governa, do que nos ensina que a maior satisfação é aquela que ainda pode ser contada, repetida e acumulada.

Por isto, um simulacro de risco, como será sempre simulado o "risco" que não tem a força de nos colocar fora da lógica de um mundo de finitude contábil. Contra tal simulação, há de se perguntar, como faz Badiou, sobre a metafísica da felicidade real.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"Não quero que a escola trate de assuntos relacionados a comportamento sexual, religião ou política. Quero o Estado longe, tenho o direito de ensinar meus valores a meus filhos. Chega de doutrinação."

Esse é um comentário que apareceu abaixo de uma notícia na internet sobre a decisão "iluminista" e "corajosa" do prefeito de São Paulo de não vetar o Plano Municipal de Educação, que exclui menção explícita à importância de ensinar questões de gênero e respeito à diversidade sexual.

Tais afirmações podem inicialmente parecer ter alguma sensatez. Afinal, o que essa pessoa estaria a dizer é que o Estado não deveria impor valores a seus filhos. Ao contrário, ele deveria respeitar as diferenças de valores que existem nas famílias. Não seria possível aceitar "doutrinações" monolíticas que visariam a impedir os indivíduos de defender aquilo em que acreditam.

Sim, tais afirmações podem parecer sensatas, mas só para aqueles acostumados ao caráter distorcido e farsesco do liberalismo brasileiro, o mesmo liberalismo que outrora se esmerou em usar o discurso dos "valores esclarecidos liberais" para justificar sociedade escravocrata e golpe de Estado.

Poderíamos sintetizar o argumento acima da seguinte forma: "Não quero o Estado dizendo para meu filho que ele deve respeitar homossexuais e travestis e parar de vê-los, de uma vez por todas, como portadores de alguma forma de doença ou perversão. Quero continuar a educar meus filhos da maneira que achar melhor, mesmo que 'educar', nesse contexto, signifique 'internalizar preconceitos'. Acho que homossexuais são pervertidos e quero continuar a fazer meu filho acreditar nisso. Por que o Estado me impediria?". Bem, talvez porque seja atribuição maior do Estado proteger parcelas vulneráveis da sociedade de uma violência arraigada e recorrente vinda de outros setores da população.

Estamos falando de um país, como o Brasil, que lidera rankings internacionais de assassinato de homossexuais e travestis por motivações homofóbicas e transfóbicas.

Uma das razões para isso é, certamente, que há muita gente que compreende preconceito e violência como "liberdade de opinião", ou respeito à diversidade e indiferença à diferença como "doutrinação".

No entanto, há de se lembrar que a democracia não respeita os "valores da família" quando tais "valores" são, na verdade, máscaras para perpetuar práticas de exclusão e desigualdade. Ela não os respeita quando famílias são racistas, antissemitas, islamofóbicas e homofóbicas. A democracia não é neutra do ponto de vista da enunciação de valores. Ela tem um valor que toda e qualquer família deve entender. Ele se chama "igualdade". O que uma criança e um adolescente aprendem quando uma escola ensina gênero é a prática efetiva da igualdade.

Há ainda um ponto que explica muito da histeria de certos setores da população brasileira a respeito de questões de gênero. O Brasil gosta de ter uma imagem de si mesmo como um país tranquilo e permissivo, mesmo enquanto pratica as piores violências contra grupos minoritários.

Essa imagem parte do pressuposto de que você pode agir de forma singular desde que não se faça muito alarde, ou seja, desde que não quebre o pacto da invisibilidade, pois é assim que o poder impõe suas normas, a saber, decidindo o que pode ser visível, o que pode ser visto.

Todo poder é uma decisão sobre o que pode ser visto e o que deve ser aceito apenas em silêncio. Nesse sentido, o que tais práticas escolares fazem é quebrar o pacto de silêncio e invisibilidade que perpetua as piores sujeições.

Mas é verdade que questões de gênero não precisam lidar apenas com o estranhamento de alguns a respeito da extensão da igualdade como valor. Há também algo a mais, que toca o cerne do edifício ideológico de nossas sociedades, porque, a partir do momento em que se afirma que gêneros não são meros decalques da diferença binária da anatomia dos sexos, que a anatomia não é o destino, há algo que parece entrar em abalo profundo.

Ninguém está a dizer a proposição delirante de que a diferença sexual não existiria. O que se está a dizer é algo ainda mais forte, a saber, que a diferença sexual não tem nenhum sentido que lhe seja natural, que dela não se deriva normatividade alguma. Isso significa que as nossas formas de vida, a estrutura de nossas famílias, não estão assentadas na natureza. Não, a natureza não é um álibi para nossas decisões culturais.

Com uma covardia que lhe é costumeira, foi isso o que o PT e seu prefeito acharam que não valia uma briga.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Cada um tem a crise que merece. Ao que parece, a Europa estaria passando, neste exato momento, por uma "crise de imigração".

Em nome desta "crise", o continente que mais se beneficiou da imigração durante décadas desde o século 19, mandando contingentes enormes de trabalhadores pobres para a América, além de população para suas antigas colônias, tem ultimamente recebido imigrantes com bombas e internamento em campos.

Com lágrimas de silicone abaixo dos olhos, seus dirigentes agem como se seguissem esta frase primorosa de um antigo ministro francês, Michel Rocard: "Não podemos acolher toda a miséria do mundo".

Segundo tal raciocínio, infelizmente, os países de origem desses imigrantes, com suas elites dirigentes corruptas e seus arcaísmos, teriam produzido uma situação da qual a Europa não é nem responsável nem beneficiária.

Logo, não haveria muito o que se fazer a não ser deplorar o estado atual do curso do mundo.

Mas vejam que coisa interessante. Boa parte destes que batem à porta da Europa não são imigrantes, mas refugiados que fogem de situações de guerra ou da simples desagregação de seus países, como é o caso da Síria e da Líbia.

Essa desagregação é fruto direto, entre outras coisas, das intervenções desastrosas que EUA e Europa fizeram em países como Iraque, Afeganistão, Líbia, Mali. Talvez você se lembre como, em nome de supostas "armas de destruição em massa" que colocariam em risco o Ocidente, EUA e Inglaterra invadiram o Iraque, criando um espaço de anomia, caos e ressentimento que gerou monstruosidades como o Estado Islâmico.

O mesmo EI que atualmente amedronta os sírios à procura de refúgio em todas as partes do mundo (inclusive no Brasil), que recruta entre líbios cidadãos de um país que simplesmente não existe mais e foi objeto de intervenções militares ocidentais.

Seria interessante aos europeus começarem por se perguntar quanto lhes cabe na produção da dita miséria do mundo e o quanto tais levas de refugiados são sintoma de seus arroubos militaristas desastrados.

Eximir-se completamente da responsabilidade é tão desonesto quanto colocar toda responsabilidade sobre suas costas.

Mas há ainda um ponto fundamental. Os imigrantes atualmente são os verdadeiros proletários do capitalismo global. Sem garantias trabalhistas e sem defesa, cada vez mais espoliados de direitos, obrigados a viver em situações de trabalho degradado e brutalmente precário, são o exército de mão de obra barata que faz o resto de economia produtiva nesses países funcionar. São aqueles que não têm nada, que sequer são defendidos por sindicatos, que devem permanecer invisíveis.

De nada adianta a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) lembrar que a imigração tem impacto fiscal positivo nos países receptores ou, como disse seu secretário-geral, Ángel Gurría: "Os imigrantes são recurso, não problema" (embora tratar sujeitos como "recurso" já diga muita coisa).

Quanto mais os imigrantes sentirem-se amedrontados, mais fácil espoliá-los e jogá-los contra os trabalhadores nativos que ainda têm alguma garantia. Quanto mais eles servirem de bode expiatório da crise econômica, mais os verdadeiros responsáveis, ou seja, os banqueiros de olhos azuis da City, de Paris e de Frankfurt continuarão em paz.

No entanto, não seria incorreto dizer que o projeto capitalista atual é transformar todos nós em imigrantes, ou seja, em trabalhadores precários amedrontados, invisíveis e facilmente descartáveis.

Por isto, nossa sobrevivência passa pela defesa incondicional dos direitos destes que hoje são desprovidos de todo direito.

Diga-se de passagem, não é necessário ir muito longe. Se quisermos ter uma ideia desse processo, basta lembrarmos das levas de bolivianos trabalhando em condição sub-humana nas confecções de São Paulo. Pergunte-se o quanto setores do empresariado nacional se beneficiam da imigração precária e ilegal. Pergunte-se também sobre como tratamos os haitianos que procuram sobreviver fugindo de seu país em ruínas.

Há pouco vimos casos de haitianos vítimas de insultos racistas e violência na Baixada do Glicério, isso em nome de pretensamente "roubarem nossos empregos".

Aos que realmente se preocupam com "nossos empregos", melhor pararem de atirar em haitianos e se voltarem para quem realmente ganha, e muito, com a crise que destrói nossos empregos.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Yahoo não é apenas o nome de um dos mais conhecidos sites de busca da internet. Antes de aparecer no mundo virtual, Yahoo era o nome de uma raça de humanoides que povoam "As viagens de Gulliver", de Jonathan Swift. Descritos como brutos, simplistas, primitivos e materialistas, eles se contrapunham em tudo a uma raça de cavalos inteligentes responsáveis por fundar uma sociedade racional e pacífica: os Houyhnhnms.

Os Yahoos ficaram famosos, já os cavalos racionais permaneceram esquecidos. Pois não foi mero acaso o fato de Yahoo nomear atualmente um instrumento de busca profundamente associado a nossas formas contemporâneas de vida, um dispositivo que organiza nossos modos de procura e catalogação. Também não foi um acaso que um de nossos mais importantes artistas plásticos em atividade tenha nomeado sua última exposição de "Houyhnhnms".

Como quem fala da necessidade de outra forma de procura, da recusa de certa brutalização da percepção que acomete estes momentos históricos que parecem retrair seus horizontes de expectativas. Talvez seja a consciência tácita de estar vivendo um tempo como este que move Nuno Ramos a apelar à figura de uma razão impronunciável, de animais que lembram o que os homens deixaram para trás, em sua nova exposição, na Estação Pinacoteca.

Poucos artistas plásticos brasileiros têm tanta clareza das articulações entre forma estética e experiência social como Nuno Ramos. Não apenas por sua capacidade em dar visibilidade àquilo que a sociedade brasileira luta com toda suas forças para deixar invisível e sem nome. Capacidade exposta de maneira magistral, entre tantas outras obras, em "111": instalação feita para expor o jogo de invisibilidade que tendia a enterrar os 111 mortos no massacre do Carandiru. Ou ainda na violência exposta de "Aurora" com seus personagens que se sucedem gritando "Alvorada" enquanto recebem um tiro na cabeça.

Na verdade, a articulação entre forma estética e experiência social em Nuno Ramos é capaz produzir uma impressionante inversão, transformando em potência e dinâmica de movimento o que poderia parecer como o inacabamento da experiência social brasileira.

"Minha ideia de forma é de uma goma sempre em potência e nunca completamente determinada." É com tal frase que Nuno Ramos define um dos eixos fundamentais da especificidade de sua experiência estética. Seus trabalhos são produzidos no limite entre a potência e o ato, como se quisessem apreender este momento em que a forma não está completamente formada, no qual a potência não passa completamente ao ato. Nada estranho para um artista que não temeu dizer que: "É no estado intermediário, antes da secagem, híbrido ainda de morte e promessa, que a vida guarda o seu segredo".

Em uma formulação feliz, Júlia Studart chegou a afirmar que Ramos trabalhava "no limite político do incompleto e do inacabado". Pois o que sabe se sustentar em seu inacabamento tem a força política de problematizar o dever ser. Em um país que sempre se viu "inacabado", "incompleto" em seu trajeto em direção ao desenvolvimento, incapaz de se estabilizar em uma determinação, talvez não haja gesto crítico mais forte do que recusar as ilusões da completude, ou seja, livrar-se da imagem de uma completude cuja violência normativa nos impede de explorar o sentido da resistência de nossos trajetos, da insubmissão de nossa materialidade.

À sua maneira, isto fica claro na série de pinturas que compõem o eixo central de sua última exposição. Quadros marcados por um impressionante composto de centenas de quilos de pintura, material têxtil e metálico que produz a experiência de uma materialidade em combustão que sobrecarrega a tela. Tal composto foi criado por camadas de trabalho que, ao mesmo tempo em que tornava visível traços, estruturas, formas, os arruinava por mais-trabalho. Maneira de sustentar as formas em potência contínua, em hibridação dinâmica de materiais. Maneira de expor um trabalho que cria desconstituindo.

Talvez seja isto que, ao final, mostrem os Houyhnhnms de Nuno Ramos, a saber, que a sociedade racional é aquela capaz de reconciliar as formas com o princípio de seu movimento. Esta inquietude absoluta do que se move é o que nossa experiência social não saberá jamais perder. Mesmo que o sentido de tal inquietude seja constantemente calado pela visão primária e pobre dos Yahoos.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Nos últimos dias, o Brasil tem acompanhado os debates a respeito do que fazer diante da crise econômica na qual estamos. Uma certa narrativa parece ter se consolidado. Trata-se da imagem de um país em "fase terminal" devido ao desequilíbrio fiscal pretensamente resultante da "gastança pública".

Neste sentido, não haveria outra saída a não ser aplicar a versão tupiniquim de um "choque de austeridade" baseado no "corte corajoso de gastos". Mesmo esta Folha, em editorial no último domingo (13), conclamou o governo a adotar tal caminho através, entre outros, da: "desobrigação parcial e temporária de gastos compulsórios em saúde e educação, que se acompanharia de criteriosa revisão desses dispêndios no futuro". Caso isto não ocorresse, não restaria à presidente, ao dobrar-se à crise, "senão abandonar suas responsabilidades presidenciais e, eventualmente, o cargo que ocupa".

Mas o que significa o caminho proposto? De fato, certo equilíbrio fiscal pode ser alcançado desta forma, mas a que preço? Pois há de se perguntar sobre qual país nascerá ao final deste processo de ajuste. Diria que toda reflexão sobre a situação brasileira atual deveria partir do fim, pois há fins distintos que podem ser alcançados.

Um país desigual como o Brasil e que aceitasse rever o seu padrão de gastos com serviços públicos caminharia para a precarização ainda maior das parcelas mais desfavorecidas de sua população. Como não poderá mais ter serviços mínimos de saúde e educação, a camada mais pobre terá de trabalhar mais, isto em um contexto de flexibilização e ausência de garantias de trabalho. A crise seria apenas um álibi para a intensificação da espoliação de classe.

Por isto, implementar propostas que têm circulado ultimamente, como cobrança por serviços do SUS e mensalidades em universidades públicas, significa aprofundar a espiral de miséria. Diga-se de passagem, uma crise não precisa de cortes em educação. Ao contrário, é neste momento que os investimentos em educação são mais necessários e estratégicos pois são eles que permitirão a abertura de novos caminhos para a economia. Por estas razões, não é difícil perceber que o país que sairia depois de tal "austeridade" seria um país mais desigual, mais injusto e socialmente violento.

Alguns poderiam perguntar se afinal haveria outra saída. Ela existe, mas é sempre apresentada de forma caricata e distorcida, como se fosse o caso de não permitir que o país encare a brutalidade de sua injustiça social. Pois estamos a falar de um país, como o Brasil, no qual há uma parcela da população que desconhece a crise, que neste exato momento tem seus rendimentos garantidos porque aproveita-se da valorização obscena do capital oferecida pelo sistema financeiro com suas taxas criminosas de juros.

Nosso país não é mais um país de industriais e empresários. Ele é um país de rentistas, ou seja, de gestores do capitalismo patrimonial. Um país onde uma classe vive sem trabalhar, apenas gerindo suas heranças e aplicando seu capital. Tais rentistas não conhecerão crise, assim como o sistema financeiro com seus lucros bancários recordes.

Se quisermos fazer o Brasil sair desta crise sendo um país mais justo e igualitário será necessário encarar corajosamente, na verdade, a desregulação tributária vergonhosa a que nossa população está submetida. Fala-se que a carga tributária brasileira "é a mais alta do mundo". Eis uma pura e simples mentira. Tentem saber qual a carga de países como Alemanha e França, por exemplo.

Na verdade, o Brasil é o país que tem a carga tributária mais injusta, pois ela incide basicamente sobre o consumo e produção, não sobre a renda. Os impostos estão nos produtos que compramos. Por isto, quem ganha menos paga proporcionalmente mais. Mais correto seria taxar a renda, as heranças, as grandes fortunas, os lucros bancários, obrigando os ricos a fazerem o que não fazem no Brasil ou seja, contribuírem.

Vejam, por exemplo, toda a hipocrisia em torno da CPMF. Eis um dos impostos mais justos que este país já teve, pois incide em quem mais usa o sistema financeiro, ou seja, os mais ricos. Os mesmos que tentam vender seus interesses de classe como se fosse interesse geral da população. Uma CPMF de 0,38%, por exemplo, renderia ao Estado R$ 60 bilhões. Perguntem quanto teríamos com imposto sobre grandes fortunas (tal estudo o governo brasileiro simplesmente nunca fez, por que será?).

O que é melhor: retirar a gratuidade do SUS, levar a classe média pobre a pagar universidades públicas ou obrigar os mais ricos a arcarem com a conta da crise?
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
A política não é uma questão apenas de circulação de bens e riquezas. Ou seja, ela não se funda simplesmente em uma decisão a respeito de como as riquezas e os bens devem circular, como eles devem ser distribuídos.

Embora essa seja uma questão central que mobiliza todos nós, ela não é tudo, nem é razão suficiente de todos os fenômenos internos ao campo que nomeamos "política". Na verdade, a política é também uma questão de circulação de afetos, da maneira com que eles irão criar vínculos sociais, afetando os que fazem parte destes vínculos.

A maneira com que somos afetados define o que somos e o que não somos capazes de ver, o que somos e não somos capazes de sentir e perceber. Definido o que vejo, sinto e percebo, define-se o campo das minhas ações, a maneira com que julgarei, o que faz parte e o que está excluído do meu mundo.

Percebam, por exemplo, como um dos maiores feitos políticos de 2015 foi a circulação de uma mera foto, a foto do menino sírio morto em um naufrágio no Mar Mediterrâneo.

Nesse sentido, foi muito interessante pesquisar as reações de certos europeus que invadiram sites de notícias de seu continente com posts e comentários. Uma quantidade impressionante deles reclamava daqueles jornais que decidiram publicar a foto. Por trás de sofismas primários, eles diziam basicamente a mesma coisa: "parem de nos mostrar o que não queremos ver", "isto irá quebrar a força de nosso discurso".

Pois eles sabiam que seu fascismo ordinário cresce à condição de administrar uma certa zona de invisibilidade. É necessário que certos afetos não circulem, que a humanização bruta produzida pela morte estúpida de um refugiado não nos afete. Todo fascismo ordinário é baseado em uma desafecção.

Toda verdadeira luta política é baseada em uma mudança nos circuitos hegemônicos de afetos. Prova disso foi o fato de tal foto produzir o que vários discursos até então não haviam conseguido: a suspensão temporária da política criminosa de indiferença em relação à sorte dos refugiados.

Mas essa quebra da invisibilidade também se dá de outras formas. De fato, sabemos como faz parte das dinâmicas do poder decidir qual sofrimento é visível e qual é invisível. Mas, para tanto, devemos antes decidir sobre quem fala e quem não fala, qual fala ouvirei e qual fala representará, para mim, apenas alguma forma de ressentimento.

Há várias maneiras de silêncio. A mais comum é simplesmente calar quem não tem direito à voz. Isso é o que nos lembram todos aqueles que se engajaram na luta por grupos sociais vulneráveis e objetos de violência contínua (negros, homossexuais, mulheres, travestis, palestinos, entre tantos outros).

Mas há ainda outra forma de silêncio. Ela consiste em limitar sua fala. Assim, um será a voz dos negros e pobres, já que o enunciador é negro e pobre. O outro será a voz das mulheres e lésbicas, já que o enunciador é mulher e lésbica. A princípio, isto pode parecer um ato de dar voz aos excluídos e subalternos, fazendo com que negros falem sobre os problemas dos negros, mulheres falem sobre os problemas das mulheres, e por aí vai.

No entanto, essa é apenas uma forma astuta de silêncio, e deveríamos estar mais atentos a tal estratégia de silenciamento identitário. Ao final, ela quer nos levar a acreditar que negros devem apenas falar dos problemas dos negros, que mulheres devem apenas falar dos problemas das mulheres.

Pensar a política como circuito de afetos significa compreender que sujeitos políticos são criados quando conseguem mudar a forma como o espaço comum é afetado.

Posso dar visibilidade a sofrimentos que antes não circulavam, mas quando aceito limitar minha fala pela identidade que supostamente represento, não mudarei a forma de circulação de afetos, pois não conseguirei implicar quem não partilha minha identidade na narrativa do meu sofrimento. Minha produção de afecções continuará circulando em regime restrito, mesmo que agora codificada como região setorizada do espaço comum.

Ser um sujeito político é conseguir enunciar proposições que implicam todo mundo, que podem implicar qualquer um, ou seja, que se dirigem a esta dimensão do "qualquer um" que faz parte de cada um de nós. É quando nos colocamos na posição de qualquer um que temos mais força de desestabilização de circuitos hegemônicos de afetos.

O verdadeiro medo do poder é que você se coloque na posição de qualquer um.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Ao fim e ao cabo, Anna Muylaert produziu, com "Que Horas Ela Volta?", um filme necessário. De fato, o cinema brasileiro recente tem uma dificuldade congênita de abandonar a linha segura do realismo documental e criar histórias com seus arcaísmos de classe.

Tal silêncio em relação aos nossos arcaísmos talvez seja apenas sintoma dessa capacidade impressionante das classes abastadas brasileiras de não se deixarem representar de uma maneira que quebre suas autoilusões. Nada estranho, já que, como se diz, quem paga a orquestra escolhe a música.

A esse respeito, lembremos como, ao ser questionado sobre a razão pela qual não existiam dados sobre o Brasil em seu livro "O Capital no Século 21", o economista Thomas Piketty afirmou não ter sido capaz de acessar os dados da elite patrimonial de nossas terras. Alguém deveria ter alertado Piketty que, aqui, a classe dos que desconhecem a crise sabe como esconder sua imagem quando necessário.

Ela sempre soube como não deixar circular seu modo de vida de forma a mostrar suas próprias misérias morais e indiferença social. Um dos resultados dessa incrível arte de ilusionista de nossa elite é o fato de o cinema nacional recente, com raras e honrosas exceções, desconhecer o que faz o Brasil ser Brasil.

Ao escolher contar a história de uma empregada e sua relação com seus patrões em uma mansão no Morumbi, parecia, no entanto, que teríamos mais um filme que se deleita em repetir a comicidade reconciliadora própria às relações de classe em telenovelas. O protagonismo de uma atriz marcada por tal universo, como Regina Casé, poderia nos levar a apostar nesse jogo. No entanto, há de se reconhecer que o longa sabe como produzir surpresas e que mesmo a escolha da atriz se demonstrará um grande acerto.

O eixo central é a representação do imobilismo e de sua quebra. De fato, a vida na mansão do Morumbi é marcada pelo imobilismo de quem sabe que não precisa fazer nada para continuar na posição confortável em que sempre esteve. O pai é um rentista ocioso. Outrora, teve veleidades artísticas, queria ser pintor, mas não teve forças para continuar. Na verdade, nem precisava de fato se colocar tal desafio, já que sua vida sempre esteve e estará assegurada. Hoje, se compraz em acordar às 11h para tomar seus antidepressivos e observar seu próprio imobilismo.

O filho adolescente tem camisetas de bandas legais, como Joy Division, fuma seus baseados, mas também não se coloca maiores questões. Ele poderá ser o filho adolescente pelo tempo que quiser, independente do que acontecer. Adolescente eterno, como seu próprio pai. Tudo está assegurado pelos deuses da paralisia.

Até que chega Jéssica, a filha da empregada, decidida a prestar vestibular para a USP. Ela representa essa parcela da população brasileira que começou sua ascensão social nos últimos dez anos, a população em movimento.

Só que, contrariamente à mãe, que se orgulha em mostrar para a filha sua TV de tela plana e seus eletrodomésticos que um dia serão usados, Jéssica desdenha uma situação na qual a integração pela ampliação da capacidade de consumo parece ser o destino final.

A filha teve um professor de história que lhe ajudou a pensar de forma crítica, descobriu o modernismo, quer conhecer as obras de Niemeyer. De fato, ela não quer ficar em seu "lugar natural", o que coloca sua mãe em pânico. Ela entrará na piscina, agirá como uma igual no interior da casa, provocando um movimento cujas consequências serão motor do filme.

Com essa imagem de um processo em curso produzido pela possibilidade de redefinição dos regimes de circulação do saber e pelo sentimento de autorrespeito que tal redefinição produz, Muylaert fez mais do que oferecer um retrato do presente, pois alguns poderiam lembrar que essa imagem está distante do que vemos atualmente de forma hegemônica no país.

Ela indica um caminho que agora pode ocorrer, sugerindo a imagem de um possível que até há pouco seria impossível. Sempre foi próprio dos bons filmes mostrar não necessariamente o que existe, mas a latência da existência, aquilo que se tornou possível –mas que muitos, pelas razões de sempre, gostariam de continuar silenciosamente a não acreditar. Os bons filmes nos fazem ver não a atualidade, mas a possibilidade da atualidade.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Em todos os momentos em que teve desenvolvimento econômico, o Brasil soube acompanhá-lo de explosão criativa em sua produção cultural, menos agora.

No interior de tais explosões, a música costumava desempenhar um papel de alta relevância. A ideologia cultural nacional sempre foi, em larga medida, uma ideologia musical. Ela aplicava assim, em pleno século 20, essa estratégia política da formação dos Estados-nação no século 19, que consistia em utilizar a música para a construção das "nacionalidades".

Como tivemos de esperar até 1930 para começar a deixar de sermos um mero clube associativo de donos de fazendas para sermos algo mais próximo de um país, foi a partir daí que a música brasileira passou à linha de frente do debate cultural. A construção nacional de Villa-Lobos e das pesquisas musicais de Mário de Andrade são exemplos paradigmáticos nesse sentido.

Na Europa do século 19, a junção entre Estado, nação e povo se fez, entre outros meios, pela elevação da música à linguagem de construção do espaço social e de reconciliação das populações como unidade.

Criou-se o folclore, instrumentos típicos, particularidades que, muitas vezes, eram apenas variações estruturais de constantes globais. Assim, a narrativa do povo que encontra seu solo e os afetos que o singularizam vinha sob a forma do canto, deste mesmo canto que, já dizia Rousseau, era a forma da primeira linguagem que nos deixaria mais próximos da origem e da autenticidade.

Que tenhamos apreendido cirurgicamente a nos orgulhar da música brasileira como expressão maior da espontaneidade bruta de nossos sentimentos e modos de pensar, como modelo de convivência possível entre camadas sociais distintas e distantes (afinal, quando o samba fala alto tudo se mistura), é algo que não deveríamos estranhar. Como vários outros, este país foi construído a ferro, fogo e música.

No entanto, toda operação de ideologia cultural sempre produz mais do que consegue controlar. Essa alta importância da música acabou por produzir um sobreinvestimento. Mesmo que a música brasileira tenha se reduzido, em larga medida, aos limites da canção (a forma musical por excelência de consolidação de laços sociais devido a sua estereotipia formal e de fácil recognição), é inegável que o Brasil, como alguns poucos outros países, soube extrair genialidade de tais limites.

Que, nos anos 1970 e 1980, músicos populares tenham se transformado em expoentes maiores da consciência crítica nacional, trazendo para a esfera da alta circulação cultural aquilo que tinha a capacidade de complexificar nossa imagem de país, de sociedade e de afetos, apenas demonstra como toda construção de um solo e de um território acaba por ter de lidar com o que procura nos levar para além de tal território. O desenvolvimento econômico parecia levar a uma explosão cultural que tendia a complexificar as imagens produzidas por nossa ideologia cultural.

Mas algo de peculiar ocorre a partir dos anos 1990, chegando a seu ápice neste último decênio. A partir de certo momento, impera o movimento que vai do É o Tchan, da era FHC, ao funk e sertanejo universitário do lulismo.

A despeito de experiências musicais inovadoras nestas últimas décadas, é certo que elas conseguiram ser deslocadas para as margens, deixando o centro da circulação completamente tomado por uma produção que louva a simplicidade formal, a estereotipia dos afetos, a segurança do já visto, isso quando não é a pura louvação da inserção social conformada e conformista. A música brasileira foi paulatinamente perdendo sua relevância, para se transformar apenas na trilha de fundo da literalização de nossos horizontes.

Ultimamente, todas as vezes que se levanta a regressão da qual a música brasileira é objeto se é acusado de elitista. Afinal, tais músicas teriam vindo dos estratos mais pobres da população brasileira. O que se chora seria, na verdade, o fim da dominância cultural da classe média urbana e o advento das classes populares e das classes do "Brasil profundo".

Como se fosse o caso de aplicar um esquema tosco de luta de classes ao campo da cultura. Para esses que escondem sua covardia crítica por meio de tal exercício, lembraria da necessidade de desconstruir a farsa de um "popular" que não traz problema algum para o dominante. Lembraria de como não há arte proletária, cultura proletária, religião proletária, moral proletária, Estado proletário, pois, como dizia Marx, os proletários são aqueles que não têm religião, Estado, moral (e acrescentaria música, cultura). Por isso, eles são a indicação do que ainda não tem forma nem imagem. Sendo assim, em vez de aplicar esquemas sociológicos primários, melhor seria ouvirmos de fato o que se produz e nos perguntarmos por que chegamos a esse ponto.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Semana passada, escrevi um artigo sobre algumas questões ligadas à música no Brasil contemporâneo. Das acusações suscitadas pelo referido, a mais leve era a de que não entendia nada sobre música, a mais cômica era de que eu seria pago pela grande imprensa para desqualificar a produção musical nacional. Entre elas, circulavam alguns impropérios de douta finesse, dignos do Grande Dicionário Arranca-Rabo da Língua Portuguesa ou do best-seller "UFC Acadêmico: Quebrando o Pescoço do Inimigo", sem descuidar de notas de rodapé e citações. Claro que não poderiam também faltar metralhadas classicamente mobilizadas desde a época que stalinistas atiravam no "formalista" Vladimir Maiakóvski a fim de desqualificar a "dificuldade" de sua poesia. Ou seja, para minha não surpresa, estavam lá os velhos "elitista", "ultrapassado", "desconectado da verdadeira pulsação febril das massas". Faltou pouco para não aparecer um "inimigo da classe trabalhadora e de suas manifestações", mas atualmente "adorniano" já basta para tanto.

Dentre as críticas que chegaram até mim, algumas eram realmente interessantes e diziam respeito às modalidades de circulação da produção musical atual. A estas, só tenho a agradecer. Mas a maioria, infelizmente, era contra o que simplesmente não falei nem pensaria em defender. Ou seja, tudo o que se pode dizer neste caso é: desculpem-me, amigos, mas creio que a carta foi postada com o endereço errado. Com sangue nos olhos, não se consegue ler nem texto de jornal.

Em momento algum foi questão de afirmar que a produção musical brasileira atual seria desprovida de qualidade em relação aos "grandes padrões do passado" ou a qualquer coisa que o valha. Nem procurei reeditar o simplismo da saga erudito X popular. Gostaria simplesmente de lembrar o que realmente escrevi: "A despeito de experiências musicais inovadoras nestas últimas décadas [Chico Science e Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Criolo, só para ficar em alguns entre tantos], é certo que elas conseguiram ser deslocadas para as margens [ou seja, o problema era de circulação, não de produção], deixando o centro da circulação completamente tomado por uma produção que louva a simplicidade formal, a estereotipia dos afetos, a segurança do já visto, isto quando não é a pura louvação da inserção social conformada e conformista." Antes, eu dissera no mesmo artigo que o Brasil fora um dos poucos países capazes de extrair genialidade de um sistema musical largamente baseado na forma-canção.

Pode-se dizer que essa noção de "margem" e "centro" seria tributária de um modelo de difusão da produção cultural anterior ao advento das redes sociais. Esse é um argumento válido, seria necessário discuti-lo com calma, o que não é possível no espaço de um artigo de jornal, mas temo que ele seja muito mais um "wishful thinking" do que realidade. Vários são os estudos de mídia a mostrar que o "consumo" de música continua centralizado em dinâmicas brutalmente oligopolistas, repetindo um padrão de radicalização do monopólio típico de todos os setores atuais da economia.

Agora, há algo que realmente falei e que repetiria com todas as letras. Há uma incrível covardia crítica em relação à miséria musical do que circula de forma maciça nesta última década. Citei o funk e o sertanejo universitário por serem os casos mais evidentes. Creio que parte de tal covardia vem do fato de que, mesmo que esta produção seja ouvida em qualquer festa da elite brasileira, mesmo que ela seja o motor da produção da indústria cultural brasileira, que ela embale sem tensão o mundo da integração absoluta, alguns ainda irão querer lê-la como expressão da "espontaneidade popular". Bem, para estes que acham não fazer sentido qualquer crítica da forma musical, que acham que qualquer análise crítica da produção cultural é mistificação de classe, teria muito a dizer, mas insistiria em um ponto: vocês, no fundo, não acreditam que existam julgamentos estéticos, apenas se acomodam a análises sociológicas. Vocês se importam pouco com música, apenas acreditam que as "manifestações musicais da classe trabalhadora" ou congêneres devam ser respeitadas em quaisquer circunstâncias. Vocês sequer se perguntam quão estranho é sua noção de "classe trabalhadora" acomodar-se tão bem à condição de figurante de programa dominical de variedades da Rede Globo. Talvez isso mostre como, para alguns, a ideia de uma arte revolucionária só poder ser feita com uma forma revolucionária perdeu todo o sentido.

Platão dizia: "Não se abalam os gêneros musicais sem se abalarem os alicerces da cidade". O tipo de reação canina ao que escrevi só demonstra que Platão sabia do que falava. Muitos, sem saber, querem deixar os alicerces onde eles sempre estiveram.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Alguém que tivesse ido embora do Brasil em 2011 e voltasse agora acreditaria ter errado de país. Nada sobrou daquele país que acreditava estar em marcha irresistível para se transformar na quinta economia mundial e cuja presidenta alcançava cumes de popularidade. País que se vangloriava de ter escapado da crise de 2008 com uma impressionante velocidade de recuperação, além de vender para o mundo a imagem de ser o único BRIC que poderia realmente dizer possuir uma democracia consolidada.

Aquele que vem hoje ao Brasil encontra um país completamente paralisado, cuja população assiste, com um misto de sentimento entre o horror e a paralisia, aos lances diários de uma política gangsterizada levada a cabo por um casta que luta entre si não para saber qual será o programa a ser implementado, mas simplesmente para saber quem usufruirá do botim. Uma política que chegou ao ápice maior da hipocrisia. Um nível de hipocrisia difícil de suportar até mesmo para nós, acostumados a ter de lidar com uma classe política conhecida por frequentar as páginas policiais.

Por exemplo, é só mesmo como uma pantomima circense que alguém pode abrir o jornal nesta semana e ver a foto de alguns "doutos" ligados ao PSDB e alguns "representantes" de movimentos "anticorrupção" entregar ao "ilibado" presidente da Câmara, o sr. Eduardo Cunha, um enésimo pedido de impeachment. O mesmo senhor que mentiu descaradamente a uma CPI sobre a existência de contas suas na Suíça, que luta desesperadamente para preservar-se no cargo a despeito de acusações da Justiça Federal sobre seu envolvimento orgânico em corrupção na Petrobras e que, agora, cria factoides para tentar desviar a opinião pública de sua situação espúria.

O último de seus factoides é uma lei que visa a dificultar as práticas de aborto em um país cujas leis sobre o assunto são de uma violência brutal e arcaica contra as mulheres. De acordo com as novas leis que podem passar no Congresso, ficará mais difícil e humilhante provar casos de estupros, e mesmo a pílula do dia seguinte poderia parar de ser vendida. Não é à toa que uma lei deste quilate seja apresentada por um senhor que não tem pudor sequer para mentir a uma CPI.

Muito de seu sentimento de carta branca para chantagear o país deve ser creditado a setores hegemônicos da imprensa brasileira que relutaram em fazer seu papel. Em vez de fornecer ao país a ficha pregressa deste senhor e de atentar a opinião pública para sua procedência das hostes de Collor e PC Farias, assim como para os múltiplos casos de corrupção nos quais ele aparecia envolvido, veículos de comunicação preferiram vender a imagem de um líder combativo, que poderia enfim emparedar um governo combalido e eivado de corrupção por todos os lados. Um pouco como quem pensa que pouco importa a cor do gato, desde que ele casse o rato. No entanto, ninguém nunca viu ratos caçarem ratos.

Mas mesmos aqueles que procuram defender o governo de um impeachment deveriam reconhecer o que realmente está em jogo. Não estamos assistindo a alguma tentativa de golpe contra um programa popular de esquerda. Desculpe-me, mas Dilma não é João Goulart, nem Joaquim Levy é Celso Furtado. Estamos assistindo a uma luta sangrenta para saber que grupo comandará um programa já decidido de véspera, e que não mudará. Mesmo as pequenas margens de diferença que existiam entre a versão petista do programa e a versão tucana foram queimadas. Ou seja, o cenário está mais para luta florentina pelo poder por meio de jogos de bastidores do que para embate realmente político a respeito de concepções distintas da vida econômica e social. Por isto, em vez de procurar justificativas para a defesa contra o impeachment, servindo assim de anteparo contra um governo morto, melhor seria se estivéssemos realmente comprometidos em construir alternativas para além deste cenário de filme de horror.

Tudo isto é o resultado do que ocorreu em 2013. Na verdade, 2013 foi um dos mais importantes acontecimentos da história brasileira não por aquilo que ele produziu, mas por aquilo que ele destruiu. O Brasil de 2011 está longe porque ocorreu 2013. Desde então, ficou claro como nenhum ator político brasileiro, à esquerda e à direita, estava à altura dos desafios postos pelas manifestações, de suas demandas de reinvenção da experiência política e de nova partilha das riquezas. 2013 destituiu todos os atores políticos. A partir de então, a política brasileira virou o ringue de atores destituídos que lutam desesperadamente para impedir que algo realmente novo aconteça. Mesmo que, para justificar a imobilidade, eles precisem inventar um impeachment.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Depois de grandes manifestações contra o governo, a crise econômica e a classe política que sacudiram a Espanha nos últimos anos, os poderes instituídos resolveram enfim responder. Não, eles nada fizeram para tentar dar alguma realidade institucional a demandas de democracia direta e de autonomia do poder em relação aos interesses do sistema financeiro. A toque de caixa, o governo espanhol aprovou leis que criminalizavam, entre outras coisas, "perturbações graves" junto ao Congresso e "uso indevido" de imagens de policiais. Por exemplo, graças a essa lei, uma espanhola que fotografou um carro da polícia estacionado em área proibida foi multada. Esta é a forma que, atualmente, os "Estados democráticos" respondem quando se sentem ameaçados pela revolta popular: eles procuram todos os meios para transformar a revolta política em crime.

Como nenhuma ideia ruim vem à existência sem alguém que tenha a crença de devermos aplicá-la por nossas bandas, o Senado brasileiro acaba de aprovar uma lei que, no fundo, visa simplesmente impor medo aos cidadãos que ousem ir novamente às ruas para manifestar contra a casta política que os governa e seus interesses. Ela vem com o nome de "lei antiterrorista", mesmo que, no Brasil, até segunda ordem, ninguém tenha ouvido falar da existência de "grupos terroristas", a não ser pela boca de políticos do PSDB, que, na era de FHC, o sábio, gostavam de chamar o MST de "terrorista", ou de revistas humorísticas travestidas de semanários de notícia que chamavam manifestantes com a mesma alcunha.

Duas interpretações então se impõem. Ou a lei é um caso absolutamente único de legislação constituída antes do fato que a legitime ou ela tem um fato, mas ele não é aquele que alguns procuram nos fazer acreditar. Vejamos, por exemplo, como a lei tipifica "terrorismo": "Provocar ou infundir medo ou terror generalizado mediante ofensa ou tentativa de ofensa à vida, à integridade, à saúde ou à privação da liberdade da pessoa". Provocar terror generalizado mediante tentativa de ofensa à saúde: como todos podem perceber, trata-se de uma definição quase cômica que nem com a maior boa vontade permitiria individualizar com clareza aquelas condutas que deveriam ser tipificadas como terrorismo. Pela definição, a clássica emissão radiofônica de Orson Welles sobre um ataque de marcianos cujo realismo era tamanho que provocou pânico na população seria tipificada de terrorismo pelos parlamentares brasileiros. No entanto, por alguma razão singular, nenhum parlamentar lembrou de tipificar como terrorismo o ato de provocar terror generalizado por meio da corrupção ao bem público.

De toda forma, como nossa polícia é eivada de admiradores confessos da ditadura de 64 ou de especialistas em inteligência militar capazes de transformar embalagem de Nescau e de vinagre em artefato bélico, dá para imaginar como será interpretado o ato de "provocar terror generalizado". Afinal, sempre se é o terrorista de alguém. Neste ponto, o sempre alerta senador Aloysio Nunes conseguiu o feito inacreditável de piorar uma lei já medonha ao retirar o parágrafo que afirmava que a nova legislação não se aplica a: "conduta individual ou coletiva de pessoas em manifestações políticas, movimentos sociais, sindicais, religiosos, de classe ou categoria profissional". É que a política brasileira já dispensou a fase dos disfarces.

É claro que, ao menos neste ponto, o Brasil não inova. Faz parte da 'novilíngua' atual usar uma noção completamente vaga de "terrorismo" para justificar um Estado de exceção permanente no interior do qual podemos flexibilizar leis que garantem liberdade individual, fichar manifestantes de toda ordem e exigir que as pessoas não tirem fotos de carros de polícia estacionados em lugar proibido. Pois há algo que as democracias oligárquicas atuais têm mais medo do que de terroristas reais: manifestantes nas ruas.

No entanto, há um ponto no qual a lei brasileira abre novos caminhos para o mundo, a saber, na tipificação de "terrorismo contra coisas". Sim, é possível ser terrorista contra coisas, desde que tais coisas sejam "meio de transporte coletivo" de propriedade de empresas cujos donos costumam ter contas na Suíça, "instituições do sistema financeiro nacional e sua rede de atendimento", entre tantos outros. Uma lei contra depredação de patrimônio não basta. Quebrar vidraça de banco só podia mesmo ser terrorismo.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Dentro da narrativa hegemônica construída para explicar a crise brasileira encontra-se a tentativa de afirmar que o grande vilão é o Estado. Conta-se, em todos os meandros dos cadernos de economia dos jornais e na boca de seus analistas, que o primeiro governo Dilma teria "feições estatistas e intervencionistas" responsáveis pelo descalabro final das contas públicas e orçamentos com previsão de deficit. A crise que hoje vivemos seria assim a prova do fracasso gerencial do capitalismo de Estado brasileiro, não restando outra coisa do que aceitar, de vez, a boa e sã cartilha do liberalismo.

Há, no entanto, várias ilusões de ótica neste raciocínio.

Primeiro, chamar o governo Dilma de estatista e intervencionista é dificilmente defensável. Até onde consta nos anais destes últimos anos, seu governo privatizou (com o estratagema da "privatização branca" das concessões) aeroportos, rodovias, portos e ferrovias. Ele ainda abriu a exploração do pré-sal para empresas estrangeiras, entregando 60% da maior reserva de petróleo da camada salina para quatro empresas estrangeiras e contrariando, com isto (para variar), promessas de campanha.

Acrescente ao bolo uma política de desoneração e redução de impostos que produziu uma renúncia fiscal de R$ 327,16 bilhões entre 2011 e 2015. Gostaria de saber em que lugar do mundo um conjunto de políticas desta natureza seria chamado de estatista e intervencionista.

Na verdade, este debate procura esconder o que realmente entrou em crise atualmente.

A dicotomia liberalismo X estatismo que parece comandar boa parte do nosso debate é uma falácia. O capitalismo nunca foi liberal. Ele simplesmente oscila em sua história, respondendo a pressões de conflitos sociais e da força de interesses setoriais sobre como regular e mediar demandas.

Não lembro de nenhum destes economistas com Adam Smith no coração reclamar de o governo norte-americano, em plena crise de 2008, usar dinheiro público para salvar bancos privados como o Citibank. Também não consta que algum deles tenha reclamado da Comunidade Europeia despejar dinheiro público em seu combalido sistema financeiro, permitindo que tal dinheiro fosse usado até para pagar "stock options" de executivos cujo maior feito de suas capacidades gerenciais fora quebrar bancos. O que não é de se estranhar, já que a questão liberal nunca foi "como diminuir o Estado", mas "como privatizar o Estado, colocando-o a serviço dos interesses dos empresariados nacionais ou da classe de financistas".

Nós já vimos isto ocorrer milhares de vezes em terras brasileiras. Basta lembrar como o "liberal" governo FHC usou dinheiro do contribuinte para salvar bancos falidos através do Proer. Ou, se quisermos ser mais estruturais, basta se perguntar sobre a origem da dívida pública brasileira, cuja parte substancial é resultado da transformação de dívidas privadas de empresas e bancos em dívidas públicas.

Quer dizer, no capitalismo, o Estado sempre intervém. A única questão real é: "A favor de quem?".

Neste sentido, mais honesto seria lembrar que o modelo em crise atualmente no Brasil é outro.

O que entrou em crise foi a crença de ser possível "gerenciar" o capitalismo brasileiro com ajustes pontuais que permitiriam recuperar um modelo de "pacto no interior do Estado" entre empresários, sistema financeiro e sindicatos. Modelo cujas raízes encontram-se no sistema de equilíbrio de moldes getulistas.

Se a bomba explodiu na mão da esquerda nacional é por seus setores hegemônicos terem acreditado que era seu destino ressuscitar tal modelo, com direito até a foto com mão suja de petróleo em poço da Petrobras. Melhor teria sido escapar da falsa dicotomia entre capitalismo estatista e capitalismo liberal.

Nestes últimos meses, o Banco Itaú anunciou o maior lucro líquido na sua história entre abril e junho, a saber: R$ 5,9 bilhões só em um trimestre. Cifra praticamente igual ao seu lucro do terceiro trimestre. O Bradesco teve R$ 4,12 bilhões de lucro líquido no terceiro trimestre.

Quem quiser entender a crise brasileira deveria se perguntar como um país com economia em contração pode ter lucros bancários tão exorbitantes.

Longe de um contradição, temos atualmente uma relação de causalidade necessária. Pois não é difícil perceber quem realmente comanda o Estado.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"Metafísicas canibais", o livro recém-publicado de Eduardo Viveiros de Castro, poderia ser compreendido como uma das mais ousadas reflexões das últimas décadas sobre o estatuto epistemológico da antropologia. Tal compreensão seria correta, mas simplesmente parcial. Seu livro é mais do que isto.

Primeiro, nota-se como dele deriva uma forte reflexão de cunho propriamente filosófico sobre os limites do relativismo ao convidar o leitor a descobrir o pensamento ameríndio como portador de virtualidades insuspeitas do pensamento em geral (e há de se sublinhar o que significa falar hoje de pensamento "em geral"). Tal convite é sua maior arma crítica. Ao fim de sua leitura, é difícil ao leitor brasileiro não se perguntar quanta incompreensão e violência foram necessárias para desconhecermos por tanto tempo a complexidade destas experiências do pensamento ameríndio que estão a nossa volta e que nos implicam. Não será a menor das ironias deste livro prenhe de inversões surpreendentes descobrir, por exemplo, os devires e intensidades que habitam as páginas mais recentes da filosofia francesa de Deleuze e Guattari pulsando no pensamento destes índios que procuramos soterrar. Por estas e outras razões, sua leitura entre nós reveste-se de uma importância suplementar.

"Metafísicas Canibais" parte de uma questão de base: "O que deve a antropologia aos povos que estuda?". Esta é sua maneira de defender a tese de que a antropologia pode alcançar o nível no qual seus conceitos se enraízam no esforço imaginativo das próprias sociedades que ela pretende explicar. Forma astuta de defender que a verdadeira missão da antropologia é ser, na bela definição do autor, "uma teoria-prática da descolonização permanente do pensamento". Pois a perspectiva relativista que reduz o discurso sobre o Outro à projeção constante de nós mesmos pode parecer inicialmente ser o reconhecimento dos limites de nossa forma de pensar, mas, ao final, ela apenas reitera o narcisismo de quem só enxerga a si mesmo em tudo o que vê.

Nesse sentido, quando Viveiros de Castro propõe tomar as ideias indígenas como situadas no mesmo plano que as ideias antropológicas, insistindo que elas também são produtoras de conceitos, ele não o faz para afirmar a irredutibilidade entre "nós" e o "Outro". Antes, tomar o canibalismo, por exemplo, como uma imagem do pensamento, tomar a predação como operação cognitiva é uma forma de remeter a experiência do pensamento a um campo de comparações no qual os termos comparados se traduzem por equivocidades que não são erros ou ilusões, mas forma de uma relação positiva entre diferenças.

Como nestas figuras de gestalt, na qual a forma vira fundo e vice-versa, a própria estrutura do pensamento ameríndio fornecerá a figura da relação possível entre a antropologia e seus Outros. Pois o perspectivismo próprio aos ameríndios nunca será um relativismo. Tal perspectivismo está claramente expresso na conhecida parábola relatada por Lévi-Strauss em "Raça e História". Segundo ele, nas Antilhas, alguns anos após o descobrimento da América, enquanto os espanhóis criavam comissões para saber se os indígenas possuíam alma ou não, estes submergiam prisioneiros brancos para saber se seus corpos eram iguais aos deles.

Ou seja, nunca foi questão, para os indígenas, duvidar do fato dos europeus terem uma alma. Nesta cosmopolítica, todo existente, seja homem ou animal, participa da mesma humanidade. Os animais têm almas como nós, mesmo um europeu pode ter alma. O que difere são seus corpos, que estabelecem perspectivas singulares baseadas em sistemas específicos de afecções. Assim, uma multiplicidade de corpos pressuporá uma multiplicidade de perspectivas sob a univocidade de uma mesma humanidade. Contrariamente ao nosso multiculturalismo, aparece pois um peculiar multinaturalismo no qual vários conceitos de natureza cortam o plano de um mesmo campo da cultura.

Esta univocidade da cultura, tão estranha a nossa sensibilidade atual que só saberia ver nisto um narcisismo animista, permite, ao contrário, uma operação generalizada de descentramento. Se a mesma humanidade está presente nos homens e animais, então nada é humano inequivocamente. Ser humano é, na verdade, estar constantemente fora de si, ser um antinarciso, já que, como dizia Lévi-Strauss: "Nada de humano deve ser estranho ao homem". É isto o que aprenderíamos se soubéssemos parar de destruir nossos próprios índios.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
O Estado de São Paulo está acostumado a catástrofes apresentadas como questões gerenciais. Esta é uma interessante forma de governo na qual o completo desgoverno é apresentado como prova máxima da eficiência. Nada estranho para um Estado no qual a mais crassa incompetência administrativa costuma dar prêmios, haja vista a inacreditável premiação dada ao sr. Geraldo Alckmin pela sua pretensa competência da gestão da crise da água que ele mesmo criou, invenção auxiliada pelos próceres de seu partido. Uma crise que, segundo a novilíngua reinante no Tucanistão, sequer existiu, já que, por exemplo, nunca existiu racionamento, mesmo que você tenha passado dias sem água.

Dentro desse paradigma de governo, governar não é resolver problemas, mas gerenciar a língua e as informações. O número de homicídios cai porque eles não são declarados. Documentos da Sabesp, do Metrô e da PM entram em sigilo de décadas. Assim, o Tucanistão permanece feliz e Alckmin pode sonhar aplicar, em um futuro próximo, seu método de redescrição neurolinguística para todo o país.

A última pérola do desgoverno é a educação estadual. Entre 2000 e 2014, a rede estadual de ensino perdeu 1,8 milhão de alunos. O número de matrículas caiu 32,2%, produzindo, segundo dados do próprio governo, 2.900 "classes ociosas". O número de professores encolheu 11% em relação a 2014. Em um ano, o Estado ficou com 26,6 mil professores a menos. Como é de praxe, o governo apareceu afirmando que deveríamos então dar um "choque gerencial" de eficiência na rede estadual, "entregando" 94 escolas (o tucanato é inacreditável na arte do eufemismo) e criando escolas de apenas um ciclo.

Talvez seria mais honesto começar por se perguntar por que a rede estadual perdeu tantos alunos e professores. Os argumentos palacianos são fantásticos: as famílias têm menos filhos, maior municipalização do ensino. Mais honesto, no entanto, seria reconhecer que a qualidade do ensino estadual é catastrófica, seus professores são miseravelmente pagos, enfrentando condições de trabalho deterioradas, a estrutura de suas escolas é falimentar. Para se ter uma ideia, na cidade de São Paulo, a mais rica da Federação, apenas 12,4% das escolas públicas (estaduais e municipais) têm biblioteca. Isso fez com que todos os que podiam abandonar a rede estadual o fizessem o mais rápido possível.

São Paulo, mesmo sendo o Estado mais rico, nunca se destacou em estudos que medem a qualidade da educação pública. Se o Estado parasse de tratar professores de escola pública como inimigos, ele poderia descobrir a razão para isso. Em uma situação normal, na qual a qualidade pode ser assegurada, as famílias procuram a escola pública para matricular seus filhos. Aqui, elas fogem da escola pública o mais rápido possível.

Agora, ao menos 40 escolas estaduais estão ocupadas por alunos e professores. Eles são contrários à "reformulação" imposta pelo governo, que prevê a mudança de 311 mil alunos de escolas, a tal "entrega" de escolas, que certamente levará ao aumento do número de alunos por sala. Como de praxe, a resposta padrão do governo consiste em mandar sua polícia espancar professores e jogar spray de pimenta em alunos. Quem quiser detalhes brutais, procure informações sobre a ocupação da escola estadual José Lins do Rego, por exemplo.

No entanto, essas pessoas protestam, entre outras coisas, por não aceitarem mais esse padrão de governo que consiste em impor decisões opacas resultantes da arrogância de tecnocratas de gabinete, como se essa mesma racionalidade tecnocrata não fosse, na verdade, a responsável maior pelos descalabros. Não ocorreu consulta e debate algum com professores e alunos sobre decisões que afetarão diretamente suas vidas. Os mesmos professores e alunos que conhecem a realidade bruta das escolas estaduais melhor do que qualquer consultor em educação pago a peso de ouro. Como sempre, aqueles que mais conhecem a realidade, aqueles dotados de uma inteligência prática resultante do contato concreto e cotidiano com os problemas são ignorados e tratados como cães quando protestam.

Um verdadeiro governo começaria por mudar radicalmente esse padrão de decisões, ouvindo e permitindo que as pessoas realmente envolvidas no problema pudessem deliberar. Ele compreenderia que, em uma verdadeira democracia, o Estado não impõe, o Estado ouve. Mas ouvir nunca foi uma qualidade muito prezada no Tucanistão.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Muito já foi dito a respeito dos terríveis atentados em Paris, mas talvez ainda seja necessário insistir em uma questão que alguns lutam com todas as forças para distorcer: "Como chegamos até aqui?". Pois estamos tão envenenados por teorias rocambolescas de choques de civilização, tão anestesiados pelo medo como motor de coesão social e como força de justificativa para delírios militaristas que ficamos paralisados diante da exigência urgente de reconstruir a sequência de nossos passos até o abismo.

Para produzir uma aberração como o Estado Islâmico é preciso um verdadeiro sistema de erros e cegueiras reiterados por anos a fio. É claro que, nessas horas, aparecem os trombeteiros do Apocalipse de sempre, com seus preconceitos rasos a respeito do mundo árabe e de uma religião que eles sequer conhecem. Com suas explicações que mais parecem saídas da era medieval das Cruzadas, e fazem de tudo para não deixar ver como o "arcaísmo" é algo que se constrói a ferro e fogo no presente.

Vejam, por exemplo, a história de Hasna Ait Boulahcen. Francesa "de origem árabe", 26 anos, moradora da periferia pobre de Paris, ela, segundo seus amigos, "adorava festas, namorados e bebidas". Antes dos últimos seis meses, ela preferia chapéus de cowgirls a burcas. Da mesma forma, há até bem pouco tempo, ela não lera nenhuma linha do Corão. No entanto, Hasna participou dos atentados em Paris que mataram barbaramente 130 pessoas.

Ninguém precisa de PhD em psicologia social para compreender como sua conversão a membro de uma organização terrorista que leva o nome de uma religião nada tem a ver com arcaísmos ligados à pretensa resistência de modos de vida tradicionais aos nossos valores liberais. Ou seja, esses jovens urbanos europeus não abraçaram o Estado Islâmico por estarem enraizados em tradições refratárias e sistemas rígidos de hábitos. Ao contrário, eles procuravam arcaísmos exatamente porque não havia mais tradição alguma.

Eles adotaram uma tradição fabricada para expressar a violência contra promessas de modernização social que, para eles, não haviam dado a integração prometida. Há de se conhecer a periferia de onde vieram para perceber como a miséria, a falta de horizonte, as batidas policiais diárias, o racismo ordinário travestido de "luta pela defesa de nossos valores" rondam.

Presos em um vazio no qual não havia nem tradição nem modernidade, eles acharam uma organização que unia o espírito de gangues de delinquentes que conheciam bem, violência bruta e uma narrativa gloriosa que mistura bricolagens religiosas e redenções de um passado épico capaz de deixar para traz o sentimento de humilhação social. Alguns poderiam ver, com tal explicação, uma tentativa de vitimizar assassinos dementes. Melhor seria lembrar, como Hannah Arendt, que o caráter aterrador de nossa situação está no fato de não ser necessário ser monstro para produzir monstruosidades.

O Estado Islâmico conhece bem os afetos de pessoas como Hasna, seu ressentimento e humilhação, sabe muito bem como vampirizá-los. Afinal, ele é filho de outro vazio, este produzido pela catástrofe político-social resultante das invasões criminosas ao Afeganistão e ao Iraque. Mas o Estado francês e toda a camarilha de loucos por fronteiras, fortalezas, identidades e balas "de autodefesa" que aparecem nessas horas não querem saber de nada disso. Por isso, suas respostas foram todas as que o Estado Islâmico previu e pediu.

Quanto mais as respostas forem militares, com direito a repetir alianças coloniais, quanto mais o racismo, ou melhor, esse "conflito de valores que não é racismo", dá o tom dos debates, quanto mais se produzem amálgamas entre acolhimento de refugiados fugindo da destruição de seus países e laxismo com terroristas potenciais, mais o Estado Islâmico pode dizer aos jovens que procura vampirizar: "Vocês não têm lugar nessas sociedades, seu ressentimento justifica tudo".

Por isso, uma invasão militar no Oriente Médio para destruir o EI não significará absolutamente nada. Ninguém estará mais seguro, como ninguém ficou mais seguro depois que Bin Laden foi morto ou que o Afeganistão e o Iraque foram invadidos e destroçados. Depois da desestruturação da Al Qaeda veio algo pior. Depois da destruição do EI virá algo pior. O problema não é "destruir" o Estado Islâmico, mas parar de produzir aquilo que o alimenta, seja no Oriente Médio, seja na Europa.

No entanto, talvez todos esses "erros" cometidos pelos governos ocidentais não sejam um acaso: para eles, melhor do que a árdua tarefa da construção da segurança real é a gestão contínua da insegurança e do medo. Para certos governos, a melhor maneira de governar é gerindo a desordem e criando uma situação de guerra permanente.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
O governador Geraldo Alckmin governa São Paulo como se aqui fosse um imenso cafezal adquirido por herança. Sua lógica não é muito diferente daquela própria aos antigos barões do café que tomavam decisões sobre a província de São Paulo em salões fechados, viam manifestações e greves como crime produzido por "arruaceiros" a quem a única resposta era o porrete da polícia e estavam mais preocupados sobre o que saia nos jornais do que como a população, de fato, recebia suas "medidas administrativas".

O governador pode vestir trajes de barão do café porque é beneficiário da "manemolência midiática" vinda de certos setores da imprensa. Isso significa que seu governo poderá ser julgado em processos no exterior por casos de corrupção no metrô, sua incompetência poderá produzir crises hídricas e racionamentos de água, seu governo poderá criar uma situação educacional classificada por seu próprio secretário da Educação como vergonhosa, mas nada disso se transformará em investigação implacável, como vimos várias vezes quando se trata dos desmandos do governo federal. Como um grande barão, ele irá pairar acima de suas próprias catástrofes.

Neste exato momento, seu governo aprova decretos que lhe permitirão fechar escolas, deslocando alunos para salas superlotadas e eliminando "salas ociosas", resultantes da fuga de professores e alunos do sistema estadual com sua qualidade falimentar. Há anos os profissionais de ensino público procuram denunciar os resultados de uma política que afugenta bons professores devido aos baixos salários, que não garante condições mínimas de ensino em escolas sucateadas, sem bibliotecas e infraestrutura. Ao invés de melhorar o sistema, ouvindo seus professores e alunos, ele resolveu diminui-lo para que ele caiba em um orçamento em queda. Em outros lugares do mundo, os governos lutam para abrir escolas. Aqui, o governo briga para fechá-las.

Como nosso barão do café assustou-se com o fato de os alunos não agirem passivamente como gado, sua Secretaria da Educação declarou preparar-se, vejam só vocês, para uma "guerra". Esta guerra envolveria, entre outras coisas, o esforço estatal em reverter o quadro negativo de notícias. Assim, enquanto decide o futuro de centenas de milhares de alunos soberanamente por decreto saído da cabeça de seus tecnocratas, sem sequer enviar seu projeto à Assembleia Estadual, o governo diz que são os alunos que "não querem dialogar". Enquanto manda sua polícia prender alunos, espancar professores e receber adolescentes com spray de pimenta, ele afirma que os manifestantes são violentos. Neste exato momento em que você lê este jornal, há alunos sendo tratados pela polícia como criminosos por se recusarem a aceitar a "reformulação" de suas escolas. Mas temo que nada disso irá realmente sensibilizar muita gente. Para um certo setor da população paulistana, como bem disse Jean Wyllys, fechar a Paulista é mais preocupante do que fechar escolas.

Como não poderia deixar de faltar, sobrou também para as universidades paulistas: "Não há nada mais corporativo do que a USP, Unicamp e Unesp", disse nosso governador nesta semana, talvez com medo dos professores universitários começarem campanhas para se solidarizar com os estudantes. Ou seja, se a situação das universidades de São Paulo é deplorável, não é porque elas triplicaram de tamanho com a mesma dotação orçamentária, nem porque seu partido impôs um reitor à USP que foi capaz de produzir déficits bilionários. A culpa, é claro, só poderia ser do "corporativismo" que não enxerga o maravilhoso trabalho de melhoria da educação pública feito por seus tecnocratas no Tucanistão. O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard costumava dizer que o pior defeito do ser humano é a transferência de responsabilidade. Meditemos.

Se me permitirem, gostaria apenas de lembrar ao governador que há sim algo mais corporativo do que nossas universidades. Basta que ele olhe para dentro de seu palácio de governo. Afinal, não seria seu partido algo mais parecido a uma corporação que acredita ter o direito censitário e eterno de nos governar sem nunca ter que ouvir, abrir a circulação efetiva de informações, responder por suas decisões equivocadas e rever processos a partir da pressão da população? Bem, mas para quem vê o Estado de São Paulo como um cafezal, as práticas de governo são outras.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Neste exato momento, a população brasileira vê, atônita, a preparação de um golpe de estado tosco, primário e farsesco. Alguém poderia contar a história da seguinte forma: em uma república da América Latina, o vice-presidente, uma figura acostumada às sombras dos bastidores, conspira abertamente para tomar o cargo da presidente a fim de montar um novo governo com próceres da oposição que há mais de uma década não conseguem ganhar uma eleição. Como tais luminares oposicionistas da administração pública se veem como dotados de um direito divino e eterno de governar as terras da nossa república, para eles, "ganhar eleições" é um expediente desnecessário e supérfluo.

O vice tem como seu maior aliado o presidente da Câmara: um chantagista barato acostumado, quando pego em suas mentiras e casos de corrupção, a contar histórias grotescas de fortunas feitas com vendas de carne para a África e contas na Suíça com dinheiro depositado sem que se saiba a origem. Ele comanda uma Câmara que funciona como sala de reunião de oligarcas eleitos em eleições eivadas de dinheiro de grandes empresas e tem ainda o beneplácito de setores importantes da imprensa que costumam contar a história do comunismo a espreita e do bolivarianismo rompante para distrair parte da população e alimentá-la com uma cota semanal de paranoia. O nome de sua empresa diz tudo a respeito do personagem: "Jesus.com".

O golpe ganha um ritmo irreversível enquanto a presidenta afunda em suas manobras palacianas estéreis e nos incontáveis casos de corrupção de seu governo. Ela havia dado os anéis para conservar os dedos; depois deu os dedos para guardar os braços. Mais a frente, lá foram os braços para preservar o corpo, o corpo para guardar a alma e, por fim, descobriu-se que não havia mais alma alguma. Reduzida à condição de um holograma de si mesma e incapaz de mobilizar o povo que um dia acreditou em suas promessas, sua queda era, na verdade, uma segunda queda. Ela já tinha sido objeto de um golpe que tomou seu governo e a reduziu à peça decorativa. Agora, nem a decoração restou.

Bem, este romance histórico ruim e eternamente repetido parece ser a história do fim da Nova República brasileira. Que ela termine com um golpe de estado primário, fruto de um pedido de impeachment feito em cima da denúncia de "manobras fiscais" em um país no qual o orçamento é uma ficção assumida por todos, isto diz muito a respeito do que a Nova República realmente foi. Incapaz de criar uma democracia real por meio do aprofundamento da participação popular nos processos decisórios do Estado e equilibrando-se na gestão do atraso e do fisiologismo, ela acabou por ser engolida por aquilo que tentou gerir. Para justificar o impeachment, alguns são mais honestos e afirmam que um governo inepto deveria ser afastado. É verdade, só me pergunto por que então conservar Alckmin, Richa, Pezão e cia.

O fato é que, no lugar da Nova República, o Brasil depois do golpe assumirá, de vez, sua feição de Estado Oligárquico de Direito. Um estado governado por uma oligarquia que, como na República velha, transformou as eleições em uma pantomima vazia. Uma oligarquia que já mostrou seu projeto: uma política de austeridade que não temerá privatizar escolas (como já está sendo feita em Goiás), retirar o caráter público dos serviços de saúde, destruir o que resta dos direitos trabalhistas por meio da ampliação da terceirização e organizar a economia segundo os interesses não mais da elite cafeeira, mas da elite financeira.

Mas como a população brasileira descobriu o caminho das ruas (haja vista as ocupações dos estudantes paulistas), engana-se aqueles que acreditam poder impor ao país os princípios de uma "unidade de pacificação". Contem com um aumento exponencial das revoltas contra as políticas de um governo que será, para boa parte da população, ilegítimo e ilegal. Mas como já estamos dotados de leis antiterroristas e novas peças de aparato repressivo, preparem-se para um Estado policial, feito em cima de leis aprovadas, vejam só vocês, por um "governo de esquerda". Faz parte do comportamento oligarca este recurso constante à violência policial e ao arbítrio para impor sua vontade. Ele será a tônica na era que parece se iniciar agora. Contra ela, podemos nos preparar para a guerra ou agir de forma a parar de vez com este romance ruim.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Quem ainda tinha dúvidas a respeito do Brasil estar diante de um golpe travestido de impeachment viu, nesta última semana, uma série de acontecimentos reveladores. Eles demonstram claramente como, no vazio do fim da Nova República, seus antigos atores procuram alguma sobrevida, nem que seja tomando o Palácio do Planalto de assalto.

Depois de anos operando nas sombras, o vice-presidente conspirador resolveu transformar seu partido-ônibus, ou seja, esse mesmo partido em que apertando sempre cabia mais um, em uma máquina monofônica organizada para garantir que ele será, enfim, alçado à Presidência da República nos próximos meses. Como o sr. Temer sabe que esta é a única e última oportunidade da sua vida para sair das sombras em que o destino lhe colocou, ele resolveu deixar às claras sua aliança com o sr. Cunha. Vimos então, nesta semana, movimentos inacreditáveis para um partido acostumado à inércia: seu líder da Câmara "moderado" foi deposto, suas portas foram fechadas para o ingresso de políticos mais alinhados ao governo que ele quer derrubar. O próximo passo será, ao que tudo indica, selar a ruptura em janeiro.

Então, como que por acaso, logo depois de descobrirmos que o sr. Delcídio do Amaral operou fartamente esquemas de corrupção quando participava da Petrobras no governo FHC, o PSDB, liderado pelo próprio ex-presidente em seu momento Carlos Lacerda, declarou estar unido para o golpe. Não, desculpe-me, na verdade não se trata de um golpe, mas de um impeachment motivado principalmente pela indignação contra a corrupção que assola este país na última década. De fato, ninguém melhor para liderar tal indignação do que o partido de Geraldo Alstom Alckmin, de Marconi Carlos Cachoeira Perillo, partido já comandado por pessoas do quilate de Eduardo Azeredo, recém condenado a 20 anos de prisão por idealizar o mensalão. Mensalão que, segundo o próprio Azeredo em entrevista para esta Folha em 2007, abasteceu as contas de campanha... De quem? Sim, dele mesmo, do líder da indignação moral nacional: o sr. Fernando Henrique Cardoso.

Mas, como se diz nos dias que correm, o impeachment é um instrumento que precisa do povo na rua. E lá se foi o povo manifestar no domingo para dar a consagração final à moralização nacional. Lá estava também o trânsfuga do último "Toy Story", o Superpato da Fiesp e de seu presidente vitalício, que não deixou de anunciar a esperada adesão dos empresários paulistas, ou do que restou deles, ao golpe. Só que, vejam só vocês, a manifestação pró-golpe foi menor do que a manifestação daqueles que a ele se opõem, realizada na última quarta-feira (16). Ou seja, o argumento do "clamor das ruas" não vai muito longe, será necessário inventar outro. Nada estranho, já que julgar o governo Dilma uma das maiores catástrofes da história recente do país não implica, necessariamente, achar que tudo se ajeitará se tirarmos a personagem da linha de frente para conservar e aclamar os velhos operadores de sempre.

Para terminar, no mesmo dia em que o STF decidiu conservar o sr. Cunha à frente do processo de impeachment, a Procuradoria Geral da República pediu seu afastamento do cargo de deputado por tentar, como nos bons tempos de gângsteres, intimidar e constranger testemunhas no caso Petrobras.

É certo que este álbum de fotografias inacreditável de um golpe primário mostra muito mais do que a inanidade da oposição e a inépcia do governo. Ele mostra que as saídas para a crise não estão dadas nos marcos postos pela crise atual. Se o governo conseguir sobreviver a este golpe, será difícil imaginar o que restará depois. Este é um governo sem rumo, governo de uma "conciliação" que nunca houve, vítima de suas próprias escolhas. Ele continuará sem rumo e sitiado. Se, por sua vez, a oposição der o golpe, este será só o começo de uma das mais profundas crises institucionais e sociais que o país conhecerá. No poder, estará a mais crassa casta oligárquica à frente de um governo ilegítimo, com poderes policiais e repressivos reforçados.

O que se coloca a nós é a tarefa enorme de pensar saídas a partir do reconhecimento da verdadeira extensão dos problemas e do esgotamento das práticas de governo da nossa república.

Como costumamos dizer em psicanálise, a primeira condição para sair do problema é reconhecer seu verdadeiro tamanho.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Uma afirmação que é atualmente tratada como evidência clara como o sol refere-se à hipótese de vivermos no turbilhão de uma onda conservadora. O caráter pretensamente evidente de tal afirmação serve-se de uma série de eventos esparsos, como a composição atual do Congresso Nacional, o sucesso de uma telenovela evangélica, as manifestações de rua no começo do ano a favor do impeachment, a grande venda de livros ensinando a encontrar comunistas na escola de seu filho, a cruzada contra as teorias de gênero, entre outros fenômenos. Para coroar o processo nacional, teríamos o curso do mundo caminhando ao passo de partidos racistas e protofascistas com recordes de votação e discursos xenófobos cada vez mais institucionalizados.

No entanto, há de se perguntar se tal evidência de uma onda conservadora é real ou fruto involuntário de uma leitura cômoda de nossa situação atual. Notem que quem diz "onda" está a falar de um acúmulo maior de força, de uma conquista irresistível de "corações e mentes". Mas seria interessante se perguntar se o fenômeno que vemos hoje é realmente uma onda conservadora ou simplesmente a decomposição radical do que poderíamos chamar de "campo das esquerdas". Uma decomposição que não foi fruto de complôs internacionais e de recrudescência do ódio, mas de impasses e erros próprios. Como política é um jogo de forças, decomposta uma das forças, a outra toma todo o espaço.

O Brasil sempre foi um país com uma grande parcela de sua população claramente identificada ao pensamento conservador. Se necessário, tal população ia às ruas e mobilizava milhares de pessoas em nome de Deus, da família e da propriedade. Eles votaram em Jânio Quadros mais de uma vez, em Paulo Maluf, afirmaram que, se Collor perdesse a eleição, o apartamento que você tem seria dividido no melhor estilo Dr. Jivago. Décadas atrás, livros de Paulo Francis, Roberto Campos e José Guilherme Merquior inundavam livrarias. Contrariamente ao que acreditam alguns, seus argumentos eram, muitas vezes, tão rasteiros e caninos quanto os que ouvimos atualmente. Nada disto mudou muito, só perdeu seu contraponto.

Diria que o que mudou foi a necessidade atual de uma narrativa que justifique nossa paralisia. A ideia de uma "onda conservadora" é boa para alguns porque ela nos faz agir a partir do medo do que pode vir. Quem tem medo não discute muito, simplesmente aferra-se à situação atual, por mais que ela seja ruim. Assim, a hipótese da onda conservadora nos reconcilia com nossa própria paralisia e incapacidade de criar alternativas, de discutir novos modelos de organização política e fazer a autocrítica honesta de nossos erros e dos modelos que foram implementados na última década. O chamado "campo das esquerdas" está preso atualmente entre a defesa de cadáveres e a fragmentação impressionante de seu discurso devido ao desinteresse em construir uma perspectiva de implicação geral. Quando ela consegue sair deste duplo impasse, como vimos na Espanha com a votação impressionante do Podemos nas eleições do último domingo, ninguém mais vê onda conservadora alguma.

Um dos argumentos aparentemente mais fortes dessa chamada onda conservadora é a composição atual do Congresso. Como se um Congresso fruto de campanhas milionárias e leis eleitorais casuísticas fosse a "representação" da população brasileira. Décadas de dificuldade em criticar a democracia representativa dão nisso. Mas há ainda uma distorção suplementar que faz desse Congresso atual uma mera aberração. A última eleição teve uma candidata com 20% de votos e, no fundo, sem partido, já que Marina Silva foi alçada à disputa sem um grupo de candidatos de uma agremiação que lhe fosse própria.

Vejam que onda conservadora bisonha. Digamos que teríamos eleições gerais hoje. Segundo pesquisas, Aécio Neves teria 26%, Lula 20%, Marina 19%, Ciro Gomes 6%, Bolsonaro 4%, Luciana Genro, entre 2 e 3%, e qualquer candidato do PMDB entre 1 e 2%, além de 14% de indecisos. Até segunda ordem, Lula, Marina, Ciro Gomes e Luciana não fazem parte de onda conservadora alguma e somam muito mais do que os outros candidatos juntos. Se houvesse eleições para o Congresso, e aceitando que há uma tendência do voto de presidente influenciar os demais votos, o Congresso que sairia dessas eleições seria muito diferente e melhor do que a camarilha que temos atualmente. Acrescente-se a isto o fato de que boa parte dos 60 deputados indiciados seriam pegos pela lei da Ficha Limpa em alguns meses e que leis contra financiamento empresarial de campanha foram aprovadas.

Mas, bem, mesmo assim há de se reconhecer que falar em onda conservadora é a melhor coisa que podemos fazer quando não sabemos o que fazer ou quando temos medo de fazer qualquer coisa.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Há uma conhecida história que teria envolvido Angela Davis e Theodor Adorno nos anos 1960. Em um dos seminários do frankfurtiano, a ativista e filósofa norte-americana teria iniciado uma discussão ao insistir na necessidade dos intelectuais "assumirem a perspectiva dos oprimidos", agindo principalmente a fim de garantir espaço para que oprimidos pudessem falar, reconhecendo a especificidade de seu lugar de fala.

Angela Davis insistia, com razão, na necessidade urgente de quebrar práticas de exclusão de grupos, até então, sem visibilidade. Assumir a perspectiva dos oprimidos não era falar em seus nomes, mas principalmente lutar para que suas vozes portadoras de sofrimento fossem ouvidas. No que Adorno teria dito, de maneira inesperada, que a verdadeira crítica devia mirar ainda mais fundo e se engajar, na verdade, em dissolver a pretensa evidência da noção mesma de perspectiva, assim como a estabilidade da ideia de "lugar".

Ou seja, tratava-se de afirmar que a própria noção de perspectiva e de lugar já era uma forma, talvez a mais violenta, de opressão.

Esta resposta tinha um alvo muito claro. Ela procurava insistir que não haverá transformação real enquanto aceitarmos os pressupostos e as formas de pensamento decididas de antemão como evidências incontestáveis.

Neste sentido, era o caso de lembrar como parecia cada vez mais natural aceitar que "só há perspectivas", que "cada um tem seu lugar", que "não se pode saltar sobre si mesmo e escapar da relatividade de sua própria posição".

Pretensas evidências desta natureza são, na verdade, o esteio de nossas sociedades neoliberais. Sociedades que procuram nos acomodar à ideia de que só há indivíduos envoltos em suas perspectivas, lugares, posições e nada mais. Afirmar que o problema é a falta de uma perspectiva silenciada pela opressão é fazer desta gramática dos indivíduos a condição para toda política. É reiterar a mesma gramática que já organiza nossos conflitos sociais, evitando assim se perguntar se o maior de todos os problemas não estaria exatamente na imposição de uma gramática da enunciação que nunca muda, que só se aprofunda.

Neste sentido, de nada adiantaria passar da noção de indivíduo à noção de grupo ou mesmo de classe. Quem diz grupo ou classe diz, neste contexto, organização coletiva a partir princípios substancialmente partilhados de identidade. Assim é quando nacionalidades, religião, etnia, gênero, entre tantos outros, funcionam como elemento substancial de identificação. No entanto, há de se insistir que não é a atomização social em indivíduos o verdadeiro problema de nossa vida social, mas a compreensão de toda coletividade como uma "identidade coletiva" dotada, entre outros, de uma perspectiva à qual suas unidades devem se adequar.

Afirmar que a função maior do pensamento crítico é dissolver a noção mesma de perspectiva, como um dia disse Adorno, significa assumir a que verdadeira crítica é uma fala sem lugar e sem posição, ou ainda, uma fala que destrói seu próprio lugar e sua própria posição.

Aqueles que ainda não tiveram voz continuarão sem voz se acreditarem que precisam defender o "seu" lugar, este lugar que é sua propriedade, esta perspectiva que lhe é "própria". Acreditar que falamos algo novo, que abrimos um espaço crítico quando organizamos nossa fala a partir de ideias de propriedade, de próprio, de identidade é simplesmente reiterar o que já está dado, é criar nada. Abolir a propriedade é algo mais complicado do que inicialmente parece.

Isto pode soar aberrante para alguns ou, ainda, pode parecer apenas uma maneira mais poética de assumir "ideias arcaicas" como a noção "totalitária" de consciência universal e totalizante.

Eu diria que uma das mais astutas criações do neoliberalismo é nos fazer crer que sair do espaço dos indivíduos e suas perspectivas proprietárias é deixar-se seduzir por cantos de sereias filosóficas totalitárias. Pois trata-se de nos impedir de se perguntar se a crítica não opera através de algo como "uma voz de ninguém", como disse uma vez Lacan.

Voz que todos podem assumir mesmo que ninguém possa se apropriar pois voz que me despossui de meus predicados e atributos quando falo. Voz que produz uma implicação genérica e que abre a possibilidade de uma noção de comum que não é a partilha de uma substância, mas a crença na força de criação de uma despossessão generalizada.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"A beleza convulsiva será erótico-velada, explodente-fixa, mágico-circunstancial, ou não será beleza". Esta frase se encontra ao final de "O Amor Louco", de André Breton. Ela sintetiza, na aurora do século 20, como o século compreenderá a única maneira de ainda falar em beleza. Não mais a harmonia e equilíbrio das formas que produzem o prazer da adequação, mas a convulsão produzida pela tensão contraditória do que é, em um mesmo movimento, erótico e velado, organizado e em contínua explosão. Esta beleza é a expressão de formas em compasso de inquietude e de processualidade que atravessarão o século 20 como a consciência desperta da superação necessária do tempo em direção ao ainda não visto.

"...Explosante-fixe..." é também o nome de uma das peças mais impressionantes de Pierre Boulez, cuja última versão data do início da década de 1990. Sua versão para orquestra de câmara, duas flautas e flauta MIDI, consegue produzir uma forma cujo desenvolvimento ordenado é impulsionado pela organicidade dos sopros em sua mimese com a respiração humana em convulsão, organicidade próprias a esses espaços lisos contínuos que "ocupamos sem contar", ou seja, espaços que não podem ser divididos por operação de numeração. Como nesta obra que praticamente inaugura a modernidade musical, a saber, "Prelúdio para a Tarde de um Fauno", de Debussy, a flauta fornece a continuidade temática a partir da qual a peça irá se constituir em uma forma liberada de todo esquema prévio. Só que, de Debussy a Boulez, o tema se liberou até mesmo da melodia para ser, agora, o impulso bruto de forçação em direção à pureza da intensidade. Neste sentido, se alguma obra musical foi capaz de expor uma beleza convulsiva, esta obra foi, por ironia do destino, composição de um compositor que seus críticos sempre gostaram de descrever como "cerebral" e demasiado intelectualizado.

Boulez morreu. Desde a última quarta-feira ele está morto. Com ele, vai-se o último representante de uma vanguarda musical densamente povoada pela construção de experiências capazes de levar exigências de liberdade crítica da linguagem a pontos até então nunca alcançados. John Cage, Karlheinz Stockhausen, Gyorg Ligeti, Luigi Nono, Luciano Berio: todos esses são nomes que marcam uma época que muitos gostariam de dizer já completamente encerrada.

Pois a recusa de Boulez a todo "hibridismo", sua exigência de reconstrução profunda dos conceitos que orientam a produção musical, sua exigência de reflexão a respeito da construção musical, mesmo quando ela aceitava abrir espaço ao acaso, sua procura não por uma música "desafetada", mas por uma música capaz de trazer afetos dos quais não conhecemos as imagens foram vistas, por muitos, como figura de um outro tempo. Um tempo no qual faria ainda sentido afirmar a autonomia da obra de arte em sua elaboração formal.

Por isto, no momento de sua morte, não foi por acaso que a imprensa mundial procurou "humanizar" Boulez. Lembra-se de sua impressionante carreira de regente internacional, suas gravações de Mahler, suas montagens de Wagner, sua verve de construtor de instituições (Ircam, Ensemble Intercontemporain). Como se fosse o caso de dar a sua figura uma sombra mais familiar. Algo como: compositor reconhecido pelo meio musical como brilhante, maestro de grande técnica e "agitador cultural".

No entanto, seríamos mais honestos à sua genialidade se lembrássemos como sua música era desumana, música de um tempo que alguns gostariam de ver terminado porque inumano. Mas "inumano" no sentido do que adianta aquilo que não porta mais a imagem do homem tal como até agora o conhecemos. Por isto, música que nos desumaniza ao apelar a uma comunidade por vir a uma outra velocidade de afetos e percepções. Daí seu caráter de música difícil, por exigir nos desacostumarmos do que nos aprisiona em nossas formas de sensibilidade. Boulez sempre acreditou que a função do músico não era fornecer o consolo terapêutico do que nos acomoda ao que somos, mas produzir a forma do que impulsiona em direção a uma sensibilidade de desregramento. Talvez por isto lembrar que sua música nos desumaniza é a melhor forma de fazer homenagem a alguém que nunca temeu o verdadeiro sentido da palavra "ruptura".
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Uma das experiências temporais mais particulares ao Brasil é a repetição. Ela expressa, de maneira quase didática, a resistência imperial do poder à mudança e sua imunidade surda a toda pressão popular. Um dos exemplos privilegiados da força de tal repetição compulsiva diz respeito ao ritual periódico de aumento da tarifa do transporte público. Desde a Revolta do Vintém, lá pelos idos de 1879, a população brasileira sai periodicamente às ruas contra os preços extorsivos das tarifas. Desde aquela época, os governos, sejam eles de que partido forem, respondem à bala.

O resultado final foi muito bem descrito por Lucio Gregori. Gasta-se atualmente 13,5 minutos de um salário médio em São Paulo e no Rio para pagar uma tarifa. Em Paris e Pequim, gasta-se 4,5 minutos e em Buenos Aires gasta-se 2,5 minutos. Esses números resumem bem a irracionalidade de ser obrigado a aceitar um serviço entre os mais caros do mundo e criminosamente ruim. O problema não diz respeito ao aumento de tarifa, mas à aplicação de preços abusivos como se isso fosse uma fatalidade natural e inquestionável.

Quando os transportes públicos foram privatizados, no início dos anos 1990, prometeu-se uma melhoria radical da qualidade e eficiência. De todas as piadas contadas pelo neoliberalismo brasileiro, essa é a mais sem graça. Ao explodirem as manifestações de 2013, descobrimos, por exemplo, que, de 2004 a 2012, a quantidade de passageiros disparou 80% em São Paulo enquanto o número de ônibus em circulação simplesmente caiu de 14.100 para 13.900. O que não poderia ser diferente, já que as empresas privadas de ônibus têm, na verdade, apenas duas funções: fornecer dinheiro para campanhas políticas e rentabilizar seus investimentos. Não é por acaso que um dos brasileiros citados no escândalo das contas milionárias do HSBC suíço era Jacob Barata, o "rei do ônibus" carioca. Enquanto ele transportava a população carioca como quem transporta gado, sua conta crescia.

Já a situação catastrófica de São Paulo é conhecida de todos. A começar pelo metrô, que já ganhou o prêmio da expansão mais lenta do mundo, com atrasos sucessivos enquanto escândalos milionários de corrupção aparecem em tribunais internacionais e o governo paulista finge não ser com ele. No município, a acomodação à mediocridade por parte de um governo que se dizia expressão do "homem novo" fez com que nenhuma proposta de mudança estrutural (tarifa zero, subsídios, bilhete metropolitano, descolamento do preço entre metrô e ônibus, reestatização) fosse sequer realmente discutida.

Diante disso, a população começou uma jornada de manifestações. Temendo que ela possa servir como estopim de um novo 2013, a Polícia Militar colocou em cena suas práticas corriqueiras de banditismo institucionalizado contra manifestantes. Provocações, uso indiscriminado da violência e até mesmo a pérola de colocar explosivos em mochilas de manifestantes para incriminá-los, como vimos em vídeo veiculado na internet. Esta é a polícia paulista: tira selfies com manifestantes que pedem a volta da ditadura militar e joga bomba de gás lacrimogêneo contra populares que pedem uma tarifa de transporte minimamente honesta. No que o secretário de segurança de Alckmin, a ser confrontado com o fato de até mesmo a imprensa internacional ter noticiado o absurdo de transformar São Paulo em palco de batalha campal diante de uma manifestação que transcorria sem violência, respondeu: "A atuação da PM foi exemplar". É verdade, ela foi um belo exemplo do que a polícia realmente é e quem são seus inimigos reais.

Que o leitor permita-me terminar este artigo com um relato pessoal. Quando criança, lembro-me de meu pai levar-me a uma manifestação contra a ditadura militar, em Brasília. Terminamos correndo da polícia e de suas bombas. Nesta terça (12), tive de parar meu trabalho na universidade para correr à manifestação e tirar minha filha, uma adolescente de 16 anos, que tinha sido encurralada com suas amigas pelas bombas da polícia. Como se vê, o tempo do Brasil é o tempo da repetição e da luta desesperada, que passa de uma geração a outra, contra sua teimosa imobilidade.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Nunca a morte de um popstar foi tão celebrada de forma tão oficial. Por si só, este é um fenômeno que mereceria nossa reflexão. Que ele seja o autor de belas canções que criaram uma parte da memória afetiva de todos nós, isto é indubitável e, de fato, não deveria ser esquecido. No entanto, há algo a mais no "caso" David Bowie. Lembremos dos fenômenos bizarros que aconteceram nas últimas semanas. Igrejas tocaram sua música em órgão, o primeiro-ministro conservador do Reino Unido deu um tempo em sua temporada de caça aos imigrantes para aparecer na televisão a fim expressar sua tristeza, o "Jornal Nacional" e a revista "Veja", certamente pontas de lança da cultura underground desde sempre, dedicaram espaços infinitos para falar de sua grandeza, alguns astrônomos belgas batizaram uma constelação com seu nome. Por fim (OK, isto ninguém merece), Elton John prometeu fazer um show em sua homenagem.

Houve época em que cantores de rock encarnavam o mal-estar juvenil em relação à entrada alienante no mundo da produção e das convenções. Por isto, alguns se perdiam em viagens místicas, outros se autodestruiam, outros procuravam formas alternativas de vida, afundavam no ócio das piscinas do excesso ou se engajavam politicamente em múltiplas causas ou, ainda, como Morrissey, torciam para o IRA acertar uma bomba em Margaret Thatcher. Mas Bowie era, desde muito, de outra época.

Na verdade, David Bowie entrou para a história da indústria cultural como sua mais perfeita expressão, e talvez seja por isto que ele foi tão celebrado. Bowie não era exatamente o mais famoso, nem o responsável pelas maiores vendagens, nem mesmo o responsável pelas letras mais poéticas, mas certamente foi o popstar mais paradigmático, aquele que compreendeu antes de todos o tipo de subjetividade que a indústria cultural iria produzir e rentabilizar.

Muito se falou a respeito de seus múltiplos personagens, suas mudanças impressionantes de estilo, como se fosse questão de estar em contínua flexibilização de identidades. Esta flexibilização de quem compreendeu a identidade como uma sucessão contínua de personas hiperteatralizadas mostrou-se muito mais adaptada aos tempos atuais de reengenharia feliz de si do que a figura do cantor de rock obcecado pelas mesmas histórias e sintomas ou, ainda, do popstar que é uma jukebox de si mesmo.

Mas esta flexibilização não teria sido tão bem sucedida se Bowie não houvesse compreendido que a indústria cultural desconheceria margens. Ela sobreviveria da comercialização e da colonização da revolta contra ela própria, da integração contínua do que se coloca como sua contraposição. Neste sentido, o popstar perfeito só poderia ser aquele que parece estar, ao mesmo tempo, dentro e fora das regras industriais do entretenimento, gerenciando uma zona de ambivalência na qual seria possível entrar por filmes terrivelmente açucarados, como "Labirinto", e sair pelo corredor de trabalhos autorais como o célebre disco "Low" e suas belas faixas instrumentais melancólicas. Bowie sabia onde corria o sangue criativo da cultura jovem. Nos últimos tempos procurou se associar a músicos singulares, mas ele sabia também (e fazia questão de lembrar) onde acendiam as luzes da sociedade do espetáculo com seu circo midiático e suas entrevistas assépticas. Não por acaso, ele foi o primeiro cantor a transformar seu nome em ativo na Bolsa de Valores, como quem se realiza na condição de marca. O popstar perfeito queria estar nos dois lugares ao mesmo tempo, dissolvendo contradições em uma conciliação incrivelmente rentável.

Neste sentido, o fim não poderia ter sido de outra forma. Em "Cosmópolis", livro de Don DeLillo sobre um yuppie que trafega em Nova York com sua limusine enquanto reflete sobre o estágio atual das sociedades capitalistas, há uma frase paradigmática: "As pessoas não vão morrer. Não é esse o credo da nova cultura? As pessoas vão ser absorvidas em fluxos de informação".

De fato, é verdade que o último personagem de Bowie foi sua própria morte, sua última obra foi a espetacularização angustiada de sua própria morte. Como se fosse o caso de desaparecer sendo absorvido em fluxos de informação. Ou, antes, como se entrássemos em uma época na qual a morte poderia, sem maiores dificuldades, transformar-se em um videoclipe profissionalmente bem feito a que assistiremos várias vezes no computador entre uma tarefa e outra ou que descobriremos quando estivermos zappeando no controle remoto. Em todos os sentidos possíveis, há algo de terminal em um gesto que nos abre a uma época como esta. Um gesto que, por mais paradoxal que possa ser, só os mais consequentes são capazes de fazer.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"Mas por que não um almoço grátis? Tem tanta coisa que poderia vir à frente. Podia ter almoço grátis, jantar grátis, ida para a Disney grátis". Como os leitores sabem, esta foi a maneira respeitosa com que o prefeito de São Paulo tratou a proposta de tarifa zero na semana passada.

No entanto, ironia maior do que a que estaria pretensamente presente na afirmação é o fato da proposta, comparada pelo prefeito como uma verdadeira viagem grátis para encontrar o clube do Mickey, ter sido, na verdade, desenvolvida por membros do governo da própria Prefeitura de São Paulo à ocasião que seu próprio partido governava o município sob a administração Erundina.

Foi por razões políticas, e não econômicas, que a proposta, já aplicada em várias cidades do mundo com níveis diferenciados de sucesso, foi abandonada à época. No que se mede claramente a distância entre os dois momentos em que seu partido ocupou a condução do município de São Paulo. Em 20 anos, foram mudanças maiores que as produzidas pela passagem de Alice pelos espelhos.

Mas a afirmação diz muito bem o que quer dizer. "Não existe almoço grátis" era, não por acaso, uma das frases preferidas do economista neoliberal Milton Friedman para defender suas ideias a respeito do fim do estado do bem-estar social e das políticas compensatórias.

Bem, mas, em um mundo no qual "partidos de esquerda" defendem a aplicação extensiva do estado de exceção e a perda de nacionalidade para cidadãos binacionais pretensamente envolvidos com ameaças terrorista, que surpresa deveria haver em um prefeito, vindo de um antigo partido de esquerda, fazer troça como um economista neoliberal?

No entanto, mais do que uma frase infeliz a preencher o farto bestiário político nacional, as afirmações em questão evidenciam muito bem as estratégias retóricas utilizadas pela classe política vinda de juventudes douradas em movimentos de esquerda para não ouvir aquilo que ela não sabe mais como responder ou que não quer mais responder por ter se adaptado muito bem às novas roupas do rei.

Normalmente, há neste caso três estratégias padrão de desqualificação política. A primeira consiste em apontar para pretensos interesses inconfessáveis a motivar aquele que te critica. Se antigos aliados criticam sua política econômica miserável, é por eles serem agora movidos pelo ressentimento de quem gostaria de ter sido agraciado por alguma benesse governamental. Se outro denuncia sua conivência com práticas políticas degradadas, é porque ele está recebendo dinheiro da oposição ou porque está motivado por algum interesse inconfessável de poder.

A segunda estratégia consiste em denunciar a profunda e primária ingenuidade política de seus críticos. Quantas vezes fomos obrigados a ouvir que os que procuravam desenvolver uma crítica, pela esquerda, ao partido governista estavam, na verdade, a fazer "o jogo da direita"? Sim, esta colocação é a melhor de todas.

Pode-se entregar a educação do governo a Gabriel Chalita, entregar a condução das políticas de assistência social à filha de Michel Temer, mas quem faz o "jogo da direita" será sempre você que deve ser alguém de grande ingenuidade, incapaz de perceber a astúcia da razão agindo por meio dos interesses mesquinhos do curso aparente do mundo.

Por fim, a última estratégia de desqualificação retórica consiste em jogar seu crítico na vala da irracionalidade. Duas são as figuras mais populares aqui.

A primeira é a reduzir seu crítico à condição de alguém que age motivado apenas por crenças, e não por alguma forma de "argumentação racional". Se alguém está a te criticar, ele só pode ser um fanático.

A outra figura é reduzi-lo à condição de minoridade, ao infantilismo. Ou seja, alguém que acha que demanda política é como pedir viagem grátis para a Disney, alguém que não sabe fazer conta, por isto brinca de tacar fogo em suas grandes conquistas.

Não foi por acaso que vários setores do governismo usaram essas mesmas estratégias para desqualificar os movimentos de junho de 2013 e seus atores.

Demandas irracionais, ingênuas, que faziam o jogo da direita ou eram motivadas por interesses inconfessáveis: essa panaceia foi mobilizada várias vezes, de acordo com a conveniência, para dizer que, de certa forma, junho de 2013 não existiu, que fora um hiato infeliz da história brasileira ou uma armação da CIA para nos tirar o pré-sal.

Afinal, como conviver com o que você não controla? Que um dos seus atores fundamentais, o MPL e sua pauta decisiva sobre a irracionalidade do sistema público de transporte, seja tratado como criança, bem, isso diz muito mais sobre o enunciador do que sobre o objeto do enunciado.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"De fato, a tua sina deve ser terrível, e não lhe ficarei indiferente, eu que cresci no exílio, um desterrado como tu, e que arrisquei como ninguém a minha vida lutando muitas vezes em terras estranhas. Por isso, a nenhum forasteiro igual a ti eu hoje poderia recusar ajuda."

Essas palavras, que todo leitor de Sófocles reconhecerá como um trecho central de "Édipo em Colona", são as palavras de Teseu a um dos mais célebres refugiados da história do pensamento ocidental, Édipo.

Expulso de sua terra, sem lugar e sem posses, Édipo pede asilo e recebe de Teseu mais do que esperava. Recebe o reconhecimento de que o desterro não deixa ninguém indiferente, mesmo que este outro seja alguém "irrepresentável" para nós, alguém cujas filiações não conhecemos.

É difícil não lembrar da importância desse dever de acolhimento enunciado na aurora do Ocidente ao ler o artigo de Slavoj Zizek, publicado nesta Folha no último domingo [caderno "Ilustríssima"].

Para criticar a posição "humanitária" que consiste em aceitar todos os refugiados com seus costumes pretensamente arcaicos e contrários aos pouco evidentes "valores europeus", Zizek parte de uma desconsideração sistemática e deliberada da diferença entre refugiados e imigrantes.

Refugiados são pessoas fugindo de guerras e perseguições pedindo asilo porque o que tinham foi destruído ou confiscado, não são imigrantes procurando sua sorte em países em melhor situação econômica. Eles são o estrato mais vulnerável da população mundial, vendo-se muitas vezes nesse limiar entre a vida e a morte.

Todos os países europeus assinaram acordos claros que os comprometem a recebê-los. Nesse ponto, Habermas foi ao menos mais claro: "O asilo é um direito humano universal".

No entanto, se hoje um refugiado tiver a infeliz ideia de ir à Dinamarca, ele será acolhido por uma "lei de confisco" que permite ao Estado confiscar seus bens e dinheiro para custear os gastos do governo. Não por acaso, uma prática nazista aplicada sistematicamente contra judeus.

Se ele tentar ir aos EUA, responsáveis diretos por essa situação catastrófica devido à sua intervenção irresponsável no Iraque, ele não será acolhido devido a uma lei criminosa aprovada pelo Congresso americano que o impede de pedir asilo.

O chocante das decisões dinamarquesa e americana não é apenas a lei, mas a ausência de reações ferozes a ela. Zizek prefere outra via e, há meses tem defendido abertamente a "militarização" do problema, ou seja, a criação de uma força militar europeia responsável por triar os refugiados no próprio Oriente Médio, separando o joio do trigo, decidindo, assim, de maneira soberana, quem pode viver e quem deve continuar sob chuva de balas e morrer.

É como dizer: a sorte dessas pessoas não me diz respeito. Pergunto-me se a reação seria a mesma se esses refugiados fossem finlandeses ou australianos, em vez de sírios.

Claro que se pode sempre utilizar o argumento de que os refugiados em questão são muçulmanos que desconhecem nossos pretensos valores de igualdade e tolerância, que entraram em uma espiral de ódio contra o Ocidente e, por isso, deveriam ser antes "educados para a liberdade".

"A difícil lição a tirar disso tudo é que não basta dar voz aos injustiçados do modo como eles estão: para concretizar a emancipação real, eles precisam ser educados –por nós e por eles mesmos– para a liberdade", foi o que disse Zizek. Como exemplo da necessidade urgente de tal educação, ele usa os ataques e assédios a mulheres perpetrados em Colônia (Alemanha) no Ano-Novo.

No entanto, seria melhor começar por lembrar como, um mês depois dos ataques, a polícia alemã tem 30 suspeitos, sendo 25 argelinos e marroquinos, ou seja, suspeitos que simplesmente não são refugiados (que são sírios, iraquianos e líbios).

Dos outros cinco, não há informações disponíveis. Tais ataques são, infelizmente, uma ação recorrente em várias grandes cidades europeias no Ano-Novo há décadas, são casos de delinquência, de comportamento miserável de grupo que nada tem a ver com o problema dos refugiados.

Pois, se for para falar de machismo e homofobia, é melhor expulsar da Europa boa parte dos próprios europeus e seus líderes políticos, a começar, por exemplo, pelo campeão do machismo rasteiro Silvio Berlusconi.

Temo que essas colocações de Zizek apenas repitam algumas das piores páginas de Hegel, que acreditava que os africanos eram como crianças fora do processo de amadurecimento próprio à história. Tudo se passa como se devêssemos "educá-los" porque eles não têm ideias, apenas afetos como inveja e ódio.

Talvez seria melhor lembrar que ninguém precisa ser educado por um europeu para saber o que significa igualdade e alteridade. Toda sociedade tem uma tendência igualitária e de abertura. Mas às vezes é mais fácil ver, no estrangeiro, uma criança frustrada.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Aqueles que estão a debater sobre a possibilidade ou não de publicar livros de Hitler deveriam voltar sua atenção para um fenômeno que tem modificado radicalmente a natureza do que chamamos até agora de sociedades democráticas.

Do ponto de vista jurídico, o nazifascismo tinha dois pilares fundamentais. O primeiro era a transformação do estado de emergência em modo normal de governo. O segundo era a possibilidade de espoliar legalmente sujeitos de toda sua condição de cidadãos.

Certas constituições preveem a decretação do estado de emergência em situações de guerra, insegurança nacional e catástrofes de várias naturezas. Sob estado de emergência, o governo pode suspender garantias legais, impor censura e tomar decisões por meios que não seriam aceitáveis em situações normais. Assim, o governo assume claramente a posição de poder soberano que está, ao mesmo tempo, dentro e fora da lei. Dentro, porque é o seu fundamento. Fora, porque pode suspendê-la.

Por exemplo, a constituição alemã da República de Weimar tinha o famoso artigo 48, que dava ao presidente do Reich poderes para decretar o estado de emergência em situações nas quais a "segurança e a ordem" estavam seriamente em perigo.

Assim, quando Hitler chegou ao poder, bastou atear fogo no Reichstag, afirmar que o país estava em estado de grave insegurança e governar a Alemanha impondo um estado de emergência que durou 12 anos. Ou seja, e isso deveria nos fazer pensar muito, a constituição da Alemanha nazista continuava sendo a constituição democrática da República de Weimar.

Nesse sentido, Hitler não precisou fazer como nossos militares, que tiveram de dar um golpe de Estado e escrever uma nova constituição em 1966. Ele apenas se serviu das zonas de sombra da democracia. Do ponto de vista meramente jurídico, o Estado nazista era totalmente legal, e este era seu dado mais aterrador.

Bem, nesta semana a Assembleia Nacional francesa aprovou a primeira etapa para a "constitucionalização do Estado de emergência".

Depois dos ataques terroristas do ano passado e da situação de "grave insegurança", seu governo apresentou um série de medidas por meio das quais o Estado procura se aproveitar da situação para criar uma suspensão legal da lei por tempo indeterminado. Seu primeiro-ministro já afirmou claramente que o estado de emergência deveria durar até que o Estado Islâmico deixasse de ser uma ameaça.

Mas e se demorar 12 anos para "destruir" o Estado Islâmico? E se depois do EI vier outro grupo, da mesma forma que os próprios vieram depois da Al Qaeda? Não estaríamos atualmente a assistir a uma espécie de autodestruição das democracias parlamentares?

Vejamos a outra lei que foi aprovada. Ela permite ao Estado retirar a nacionalidade de alguém que "cometeu um crime ou um atentado grave à vida da nação". A princípio, a redação da lei deixava claro que o alvo eram os cidadãos binacionais, ou seja, majoritariamente aqueles que vieram da imigração árabe.

Agora, o alvo está pressuposto. Toda a discussão da lei foi feita a partir dessa distinção entre cidadãos que podem perder sua nacionalidade e outros que não perderão. Não por outra razão, seus opositores recordam que o regime nazista criou leis semelhantes para lembrar que os judeus não eram cidadãos completos e que eles poderiam simplesmente perder sua cidadania.

Uma lei dessa natureza (que está também a ser discutida em outros países, como a Bélgica) é simplesmente criminosa e joga uma pá de cal no resto de democracia que as sociedades liberais eram obrigadas a suportar. Primeiro, ela dá ao Estado o direito de jogar seus cidadãos em uma zona de não direito, desde que o aparato estatal compreenda que houve um "grave atentado contra a vida da nação".

Aproveitando-se da comoção nacional por um atentado brutal, o Estado francês propõe um lei que não terá efeito algum para lutar contra as causas da insegurança, ou afinal alguém acredita que uma pessoa disposta a fazer um ataque terrorista iria se deixar tocar pela possibilidade de perder sua nacionalidade?

Na verdade, a lei serve apenas para mostrar aos filhos da imigração que eles nunca foram vistos como cidadãos de fato, já que eles podem simplesmente deixar de serem franceses. Ou seja, ela serve para aprofundar o sentimento de exclusão, preconceito e assimetria que é verdadeiro elemento que alimenta radicalizações.

Desta forma, cada vez mais nossas sociedades se assemelham àquilo que elas pareciam querer combater. Assim, a democracia parlamentar será engolida pelas zonas de sombra que ela mesma criou.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Anos atrás, o discurso neoliberal padrão no Brasil afirmava que o Estado deveria deixar de intervir em áreas que não lhe diriam respeito para cuidar apenas daquilo que seria sua vocação natural, a saber, serviços como educação e saúde. Nessa toada, foram privatizados os serviços de transporte, de energia, de telefonia, entre tantos outros.

Os anos passaram e, claro, o discurso também passou. Agora, trata-se de afirmar que quanto mais pudermos tirar a educação e a saúde das mãos do Estado, melhor.

Gerir educação pública significa ter de debater a todo momento diretrizes com professores, ser cobrado pelas decisões equivocadas, ter de financiar um sistema universal e gratuito. Mas simplesmente privatizar escolas era uma operação de alto custo político.

Como explicar que, a despeito dos modelos de privatização branca, os melhores sistemas do mundo são radicalmente públicos?

Alguém poderia descobrir que países como a Finlândia, que aparece normalmente como o primeiro nos processos de avaliação de resultados, tem um sistema totalmente público, subsidiado pelo Estado, radicalmente inclusivo, igualitário, com altos salários para professores e com escolas próximas de seus alunos.

Ele não é muito diferente do que podemos encontrar em países de sólida formação educacional, como a França e a Alemanha.

Inventou-se, assim, as chamadas Organizações Sociais. A princípio, elas foram vendidas como estruturas capazes de dar mais agilidade à gestão, escapando dos entraves criados para entidades públicas. Começaram na área da saúde e agora estão sendo "testadas" na área da educação, a começar pelo Estado de Goiás.

O roteiro nós já conhecemos. O Estado irá terceirizar escolas que já têm boa infraestrutura e qualidade razoável de ensino. Algumas organizações investirão nessas escolas a fim de dar a impressão, à opinião pública, de que o modelo é um sucesso.

Quando a sociedade civil se der conta, ela terá um serviço generalizado com professores precarizados, que podem ser facilmente substituídos e submetidos a planos decididos por burocratas. Os mesmos burocratas que há décadas mudam os rumos da educação brasileira com seus projetos que nunca alcançam bons resultados educacionais. Suas escolas terão taxas de toda natureza e serão dirigidas por entidades que perseguem metas vazias e avaliações que nada dizem respeito a um verdadeiro projeto pedagógico.

Como se não bastasse, o plano goiano prevê ainda que a gestão de 24 escolas seja entregue à Polícia Militar, que será responsável por gestão, segurança e disciplina.

Vejam que interessante: uma instituição cuja extinção já foi recomendada pela ONU por sua ineficiência e violência, que forma policiais objetos da desconfiança de 64% da população brasileira por suas ações eivadas de preconceitos e banditismo, em suma, a Polícia Militar que some Amarildos será responsável pela gestão da escola do seu filho. Difícil conceber ideia mais absurda.

Em qualquer lugar minimamente sensato do mundo, mudanças dessa natureza seriam objeto de longas discussões com alunos, professores e pais. No Brasil, e em especial nos Estados governados pelo tucanato (Paraná, São Paulo, Goiás), decisões educacionais são impostas, inventa-se diálogos que nunca ocorreram, joga-se gás lacrimogêneo contra estudantes, prende-se professores que protestam.

Este é um país no qual a elite, que deveria ser taxada de maneira pesada para capitalizar o Estado e permiti-lo oferecer a seus cidadãos ensino público de qualidade, governa servindo-se de uma classe política corrompida (Goiás que o diga) e procurando de todas as maneiras livrar-se de obrigações de solidariedade social.

Já vimos em São Paulo como políticas dessa natureza escondem um fato bruto simples: o Estado tem gastado menos com educação. Talvez porque tenha outras prioridades mais importantes, como a sobrevivência financeira do partido no poder.

Quando comecei a dar aulas, há quase 30 anos, meu primeiro emprego foi como professor substituto na Escola José Carlos de Almeida, em Goiânia. Era uma dessas antigas grandes escolas construídas em um espaço nobre da cidade, ao lado de uma escola privada.

Ela tinha tudo para se impor como escola modelo. No ano passado, depois de ficar um ano fechada e esquecida, a instituição foi ocupada por alunos que se cansaram de nunca serem ouvidos sobre seu próprio destino.

Talvez essa escola expresse de maneira quase pedagógica o destino e descaso da educação nacional. Não por acaso, essa história começou a mudar quando a população começou a dizer "não".
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
O impasse profundo no qual se encontram a política e a vida nacional expressa, à sua maneira, uma certa limitação do que poderíamos chamar de nossa "imaginação social". Crises, como a que vivemos hoje, ligadas não apenas ao esgotamento de um modelo de desenvolvimento chamado de "lulismo", mas também ao esgotamento dos atores políticos da Nova República, são também crises das formas de se pensar o país.

Boa parte de nossos principais esquemas de compreensão do Brasil foram criados nos anos 1950 e 1960. Eles se demonstraram frutíferos para mobilizar demandas de transformações durante décadas. Foram, à sua maneira, respostas à paralisia que aprisionou o país em vários momentos de sua história. No entanto, há momentos em que você só consegue continuar a agir se aprender a descrever de outra forma a situação na qual está inserido. Longe de ser um mero exercício de redescrição esta é uma estratégia da ação para transformar situações.

Nesse sentido, gostaria de insistir que poucos países como o Brasil demonstram, de forma tão clara, a necessidade e a dificuldade de se criar o que poderíamos chamar de um "corpo político", ou seja, de um sistema de implicação genérica capaz de produzir um espaço comum no qual demandas sociais podem circular e se realizar.

Espaço comum que não é apenas um sistema de regras, mas um campo de afetos. Em um corpo, as afecções de cada parte circulam por todos os lados, criando uma situação na qual a indiferença é impossível. Diria que essa dificuldade de construir corpos políticos é um sintoma importante de um certo bloqueio de nossa imaginação social.

De certa forma, o Brasil passou sua história moderna em luta para tentar criar um corpo político que lhe falta, mas mais de uma vez descobriu que só sabe criá-lo de uma forma. Uma forma frágil, cujos efeitos são profundamente ambíguos e acabam sempre por levar a sociedade à paralisia.

Quando se fala atualmente de corpo político, lembra-se normalmente da figura do Leviatã, de Thomas Hobbes. Hobbes insistia que nenhum valor é mais importante para uma nação que a unidade, a organicidade e a regulação dos conflitos no interior de um sistema capaz de assegurar a estabilidade. Para isso, a sociedade deveria ser compreendida como um corpo no qual todas as partes respondem a um centro funcional, sua cabeça, onde se encontra o poder soberano. O uso da imagem do corpo não era uma mera metáfora. Era um conceito de forte valor de mobilização. Mudamos nosso comportamento quando nos compreendemos como partes de um corpo que nos engloba.

Conhecemos o uso dessa ideia de corpo político uno e orgânico na justificativa de sociedades autoritárias. Alguém como o filósofo Claude Lefort chegou mesmo a afirmar que a democracia deveria ser, necessariamente, um poder sem corpo. Mas poderíamos nos perguntar se todos os corpos são necessariamente modelos de unidade, se não conhecemos corpos que produzem formas de implicação genérica que não poderiam ser compreendidos exatamente como unidade. Às vezes, para pensar política, nossa lógica é demasiado representativa.

Ernesto Laclau, em um impressionante livro sobre o populismo, chamado "A Razão Populista", propõe, entre outras coisas, uma maneira de pensar o populismo como a construção de um corpo a partir de uma multiplicidade contraditória. Longe de desqualificar o populismo como alguma forma de regressão política baseada no culto à personalidade, ele procura compreender sua maneira de criar um campo hegemônico através da convergência de demandas sociais contraditórias.

Lembrem de Getúlio Vargas dizendo: "Meu maior problema não são meus inimigos, mas meus aliados". Sua estrutura de poder era baseada na convergência entre demandas sociais vindas de grupos em posição contraditória, daí a dificuldade de gerir a disputa entre aliados. Algo muito parecido com o que vimos na era Lula. Vargas só podia sobreviver enquanto fosse um "significante vazio", ou seja, alguém que podia levar todos a crer que, no fundo, estava ao seu lado, um pouco como Lula. Foi através deste arranjo frágil que Vargas criou, pela primeira vez, um corpo político no Brasil.

Do ponto de vista estrutural, esse foi o modelo que Lula repetiu e que chegou à exaustão quando as demandas sociais distintas começaram a se anular de forma cada vez mais forte. Contra esse corpo político paralisado, precisamos aprender a criar novos corpos, de maneiras novas. Pois é isso que, de certa forma, falta ao Brasil atual: um corpo.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Eles cresceram nos Estados Unidos dos anos 1960 e 1970, em meio a manifestações e radicalização da política norte-americana. Todos os dois expressavam o desejo da chamada "juventude de 68" de construir uma sociedade marcada pela solidariedade com os mais vulneráveis, assim como por uma liberdade real que não fosse destruída pela desigualdade e pela precariedade econômica, ou seja, por uma liberdade que não fosse submetida aos ditames da concentração de riquezas. Por isso, todos os dois entraram na política institucional. Mas as semelhanças terminam aqui. De certa forma, a história dos dois e de seus desencontros é a história dos caminhos e descaminhos de uma geração que, em algum momento, acreditou em sua própria força de transformação.

Um dos nossos personagens chama-se Hillary Clinton. Todos nós a conhecemos: a eterna candidata a presidente dos EUA desde o aparecimento de seu marido em cena. Sua figura da mulher emancipada, capaz e inteligente é conhecida de todos. Como também é conhecido seu alinhamento incondicional à lógica militarista da política norte-americana, ao "patriot act" editado por seu marido, que abriu as portas para os EUA tornarem-se um país em estado de exceção permanente, às exigências de um política econômica submetida aos ditames do sistema financeiro e responsável por aumentar brutalmente a desigualdade e fazer dos EUA um país ao mesmo tempo de opulência e com transportes públicos miseráveis, universidades públicas pagas e sistema público de saúde mínimo.

Hillary Clinton é, como Obama, a melhor representação da lógica "sangue novo nas velhas engrenagens". Mais que isso, ela representa muito bem o que aconteceu com uma parte da chamada "juventude de 68", sua forma peculiar de apoiar as políticas mais reacionárias, mas usando discursos mais edificantes e libertários, sempre com a desculpa da "lógica do possível". Sendo que, se há algo que resume a ideia de uma política verdadeira, não é a adaptação ao possível, mas a capacidade de transformar os impossíveis em possíveis.

Tudo parecia jogado, mas eis que aparece nosso segundo personagem, Bernie Sanders, alguém que, segundo os manuais, simplesmente não deveria mais existir. Pois como é possível que em 2016 exista, no coração da pátria do neoliberalismo, alguém que fala em luta contra o sistema financeiro, em fortalecimento do Estado como agente de justiça social, em mais impostos para os ricos e mais serviços para os pobres e em fim do militarismo? Ou seja, alguém que é como um fantasma que ronda a política norte-americana, o fantasma de uma conta a ser acertada com a parcela da "geração de 68" que não capitulou. Segundo os manuais, alguém que não tem medo de se chamar "socialista" só poderia ser politicamente irrelevante.

Bem, o resto da história estamos vendo agora. Apesar de todas as dificuldades de uma campanha pobre e soberanamente ignorada pelo aparato midiático, Sanders tem resultados absolutamente surpreendentes. Ou seja, uma parcela incrivelmente significativa da população norte-americana vota em alguém que se diz socialista e que, no Brasil, estaria claramente à esquerda de todos os atores políticos. A pergunta interessante é: por que essa parcela da população foi simplesmente escondida, por que suas opiniões e perspectivas não aparecem na imprensa, a não ser sob a forma de caricatura grotesca? Será que realmente sabemos que tipo de país são os EUA?

Sanders ganha de forma absolutamente significativa nos estratos mais jovens, o que diz muito. Na verdade, ele representa um reconhecimento entre os jovens que anos atrás ocuparam as ruas dos EUA nos movimentos "Occupy" e os já não tão jovens que sempre foram fiéis ao que as lutas de 68 representaram. Essa sobreposição entre dois tempos é a forma de emergência que explode a linearidade do tempo para insistir como promessa que se repete de forma insistente. Só o que se repete é real, dizia Lacan.

Hoje, Sanders representa o que há de real na política norte-americana, aquilo que é não contado e esquecido pela situação atual, mas que explode periodicamente mostrando o desejo inquebrantável por outra situação. Ele lembra aos que capitularam que eles, de fato e sem maiores rodeios, capitularam, tal como os jovens faziam em 68.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Um dos principais predicados da justiça é a simetria. Justo é tratar de maneira simétrica, aplicar a mesma medida a todos aqueles que serão julgados.

Na ausência de simetria, a aplicação da justiça se transforma em mera expressão de jogo de poder, pois a justiça é injusta quando trata de maneira justa apenas uma parte dos envolvidos.

Vale lembrar desses princípios elementares de filosofia moral para compreender a indignação que tomou parte da população brasileira com os últimos desdobramentos da Operação Lava Jato.

É inegável a importância da operação no desvelamento do esquema incestuoso de relação entre empresariado e governo construído como alicerce da Nova República.

Ela mostra claramente o que é o capitalismo brasileiro: um oligopólio composto por megaempresas que não operam a partir da lógica da concorrência, mas da corrupção contínua e generalizada do Estado como condição normal de funcionamento.

Desde o seu início, a Lava Jato deixou claro como estávamos falando de um funcionamento que envolvia toda (deixe-me repetir, toda) a classe política brasileira. O assalto à Petrobras não era traço distintivo deste governo, mas já vinha desde o governo FHC.

Os beneficiários de doações ilegais das empreiteiras não eram apenas membros do governo. Aécio Neves estava lá em mais de uma delação, seu sucessor no governo de Minas, Antonio Anastasia, foi imediatamente citado logo na primeira leva da operação.

Repetia-se assim um roteiro que vimos no caso do mensalão, quando o governo Lula havia se beneficiado de um esquema de corrupção em operação no governo FHC e liderado pelo ex-presidente de seu partido, o sr. Eduardo Azeredo. Lembrar disto não é retirar a responsabilidade dos últimos governos federais.

Não há solidariedade possível com governos, como os dois últimos, que usaram sistematicamente da corrupção do Estado e cujos maiores operadores mostram marcas de enriquecimento ilícito.

Mas não haverá mundo pior do que aquele no qual alguns são punidos pela corrupção enquanto outros podem corromper impunemente.

Até agora, é para este mundo que a Operação Lava Jato está a apontar. É isso que dá, para muitos, a impressão de que tudo se passa como se a operação fosse peça de uma briga de gângsteres para saber quem vai conduzir os negócios de sempre.

De fato, o tucanato é uma espécie de Houdini da política brasileira: consegue sempre escapar ileso de todo caso de corrupção e da culpabilização de suas ações escandalosas.

José Dirceu está hoje na cadeia devido ao mensalão; o que é justo. Mas pergunte-se onde está Eduardo Azeredo. Solto ou na cadeia?

As contas da campanha de Dilma estão sendo julgadas, o que é justo. E as contas de Aécio?

Lula está sendo investigado por sinais de relações incestuosas com megaempreiteiras, o que é justo. Contrariamente ao que dizem alguns, é assim que se trata um ex-presidente.

Em sua defesa na semana passada, Lula não escondeu o apreço que tem por tais empreiteiras corruptas. Ele escolheu seu caminho.

Mas e FHC, como ele é tratado? Há semanas atrás, o país descobriu estarrecido que, enquanto presidente, Fernando Henrique Cardoso mantinha relações de profunda dependência com uma megaempresa por ela ter dado um jeito de sumir com sua amante, pagando-lhe salários fictícios e livrando-o assim de um possível escândalo que poderia abalar sua carreira. Isso não se trata de "problema pessoal" nem é fato ligado à sua vida privada.

Em qualquer país do mundo, algo dessa natureza seria um escândalo intolerável por mostrar o grau de fragilização do exercício da presidência e de submissão que alguns políticos estão dispostos a produzir.

O fato mostraria o tipo de relação espúria e incestuosa que setores da imprensa têm com o poder. Mas no Brasil, sendo o senhor em questão um tucano, o caso inacreditavelmente não teve maiores consequências.

Assimetrias como essas são a razão primeira do grau explosivo de tensão a que chegamos atualmente no Brasil.

Tivesse a Justiça operado de maneira justa com todos e tivessem setores da imprensa atuado de maneira implacável com todos, teríamos a segurança de não haver interesses inconfessáveis por trás de ações espetaculares como as vistas semana passada.

Mas a assimetria produz uma insegurança profunda a respeito das intenções em jogo, o que é um convite à desagregação completa dos pactos no interior da combalida democracia brasileira.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
O juiz Sergio Moro conseguiu o inacreditável: tornar-se tão indefensável quanto aqueles que ele procura julgar. Contrariamente ao que muito defenderam nos últimos dias, suas últimas ações são simplesmente uma afronta a qualquer ideia mínima de Estado democrático. Não se luta contra bandidos utilizando atos de banditismo.

A divulgação das conversas de Lula com seu advogado constitui uma quebra de sigilo e um crime grave em qualquer parte do mundo. Não há absolutamente nada que justifique o desrespeito à inviolabilidade da comunicação entre cliente e advogado, independente de quem seja o cliente. Ainda mais absurdo é a divulgação de um grampo envolvendo a presidente da República por um juiz de primeira instância tendo em vista simplesmente o acirramento de uma crise política.

Alguns acham que os fins justificam os meios. No entanto, há de se lembrar que quem se serve de meios espúrios destrói a correção dos fins.

Pois deveríamos começar por nos perguntar que país será este no qual um juiz de primeira instância acredita ter o direito de divulgar à imprensa nacional a gravação de uma conversa da presidente da República na qual, é sempre bom lembrar, não há nada que possa ser considerado ilegal ou criminoso.

Afinal, o argumento de obstrução de Justiça não para em pé. Dilma tem o direito de nomear quem quiser e Lula não é réu em processo algum. Se as provas contra ele se mostrarem substanciais, Lula será julgado pelo mesmo tribunal que colocou vários membros de seu partido, de maneira merecida, na cadeia, como foi no caso do mensalão.

Lembremos que "obstrução de Justiça" é uma situação na qual o indivíduo, de má-fé e intencionalmente, coloca obstáculos à ação da Justiça para inibir o cumprimento de uma ordem judicial ou diligência policial. Nomear alguém ministro, levando-o a ser julgado pelo STF, só pode ser "obstrução" se entendermos que o Supremo Tribunal não faz parte da "Justiça".

A fragilidade do argumento é patente, assim como é frágil a intenção de usar um grampo ilegal cuja interpretação fornecida pelo sr. Moro é, no mínimo, passível de questionamento.

Na verdade, há muitas pessoas no país que temem que o sr. Moro tenha deixado sua função de juiz responsável pela condução de processo sobre as relações incestuosas entre a classe política e as mega construtoras para se tornar um mero incitador da derrubada de um governo.

A Operação Lava Jato já tinha sido criticada não por aqueles que temiam sua extensão, mas por aqueles que queriam vê-la ir mais longe. Há tempos, ela mais parece uma operação mãos limpas maneta.

Mesmo com denúncias se avolumando, uma parte da classe política até agora sempre passa ilesa. Não há "vazamentos" contra a oposição, embora todos soubessem de nomes e esquemas ligados ao governo FHC e a seu partido. Só agora eles começaram a aparecer, como Aécio Neves e Pedro Malan.

Reitero o que escrevi nesta mesma coluna, na semana passada: não devemos ter solidariedade alguma com um governo envolvido até o pescoço em casos de corrupção. Mas não se trata aqui de solidariedade a governos. Trata-se de recusar naturalizar práticas espúrias, que não seriam aceitas em nenhum Estado minimamente democrático.

Não quero viver em um país que permite a um juiz se sentir autorizado a desrespeitar os direitos elementares de seus cidadãos por ter sido incitado por um circo midiático composto de revistas e jornais que apoiaram, até o fim, ditaduras e por canais de televisão que pagaram salários fictícios para ex-amantes de presidentes da República a fim de protegê-los de escândalos.

O Ministério Público ganhou independência em relação ao poder executivo e legislativo, mas parece que ganhou também uma dependência viciosa em relação aos humores peculiares e à moralidade seletiva de setores hegemônicos da imprensa.

Passam-se os dias e fica cada dia mais claro que a comoção criada pela Lava Jato tem como alvo único o governo federal.

Por isso, é muito provável que, derrubado o governo e posto Lula na cadeia, a Lava Jato sumirá paulatinamente do noticiário, a imprensa será só sorrisos para os dias vindouros, o dólar cairá, a bolsa subirá e voltarão ao comando os mesmos corruptos de sempre, já que eles foram poupados de maneira sistemática durante toda a fase quente da operação.

O que poderia ter sido a exposição de como a democracia brasileira só funcionou até agora sob corrupção, precisando ser radicalmente mudada, terá sido apenas uma farsa grotesca.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
A crer no andar atual da carruagem, teremos um golpe de Estado travestido de impeachment já no próximo mês. O vice-presidente conspirador já discute abertamente a nova composição de seu gabinete de "união nacional" com velhos candidatos a presidente sempre derrotados. Um ar de alfazema de República Velha paira no ar.

O presidente da Câmara, homem ilibado que o procurador-geral da República definiu singelamente como "delinquente", apressa-se em criar uma comissão de impeachment com mais da metade de deputados indiciados a fim de afastar uma presidenta acusada de "pedaladas fiscais" em um país no qual o orçamento é uma mera carta de intenções assumida por todos.

Se valesse realmente este princípio, não sobrava de pé um representante dos poderes executivos. O que se espera, na verdade, é que o impeachment permita jogar na sombra o fato de termos descoberto que a democracia brasileira é uma peça de ficção patrocinada por dinheiro de empreiteiras. Pode-se dizer que um impeachment não é um golpe, mas uma saída constitucional. No entanto, os argumentos elencados no pedido são risíveis, seus executores são réus em processos de corrupção e a lógica de expulsar um dos membros do consórcio governista para preservar os demais é de uma evidência pueril. Uma regra básica da justiça é: quem quer julgar precisa não ter participado dos mesmos atos que julga.

O atual Congresso, envolvido até o pescoço nos escândalos da Petrobras, não tem legitimidade para julgar sequer síndico de prédio e é parte interessada em sua própria sobrevivência. Por estas e outras, esse impeachment elevado à condição de farsa e ópera bufa será a pá de cal na combalida semi-democracia brasileira.

Alguns tentam vender a ideia de que um governo pós-impeachment seria momento de grande catarse de reunificação nacional e retomada das rédeas da economia.

Nada mais falso e os operadores do próximo Estado Oligárquico de Direito sabem disto muito bem. Sustentado em uma polícia militar que agora intervém até em reunião de sindicato para intimidar descontentes, por uma lei antiterrorismo nova em folha e por um poder judiciário capaz de destruir toda possibilidade dos cidadãos se defenderem do Estado quando acusados, operando escutas de advogados, vazamento seletivo e linchamento midiático, é certo que os novos operadores do poder se preparam para anos de recrudescimento de uma nova fase de antagonismos no Brasil em ritmo de bomba de gás lacrimogêneo e bala.

Uma fase na qual não teremos mais o sistema de acordos produzidos pela Nova República, mas teremos, em troca, uma sociedade cindida em dois.

O Brasil nunca foi um país. Ele sempre foi uma fenda. Sequer uma narrativa comum a respeito da ditadura militar fomos capazes de produzir. De certa forma, a Nova República forneceu uma aparência de conciliação que durou 20 anos. Hoje vemos qual foi seu preço: a criação de uma democracia fundada na corrupção generalizada, na explosão periódica de "mares de lama" (desde a CPI dos anões do orçamento) e na paralisia de transformações estruturais.

Tudo o que conseguimos produzir até agora foi uma democracia corrompida. A seguir este rumo, o que produziremos daqui para a frentes será, além disso, um país em estado permanente de guerra civil.

Os defensores do impeachment, quando confrontados à inanidade de seus argumentos, dizem que "alguma coisa precisa ser feita". Afinal, o lugar vazio do poder é evidente e insuportável, logo, melhor tirar este governo. De fato, a sequência impressionante de casos de corrupção nos governos do PT, aliado à perda de sua base orgânica, eram um convite ao fim.

Assim foi feito. Esses casos não foram inventados pela imprensa, mas foram naturalizados pelo governo como modo normal de funcionamento. Ele paga agora o preço de suas escolhas.

Neste contexto, outras saídas, no entanto, são possíveis. Por exemplo, a melhor maneira de Dilma paralisar seu impeachment é convocando um plebiscito para saber se a população quer que ela e este Congresso Nacional (pois ele é parte orgânica de todo o problema) continuem. Fazer um plebiscito apenas sobre a presidência seria jogar o país nas mãos de um Congresso gangsterizado.

Em situações de crise, o poder instituinte deve ser convocado como única condição possível para reabrir as possibilidades políticas. Seria a melhor maneira de começar uma instauração democrática no país. Mas, a olhar as pesquisas de intenção de voto para presidente, tudo o que a oposição golpista teme atualmente é uma eleição, já que seus candidatos estão simplesmente em queda livre. Daí a reinvenção do impeachment.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"Quem não é criminoso enfrenta com dignidade o devido processo legal. O delinquente faz de tudo para escapar do julgamento. Apenas o delinquente esbraveja, grita". De todas as pérolas do inesgotável Compêndio de Bolso do Autoritarismo Nacional que ilumina boa parte das opiniões correntes nos dias atuais, estas afirmações emitidas na semana passada pelo sr. Eros Grau, ex-ministro do STF, merecem ser gravadas em mármore pela sua clareza. Ao lê-las, foi difícil não lembrar imediatamente dos versos do poeta Torquato Neto: "Leve um homem e um boi ao matadouro. Aquele que gritar é o homem, mesmo que seja o boi".

Uma das especificidades da democracia é ser o regime político capaz de reconhecer que a crítica das leis e de processos legais injustos não é sinal de "delinquência". A democracia admite que a configuração atual das leis pode comportar injustiças e que, por isto, o direito não é, nunca foi, nem nunca será a expressão imanente do que tem legitimidade. Ao contrário do que acreditam alguns, não foram as leis que criaram os homens, mas os homens que criaram as leis. Eles as criaram em contextos específicos nos quais se fez valer o sistema de interesse hegemônico à época. Otto von Bismarck, que tinha ao menos a virtude da honestidade, lembrava: "Leis são como salsichas. Melhor não saber como são feitas". Por isto, é correto dizer: não são as leis que nos unem, mas a certeza de termos caminhos no interior da vida social para fazer valer a justiça. Quando tais caminhos desaparecem, não há mais união possível.

Como se não bastasse, a democracia reconhece, entre outros, o caráter falível da aplicação da lei por pessoas muitas vezes movidas por interesses particulares. Ela nos lembra que só mesmo aqueles animados por uma passividade bovina confundiriam a justiça não apenas com o regime atual das leis, mas com a interpretação atual fornecida pela opinião dos juízes.

No entanto, a afirmação do sr. Grau tem a vantagem de explicitar qual deve ser o regime de imposição da autoridade daqui em diante. Quem questionar o processo legal, por mais que tal processo seja distorcido, interessado, com mais furos do que um queijo suíço, só poderá ser visto como delinquente. Pois com o fim da Nova República através de um golpe farsesco travestido de impeachment, não será mais possível esperar que toda a população brasileira tenha um campo mínimo de conciliação no qual encontraríamos procedimentos que todos aceitem. O golpe quebrará de vez o pacto, dividindo o país clara e definitivamente em dois. A partir de então, valerá apenas a força.

Contra isto, há de se dizer com clareza: não há razão alguma para se submeter a um governo que será ilegítimo, fruto de um "processo legal" que está mais para uma verdadeira comédia do Pai Ubu. Pois esse processo de impeachment tem, ao menos, três desvios que destroem totalmente sua legitimidade. Primeiro, um dos princípios elementares da justiça é: "quem tem conflitos de interesse não pode julgar". 31 deputados indiciados na Comissão de Impeachment, lutando por sua sobrevivência, e um presidente da Câmara que é réu, tendo apresentado a proposta de impeachment para retaliar o partido da presidente em sua decisão de votar pela sua investigação no Conselho de Ética (sic), não podem julgar nada em lugar nenhum do mundo, apenas no Brasil. Segundo, o argumento das "pedaladas fiscais" não é suficiente para um impeachment, pois não posso afastar um presidente (a mais brutal de todas as penas) por práticas admitidas anteriormente e, principalmente, praticadas atualmente por outros membros do poder executivo sem maiores consequências. Por fim, não é possível afastar a presidente e empossar um senhor que assinou, na condição de presidente em exercício, decretos similares aos que levaram a presidente a perder o cargo.

Em 2013, em uma impressionante demonstração de vitalidade popular, o país deixou claro que procurava reinventar sua democracia e seu modelo de desenvolvimento econômico. Três anos depois, a casta política nacional, com sua capacidade ímpar de sobrevivência, foi capaz de produzir uma espécie de "contrarrevolução" na qual ela se conserva, chama para o governo aqueles que perderam todas as últimas eleições de que participaram e fornece, em troca, o sacrifício de seu sócio mais novo para saciar a ira de uma parte da população. Imaginar que todo o país se unirá na celebração desta farsa é não entender nada da história que se abre a partir de agora.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Provavelmente na semana que vem, o Brasil assistirá mais uma das incontáveis tentativas de golpe de Estado que atravessaram sua história. Animado por um ritmo desesperado, a Câmara dos Deputados e seu presidente-réu preparam para passar à força um pedido de impeachment. Contrariamente ao que era o roteiro inicial escrito nas redações de quem já tem uma experiência longa de chamamentos a golpes, o pedido não criou um movimento irresistível de destituição da presidenta. No máximo, ele expôs as fraturas da sociedade brasileira e mostrou o alto grau de incerteza, instabilidade e gangsterismo que nos aguarda.

Mas, como se diz no mundo do entretenimento: apesar da farsa, o show tem de continuar. Mesmo que seja com um pedido de afastamento feito por advogados que não temem em mobilizar discursos "evangelo-fascistas" por serem construídos a partir de um amálgama de paranoia de perseguição, promessas de redenção religiosa e de aniquilação de inimigos internos comparados a animais nocivos e peçonhentos. Essa retórica é velha conhecida dos momentos sombrios da história. O elemento novo aqui é vê-la embalada por afirmações à imprensa de que os cavaleiros do impeachment agem inspirados pela vontade de ninguém menos do que Deus. Bem, Deus já teve amigos melhores.

Neste contexto, setores da oposição e do próprio governo começam a aventar a possibilidade de adiantar eleições. Gostaria de insistir no que afirmei várias vezes nesta coluna: dada a situação atual de crise, esta é a melhor alternativa. Em situação de grave crise política e divisão profunda, a única coisa a fazer é anular o campo das representações políticas e recorrer à expressão direta da soberania popular. Uma nova eleição não "resolverá" o problema pelo qual passa o Brasil, mas nenhuma ação isolada "resolverá" o problema de um país que precisa refundar sua democracia. O que uma nova eleição pode fazer é quebrar o ímpeto da casta política brasileira em aproveitar-se da fragilidade do governo para se salvar criando uma aliança com setores econômicos interessados em passar à força um programa de "austeridade" e concentração de renda que nunca seria referendado pela população.

Àqueles que, preocupados com o pretenso conservadorismo rompante na sociedade brasileira, temem que uma nova eleição equivaleria a um tsunami conservador, analisam o campo dos possíveis a partir de um medo patológico que não pode ter lugar em horas como esta. Por isto, eles avaliam mal. Uma eleição permite tirarmos o jogo político atual das negociatas inconfessáveis de bastidores para levá-lo a uma disputa a céu aberto pela formação da opinião pública. Esta disputa está indefinida, as pesquisas demonstram claramente como a oposição golpista, mesmo dopada por campanhas midiáticas, está em queda livre, seus candidatos não tem fôlego. Seus discursos de ódio primário afastam vários setores da população. Não por acaso, eles são atualmente os primeiros a desqualificar a proposta de novas eleições. Mesmo o candidato do governo está impressionantemente bem colocado, aumentado a incerteza do resultado.

Por outro lado, desde o dia 18 de março ficou claro como o setor da população identificado à esquerda do espectro político tem força surpreendente de mobilização espontânea, de comunicação alternativa e de disputa. Nestas horas, melhor lembrar do que dizia o poeta Hölderlin: lá onde está o seu maior perigo, está também sua salvação.

Em tom de desafio, a presidente Dilma afirmou, nesta semana, que aceita discutir a proposta desde que os parlamentares também se disponham a abrir mão de seu mandato. Ela tem toda razão. Qualquer eleição presidencial com a permanência de um Congresso com quase um quarto do seus membros indiciados é uma piada. O Congresso com seu presidente piromaníaco da Câmara e seu presidente indiciado do Senado é um eixo fundamental da crise.

Por isto, esta eleição deve ser geral. Ela deve ser precedida por um plebiscito no qual a população decida se quer que a presidente e o Congresso continuem. Cabe ao povo, e apenas diretamente a ele, dizer se os mandatos devem ou não ser encurtados. Se a resposta for por novas eleições, elas seriam feitas junto às eleições municipais em prazo estendido de campanha e obrigação de tratamento igual para todos os candidatos à Presidência.

A saída de situações de crise só pode ser através de mais democracia. Neste momento, muitos dizem falar em nome do povo, mas a verdade é que muitos temem ouví-lo. Se quisermos mudar a situação terminal na qual nos encontramos, o melhor a fazer é começar por parar de ter medo do povo.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
A partir de segunda-feira (18), o Brasil não terá mais governo. Na democracia, o que diferencia um governo do mero exercício da força é o respeito a uma espécie de pacto tácito no qual setores antagônicos da população aceitam encaminhar seus antagonismos e dissensos para uma esfera política. Esta esfera política compromete todos, entre outras coisas, a aceitar o fato mínimo de que governos eleitos em eleições livres não serão derrubados por nada parecido a golpes de Estado.

É claro que há vários que dirão que o impeachment atual não é golpe, já que é saída constitucional. Nada mais previsível que golpe não ser chamado de golpe em um país no qual ditadura não é chamada de ditadura e violência não é chamada de violência. No entanto, um impeachment sem crime, até segunda ordem, não está na Constituição. Um impeachment no qual o "crime" imputado à presidenta é uma prática corrente de manobra fiscal feita por todos os governantes sem maiores consequências, sejam presidentes ou governadores, é golpe. Um impeachment cujo processo é comandado por um réu que toda a população entende ser um "delinquente" (como disse o procurador-geral da República) lutando para sobreviver à sua própria cassação é golpe. Um impeachment tramado por um vice-presidente que cometeu as mesmas práticas que levaram ao afastamento da presidenta não é apenas golpe, mas golpe tosco e primário.

Temer agora quer se apresentar como líder de um governo de "salvação nacional". Ele deveria começar por responder quem irá salvar o povo brasileiro dos seus "salvadores". Seu partido, uma verdadeira associação de oligarquias locais corruptas, é o maior responsável pela miséria política da Nova República, envolvendo-se até o pescoço nos piores casos de corrupção destes últimos anos, obrigando o país a paralisar todo avanço institucional que pudesse representar riscos aos seus interesses locais. Partido formado por "salvadores" do porte de Eduardo Cunha, Renan Calheiros, José Sarney, Sérgio Cabral e, principalmente, o próprio Temer. Pois nunca na história da República brasileira houve um vice-presidente que conspirasse de maneira tão aberta e cínica para derrubar o próprio presidente que o elegeu. Em qualquer país do mundo, um político que tivesse "vazado" o discurso no qual evidencia seu papel de chefe de conspiração seria execrado publicamente como uma figura acostumada à lógica das sombras. No Brasil de canais de televisão de longo histórico golpista, ele é elevado à condição de grande enxadrista do poder.

Mas não havia outra chance para tal associação de oligarcas conspiradores. Afinal, eles sabem muito bem que nunca chegariam ao poder pela via das eleições. Esta Folha publicou pesquisas no último domingo que demonstravam como, se a eleição fosse hoje, Lula, apesar de tudo o que ocorreu nos últimos meses, estaria à frente em vários cenários, Marina em outros. O eixo central da oposição golpista, a saber, o PSDB, não estaria sequer no segundo turno. Temer, que deveria também ser objeto de impeachment para 58% da população, oscilaria entre fantásticos 1% e 2%. Estes senhores, que serão encaminhados ao poder a partir de segunda-feira, têm medo de eleições pois perderam todas desde o início do século. Há de se perguntar, caso fiquem no poder, o que farão quando perceberem que poderão perder também as eleições de 2018.

Os que querem comandar o país a partir de segunda-feira aproveitam-se do fato de o país estar em uma divisão sem volta. Eles governarão jogando uma parte da população contra a outra para que todos esqueçamos que, na verdade, são eles a própria casta política corrompida contra a qual todos lutamos. Diante da crise de um governo Dilma moribundo, outras saídas, como eleições gerais, eram possíveis. Elas poderiam reconstituir um pacto mínimo de encaminhamento de antagonismos. Mas apelar ao poder instituinte não passa pela cabeça de quem sempre sonhou em alcançar o poder por usurpação.

Diante da nova realidade que se anuncia, só resta insistir que simplesmente não há mais pacto no interior da sociedade brasileira e que nada nos obriga à submissão a um governo ilegítimo. Nosso caminho é a insubmissão a esse falso governo, até que ele caia. Esse governo deve cair e todos os que realmente se indignam com a corrupção e o desmando devem lutar sem trégua, a partir de segunda-feira, para que o governo caia e para que o poder volte às mãos da população brasileira. Àqueles que estranham que um professor de universidade pública pregue a insubmissão, que fiquem com as palavras de Condorcet: "A verdadeira educação faz cidadãos indóceis e difíceis de governar". Chega de farsa.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Dilma está absolutamente certa em querer ir à ONU denunciar o golpe de Estado brasileiro. Sensibilizar a opinião pública mundial para o que está ocorrendo em nosso país é obrigação de todos os que querem uma democracia real no Brasil. Afinal, é sintomático que a imprensa mundial não tenha engolido o enredo do impeachment como prova de força da democracia brasileira, nem o enredo das "pedaladas fiscais" como crime supremo e o carnaval macabro do Congresso de Cunha como festa cívica da moralidade nacional. Tal cenário não é a expressão da consolidação democrática, mas a degradação final das ilusões políticas gestadas na Nova República.

O fato é que o mundo consegue ver o que uma boa parte da sociedade brasileira e sua imprensa monolítica não veem. Basta ler qualquer livro de realismo fantástico latino-americano para saber de onde saiu essa história de políticos corruptos procurando livrar o país da corrupção, de vice-presidentes sedentos de poder desestabilizando presidentes eleitos, de paladinos da Justiça que aplicam a lei de acordo com a conveniência do momento, de deputados homenageando torturadores em nome da democracia.

Essa teia de contradições que parecem se acomodar em uma naturalização da irracionalidade veio das páginas mais arcaicas da turbulenta história política de nosso continente. Ela é apenas a expressão de um arcaísmo que agora volta para tomar de vez as rédeas do governo.

Infelizmente, esse final farsesco já estava inscrito como uma possibilidade. Afinal, uma das maiores ilusões da Nova República foi acreditar que a redemocratização brasileira exigia de seus principais atores políticos a capacidade de tecer alianças com os setores mais arcaicos da sociedade.

Oligarcas locais que pareciam ter saído de novelas de Dias Gomes, pastores especialistas em lavagem de dinheiro, amantes de torturadores e do porrete do Exército, batedores de carteiras e medalhas, cruzados contra a "ideologia de gênero", devotos da motosserra, exportadores de carne enlatada para a África, homens brancos acostumados aos escaninhos da burocracia partidária foram cortejados por todos os que pregavam a ética da responsabilidade diante das "exigências de governabilidade".

Estes venderam a promessa de que a conciliação com tais setores era necessária para um processo lento, gradual e seguro de reformas que colocariam enfim o Brasil no compasso da modernidade. Eis a astúcia suprema dos que nos governaram nas últimas décadas: aliar-se ao atraso para garantir o progresso. O resultado está aí para o mundo inteiro admirar.

Os que defendem o impeachment discordam do cenário desenhado aqui. Eles afirmam que tudo foi feito respeitando a legalidade, que essa história de "golpe" é fruto de uma bem orquestrada ação de comunicação do governo, que há sim uma ressurreição cívica do povo brasileiro. Eles querem nos empurrar a ideia de que é justo porque está na lei, mesmo que a lei seja aplicada de maneira distorcida, por agentes animados por interesses escusos e pressionados por uma histeria midiática dada ao linchamento público de quem não comunga de sua cartilha.

No entanto, coloquem para si algumas questões. Não há tribunal algum no mundo cujo júri seja composto por cidadãos indiciados e por um juiz réu. O único lugar onde isso ocorre na galáxia é na Câmara brasileira dos Deputados com seu julgamento de impeachment. Por outro lado, se há um crime cuja gravidade é tamanha a ponto de levar ao afastamento de uma presidenta, então quem faz crimes semelhantes deve ser imediatamente afastado. Dilma será afastada pelas "pedaladas fiscais", que já foram utilizadas por 14 governadores, inclusive Alckmin e Richa. Diz a razão que eles também deveriam ser imediatamente afastados, pois cometeram crime agora compreendido como da mais alta gravidade. No entanto, isso não ocorreu nem ocorrerá porque o crime foi, na verdade, um pretexto, nada mais que isso, um simples pretexto.

Freud costumava dizer que a razão fala baixo, mas nunca se cala. Queiram ou não a história será escrita lembrando que, em 2016, o Brasil sofreu um golpe de Estado que lhe deu, de vez, as feições de um Estado oligárquico; que parte de sua população foi às ruas contra a corrupção aceitando jogar o país nas mãos do PMDB, simplesmente o partido com maior número de casos de corrupção na história da Nova República. Pode-se enganar alguns com essa história, mas não se engana o mundo inteiro.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
O Brasil funcionou até hoje sob um pêndulo. Esse pêndulo consegue puxar todos os atores políticos para um de seus polos, transformando-os em repetições de atores passados.

Na verdade, por mais que gostemos de pensar o contrário, o Brasil é um país no qual o passado nunca passa. Há aqueles que procuram nos fazer acreditar que a capacidade brasileira de esquecer seria garantia de que não seríamos assombrados pelo o peso das repetições. Mas o esquecimento, ao menos nossa forma de esquecimento, é uma maneira de conservar sem resolver.

Dentro de algumas semanas teremos, mais uma vez, a oligarquia no poder. Na sua proclamação da República, o Brasil conseguiu rapidamente tecer um pacto de oligarquias locais que transformava a democracia em um regime de fachada.

Nesse regime, eleições eram apenas um detalhe, já que as oligarquias já decidiam de antemão quem ocuparia o poder. Greve era crime grave contra a "ordem pública", a polícia servia basicamente para conter as revoltas sociais na base da violência bruta. Enquanto isto, a imprensa cobria toda a pantomima como se aquela associação de latifundiários fosse uma verdadeira república.

Esse regime dará novamente o ar de sua graça. O que vem aí não é a realização do novo há muito demandado pela população brasileira, mas o retorno de um recalcado que nunca foi embora, a entronização do arcaísmo no poder. Teremos um "presidente" com 2% de intenção de voto e 58% da população preferindo seu afastamento. Ele comporá um ministério com os derrotados das últimas eleições, com seus programas sempre recusados pela população.

O que não faz muita diferença, já que eleição agora é um detalhe. Inclusive, candidato de quem não gostamos nós prendemos. Pois, como na República Velha, teremos novamente uma "governabilidade" reduzida a conchavos com um Congresso que representa só suas próprias distorções, só a força do poder econômico na produção de uma casta.

Mas esta é apenas uma parte do problema. Como o Brasil funciona como um pêndulo, tudo o que conseguimos produzir contra o cinismo das oligarquias foi a reincidência contínua do populismo. O problema de falar em "populismo" no Brasil está no fato de que o termo é visto como uma injúria, uma regressão a estágios de personalismo explosivo, e não como uma categoria analítica.

O filósofo argentino Ernesto Laclau foi um dos poucos a conseguir escapar desse equívoco ao mostrar como o populismo descrevia uma característica fundamental da democracia, a saber, a capacidade de incorporação, através da construção do "povo", de classes sempre expulsas do poder. Mas, na lógica do populismo, esse processo cobra um preço alto. A incorporação do povo é feita por meio de um pacto frágil entre várias demandas sociais contraditórias, vindas de setores antagônicos.

Assim, Vargas integrou várias camadas da população na atuação política, mas ao colocar suas demandas no mesmo balaio de demandas da burguesia nascente, das oligarquias descontentes com os pactos paulistas, entre outros. Como dizia Vargas: "Meu problema não são meus inimigos, mas meus aliados". Pois esse arranjo populista funciona apenas por um tempo, ele é provisório, chega uma hora que os conflitos não podem mais ser agenciados.

Sei que muitos não concordam, mas o lulismo no poder foi a reincorporação dessa lógica populista. Mesmo que o PT tenha nascido como uma esquerda não trabalhista, o peso do pêndulo brasileiro levou Lula a vestir o macacão da Petrobras, sujar suas mãos com petróleo e repetir a mesma cena emblemática que marcou a guinada nacionalista de Vargas.

No governo, seu modelo de acordos, de conciliações, de ganhos e paralisias repetiu o que o Brasil conhecera à ocasião da sua primeira incorporação das massas populares ao campo dos atores políticos, principalmente no segundo governo Vargas.

Quando ficou evidente que esse modelo entrara em colapso, as oligarquias (mais uma vez baseadas em São Paulo) precisaram simplesmente empurrar uma porta podre e ocupar o espaço vazio. E assim voltamos várias casas para trás.

Esse processo deveria, ao menos, deixar evidente como a tarefa que espera aqueles comprometidos com o país é escapar do pêndulo, fazendo a crítica dura ao assalto ao poder produzido pela oligarquia sem acomodar-se ao fato de só termos até agora produzido saídas baseadas em incorporações populistas. Nossa tarefa é grande e bela. Ela consiste em criar uma história que, até agora, não existiu.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"Novas eleições é golpe." Foi assim que o vice-presidente, Michel Temer, e os próceres de seu partido procuraram desqualificar a proposta de eleições gerais como saída para a crise política na qual o país se encontra. A frase tem lá seu lugar na história.

Pois "eleições é golpe" deveria ser colocada ao lado de outras pérolas do bestiário político nacional, como: "Questão social é caso de polícia", atribuída ao ex-presidente da República Velha e barão do café Washington Luís. Nas duas frases, expressa-se o desprezo imemorial da oligarquia brasileira pela soberania popular e pela escuta de suas demandas.

Chamar uma eleição de golpe é um claro sintoma a mostrar o que estes que julgam poder nos governar entendem por legitimidade e poder. Em uma democracia, eleição nunca é golpe, porque todo poder, todas as instituições e todas as leis fundamentam sua legitimidade em uma relação de expressão, direta ou indireta, com a vontade popular.

Por ser soberana, a vontade popular pode desfazer a qualquer momento as leis e os procedimentos que ela mesma enunciou e pode suspender a qualquer momento as escolhas que ela mesmo fez.

Na democracia, o povo é o legislador de si mesmo e, por isto, pode enunciar diretamente sua vontade no momento que bem entender. Ele não é escravo das decisões passadas. Se todo poder emana do povo, então cabe ao povo decidir também quando o poder e os governos devem ser destituídos.

Esta natureza destituinte da vontade popular na democracia é o elemento que amedronta todos os que ocupam o poder. Por isso, eles procuram criar toda forma de impedimento formal para que tal força destituinte não apareça. Os que ocupam o poder e julgam ter direito natural de mando sobre nós querem, muitas vezes, aproveitar-se das distorções da representação e dos conchavos nos bastidores escuros da República para aparecerem, do dia para a noite, no cerne do poder sem nos consultar. O sr. Temer e seu bando pensam assim.

A partir do dia 12 teremos uma situação inédita no Brasil. Nunca alguém julgou poder nos governar iniciando um governo com tanta rejeição, contestação e ilegitimidade. Ninguém votou em Temer, e não é por outra razão que a população brasileira se une para rejeitá-lo.

O argumento de que ele foi escolhido como vice-presidente é pueril. Como é da natureza ontológica da vice-presidência, Temer foi escolhido para ser uma figura meramente decorativa, não para conspirar e depor uma presidenta eleita em um golpe que o mundo inteiro vê estarrecido. Se alguém deveria ser punido por "desvio de finalidade" neste país, é ele.

Por ser alguém que não representa ninguém a não ser a casta política que procura permanecer no poder sem legitimidade alguma, ele não vê maiores problemas em montar um governo cujo ministério será composto basicamente por oligarcas locais, políticos corruptos investigados e perdedores das últimas quatro eleições presidenciais.

Como, no fundo, todos sabem que este governo não é solução para problema algum do Brasil, mas é, na verdade, o começo de uma nova série de problemas e de acirramentos sociais com as respostas violentas de praxe, já se prepara a consagração final do golpe por meio da instauração do parlamentarismo.

Como a oligarquia sabe que não é capaz de ganhar eleições, ela sonha em nos governar por meio de um sistema que coroa o Congresso e seu um quarto de deputados indiciados.

Sejamos claros: no Brasil, o Congresso se transformou em uma partidocracia corrompida que gerencia eleições eivadas de distorções ligadas à presença do poder econômico, a casuísmos, ao limite brutal do tempo de campanha, à mobilização de uma imprensa recheada de canais de comunicação de posse, direta ou indireta, dos próprios políticos.

Ou seja, o Congresso representa apenas suas próprias distorções e sua forma de controlar o jogo da representação a fim de se reproduzir como casta. O resultado não poderia ser outro: um Congresso composto por 80% de homens brancos, quase 50% de milionários, mais de 30% de ruralistas. Isto não representa Brasil algum.

Contra esse cenário de horror que se avizinha, a única resposta possível é fazer eleições gerais já. Que os embates políticos voltem à rua, que é seu lugar natural. A Nova República começou com o grito de Diretas Já e terminará com o grito de Diretas Já. Este grito representa a demanda nunca realizada da política brasileira: colocar efetivamente a soberania popular no centro do poder. Fora, Temer.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Diante da gravidade da situação nacional e da miséria das alternativas que se apresentam:

Nós acusamos o governo interino que agora se inicia de já nascer morto. Nunca na história da República brasileira um governo começou com tanta ilegitimidade e contestação popular. Se, diante de Collor, o procedimento de impeachment foi um momento de reunificação nacional contra um presidente rejeitado por todos, diante do governo Dilma o impeachment foi o momento em que tivemos de construir um muro para separar a Esplanada dos Ministérios em dois.

Esse muro não cairá, ele se aprofundará cada vez mais. Aqueles que apoiaram Dilma e aqueles que, mesmo não a apoiando compreenderam muito bem o oportunismo de uma classe política à procura de instrumentalizar a revolta popular contra a corrupção para sua própria sobrevivência, não voltarão para casa. Esse será o governo da crise permanente.

Nós acusamos os representantes desse governo interino de serem personagens de outro tempo, zumbis de um passado que teima em não morrer. Eles não são a solução para a crise política, mas a própria crise política no poder. Suas práticas políticas oligárquicas e palacianas só poderiam redundar em um golpe parlamentar denunciado no mundo inteiro.

Por isso, eles temem toda possibilidade de eleições gerais. Eles governarão com a violência policial em uma mão e com a cartilha fracassada das políticas de "austeridade" na outra. Políticas que nunca seriam referendadas em uma eleição. Com tais personagens no poder, não há mais razão alguma para chamar o que temos em nosso país de "democracia".

Nós acusamos o governo Dilma de ter colocado o Brasil na maior crise política de sua história. A sequência de escândalos de corrupção não foi uma invenção da imprensa, mas uma prática normal de governo.

De nada adianta dizer que essa prática sempre foi normal, pois a própria existência da esquerda brasileira esteve vinculada à possibilidade de expulsar os interesses privados da esfera do bem comum, moralizando as instituições públicas.

Que os setores da esquerda brasileira no governo façam sua autocrítica implacável. Por outro lado, a procura pela criação de uma conciliação impossível apenas levou o governo a se descaracterizar por completo, a abraçar o que ele agora denuncia, distanciando-se de seus próprios eleitores. O caráter errático deste governo foi a mão que cavou sua própria sepultura. Que esta errância sirva de lição à esquerda como um todo.

Nós acusamos aqueles que nunca quiseram encarar o dever de acertar contas com o passado ditatorial brasileiro e afastar da vida pública os que apoiaram a ditadura como responsáveis diretos pela instauração desta crise. A crise atual é a prova maior do fracasso da Nova República.

Que um candidato fascista (e aqui o termo é completamente adequado) como Jair Bolsonaro tenha hoje 20% das intenções de voto entre os eleitores com renda acima de dez salários mínimos mostra quão ilusória foi nossa "conciliação nacional" pós-ditadura. O fato de nossas cadeias não abrigarem nenhum torturador deveria servir de claro sinal de alerta.

Tal fato serviu apenas para preservar os setores da população que agora abraçam um fascista caricato e saem às ruas com palavras de ordem dignas da Guerra Fria. Por isso, a cada dia que passa, percebe-se como este setor da população se julga autorizado a cometer novas violências de toda ordem. Isso está apenas começando.

Nós acusamos setores hegemônicos da imprensa de regredirem a um estágio de parcialidade há muito não visto no país. Diante de uma situação de divisão nacional, não cabe à imprensa incitar manifestações de um lado e esconder as manifestações de outro, transformar-se em tribunal midiático e parcial, julgando, destruindo moralmente alguns acusados e preservando outros, deixando mesmo de se interessar por vários escândalos quando esses não atingem diretamente o governo.

Essa postura apenas servirá para explodir ainda mais os antagonismos e para reduzir a imprensa à condição de partido político.

Nesse momento em que alguns inclinam-se à uma posição melancólica diante dos descaminhos do país, há de se lembrar que podemos sempre falar em nome da primeira pessoa do plural, e esta será nossa maior força.

Faz parte da lógica do poder produzir melancolia, nos levar a acreditar em nossa fraqueza e isolamento. Mas há muitos que foram, são e serão como nós. Quem chorou diante dos momentos de miséria política que esse país viveu nos últimos tempos, que se lembre de que o Brasil sempre surpreendeu e surpreenderá. Esse não é o país de Temer, Bolsonaro, Cunha, Renan, Malafaia, Alckmin.

Esse é o país de Zumbi, Prestes, Pagu, Lamarca, Francisco Julião, Darcy Ribeiro, Celso Furtado e, principalmente, nosso. Há um corpo político novo que emergirá quando a oligarquia e sua claque menos esperar.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"Sete CITados na Operação Lava Jato viram ministro e ganham foro privilegiado", "Novo ministro dos Transportes é suspeito de desvio de verba de merenda escolar", "Itamaraty fornece passaporte diplomático a pastor citado na Lava Jato", "Brasil tem pela primeira vez presidente acusado de ser ficha suja", "Gilmar Mendes [quem mais?] reenvia processo contra Aécio Neves à Procuradoria-Geral da República em menos de 24 horas", "Novo líder do governo na Câmara é acusado de homicídio".

Digamos que todo o processo de "impeachment" de Dilma Rousseff tivesse sido, de fato, impulsionado pela indignação popular contra a corrupção sistêmica no governo.

Se este fosse realmente o caso, teríamos, neste exato momento, um barulho ensurdecedor de panelas, milhares de pessoas iradas vestindo verde e amarelo nas ruas e a imprensa em coro pedindo a destituição do presidente interino e seu governo postiço de corruptos. Uma semana bastou para mostrar ao mundo o grau zero de comprometimento contra a corrupção da oligarquia que tomou de assalto o poder.

Mas não, meus amigos, vocês não estão ouvindo panelas, nem vendo seu vizinho urrar impropérios contra o governo, nem o senhor Sérgio Moro continua no noticiário com sua pretensa caça implacável e destemida contra usurpadores do bem comum.

Não há nada no horizonte das famílias que tiravam selfies com a Polícia Militar que indique um desejo incontido de gritar "agora, é fora Temer". Na verdade, agora é "ordem e progresso", ou se quiserem uma versão mais honesta do lema positivista, agora é "repressão e espoliação direta", com direito a ministros falando sobre o fim da universalidade do SUS, cortes na construção de 11 mil casas populares e preparação da população para mais uma reforma previdenciária com limitação de direitos trabalhistas. Em outras palavras, a violência de sempre.

Mas se, de fato, toda esta história sobre indignação contra a corrupção era uma farsa tosca, o que realmente aconteceu? Digamos que o Brasil viveu nestes últimos meses uma grande expiação, uma espécie de Carnaval macabro de liberação da frustração social que tinha como única finalidade tirar dessa liberação sua potência de transformação real e transformá-la em uma ação espetacular e improdutiva. Como em uma terapia catártica, a frustração social foi expiada por meio da imolação de uma presidenta. E assim tudo pode depois voltar ao normal.

Era claro que o Brasil entrara, desde 2013, em um compasso insuportável de frustração. Haviam prometido ao povo brasileiro que nosso país seria a quinta economia do mundo, que a Copa do Mundo e as Olimpíadas seriam momentos mágicos de aquecimento da economia e reconstituição da infraestrutura de nossas cidades, que estaríamos nadando em dinheiro do pré-sal com 75% destes rendimentos aplicados em educação.

No entanto, o que se viu foram cidades cada vez mais excludentes com preços exorbitantes de imóveis, serviços públicos sucateados, desenvolvimento concentrado e aumento exponencial do endividamento das famílias. Contra isso, o governo Dilma só ofereceu imobilismo e o discurso de que "o Brasil tinha avançado muito, mas precisa avançar mais".

Ninguém precisa ser PhD em psicologia social para perceber a situação explosiva em que nos encontrávamos. Duas saídas eram possíveis.

A primeira era a consolidação de uma dinâmica de transformações sociais radicais por meio da abertura de espaço à emergência de novos sujeitos políticos com clara força de atualização de visões alternativas de desenvolvimento social. Mas isto não ocorreu, a classe política brasileira estava completamente envelhecida para abrir tal espaço, até mesmo as forças oposicionistas eram incapazes de mobilizar alguém em prol de um projeto. Elas só conseguiam mobilizar as pessoas contra algo.

Sobrou então a segunda alternativa, a saber, a simples tradução deste desencantamento generalizado em frustração social bruta, com direito a rituais de expiação e espetáculos de liberação de falas "politicamente incorretas" contra inimigos imaginários. Falas que repetem o mero prazer infantil de enunciar palavras proibidas marchando ao lado de patos gigantes e bonecos infláveis que pareciam saídos de desenhos animados. A temática da corrupção foi apenas a senha para começar esse Carnaval impotente. Seu destino era terminar ali.

Expiada a frustração, sacrificados os inimigos, todos podiam então voltar para casa e se submeter aos mesmos políticos corruptos de sempre, enquanto eles espoliam ainda mais nossos direitos. Assim, a era das panelas em fúria terminou. Agora, a verdadeira era da indignação pode começar.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Esta é a melhor palavra para descrever as duas primeiras semanas de governo provisório. Escárnio produzido por ministros com declarações bombásticas de reformas absurdas e desmentidas no dia seguinte, como se fôssemos obrigados a viver em um estado contínuo de desorientação e desgoverno.

Escárnio de outros ministros grampeados em conversas nas quais o apregoado impeachment moralizador se mostra como a cortina de fumaça para livrar seus pescoços da guilhotina da Lava Jato. Escárnio de um governo que terceirizou sua política econômica para o sistema financeiro.

Governando o país como um açougueiro, seu ministro-banqueiro apresentou ao país um plano de cortes que visa conservar intacto os lucros de seus amigos banqueiros e os rendimentos de seus sócios rentistas.

Diante dos desafios da economia, não passou na cabeça de sua equipe utilizar reservas internacionais, aumentar impostos para os ricos, recriar a CPMF, taxar lucros bancários ou auditar a dívida pública brasileira. Nunca na história recente deste país alguém teve a coragem de apresentar um plano que penalizasse tanto a população mais pobre, que sofrerá nos próximos anos o resultado da limitação dos gastos em educação e saúde, além da retração do Estado como agente indutor de investimentos.

A viabilidade do SUS, um sistema universal para 180 milhões de pessoas e que cobre um território quase do tamanho de toda a Europa, encontra-se ameaçada.

Não por outra razão, seu "ministro da Saúde" afirmou, em um lapso de honestidade, que considerava a manutenção de sua universalidade inviável. Da mesma forma, aqueles que saíram às ruas em 2013 exigindo uma "educação padrão Fifa" terão que se contentar com uma "educação padrão restos a pagar", marcada até mesmo pelo risco de eliminar o piso nacional de salário para professores.

Enquanto isso, seu ministro da Educação produzia mais um escárnio à comunidade educacional utilizando seu tempo, que deve estar bastante livre, para receber "propostas" de grandes estudiosos da educação nacional como o senhor Alexandre Frota e seus amigos do Revoltados Online. Ao ser questionado sobre a pertinência de tal encontro, o referido ministro saiu-se com a afirmação de que "esse ministério comporta a pluralidade e o respeito humano a qualquer cidadão".

Então que tal começar por explicar por que um dos primeiros encontros do senhor ministro é com pessoas que nunca pisaram em uma sala para dar aulas, mas que, com uma discussão esdrúxula de "escola sem partido", visam exatamente impedir que a pluralidade seja ensinada a nossos alunos?

Pessoas que não querem que nossos alunos sejam confrontados a diferentes leituras do mundo, a processos que questionem suas certezas e a representações e opiniões que desenvolvam sua capacidade crítica.

Segundo esses pilares da educação nacional, nossas escolas estariam infestadas de marxistas doutrinando nossos alunos. Não por acaso, esse era o discurso que ouvíamos no início da ditadura militar. Pois foi diretamente de lá que essa discussão retornou.

No entanto, qualquer um que realmente leu os livros que nossos alunos recebem nas escolas públicas sabe que eles conhecerão tanto a visão liberal quanto a visão marxista, descobrirão tanto quem foi Marx quanto quem foi Locke e Adam Smith. Eles terão visões distintas sobre fatos históricos complexos e poderão compor um quadro no qual várias matrizes se apresentam.

Mas talvez essas sumidades queiram mais. Por exemplo, talvez elas queiram que não se fale da tortura na ditadura militar, que se mostre que há também "um outro lado" para o qual torturador é herói.

Bem, segundo essa lógica, poderíamos então ensinar os "dois lados" do nazismo e do "antisemitismo", por que não? E se é para retirar toda "ideologia" da escola, que tal aproveitar e começar por fechar as escolas confessionais? Afinal, tem algo mais "ideológico" do que religião?

Sugiro também impedir toda discussão sobre ética e moral. Pois conceitos como "liberdade", "autonomia", "diversidade", "igualdade", "respeito à alteridade" são necessariamente carregados de "ideologia".

Saint-Just afirmou, no calor da Revolução Francesa: "Aquele que brinca ao ocupar o coração do poder tende à tirania". Vendo o que o governo interino ofereceu ao país nessas duas primeiras semanas, a única coisa a dizer é: "Eles só podem estar brincando".
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
É certo que mesmo o mais entusiasta apoiador do golpe oligárquico perpetrado no Brasil não imaginava uma sequência tão desastrada como a que estamos a ver. A narrativa hegemônica antes do processo de impeachment de Dilma Rousseff era que, afastada a presidente, o dólar cairia, a bolsa subiria, a sociedade se reunificaria e voltaríamos a uma certa normalidade.

Mesmo os que denunciavam a manobra política afirmavam que entraríamos em um conchavo macabro entre a classe política, a imprensa e o judiciário para a criação de uma pacificação artificial do cenário político nacional.

No entanto, o que aconteceu foi outra coisa. Nestes primeiros 20 dias, o governo interino foi diariamente bombardeado por vazamentos de gravações que provocaram a queda de dois ministros em menos de um mês, setores da imprensa não deixaram de reverberar os arcaísmos e mazelas dos novos ocupantes do poder, minando a popularidade de um governo que começou em baixa. A quantidade de medidas anunciadas e revogadas em menos de um dia demonstra a profunda fragilidade do arranjo governista e seu programa.

Uma das formas de interpretar tal situação passa por compreender de outra forma golpes políticos como esse que o Brasil conheceu.

Normalmente, imaginamos que a queda de um grupo de poder e a ascensão de outro é fruto de um projeto claramente concebido que recebe a anuência de vários atores políticos com interesses em comum dispostos a se submeter a um comando central. Teria sido assim, por exemplo, com a ditadura militar, na qual setores do empresariado nacional, do latifúndio, da igreja conservadora e da imprensa organizaram seus interesses em comum submetendo-se ao comando militar, que foi rapidamente impondo sua hegemonia de fato.

No entanto, lembremos aqui da teoria presente em um dos mais impressionantes estudos sobre o estado nazista, a saber, "Behemoth: A Estrutura e a Prática do Nacional-Socialismo", de Franz Neumann.

Uma das principais teses de Neumann, companheiro de rota da Escola de Frankfurt, consiste em afirmar que o Estado nazista não era uma totalidade orgânica e homogênea. Antes, ele era composto de, ao menos, quatro grupos (o partido, o Exército, os industriais e a burocracia estatal) que se digladiavam entre si constituindo estruturas de poder paralelas que entravam continuamente em choque.

O Estado não se desagregava apenas porque existia um "mediador universal" reconhecido por todos (no caso, o Führer) que decidia os conflitos internos quando necessário. Agora, imagine uma situação como essa sem a figura do mediador universal. Você chegará assim ao Brasil atual, fruto de um impressionante golpe sem comando.

Cinco grupos tomaram a frente do processo de derrubada do governo Dilma. Primeiro, a casta política, que resolveu sacrificar seu sócio mais novo (o PT) para tentar, como disse singelamente o senhor Romero Jucá, "estancar a sangria".

Segundo, o poder Judiciário, que, diante da imobilidade do Executivo e do Legislativo, paulatinamente foi alçado ao centro do processo decisório nacional, ganhando um protagonismo e autonomia nunca visto. Não foram poucos os que denunciaram que o Brasil caminha para uma certa condição de República de juízes.

Terceiro, setores hegemônicos da imprensa, que tem sua pauta liberal-conservadora própria.

Quarto, a oligarquia financeira, único setor da economia nacional capaz de organizar o comando da economia a partir de seus próprios interesses. Por fim, a igreja evangélica conservadora, cuja influência na política brasileira é fruto de trabalho ideológico de longo fôlego no interior da dita "nova classe média".

Todos esses atores têm agendas próprias, não necessariamente convergentes. A única coisa que eles têm em comum é o mesmo inimigo externo, a saber, a esquerda no poder. O que os une é a violência contra o mesmo inimigo, que precisará continuar como tal. O que veremos agora será, pois, tais atores se digladiando entre si para impor sua hegemonia.

Policiais prendendo banqueiros, a imprensa enquadrando membros da casta política, evangélicos pressionando o governo para suas pautas fundamentalistas: esses movimentos são apenas um jogo de força no interior de um golpe sem comando e de um país à deriva. Esta é uma das versões possíveis do vazio no poder.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"Aos nossos Amigos: Crise e Insurreição" é um pequeno livro de um conjunto de autores anônimos chamado Comitê Invisível. Ele acaba de ser lançado no Brasil (n-1 Edições) em um momento que não poderia ser mais propício. Sua capacidade de apresentar teses sobre a natureza dos impasses da vida contemporânea é algo que há muito havia desaparecido das prateleiras das livrarias.

"Desde 2008, vivemos em constante ritmo de insurreição", dizem os autores. Nosso maior erro é não perceber como estamos, seja no Brasil, na Turquia, na Espanha, na Tunísia ou na Grécia, em um processo mundial de contestação e desencanto. Faz parte de uma lógica de gestão de crise mundial dar a impressão de que estamos todos a lutar contra governos locais e aparatos nacionais de poder.

No entanto, esses governos são apenas repetidores de uma mesma política global, que parece saída da mesma cabeça, feita com maior ou menor intensidade. Nossas discussões são sobre intensidades da mesma política, sobre se tais direitos serão ou não desmontados, sobre qual a intensidade dos cortes, não sobre caminhos alternativos.

Essa homogeneidade mostra duas coisas fundamentais. Primeiro, que nenhuma saída será local ou nacional. Segundo, e mais importante, que apenas a perpetuação de um estado permanente de choque poderia nos levar a tamanha limitação da capacidade de pensar. O que talvez nos explique por que a crise não é algo a ser combatido pelas práticas de governo. Há muito a crise se tornou a própria prática de governo. Previne-se, por meio de uma crise permanente, toda e qualquer crise real.

O que significa que essa crise que aparece diariamente nos jornais não passará. Ela ficará continuamente como um fantasma a justificar toda "austeridade". Haverá sempre um corte na previdência a fazer, uma restrição orçamentária a impor, gordura a cortar em uma "reestruturação permanente de tudo" que só não mudará uma coisa: a defesa da elite patrimonial, os rendimentos da oligarquia financeira.

Mas para submeter populações inteiras a tal regime de governo faz-se necessária uma verdadeira engenharia psicológica de duas mãos.

De um lado, vende-se a ideia de que a crise "é o momento vivificante da 'destruição criadora' que cria oportunidades, inovação, empreendedores, em que só os melhores, os mais motivados, os mais competitivos sobreviverão". Ou seja, a crise seria o momento no qual a coragem como virtude poderia aparecer. Por isso, os que temem a crise, procurando proteção, só poderiam estar a agir como crianças. Eles não são sujeitos conscientes da falácia de uma destruição criadora que sempre poupa aqueles bem nascidos. Eles são crianças mimadas.

Não por acaso, as políticas de gestão da crise são chamadas de políticas de "austeridade". O termo remete à lógica protestante de uma vida austera, responsável, adulta e realista contra o dispêndio, o excesso e a irresponsabilidade. Ele traz no seu bojo a ideia de que, enquanto você trabalhava, alguns "vagabundos" se aproveitavam, não precisando se impor uma vida restrita como a que você foi obrigado a suportar. É contra os "privilégios" desses mimados que todos deveriam lutar.

O raciocínio é primariamente falso. Se alguém está a procurar "vagabundos" deveria começar por olhar no topo do sistema financeiro e na casta rentista da elite brasileira, não nas classes historicamente desfavorecidas. Mas isso pouco importa, pois o discurso da austeridade não se sustenta em algum dado de realidade, mas na tentativa de impor uma ética por trás de conjuntos de práticas de governo. Por isso, é no terreno ético que o combate deve iniciar.

Daí uma compreensão decisiva: "O que acontece hoje não é apenas que alguns queiram impor uma austeridade econômica a outros que não a desejam. O que acontece é que alguns consideram que a austeridade é, em absoluto, algo bom, enquanto que outros consideram, sem de fato ousar afirmar tanto, que a austeridade é, em sua totalidade, uma miséria".

Como essa "vida austera", há de se impor uma outra ideia de vida, baseada na partilha em vez da economia, na conversa em vez do silêncio, no excesso ao invés da restrição. A austeridade sempre foi a forma de restringir a vida de muitos para garantir o gozo de poucos. Eis algo que aparece na base da crise como modo de governo.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
O nível de exposição da corrupção sistêmica do Estado brasileiro chegou a um ponto dificilmente superável. As últimas delações mostraram o próprio ocupante da Presidência interina do Brasil diretamente envolvido em pedidos de propinas. Nunca um presidente em exercício foi exposto em nível de envolvimento tão orgânico. Não poderia ser diferente. Há semanas, o sr. Temer afirmou, com tapas na mesa, que sabia tratar com bandidos. É verdade; afinal, ele é presidente do PMDB, o mesmo partido de Cunha, Renan, Sarney, Jucá, Henrique Alves e tantos outros bastiões de defesa do bem comum e do dinheiro público.

Podemos, no entanto, fazer agora o jogo miserável de definir quem é a bola da vez, quem é o alvo do momento, na esperança de levarmos o país no ritmo das expiações provisórias. Ou podemos, enfim, depois de décadas, encarar que o arranjo institucional da Nova República foi um fracasso que apenas produziu uma casta política acostumada a tomar de assalto o bem comum em proveito próprio. Se escolhermos a segunda opção, aparece no horizonte a chance única de discutirmos em praça aberta a necessidade de uma nova institucionalidade para a república brasileira.

Os modelos de funcionamento dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário são indefensáveis. Para quem acha que o Judiciário passa incólume, o que dizer de um poder que se aproveita da fragilidade dos demais para chantagear o poder público pilhando o erário com aumentos salariais vultosos em um momento no qual toda a população está a entrar em processo de pauperização? Nota-se uma preocupação realmente republicana com o país.

Este processo de degradação contínua só poderá começar a parar com eleições gerais urgentes. É claro que eleições gerais não "resolverão" a situação. Nenhuma ação tem a vara de condão de resolver sozinha a verdadeira desconstituição da política pela qual passa o Brasil. No entanto, eleições gerais seriam, enfim, ao menos um passo na direção correta. Pois eleições obrigam a classe política a apresentar suas propostas sob o escrutínio da população, impedindo que a aristocracia financeira que nos governa imponha uma "racionalidade econômica" conveniente à defesa selvagem de seus próprios interesses. Enquanto você vê seu salário ser achatado e o desemprego crescer, os bancos brasileiros continuam com seus lucros milionários e o Estado paga algo em torno de R$ 600 bilhões anuais de serviços de uma dívida pública obscura, feita em larga medida por estatização de dívidas de entes privados. Eleições permitiriam, ainda, que o tema da reinvenção política do país subisse de fato à cena.

Aqueles que criticam a ideia de novas eleições levantam o argumento de que a configuração do Congresso e do poder não mudará. Eles deveriam explicar à população brasileira onde estão à venda as bolas de cristal que eles usam para enxergar o futuro com tanta precisão. Na verdade, eles falam apenas de seus medos, mas o medo é péssimo companheiro nestes momentos.

Primeiro, depois de dois anos de exposição contínua da casta política e de seus nomes em processos de corrupção do Estado, imaginar que a população agirá como se nada tivesse ocorrido é mera expressão de desprezo pela inteligência popular. Segundo, porque esta legislatura já nasceu com uma distorção: a terceira candidata à presidente, Marina Silva, não formou bancada alguma pois vinha em uma legenda de aluguel. Uma nova eleição lhe permitiria ter uma bancada que, até segunda ordem, não aparece como tendo o grau de envolvimento com corrupção das bancadas de partidos tradicionais.

Por fim, uma eleição implica deslocar o embate sobre o país que queremos para o campo aberto das disputas políticas. As pesquisas eleitorais para presidente mostram que os cenários estão abertos.

Da mesma forma, elas mostram que a ascensão do protofascismo brasileiro é um fenômeno, em larga medida, reduzido à classe média e destes que adoram chamar os outros de "vagabundos" enquanto passam todas as suas tardes postando tranquilamente "comentários" na internet. Classe com seus 20% que apoiam um amante de torturadores, com suas declarações do tipo "só não te estupro porque você não merece". Esta expressão bruta do ressentimento social será melhor combatida em confronto político aberto.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
A Universidade de São Paulo, assim como a Unicamp e a Unesp, está mais uma vez em uma greve longa e de difícil resolução. Isso coloca, necessariamente, questões a respeito da relação entre a sociedade civil e a mais conhecida universidade pública brasileira. Nestas horas, aparece a importância de discutirmos o destino e as dificuldades do sistema público de ensino universitário brasileiro.

Alguns aproveitam esses momentos para insistir que a USP seria o maior exemplo de como o dinheiro público é utilizado para garantir privilégios de uma pequena elite que lá estuda. Melhor seria cobrar mensalidades de quem pode pagar e garantir bolsas para os que não podem.

No entanto, os números mostram como esse raciocínio é primariamente falso. Em torno de 60% dos alunos da USP vêm de famílias que ganham até dez salários mínimos. Ou seja, sua grande maioria não pode ser considerada proveniente da elite. Mesmo assim, ela poderia se democratizar mais se fossem implementadas políticas efetivas de cotas, o que infelizmente boa parte dos críticos das universidades públicas recusa por razões meramente ideológicas.

De fato, vemos atualmente problemas graves de financiamento das universidades paulistas. Costuma-se colocar tais problemas exclusivamente na conta da dita má gestão dos recursos. Mas há de se perguntar como se cria uma má gestão. Um dos maiores rombos produzidos na gestão da USP ocorreu na gestão do sr. Grandino Rodas, da qual o atual reitor participava. Este senhor foi imposto pelo então governador de São Paulo, José Serra, mesmo não tendo sido escolhido pela comunidade acadêmica. Houve alguma responsabilização do governo do Estado pelas suas escolhas? O mesmo Estado que culpa a USP por má gestão nos empurra maus gestores.

No entanto, o problema não é apenas de má gestão. Ele é de escassez de dinheiro. As universidades paulistas têm um percentual fixo do ICMS para custear suas despesas. Tal percentual foi negociado em uma época na qual a USP tinha um pouco mais de 30.000 alunos. Atualmente, ela tem 92.000. Qualquer cálculo elementar pode entender a razão pela qual a conta não fecha mais.

Mas de onde viria o dinheiro, já que o Estado arrecada menos? Se o Estado de São Paulo tivesse o mínimo de responsabilidade social, ele não estaria pensando em como fechar escolas, cortar merendas de estudantes, asfixiar universidades, sucatear seus hospitais universitários, mas em como garantir educação de qualidade fazendo como quase todo país de referência em educação fez: taxando aqueles que podem contribuir.

O Estado tem à mão impostos sobre herança ridiculamente baixos, IPVA que isenta jatos, helicópteros e iates. Ele poderia pressionar o governo federal a enfim aplicar o imposto sobre grandes fortunas, utilizando esses recursos para garantir mais dinheiro para a educação. Mas ele prefere jogar as escolas à deriva e deixar as universidades explodirem em um guerra entre seus setores.

Mas alguns poderiam querer colocar uma questão absolutamente legítima: vale a pena dar mais dinheiro à USP? Vamos desdobrar essa questão: vale a pena dar mais dinheiro para uma universidade responsável por 25% de toda a pesquisa feita no país, considerada nos rankings internacionais como a melhor universidade da América Latina e a nona entre os países dos Brics?

Antes de responder, lembre-se que comparar a USP com universidades que aparecem em primeiros lugares nos rankings internacionais, como gostam de fazer alguns, não faz sentido. Harvard, por exemplo, tem ao todo 21.000 alunos. Yale tem um pouco mais de 12.000 alunos. Cambridge tem 20.000. Estas são universidades cuja função é formar uma elite de excelência. Muito diferente é uma universidade de massa como a USP que visa formar um enorme contingente de bons pesquisadores e profissionais. Os desafios, as dificuldades e as funções são outros.

Há ainda aqueles que afirmam que o problema da USP estaria em sua Faculdade de Humanidades, responsável por inutilidades e irrelevâncias, como deixou transparecer o sr. Alckmin ao criticar a Fapesp por financiar "muitos projetos de sociologia".

Muito haveria a dizer sobre "irrelevância", mas gostaria de pedir ao leitor que pense em alguma faculdade, no mundo, no sistema solar ou na galáxia cujos professores deram para o seu país, nos últimos 20 anos, um presidente da República, dois ministros da Educação, um ministro da Cultura, um secretário nacional de Direitos Humanos, um prefeito de São Paulo e um porta-voz da presidência, das mais diversas tendências e partidos. Como se vê, alguns usam "irrelevância" de maneira peculiar.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Muito já foi dito a respeito da decisão inglesa de sair da União Europeia. Ela é certamente um dos fatos mais importantes deste curto século por aquilo que explicita.

A União Europeia nasceu com a promessa de ser o início de uma era pós-nacional, na qual os Estados-nação se submeteriam paulatinamente a uma engenharia institucional capaz de garantir a existência de sujeitos políticos pós-nacionais.

Aos poucos, atribuições dos parlamentos nacionais passaram ao Parlamento Europeu, a criação de uma moeda única levou a um banco central transnacional, as universidades criaram sistemas de intercâmbio contínuo tendo em vista a formação de cidadãos europeus.

Nesse sentido, não se tratava apenas de um espaço de livre comércio, mas da tentativa de criação de um espaço político que deixaria para trás as estruturas dos Estados nacionais. Diferente da Organização das Nações Unidas, que sempre foi algo mais próximo a um fórum de debates, a União Europeia representou, pela primeira vez, um processo efetivo de transferência de poder.

No entanto, mais de 20 anos depois de sua instauração, a ira de parcelas expressivas de populações do velho continente contra a União Europeia é visível. A decisão inglesa, por mais suicida que seja do ponto de vista econômico e político (com a saída iminente da Escócia do Reino Unido), é apenas a ponta do iceberg. A razão de tal ira talvez esteja involuntariamente bem expressa na representação visual de sua maior invenção, a saber, o euro. Há uma certa ironia em perceber como as notas de euro não representam seres vivos (personagens históricos, animais, flora), mas objetos mortos, como pontes, viadutos e outras construções de infraestrutura. A ideia era louvar a circulação. Para ser mais preciso, a circulação de riquezas, de produção, de capital. Mas, de forma sintomática, nestas representações não há pessoas.

De fato, durante todos estes anos a União Europeia foi uma engenharia institucional que só esteve de acordo em dois pontos: organizar políticas massivas de salvamento do sistema financeiro combalido desde a crise de 2008 e estabelecer políticas comuns de limitação de circulação de imigrantes. Os projetos iniciais de criação de uma Europa social, com estruturas transnacionais de garantias trabalhistas e defesa social, naufragaram rapidamente. No caso da Grécia, por exemplo, a União Europeia demonstrou toda sua irracionalidade ao impor medidas de austeridade durante anos com resultados catastróficos, decididas por tecnocratas sem rosto e sem disposição alguma para corrigir seus equívocos.

No entanto, o voto britânico foi um dos mais impressionantes passos na direção errada da história recente. Ele foi animado por dois fatores: a crença de que o fortalecimento do Estado-nação serviria de contrapeso a estas políticas que levaram à pauperização do continente e o medo diariamente alimentado pelo próprio governo e por setores da imprensa local contra o além-mar (imigrantes, refugiados e estrangeiros).

O primeiro fator é apenas a tentativa de ressuscitar um arcaísmo. O Estado-nação não existe mais e melhor seria que ele fosse desmantelado de vez. Ele é apenas um zumbi que se alimenta de algumas das piores patologias sociais de nossa época, como a paranoia identitária, a ilusão das fronteiras, a paixão pelo isolamento.

O Estado-nação não decide mais nada, mesmo quando ainda tem o controle de sua moeda, como no caso inglês. Apenas implementa políticas decididas por um sistema econômico global. Por isso, ele será usado todas as vezes que for o caso de desviar o eixo do descontentamento não para cima, ou seja, em direção àqueles que realmente decidem, mas para o lado, a saber, em direção àqueles que servirão de bode expiatório da vez, sejam poloneses, ciganos, negros ou árabes.

Nos últimos dias, os ingleses descobriram uma obviedade: sair da Comunidade Europeia é impossível, daí esta situação digna de Monty Python de um país tentando adiar a implementação de uma decisão que ele mesmo tomou. As economias nacionais não existem mais.

Por essa razão, a luta pela defesa contra a espoliação econômica não passa pelos Estados nacionais, mas pela politização das decisões econômicas impostas por organismos transnacionais, como a União Europeia, o FMI e o Banco Mundial. Mas faz parte de uma certa gestão da política atual desviar continuamente os eixos reais dos problemas para espaços imaginários.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Doutrinação da juventude, desrespeito a crenças e valores, aliciamento dos jovens para manifestações e posições contrárias à democracia. Essas podem ser algumas acusações que levarão, no futuro próximo, professores brasileiros a serem julgados pelo crime de "abuso de liberdade de ensinar".

Afinal, segundo os defensores de uma "escola sem partido", não é possível admitir que professores desrespeitem as crenças morais e religiosas de seus alunos, que eles os doutrinem inculcando atitudes contrárias à ordem vigente.

Alguns acham que essa deve ser a linha educacional daqui para a frente em nosso país. Essas pessoas, se vivessem em 399 a.C., estariam enroladas em uma bandeira brasileira, abraçadas a defensores de torturadores, sentadas na primeira fila de um famoso tribunal ateniense a apoiar veementemente a condenação à morte de um certo cidadão que, ao que parece, se chamava Sócrates.

Foram exatamente essas acusações que o levaram a julgamento há mais de 2.000 anos. Ou seja, se Sócrates fosse professor de educação pública em Alagoas, o primeiro Estado da federação a impor tal legislação baseada no referido abuso de liberdade de ensinar, ele estaria frente a frente com a Justiça mais uma vez. Mas, ao que tudo indica, em breve será todo o Brasil que estará livre de agitadores dessa estirpe.

Não deixa de ser sintomática a situação pela qual passamos atualmente. Em um momento de cortes de bolsas de estudos para mestrado e doutorado, de bloqueio de verbas para pesquisas e ampliação de universidades, de salários miseráveis de professores, de fechamento de escolas em todo o país e de redução da merenda escolar à bolacha cream cracker, o grande debate é sobre "como livrar nossas crianças da doutrina ideológica". Depois, ninguém sabe por que nossa educação não decola.

É claro que faz parte do primarismo retórico dos defensores de projetos desse quilate sair-se com exclamações do tipo: "Mas quem pode ser contra a neutralidade política, ideológica e religiosa do Estado, o pluralismo de ideias no âmbito acadêmico e a liberdade de crença?". Essa é uma especialidade nacional de longa data –chamar de "liberdade" o que é controle e censura.

De fato, ninguém é contra a neutralidade do Estado, o que não implica neutralidade dos seus cidadãos. Se assim fosse, o Estado deveria cassar o registro de todas as escolas confessionais que, mesmo sendo privadas, fornecem diplomas validados pelo Estado brasileiro. Neutralidade significa aqui: o Estado permite a seus cidadãos expressarem suas posições por entender que o debate e o conflito de visões é elemento fundamental para o desenvolvimento do saber. Um professor que dá sua opinião sobre determinado assunto e permite seus alunos se contrapor a ele é fato corriqueiro e salutar em nossas escolas.

Por isso, ninguém é contrário ao pluralismo de ideias no âmbito acadêmico. Agora, onde ele realmente está? Querem que nossos adolescentes conheçam teorias de gênero e práticas discriminatórias em vários lugares do mundo? Ou querem que esse debate simplesmente desapareça do horizonte? Querem que nossos alunos conheçam tanto a teoria das lutas de classes e da espoliação do trabalho assalariado quanto a teoria da mão invisível do mercado, tanto a história das religiões quanto os processos de seleção natural? Ou querem simplesmente que a ignorância seja respeitada como conquista sacrossanta?

Por exemplo, fui formado em uma faculdade que é vista pelos ideólogos dessa "escola sem partido" como o antro principal de doutrinação marxista do Hemisfério Sul. Durante minha formação, no entanto, nunca tive um curso sobre Marx, embora tivesse vários cursos sobre o "doutrinador liberal" John Locke, Thomas Hobbes e os "doutrinadores católicos" são Tomás de Aquino e santo Agostinho.

Ou seja, esse pluralismo defendido pelos nobres deputados alagoanos já existe desde há muito no Brasil. Mas, como não há educador algum a defender a insanidade desses projetos, é claro que eles não têm ideia do que se passa realmente em nossas salas de aula. Se houvesse algum educador ou professor envolvido nesses projetos, eles veriam, por exemplo, como nossos livros didáticos de história são escritos com o esforço de fornecer visões múltiplas sobre fatos complexos, expondo a pluralidade presente hoje no mundo acadêmico. Mas quem deles abriu um livro de história?

O fato é que não se trata de debater educação. Trata-se de jogar o país no ritmo da esconjuração e do desprezo anti-intelectualista. O resultado só pode ser condenar Sócrates uma segunda vez.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"É coisa de quando não tínhamos condição de fazer testes, ver o que acontecia no cérebro. Hoje a pessoa vai me falar de inconsciente? Onde fica?". As colocações do neurocientista Ivan Izquierdo, publicadas nesta Folha há algumas semanas, têm ao menos o mérito da clareza, além de expressar certa ironia, o que sempre acaba por produzir condescendência. Ela partilha, no entanto, um conjunto de dogmas que, para um setor da comunidade científica, parece valer como evidência natural.

Essa discussão poderia se restringir aos muros das universidades e laboratórios se não colocasse em questão algo que diz respeito a todos, mesmo que nem todos o saibam. Pois, ao fim e ao cabo, trata-se de saber como nós falamos de nós mesmos. Afirmar que o inconsciente é uma hipótese vazia não implica apenas tirar o emprego de centenas de psicanalistas. Significa também modificar de forma decisiva a maneira com que nós nos descrevemos, a maneira com que compreendemos a estrutura de nossas ações e a dinâmica de nossos sofrimentos e desejos.

Poucas foram as teses que influenciaram tanto a maneira como nós definimos a nós mesmos quanto a de que somos sujeitos atravessados por algo que nos causa e que não se submete à estrutura representacional de nossa consciência, algo que coloca continuamente questões sobre nossa identidade, a autonomia de nossas ações e a unidade de nossa personalidade. Nesse sentido, dizer que o inconsciente não existe equivaleria a dizer que não precisamos mais nos ver dessa forma descentrada.

Mas vejamos o que dizer das afirmações sobre a inexistência do inconsciente presente na referida entrevista. Dos dogmas pressupostos pelas colocações do neurocientista, um é deveras interessante, a saber, se não é localizável, então não existe. Se não posso responder à pergunta "onde fica?", então não há sentido algum em falar de inconsciente. Isso pode passar por rigor científico em certas hostes, mas há razões para duvidar de tal materialismo sensualista e seu afã localizacionista.

Pois talvez estejamos aqui diante do que o filósofo inglês Gilbert Ryle um dia chamou de "erro de categoria". Trata-se de um erro similar àquele do estudante que vai à USP pela primeira vez, é apresentado à biblioteca, à praça do Relógio, às salas de aula e, ao final, pergunta: "Bem, vim aqui, vi a biblioteca, a praça, o bunker da reitoria mas, afinal, onde está a USP?". Sim, onde está o inconsciente se não posso localizá-lo como posso, por exemplo, localizar a região cerebral responsável pela empatia? Bem, talvez não seja possível localizá-lo porque ele não está lá à maneira que a mielinização dos axônios no sistema nervoso central está.

Alguns estão acostumados a pensar que o inconsciente seria algo como uma caixa de Pandora para onde iriam conteúdos mentais recalcados, desejos censurados e motivações reprimidas. Mas notem que o lado forte da hipótese de Freud não estava nessa cisão entre a consciência e certos conteúdos mentais. Por exemplo, ao falar sobre os sonhos, Freud insistia que deveríamos perceber como eles eram compostos de três níveis distintos: conteúdos manifestos (aquilo que me vem imediatamente à memória quando narro o sonho que tive), conteúdos latentes (aquilo que é revelado quando os sonhos são interpretados) e o "trabalho do sonhos", ou seja, a maneira com que o sonho distorce, compõe, condensa e desloca seus materiais.

Esse último nível era, na verdade, o que permitia falar em inconsciente e foi por esse caminho que boa parte da psicanálise pós-freudiana trilhou.. Pois "inconsciente" eram as leis que determinam da estrutura do pensamento, o modo de pensar, seus caminhos, suas associações e repetições. Como se houvesse leis que agem em nós, que determinam a forma de nossos pensamentos e nossas relações à nossa revelia. Leis construídas a partir da incidência subjetiva das experiências sociais e que acabavam por se organizar como uma linguagem privada.

Foi pensando em algo semelhante que um antropólogo como Claude Lévi-Strauss, para quem o inconsciente era uma hipótese extremamente profícua, podia lembrar que essa noção era socialmente trivial. Por exemplo, quando estabelecemos escolhas matrimoniais, não temos consciência das leis do incesto. No entanto, elas agem em nós definindo, de forma muda, a configuração de nossas escolhas. Em dimensões fundamentais da vida, não agimos, mas somos "agidos" por desejos que nos atravessam e isso é o que nos faz, como dizia T.S. Eliot, diferentes de homens ocos.

Talvez seja esse estranhamento que alguns acreditam melhor apagar com uma boa imagem de pet scan. Isso pode parecer novo, mas é só um retorno ao materialismo do século 18.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Em 1956, quando surgiu o primeiro antidepressivo, o laboratório Geigy hesitou em lançá-lo no mercado por considerar a depressão um fenômeno de proporções insignificantes. Hoje, 60 anos depois, a Organização Mundial da Saúde estima que entre 350 e 400 milhões de pessoas sofram de alguma forma de depressão. Isso representa algo em torno de 5% da população mundial. No Brasil, os números são mais substantivos. Segundo o IBGE, 7,6% da nossa população foi diagnosticada com depressão. Ainda segundo estudos da Fiocruz, 1 em cada 4 mulheres sofre de depressão pós-parto, número maior do que a média global.

Diante de números dessa magnitude há de se perguntar o que realmente ocorreu nos últimos 60 anos. Estamos no meio de algo como uma verdadeira epidemia mundial de depressão que fez números insignificantes saltarem a proporções massivas. Ou, na verdade, essas pessoas já estavam lá, mas não eram vistas, não eram diagnosticadas de forma correta?

Uma certa ideia de desenvolvimento científico gostaria de nos fazer acreditar na segunda hipótese. Pois se trata de defender que a ciência caminharia a passos largos por meio de uma correspondência cada vez maior ao mundo tal como ele é, independentemente de nossa forma de descrevê-lo. Como se nossa linguagem científica fosse um espelho que aos poucos poderia ser polido, limpado de suas crenças e superstições a fim de alcançar uma translucidez crescente. Pois o desenvolvimento de nossas categorias científicas seria baseado em refutação e descoberta. Refuta-se uma descrição errada, que não corresponde a nada no real, e descobre-se uma "espécie natural", ou seja, um conjunto de fenômenos cuja identidade é dada pelo mundo, não por nós.

Acreditar nessa marcha irresistível da ciência é reconfortante para alguns. Mas será que esse raciocínio vale realmente para categorias clínicas, como a depressão, ou, por exemplo, o transtorno de personalidade histriônica e o transtorno bipolar? É possível dizer, ao contrário, que nossas categorias clínicas ligadas à descrição do sofrimento psíquico, em larga medida, produzem os objetos que elas descrevem?

Pois notemos uma diferença importante entre categorias utilizadas para descrever comportamentos humanos e aquelas utilizadas para descrever fenômenos do mundo físico. Quando descrevemos fenômenos físicos, os objetos envolvidos não apreendem reflexivamente as descrições que deles fazemos. Ao descrever a lei da gravidade, temos poucas chances de uma pedra dizer para si mesma: "Então, é por isso que sempre caio. Hum, interessante".

No entanto, é isso o que acontece quando um paciente se vê como depressivo. Ele apreenderá reflexivamente a categoria que o descreve, ele dirá a si mesmo, "então sou um depressivo", e essa nomeação de si não será indiferente. Ela produzirá novos efeitos e reorientará os efeitos passados, repetindo um fenômeno que teóricos da ciência, como Ian Hacking, chamam de "nominalismo dinâmico". Pois uma doença psíquica não é apenas uma descrição de fenômenos físicos agenciados em conjunto: ela é uma identidade, uma identificação, e nos esquecemos disso muitas vezes. Da mesma maneira como alguém muda seu comportamento e sua maneira de estar no mundo quando assume para si mesmo, por exemplo, "eu sou negro, eu sou escocês, eu sou judeu etc.", ele mudará quando se vir como depressivo.

Nesse sentido, talvez possamos dizer que o fato de, ao menos segundo o saber psiquiátrico reinante, não haver mais histéricas, neuróticos e paranoicos entre nós (pois todas essas categorias clínicas foram abandonadas nos últimos anos) não significa que o sofrimento que eles nomeavam tenha desaparecido. Significa apenas que ele é narrado de outra forma. A boa questão é, pois: por que, a partir de certo momento, eles serão narrados de outra forma? Por que, a partir de certo momento, preferimos narrar nosso sofrimento como "depressão"?

Não haveria questões exteriores à clínica e próprias ao campo alargado da cultura que nos levaram a preferir certas narrativas a despeito de outras? Isso nos obrigaria a perguntar não apenas sobre descrições, mas sobre valores, ou seja, sobre se nossa ideia de normalidade e saúde não seria portadora de valores que mudam historicamente a partir de dinâmicas que não são apenas ligadas ao universo dos laboratórios e dos hospitais. Mas isso exigiria uma visão do saber médico-psiquiátrico que nos parece atualmente proibida.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Uma das poucas ideias a orientar as ações do dito "governo" Temer é desmontar, o mais rápido possível, toda a estrutura de direitos trabalhistas e serviços públicos do Estado em nome da "austeridade".

O jogo é velho como a roda e consiste em vender à população a ideia de que a manutenção de serviços públicos e direitos é sinônimo de gastança, de abuso e de privilégio .

Nisso, o governo recebe aplausos de pé dos setores da imprensa que fazem de tudo para jogar o Brasil de volta ao capitalismo do século 19, este mesmo capitalismo onde trabalhar 44 horas por semana é pouco, já que é sempre possível esfolar trabalhadores, obrigando-os a jornadas de 60 horas, como sonha o presidente da Confederação Nacional da Indústria, arauto da nova modernidade nacional.

Na semana passada, um jornal de grande circulação chegou ao cúmulo de assinar editorial afirmando que, agora, garantir universidades públicas era simplesmente "injusto".

É verdade que isso não devia nos surpreender. Em um país no qual a elite conseguiu proezas inacreditáveis na arte de suspender o princípio de não contradição, como ser, ao mesmo tempo, liberal e escravocrata, oligarca e republicana, não é nada estranho que um jornal diga que educação pública é algo injusto.

Os argumentos, como sempre, são pedestres. O raciocínio de base consiste em dizer que as universidades públicas brasileiras financiam a elite econômica do país.

No entanto, não há número algum que corrobore esta leitura. Por exemplo, no caso da USP, 60% de seus alunos são egressos de famílias que ganham até dez salários mínimos.

Um família que ganha até dez salários mínimos não é elite nem aqui nem em lugar algum. As outras universidades federais tem números ainda mais expressivos, basta ter o interesse em procurá-los.

Da mesma forma, são primários os argumentos daqueles que se aproveitam do momento para dizer que a universalização do sistema público de saúde não é mais possível.

Notem que essas pessoas não estão preocupadas em aumentar a participação dos setores mais pobres nas universidades públicas nem procurar vias alternativas para financiamento público da saúde. Elas querem simplesmente desresponsabilizar o Estado de fornecer serviços a seus cidadãos para que elas possam pilhar melhor o dinheiro dos seus impostos.

Pois não se engane: o projeto é criar um Estado mínimo apenas para você. Porque, enquanto o Estado é mínimo para você, ele é generoso com aqueles que usam as leis para defender seus patrimônios e investimentos. Os mesmos bancos que pagam seus consultores para falar contra seus direitos não temem em recorrer ao Estado quando os negócios vão mal. Citibank, BNP/Paribas, Deutsche Bank que o digam.

Por exemplo, no mesmo momento em que seu jornal estava repleto de defensores dessa versão singular de nova justiça social, o governo brasileiro deu um aumento salarial de mais de R$ 40 bilhões para funcionários, em especial do judiciário com seus cargos nababescos. Uma maneira de comprar o silêncio e a governabilidade depois do golpe.

Enquanto o governo de São Paulo aprimorava-se no jogo de fechar escolas sem fazer alarde, ele perdoava R$ 116 milhões de dívidas da empresa francesa Alstom, por coincidência a mesma empresa envolvida nos escândalos do metrô. Pergunte quantas escolas poderiam funcionar melhor com este dinheiro.

Enquanto o ministro da Saúde sai todos os dias com uma afirmação de que o SUS não pode mais existir como tal, o governo brasileiro paga R$ 600 bilhões por ano em serviços da dívida pública. Uma dívida que nunca foi auditada, mesmo que exista lei constitucional desde 1988 obrigando o Estado a tanto. Agora, procure saber por que ela nunca foi auditada.

Não seria devido ao fato de grande parte dela ter sido resultante de socialização de dívidas de entes privados, ou seja, em bom português, uso de dinheiro público para pagar dívida de empresário e banqueiro? E que tal falar do imposto sobre grandes fortunas, que daria ao governo ao menos R$ 70 bilhões por ano?

Como você pode ver, o embate não é sobre o tamanho do Estado, mas sobre para onde vai o dinheiro, se para seus cidadãos ou se para a casta especializada em viver às custas das benesses auferidas pelo dinheiro público. O mais engraçado disso tudo é ver esse tipo de espoliação sendo vendida sob o nome de "ideias liberais".
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Nos últimos anos, o Brasil viu questões de gênero e sexualidade se transformarem em um dos tópicos mais sensíveis do debate social. Tais questões também mobilizam pessoas em várias partes do mundo.

O antigo papa Ratzinger editou um encíclica condenando as teorias de gênero. Há alguns anos, as ruas da França viram milhões de pessoas mobilizadas devido às polêmicas suscitadas pela extensão do direito de casamento para casais homoafetivos. A Rússia há anos aprovou um lei que criminaliza "propaganda homossexual".

Na verdade, raros são os países onde tais questões não suscitam polêmicas. Não se trata, com isso, de diminuir a brutalidade da situação brasileira, toda ela pintada, como sempre, com cores da mais crassa violência.

O Brasil tem alguns dos números mais altos do mundo no quesito crimes motivados por questões de gênero, isso enquanto conservadores e evangélicos fazem de tudo para que questões de gênero e sexualidade não sejam tratadas nas salas de aula dentro de uma política de fortalecimento do respeito à diversidade. Mas há de se perguntar o que faz setores inteiros da população mundial sair às ruas, usar leis e a força do Estado para que essa situação permaneça como está.

Uma das ilusões mais reconfortantes para alguns é acreditar que nossas instituições, tradições e costumes expressam normas fornecidas pela natureza. Assim, a natureza teria fornecido, por exemplo, a diferença sexual expressa na estrutura anatômica dos sexos. Negar tal diferença e o binarismo que ela implica seria, para alguns, algo próximo de um delírio psicótico.

No entanto, notem o que realmente está em questão. Ninguém nunca teve a ideia de negar a expressão física da diferença sexual, mas, sim, de questionar que tal diferença tivesse, por si só, um sentido, que dela emanasse um conjunto de normas a serem seguidas.

Ser marcado por certa anatomia não implica que devo partilhar uma "natureza". Uma das ideias mais astutas do psicanalista Jacques Lacan consistia em defender que a diferença sexual era uma diferença bruta e opaca. Cabia à natureza produzir questões, não respostas. Diante da questão suscitada por tal diferença, a vida social podia, inclusive, optar pela sua irrelevância, como se ela fosse tão importante quanto a diferença entre o tamanho das orelhas ou do nariz.

Da mesma forma, a ideia realmente desestabilizadora trazida por Freud não era a existência de uma sexualidade infantil, mas, sim, a ideia de que a sexualidade era uma função sem télos, um impulso fragmentado, polimórfico e sem direção. Pois não havia nada que ligasse naturalmente a sexualidade à reprodução.

A submissão da sexualidade aos imperativos de reprodução era uma aquisição tardia e nunca totalmente realizada, prova disso era o comportamento completamente polimórfico das crianças.

Isso muitas vezes assombra alguns, a saber, perceber que a natureza é muda em nós, que nossas formas de vida e nossas instituições são marcadas por contingências e que, por isso, são passíveis de contínua revisão.

Se essas questões mobilizam tanto a religião é porque o que é realmente aterrador para a teologia nunca foi a defesa da inexistência de Deus, mas a defesa da irredutibilidade da contingência e do acaso. Por isso, a sexualidade sempre foi e continuará sendo uma das grandes questões da teologia. Pois ela nos lembra como nossos desejos são impulsionados pela contingência, como eles erram no acaso.

Nesse sentido, é sempre bom lembrar como o vocabulário da "escolha" é tão inadequado quando falamos em sexualidade. Ele denuncia o resquício teológico de acreditar que estamos submetidos a uma "livre-escolha".

Na verdade, ninguém escolhe sua sexualidade, como se estivéssemos em um supermercado a avaliar opções. Ela se constitui em nós por meio de relações que se tecem às nossas costas, de histórias de desejos que partilhamos, de experiências que sofremos.

Mas admitir que nossas singularidades não resultam de um projeto deliberado, consciente, e sim de uma articulação contingente que nos despossui de nossas ilusões de comando, criando formas que ainda nem sequer sabemos quais são, eis algo que modifica por completo as ilusões metafísicas dos que querem legislar com uma Bíblia debaixo do braço.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Dentre os maiores feitos olímpicos brasileiros nestes últimos dias esteve a medalha de ouro em silenciamento, disputada em jutas renhidas contra Rússia e Arábia Saudita. A tática brasileira foi infalível, fruto de anos de aprimoramento técnico contínuo no qual a violência bruta foi trabalhada a fim de perder seu azedume graças a doses do mais puro cinismo. Com essa nossa mistura, essa nossa miscigenação na qual a violência vem amansada pelo cinismo, somos imbatíveis.

Vejam, por exemplo, o caso dos  por insistirem em portar perigosos cartazes com dizeres como "Fora, Temer" no interior do espaço sagrado dos templos olímpicos. Se fosse na terra do velho Putin, eles já estariam na cadeia, saindo dos estádios algemados e de cabeça baixa. Mas no Brasil a coisa toda é feita com muito mais gingado.

Dois soldados do Exército, com metralhadora na mão e dedo no gatilho chegam junto ao elemento, falam manso "pedindo" para o referido retirar o cartaz, e, caso o recalcitrante continue sua prática ilícita, ele será escoltado para fora do recinto por tentar macular o espaço olímpico, no qual se celebram a união nacional e a reconciliação do povo com seus heróis e com suas cadeias de televisão, com questões políticas miseráveis.

Questões estas, é sempre bom lembrar, proibidas segundo a nova lei que visa imunizar locais de culto esportivo contra o vírus da sedição e da revolta. Coreografia perfeita, medalha de ouro mais que merecida. Volta para casa, Putin, porque aqui não tem para mais ninguém.

Mas, vejam que interessante. Na , o mundo foi obrigado a ouvir a velha ladainha política de sempre a respeito do país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, no qual todas as raças, no qual a favela e o asfalto, no qual todos os gêneros se encontram em uma conciliação multicultural poligenerosa. Se há um discurso político neste país, fruto de uma ideologia cultural secular baseada no silenciamento das contradições e da violência dos conflitos, ei-lo aqui.

Sim, foram horas de discurso político e ideológico, pagos por mim e por você, travestido de show pirotécnico. Até onde eu saiba, ninguém foi preso ou convidado a se retirar do recinto por isto. Ou seja, a política, quando é feita pelos novos usurpadores do Estado, é permitida. Fora disso, é crime.

Não deixa de ter lá sua ironia que isto tenha como palco a Olimpíada. Os gregos tinham dois termos para "vida": zoé e bios. O primeiro estava frequentemente associado a mera vida própria à vida animal em sua nudez biológica, por isto era partilhada tanto pelos humanos quanto pelos animais, enquanto o segundo, com frequência se referia à vida social para a qual os humanos estavam destinados. Bios era assim, preferencialmente, a vida que possui qualidade política, que resulta do uso da palavra (logos) pois é fruto da deliberação humana a respeito de formas de vida. Bios é frequentemente a vida na pólis.

Vale a pena lembrar isso porque não estaria no horizonte de um grego, nem em seu pior pesadelo, usar as Olimpíadas, espaço no qual se celebrava a excelência da potência humana e de sua perfeição, para cultuar uma vida sem qualidade política, vida reduzida à mera vida animal dos corpos adestrados e, na maioria das vezes, unidimensionais, vida reduzida à zoé.

Mas é, afinal de contas, esta a vida que alguns querem nos oferecer: uma vida sem política, talvez porque assim eles podem continuar com mais facilidade a fazer política à sua maneira, a nos empurrar suas ideologias e naturalizar suas práticas de usurpação do Estado e de governo oligárquico.

É singular que nosso país seja atualmente atravessado por tentativas de retirar a política das esferas de visibilidade da vida, da frente das câmeras, das escolas. A pior política é aquela que não diz seu nome, que fala sem se assumir como tal ou que fala através de seus silêncios impostos. Contra isso, sempre foi questão de associar a política ao logos, ou seja, à fala, à capacidade de dizer e de mostrar em todo e qualquer espaço público. Por isso, como dizem 62% da população brasileira que pedem eleições o mais rápido possível: "Fora, Temer".


É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Dentre as pretensas evidências que parecem influenciar os debates nacionais a respeito da relação entre indivíduos e sociedade civil uma que merece destaque é: "Meus filhos, minhas regras".

A princípio, essa frase tão repetida nos últimos meses parece irrefutável. Contra a sanha do Estado em impor valores e homogeneizar seus cidadãos, haveria de se afirmar a liberdade que as famílias teriam de defender a multiplicidade de suas crenças e a singularidade de seus modos de vida.

Nesse sentido, "Meus filhos, minhas regras" parece querer realizar a famosa afirmação da finada Margaret Thatcher: "Não existe essa coisa de sociedade, existem apenas indivíduos e famílias". Mas temos o direito de colocar uma pergunta relativamente impertinente, a saber: você tem realmente certeza de que os filhos são "seus"?

Não que se trate aqui de colocar questões a respeito de relações de filiação, se os filhos são seus ou de outras pessoas, mas talvez seja o caso de perguntar sobre o que são exatamente relações de filiação.

Uma relação de filiação equivale a uma relação de propriedade? Pois vejam como quem fala "são MEUS filhos" nesse contexto parece querer dizer algo como: "eles são minha propriedade, tenho sobre eles direitos quase equivalentes aos direitos que tenho diante dos bens dos quais sou proprietário".

Assim, eu poderia impor a eles regras que bem entender (a não ser em casos humilhantes e ligados a alguma violência previstos na lei).

De fato, no direito romano, os filhos equivaliam a propriedades do pai. Este por sua vez, na condição de "pater familias", era o único com capacidade legal de firmar contratos e ter propriedade. Dessa forma, os filhos e filhas dependiam do destino do pai para enfim alcançar a condição de pessoa no sentido jurídico pleno. Normalmente, enquanto o pai não morria, os filhos estavam submetidos até ao direito de vida e morte fornecido a ele.

Claro que não estamos mais na Roma antiga, mas é bastante sintomático que alguns continuem a pensar relações intersubjetivas como se estivéssemos a falar de relações de proprietários. Talvez eles ainda não tenham alcançado a distinção entre coisas e pessoas. Pois, de certa forma, os filhos não são "meus". Na verdade, os filhos são de ninguém. Os filhos são aquilo que eles se tornarão e não devem estar sob o absolutismo de suas famílias, com suas neuroses, limitações e preconceitos.

É para garantir a liberdade dos filhos em relação às suas famílias que devemos lembrar, contrariamente ao que falava a finada Thatcher, que a sociedade existe. Pois se as "regras" que você impõe ao seu filho forem ruins, se seus valores forem ruins, toda a sociedade sofrerá. É ela que, ao fim e ao cabo, pagará, e muitas vezes caro, por tais escolhas.

Mas você poderá se perguntar, com toda razão: e quem afinal decidirá se as regras são boas ou ruins? Quem será alçado à condição de legislador? De fato, uma sociedade democrática evitará ao máximo definir sobre conteúdos normativos, mas ela definirá um princípio geral que é a própria essência do que entendemos por república.

Uma sociedade republicana e democrática é, acima de tudo, aquela que compreende a igualdade como seu valor fundamental e que lutará com todas as suas forças contra todo princípio que quebre a relação igualitária entre seus membros, seja esse princípio econômico, social ou cultural.

É o respeito à igualdade que definirá os valores que a sociedade permite circular em seu seio. Pois ela não aceitará nenhum valor que perpetue relações desiguais entre seus membros, estejam tais valores enunciados sob a forma de proposições sobre raça, gênero, classe, nacionalidade ou religião.

A realização de tal princípio exige uma tensão sempre renovada, mas é ele que guia (ou que deveria guiar) nossos embates.

Notem que, nesse contexto, o contrário da igualdade nunca foi nem nunca poderia ser a diferença. O contrário da igualdade é a desigualdade. A diferença só é possível lá onde a igualdade impera, pois ela garante que todas as diferenças serão acolhidas em um campo comum.

Ou seja, a igualdade permite a consolidação de uma indiferença acolhedora de todas as diferenças. Agora, a boa questão é: esses que clamam "meus filhos, minhas regras" querem, de fato, isso?
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Provavelmente na semana que vem o processo de impeachment de Dilma Rousseff estará encerrado. Com ele, poderá começar uma nova e radiante era na história brasileira. Afinal, o povo se levantou em uma verdadeira sublevação cidadã contra a corrupção reinante no Estado e agora é senhor de seu destino. A economia entrará novamente nos trilhos, livre agora dos arcaísmos que a prendiam a uma legislação trabalhista oriunda do getulismo. A doutrinação ideológica que reinava nas escolas e universidades será enfim combatida e nossos alunos poderão pensar livremente. O mundo já percebe este novo país que nasce, deixando-se encantar pela simpatia e pelo gingado do Brasil com sua olimpíada contagiante e inesquecível. Celebremos então a ressurreição nacional. Agora, tudo ficará bem.

Talvez não seja desta forma que você esteja a vivenciar este momento, mas parece ser assim que alguns setores hegemônicos da formação da opinião pública gostaria que fosse.

Não foi muito diferente na Argentina. O governo Macri foi saudado como o fim do populismo fiscal e político. Seus resultados estão aí para quem quiser ver: no primeiro trimestre do ano mais de 1,3 milhão de pessoas voltou à classe pobre, fazendo este número saltar de 29% da população argentina para 34%. A isto, certos jornais e revistas chamam de "sucesso".

O Brasil tem uma grande "expertise" nesta área. Já na ditadura militar, tínhamos que aguentar o cinismo de presidentes que diziam "O país vai bem, mas o povo vai mal". A frase era muito boa. Havia um país do qual o povo não participava. País que produzia milagres que, como se dizia à época, faziam o bolo crescer para depois ser repartido. No final, o bolo cresceu, mas apenas para a casta de sempre. Bem, agora o país está pronto novamente a ir bem, enquanto seu povo cai no abismo.

Afinal, os peões já estão postos no tabuleiro. O "governo" e seu ministro banqueiro já anunciou corte de 45% da verba de investimentos das universidades, mostrando o nível do seu comprometimento com a educação nacional. Ele luta por novas leis trabalhistas que visam precarizar as condições de trabalho, generalizar as terceirizações e os parcos direitos que o trabalhador brasileiro.

No mesmo momento em que políticas desta alcunha são gestadas, o lucro líquido dos cinco principais bancos brasileiros foi de R$ 30 bilhões. Sim, alguém ganhou enquanto você perdia.

Quando a economia voltar a crescer, os níveis salariais médios serão ainda mais baixos, os níveis de desigualdade voltarão aos índices de sempre. Mas isto não fará muita diferença, pois sua casa será inundada, como na boa época da ditadura militar, com propaganda oficial travestida de notícia. Sempre haverá uma olimpíada para celebrar, sempre haverá um circo sem pão. Como dizia Oswald de Andrade e Pagu em seu jornal "O homem do povo": "Nesta vida tudo é passageiro, menos o motorista e o motorneiro", pois estes vão precisar trabalhar em condições draconianas de sempre para o ônibus continuar a andar e garantir a riqueza dos cartéis.

Enquanto isto ocorre, a classe política resolveu neste momento brincar de eleições. Sim, as eleições brasileiras sempre tiveram uma vocação para a farsa, haja vista a história de nossa República Velha com suas eleições de fachada que não passava de acerto entre grupos de oligarcas.

Ao que parece, elas voltaram com força. Afinal, eleições? Que eleições? Sem campanha, com regras feitas sob medida para esvaziar debates e excluir candidatos, com partidos que não representam nada, conseguimos fazer das eleições uma pantomima. O povo brasileiro percebe isto a ponto de mostrar um desinteresse soberano por uma eleição que ocorrerá em pouco mais de um mês.

Mas em um país no qual uma presidenta é afastada por uma claque de corruptos a partir de um "crime" criado sob encomenda em um acerto de contas, em uma briga de gangues entre ocupantes do mesmo barco de "governabilidade", onde membros do seu próprio partido, como o prefeito de São Paulo, dizem que "golpe" é uma palavra muito dura, isto enquanto seu partido continua sua práticas políticas degradadas de sempre fazendo negociação no varejo com os próprios "golpistas", o que significa afinal "eleições"?
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Coube a Dilma Rousseff a oração fúnebre da Nova República. Com seu "Só temo a morte da democracia", termina mais de 30 anos de uma redemocratização falha e bloqueada. Ela terminou em meio a um processo farsesco, que seguiu todos os ritos jurídicos apenas para tentar esconder que não tinha sustância alguma. Ao final, Dilma foi afastada por um crime que nunca fora visto como crime, mas como uma prática normal utilizada por todos os presidentes da república e por 17 governadores em exercício sem maiores consequências. Mesmo o Ministério Público acabou por reconhecer não haver crime de responsabilidade, mas isto já não fazia a menor diferença.

Veio então a tese do julgamento pelo "conjunto da obra". Bem, em um país onde Alckmin, Pezão, Beto Richa, Marconi Perillo e José Sartori governam sem serem incomodados, afastar alguém pelo "conjunto da obra" só pode ser piada. Não é por acaso que um processo como esse só poderia ser levado a cabo por uma advogada afeita a discursos evangélico-fascistas e um advogado filho de um integralista.

Na verdade, Dilma caiu porque a Nova República já não existia de fato. Dilma e seu partido nunca entenderam que o sistema de conciliações e de "governabilidade" paralisante da Nova República ruíra desde 2013. Eles nunca entenderam que o país precisava livrar-se de uma era histórica baseada na inércia resultante da obrigação de sempre compor com o atraso, sempre respeitar os interesses das oligarquias, até o ponto em que todos os que ocupassem o poder se desfigurassem, tornando-se irreconhecíveis. Até o último momento, foi questão de negociar o que não se negocia com quem vê a política só como um negócio

Por isso, aqueles que falavam das conquistas democráticas da "estabilidade política" nacional que acordem para a realidade. Vocês foram enganados. Não poderia haver estabilidade real sustentada por políticos saídos da ditadura militar e por um partido, como o PMDB, que era, afinal, uma oposição criada pela própria ditadura para acomodar oligarquias descontentes e políticos tradicionais confiáveis.

O Brasil achou que poderia virar uma democracia sem se confrontar com seu passado autoritário recente, sem expurgar seus representantes e seus filhos. Ele acorda agora com um "governo" que é apenas uma associação de corruptos contumazes tentando desesperadamente se salvar, liderados por um "presidente" citado três vezes na Operação Lava Jato como beneficiário direto de corrupção e condenado pelo TRE-SP por doações ilegais. Uma figura especializada em conspirações, acostumada aos bastidores escuros do poder, liderando uma casta política disposta a usar de toda violência estatal necessária para compensar sua falta absoluta de legitimidade e seu medo atávico de eleições. Não por acaso, no dia do golpe (mais um 31, agora 31 de agosto) não vimos massas nas ruas a comemorar a queda do governo, mas o prenúncio de um Estado policial: manifestantes sendo presos e espancados por uma PM cujo comportamento é digno de uma manada de porcos.

Por isso, não se enganem mais uma vez. Este é apenas o primeiro golpe. Quem fez o que fez não está contando voltar para casa depois de dois anos. O verdadeiro projeto é acabar com as eleições presidenciais. Isso será feito tirando de cena candidatos indesejáveis ou empurrando pela goela do país um regime parlamentarista que seria a coroação final de um Congresso de oligarcas e corruptos que conseguem sobreviver utilizando-se dos mais impressionantes casuísmos e dos meandros da partidocracia. Um Congresso incapaz de afastar indivíduos como Eduardo Cunha quer agora governar o país de forma imperial.

Mas enquanto Michel mudava de casa, as ruas do Brasil foram ocupadas por aqueles que podem enfim lutar a verdadeira luta e abandonar as ilusões que nos venderam. Os escombros da primeira experiência de longa duração da esquerda brasileira mostrará como os últimos 13 anos foram apenas um ensaio geral. No entanto, será necessário que a esquerda faça aquilo que ela teima ridiculamente em não fazer, a saber, uma profunda e dura autocrítica.

Uma autocrítica em relação à vergonhosa marcha de corrupção que afogou seus governos. Autocrítica em relação à crença nessa política que teme em implementar processos de democracia direta e transferência de poder, preferindo se chafurdar nas negociações com coalizações à venda. Por fim, autocrítica em relação a si mesma, a suas estruturas organizacionais arcaicas dignas dos anos 1950. Nunca na história brasileira foi tão importante o exercício da imaginação, da autoanálise, da insubmissão e do destemor. Que estejamos então à altura do momento e mostremos que o Brasil é maior do que Temer e seus comparsas.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Cada época tem sua imagem. Há momentos nos quais a essência de tempos históricos determinados encontra sua figura sensível. A ditadura militar teve, por exemplo, a figuração precisa de sua barbárie bruta na foto de Vladimir Herzog enforcado em uma cela, com os joelhos dobrados quase no chão. Demonstrava-se, de forma grotesca, o descaso com qualquer princípio elementar de verossimilhança. Isto é essência mesma de um estado policial: um regime no qual você deve acreditar que alguém morreu enforcado, mesmo que sua foto demonstre exatamente o contrário.

Desde então alguns dizem que o país mudou, mas certamente não para a polícia militar. Ela continua agindo como se devêssemos acreditar que pessoas se enforcam com o joelho dobrado no chão. Não é por acaso que, segundo estudos da socióloga norte-americana Kathryn Sikkink, o Brasil é o único país na América Latina no qual tortura-se mais hoje do que na época da ditadura militar. É porque aqui a imprensa e a classe política dão carta branca para a polícia agir da maneira como convier na defesa dos interesses do seu partido. Sim, não se enganem pois a polícia tem partido. Enquanto o sr. Alexandre Frota e o coral gospel "Jesus ama Ustra e seus amigos" entoam o hino Escola sem Partido, alguém deveria começar por exigir uma Polícia sem partido.

Desde os tempos mais remotos da humanidade, a tática da provocação e da infiltração é utilizada para desqualificar quem contesta o poder. Foi assim em Roma, na Babilônia e nas manifestações de 2013. Vimos inúmeras vezes em que a polícia provocava, jogando bombas em manifestações até então pacíficas, infiltrando-se, atirando a esmo. Ou seja, a função da polícia brasileira não era garantir a ordem, mas produzir e gerenciar a desordem. Produzir imagens de terror para minar o apoio popular às manifestações. Enquanto isto, o Ministério Público, especialmente o de São Paulo, nem cogitava agir a fim de enquadrar o uso da força do braço armado do Estado. O que não era de se estranhar, já que o governador do nosso cafezal, assim como outros governadores pelo país, aplaudiam enquanto seus soldados matavam oito manifestantes, feriam 837 e prendiam 2.608 só em 2013 (dados da ONG Artigo 19). Em outros lugares do mundo, isto seria descrito como uma carnificina. No Brasil, é defesa da ordem.

Então vieram as manifestações pelo impeachment e o milagre aconteceu: uma polícia ordeira, catracas abertas para manifestantes passarem gratuitamente, confraternização entre a polícia e as senhoras com sua nostalgia por "intervenção militar". Em troca a PM fazia o milagre da multiplicação e anunciava ter 500 mil manifestantes em um espaço no qual só cabiam 200 mil. Mas como lembra a foto de Herzog, verossimilhança não é o forte da corporação.

Agora, 62% da população quer que o sr. Michel Miguel devolva ao povo o cargo que ele usurpou e convoque eleições gerais. As ruas voltaram a se encher e a polícia voltou a mostrar qual é o seu partido. Domingo, São Paulo foi palco de uma enorme manifestação, sem patrocínio da mídia e com proibição do governo de São Paulo. Como tudo ia bem, a polícia precisava produzir sua desordem, fornecer imagens de caos. Assim, bloqueia-se previamente novas adesões da população.

Michel Miguel, ao tomar de assalto a república, prometeu ao país a "pacificação". Na sua novilíngua isto significa: bomba, bala e "cadeia preventiva". A imprensa pode, pela enésima vez, insuflar o espantalho dos black blocs e auxiliar o governo em sua luta desesperada por não cair. Mesmo esta  publicou um editorial no qual eles eram comparados a fascistas exatamente um dia depois da estudante Deborah Fabri ter perdido um olho por ação da polícia. Não houve o mesmo tom de indignação com o segundo fato, nem com o fato de um tenente-coronel ter descrito essa violência inaceitável com um singelo: "quem planta rabanete, colhe rabanete".

Prefiro não acreditar que alguém entenda que vidraças de bancos e lixeiras sejam mais importantes do que a integridade física de nossos cidadãos. Por outro lado, que fique claro: a arma mais forte atualmente será ampliar as formas de não cooperação com o governo e de não violência. A violência black bloc só serve para fortalecer o estado atual das coisas. Mas se estivermos realmente interessados em não violência a primeira coisa a fazer é ter uma crítica implacável da violência da polícia, de suas práticas primárias de provocação e de seu comprometimento político-partidário.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Nestes tempos de horizontes mundiais incertos e realidades políticas brutalizadas, é comum em palestras que profiro alguém perguntar sobre como a filosofia poderia nos auxiliar para nos sentirmos melhores. Esta é uma pergunta que parece aceitar de bom grado que o discurso filosófico teria alguma forma de função terapêutica a ser ouvida, principalmente em momentos de crise.

De fato, a pergunta não é estranha se lembrarmos da experiência social da filosofia nos últimos anos entre nós. Durante certo tempo, as livrarias brasileiras foram invadidas por títulos do calibre de "Mais Platão, Menos Prozac" ou "Schopenhauer e a Arte de Viver Bem".

Como se o lugar do discurso filosófico fosse em algum ponto entre a prateleira de autoajuda e seção de livros clássicos. Falava-se algo sobre a "verdadeira felicidade", fazia-se uma crítica genérica ao curso do mundo, ao mundo em que tudo é mercadoria, aos "falsos prazeres".

Assim, encontrava-se um lugar para a filosofia na agenda das preocupações do dia. Daí a pedir que a filosofia funcione como um grande depositário de fórmulas de consolação foi um passo não muito longo.

Bem, se me permitirem, eu teria a tendência inversa. Gostaria de dizer que, se o discurso filosófico tem alguma função em momentos como este, é o de acelerar o desabamento, e não servir de síndico de prédios abandonados e arruinados.

Se Hegel um dia afirmou que o caminho da formação da consciência era o caminho do desespero, não foi um acaso. De certa forma, não é errado dizer que a filosofia, em seus setores mais avançados, foi, desde seu início, um regime de discurso constituído para permitir às sociedades criticarem as estruturas normativas que procuravam se fazer passar por representações naturais –estejam tais estruturas no campo das expectativas cognitivas, morais, estéticas ou na reflexão sobre a natureza da vida social, entre tantos outros.

Por isso, o maior antípoda do discurso filosófico sempre foi o senso comum e seu sistemas de pressuposições que se colocam como evidências. O senso comum quer que continuemos a pensar como pensamos, enquanto o discurso filosófico lembra que não é mais possível pensar da maneira como pensamos até agora. Quer dizer, a razão de ser do discurso filosófico sempre foi orientar as possibilidades da crítica, sempre foi apontar para o que é ainda uma latência da existência.

No entanto, é certo afirmar que a filosofia sempre foi o discurso daqueles que amam o que é ainda uma mera impossibilidade.

Para alguns, isso pode passar por exercício ocioso, mas outros lembrariam que tudo o que realmente fomos capazes de produzir foi impossível algum dia. Impossível é apenas o que não pode ser pensado na situação atual, mas há sempre aqueles que lutam com todas as forças para levar os sujeitos a acreditarem que, fora da situação atual, só haverá o caos, o terror, a catástrofe. Há os que se especializaram em paralisar pessoas através do medo. Que eles sejam bem pagos.

Nesse sentido, não é um acaso que o discurso filosófico se fortaleça exatamente quando as sociedades nas quais ele aparece começam a entrar em colapso. Ele é uma sismografia dos abalos que ocorrerão mais tarde. Assim, a filosofia das luzes (Rousseau, Voltaire, Diderot) foi o prenúncio do colapso do sistema absolutista, e não sua expressão.

O idealismo alemão (Kant, Fichte, Schelling, Hegel) foi gestado em um país retardatário e em luta contra seus arcaísmos. Nesses casos e em tantos outros, o discurso filosófico não apareceu como reflexo de uma época, mas como estratégia do espírito do tempo para levar uma época determinada mais rapidamente ao seu ponto de desabamento.

Lembrar disso é uma maneira de responder àqueles que anseiam por esquemas práticos o mais rápido possível. Como dizia à sua maneira Heidegger, muitas vezes agimos para não pensar. Ou seja, fazemos de tudo para novas questões não aparecerem, nem novas maneiras de responder a velhas questões.

Assim, podemos continuar a agir produzindo os mesmos erros de sempre. Uma ideia, ao contrário, é sua força de enunciação e a internalização do movimento de seus erros. Não houve ideia verdadeira alguma que não tenha começado errando.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Durante muito tempo, as obras de Freud tiveram péssima tradução no Brasil. Traduções imprecisas feitas diretamente da versão inglesa obrigaram pesquisadores e psicanalistas não versados em alemão a trabalhar com os textos em língua espanhola ou francesa. Mas, com a liberação dos diretos autorais há alguns anos, as livrarias começaram enfim a ter edições à altura do desafio de verter uma das obras mais influentes do século 20 para nossa língua.

Dentro desta nova leva de traduções, a editora Autêntica publica agora uma compilação de textos clínicos de Freud sob o título de "Neurose, Psicose, Perversão". Parte da série "Obras Incompletas de Sigmund Freud", coordenada por Gilson Iannini, o livro traz, em tradução competente, alguns dos principais textos de Freud a respeito de sua reconfiguração de categorias clínicas centrais do sofrimento psíquico. "Luto e Melancolia", "Fetichismo", "A Negação", "Neurose e Psicose" são alguns dos textos que ganham nova tradução, acompanhados de manuscritos e cartas relevantes para entendermos melhor a trajetória da experiência intelectual freudiana.

No entanto, a tradução deste conjunto de textos pode também representar um bom momento para nos perguntarmos sobre o sentido de ler tais artigos em 2016. O que temos diante de nós? Estudos historicamente fundamentais porém ultrapassados no que se refere à sua reflexão clínica? Ou estudos que, apesar da distância de um século, ainda nos dizem respeito? Lemos Freud como leríamos Lamarck a respeito da evolução ou Newton e sua física pré-teoria da relatividade?

Questões desta natureza são ainda mais relevantes se lembrarmos que, de certa forma, as categorias descritas por Freud não existem mais, ao menos para as linhas hegemônicas da psiquiatria reinante. A princípio, vivemos em uma sociedade na qual, por exemplo, não existem mais "neuróticos" nem "paranoicos". Estas duas categorias desapareceram dos manuais de psiquiatria e da razão diagnóstica médica. Freud trabalhava com uma polaridade entre duas neuroses fundamentais: a neurose obsessiva e a histeria. Sintomas clínicos anteriormente associados a tais categorias encontram-se atualmente dispersos no transtorno obsessivo-compulsivo, nos transtornos somatoformes e nos transtornos de personalidade histriônica. Mas o que significam tais modificações de padrões de descrição do regimes de sofrimento psíquico?

Essa é uma questão que mereceria ser objeto de uma reflexão mais aberta e demorada. A maneira como uma sociedade modifica a maneira com que as patologias mentais são descritas influencia de forma decisiva como sujeitos lidam com suas experiências de sofrimento e suas expectativas de vida bem-sucedida. Por isso, deveríamos começar por nos perguntar, por exemplo, sobre o que significa uma sociedade que, de certa forma, eliminou seus neuróticos.

Nas mãos de Freud, uma categoria como a neurose adquiriu três características fundamentais, a saber, ela era analisada a partir de sua etiologia, ela dizia respeito a modificações globais de conduta e ela estava profundamente vinculada ao campo do sexual. O primeiro ponto significava: ela tinha uma estrutura causal que só seria compreensível à condição de levarmos em conta a história da doença. Uma história ligada ao processo de socialização do desejo do paciente, seus conflitos e compromissos, suas expectativas e fracassos. Sua cura estava assim vinculada à capacidade dos sujeitos de elaborarem sua própria história, o que há muito deixou de ser uma preocupação clínica.

Já o segundo ponto se referia à ideia de que o adoecimento implica modificação, em maior ou menor grau, de todas as funções psíquicas. Daí a ideia de que não se trata simplesmente de tratar sintomas, mas de modificar estruturas. Uma forma clássica de não resolver problemas é dividindo-os. É desta forma que um setor de problemas é "resolvido" enquanto clínicos precisam lidar com reincidências e comorbidades constantes. Por fim, o último ponto nos lembrava que ninguém constitui sua sexualidade sem que isto deixe marcas e sintomas. Uma sexualidade é uma construção precária e sempre a lidar com contradições constantes.

Essa visão histórica, holista e agonística era o que se derivava da clínica freudiana. A boa pergunta é: por que ela foi recusada pelo saber médico-psiquiatrico atual? O que temos atualmente no seu lugar?
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Depois de um anúncio catastrófico do projeto de reforma educacional do ensino médio proposto por aquilo que alguns chamam de "governo", esta semana viu uma sucessão de esforços para tentar vender à população a tese de que enfim chegaram as ações esperadas.

Órgãos de propaganda do dito "governo" travestidos de revistas semanais apresentaram o projeto como um conjunto de medidas corajosas que visariam revolucionar o engessado ensino brasileiro. O senhor que ocupa o cargo de ministro da Educação apareceu enfim para tentar defender o projeto feito por sua equipe, isto enquanto o próprio Michel Miguel ligava não para especialistas em educação, mas para Fausto Silva, vulgo Faustão, para convencê-lo da grandeza do projeto criticado pelo referido.

Que uma das primeiras medidas do "governo" fosse intervir na educação nacional, eis algo que não deveria surpreender ninguém. O projeto apresentado nem de longe expressa alguma preocupação real com o aumento da qualidade de nossas escolas e com o desenvolvimento integral de nossos alunos. Seus eixos centrais são a segregação, a precarização da atividade docente e o puro e simples obscurantismo.

Não é de admirar que a verdadeira equipe que produziu este projeto seja composta por "especialistas" que trabalham há décadas nos governos FHC, em Brasília, sob a batuta do ilibado José Arruda e nos governos tucanos de São Paulo, com resultados pífios e medíocres. De fato, não poderia ser diferente, já que a regra dessas senhoras e senhores é impor uma visão tecnocrata que despreza a inteligência prática de professores envolvidos nos processos de ensino, sendo os únicos realmente capazes de indicar o que funcionaria e o que não funcionaria.

Contrariamente ao que se tentou vender, este país fez mudanças drásticas e constantes no ensino nas últimas décadas. Todas pecaram por desprezar os saberes daqueles que estão diretamente envolvidos nos processos, dando voz a burocratas e tecnocratas que nunca pisaram em uma sala de aula ou que não fazem isto há anos. A falência do ensino brasileiro não é de seus professores, mas de seus tecnocratas de gabinete.

Veja três características mestras da dita reforma. Primeiro, ela cria diferentes possibilidades de escolhas para os estudantes depois de um período comum de um ano e meio. Eles poderão ter concentração de disciplinas em linguagens, matemática, ciências da natureza, humanas e ensino técnico. Até aÍ, nenhuma polêmica. Há anos todos os realmente envolvidos com educação insistem que os alunos devem poder escolher disciplinas mais próxima de seus interesses. Mas, como o diabo mora nos detalhes, a questão é: as redes e escolas podem não oferecer aos alunos todas as opções de concentração. Ou seja, você dorme com a promessa de uma escola mais diversa e acorda com a realidade de uma escola onde, por exemplo, a concentração de humanas não existe, onde o eixo de todos os esforços é o ensino técnico. O resultado será abrir as portas para uma segregação que consistirá em levar as escolas em regiões mais carentes a cada vez mais oferecer ensino técnico, cuja empregabilidade é mais rápida, porém muito mais precária.

Por outro lado, qualquer programa minimamente sério começaria por qualificar melhor o corpo docente. Mas isso passaria por acabar, de uma vez por todas, com a precarização e os salários vergonhosos dos professores, uma das maiores razões para que nossos melhores alunos não queiram mais ser professores. O que há a esse respeito na dita reforma? Nada. No entanto, o projeto prevê que poderão ser contratados professores sem licenciatura, portadores de "reconhecido saber". Dificilmente haveria proposta mais absurda e irresponsável. Como dizia Hegel, não é porque todos têm mãos que todos podem produzir sapatos. Mas um governo que apresenta uma proposta como essa despreza os conhecimentos técnicos necessários para a docência.

Por fim, havia a proposta medíocre de transformar artes, educação física, filosofia e sociologia em matérias não obrigatórias. Agora, a BNCC decidirá o destino, mas a pedra já está cantada. De fato, para os tecnocratas a sociedade não deve precisar de cidadãos que conheçam conceitos como conflito social, desencantamento do mundo, anomia social, modernização reflexiva, ética, moral, classe, consciência, razão, estética, lógica, pensamento crítico. É verdade, para votar em Michel Miguel e sua turma, é melhor não saber nada disso.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
É possível que um dos saldos desta última eleição seja um deslocamento importante do eixo da política brasileira. Durante toda a Nova República, esse eixo esteve encarnado na política paulista. São Paulo viu nascer os dois movimentos mais expressivos responsáveis pela gestão do poder nos últimos vinte anos.

Primeiro, foi em São Paulo que as grandes greves do ABC redundaram em uma aliança composta por sindicalistas, intelectuais e igreja progressista que coordenou o processo hegemônico da esquerda brasileira sob o PT. Tal processo certamente entrou em colapso com a eleição –ao menos se pensarmos o PT como força hegemônica capaz de produzir políticas de transformação.

Haddad era a última grande aposta do PT, mas pilotou uma prefeitura com baixos índices de aprovação durante três anos e sequer foi capaz de chegar ao segundo turno. Não esperem autocrítica deste processo, já que muito parecem ter se acostumado à limitação do horizonte de expectativas que a última prefeitura do PT representou.

Segundo, foi em São Paulo que nasceu o PSDB –de uma divisão no antigo PMDB provocada pelo controle de Orestes Quércia sobre o partido. Com inspiração inicial social-democrata e com sua aliança de intelectuais, antigos políticos que fizeram a oposição ao regime militar e grandes operadores da economia nacional, o PSDB volta à Prefeitura de São Paulo para enterrar, com chave de ouro revestida de diamante e toques de porcelana Luís 14 falsa, seu próprio ciclo.

A eleição do sr. João Doria é uma dessas piadas que só situações terminais são capazes de produzir.

Implodindo seu próprio partido, com processos nas costas sobre abuso de poder econômico, esse personagem –frequentador de negócios obscuros com verbas públicas, de socialites caricatas e de programas do Amaury Jr.– representa o coroamento da miséria do projeto do sr. Alckmin.

A sobrevida do governador é a prova mais cabal de como o Tucanistão gosta de quem tem processos do Metrô correndo nos tribunais da justiça da Suíça e da França, de quem é suspeito de casos de corrupção com a merenda escolar e cuja incompetência provoca racionamento de água, fecha escolas, deixa universidades à míngua, espanca professores e tem índices sociais pífios.

Não espere daí nenhum novo ciclo de projetos nacionais.

Na verdade, o fato novo desta eleição ocorre no Rio de Janeiro. Pois é no Rio que vemos um dos embates que, provavelmente, darão a tônica nos próximos anos.

De um lado, a candidatura de um pastor evangélico representante da ala mais bem organizada deste movimento, a saber, a Igreja Universal do Reino de Deus. O crescimento de seu partido na última eleição, o PRB, é consistente (48% a mais de voto).

Diferentemente de seu "irmão na fé", o PSC, o partido da Universal não comunga com o conservadorismo belicista e tosco que não teme em se apoiar nos amantes da ditadura militar.

Na verdade, o PRB é um efeito colateral do lulismo, pois cresceu nas hostes do governo –o ex-vice-presidente José Alencar (1931-2011) foi um dos seus fundadores–, aprendeu a manusear a lógica da assistência, a esconder melhor seu conservadorismo e sua dinâmica teológico-política. Por isso, tem e terá muito mais densidade eleitoral.

Do outro lado, temos uma das mais impressionantes experiências políticas dos últimos tempos no Brasil. Marcelo Freixo conseguiu federar um movimento de militantes, jovens e intelectuais único no Brasil atual, que se impôs como alternativa incontornável mesmo com apenas 11 segundos na televisão e nenhum dinheiro.

Com mobilizações de rua, comícios e discussões contínuas para a elaboração de plano de governo, esse movimento tem uma dinâmica que há muito havia desaparecido da esquerda brasileira.

Ele traz novas pautas, entre elas a constituição de mecanismos de democracia direta, a defesa radical dos direitos humanos e o fortalecimento dos serviços públicos.

Sua lógica é a de uma mutação das formas de governo, e não de adequação aos modos atuais de governabilidade. Em um momento em que a esquerda brasileira parece fechar um ciclo, o sucesso da experiência capitaneada por Freixo indicará o caminho pelo qual ela poderá se reconfigurar.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Semana passada, o dito "governo" resolveu apresentar à população seu plano de emergência econômica diante da propalada crise. Conhecido como PEC 241, o plano visa congelar os investimentos estatais nos próximos 20 anos, permitindo que eles sejam, no máximo, reajustados pela inflação do período.

Isso significa, entre outras coisas, que o nível do investimento em educação e saúde continuará no nível em que está, sendo que o nível atual já é resultado de forte retração que afeta de forma brutal hospitais públicos, universidades e escolas federais. Todos têm acompanhado a situação calamitosa dos nossos hospitais, os limites do SUS, os professores em greve por melhores condições de trabalho. Ela se perpetuará.

Para apresentar o novo horizonte de espoliação e brutalidade social, o dito "governo" colocou em marcha seu aparato de propaganda. Ao anunciar as medidas, foi convocado um representante de quem verdadeiramente comanda o país, a saber, um banqueiro, o senhor Meirelles.

Entrará para a história o fato de que uma das mais impressionantes medidas econômicas das últimas décadas, uma que simplesmente retira do Congresso a possibilidade de realmente discutir o orçamento, que restringe o poder de representantes eleitos em aumentar investimentos do Estado, que os transforma em peças decorativas de uma pantomima de democracia, foi anunciada não pelo pretenso presidente da República, mas por um banqueiro.

Este dado não é anódino. Ele simplesmente demonstra que Michel Temer não existe. Não é por acaso que ele não aparece na televisão e some em dia de eleição, indo votar no raiar do sol. Quem realmente comanda o Brasil atualmente é uma junta financeira que impõe seus ditames a toque de caixa usando, como álibi, a ideia de uma "crise" a destruir o Brasil devido ao descontrole dos gastos públicos.

O script é literalmente o mesmo aplicado em todos os países europeus com resultados catastróficos. No entanto, há de se reconhecer que ele tem o seu quinhão de verdade.

De fato, há um descalabro nos gastos públicos, mas certamente ele não vem dos investimentos parcos em educação, saúde, assistência social, cultura etc. Por exemplo, segundo dados da OCDE, o Brasil gasta 3.000 dólares por aluno do ensino básico, enquanto os outros países da OCDE –a maioria europeus e da América do Norte, entre outros– gastam, em média, 8.200 dólares.

A situação piorará nos próximos 20 anos, já que os gastos continuarão no mesmo padrão enquanto a população aumentará e envelhecerá, exigindo mais gastos em saúde.

Na verdade, os gastos absurdos do governo não são com você, nem com os mais pobres, mas com o próprio sistema financeiro, que se apropria do dinheiro público por meio de juros e amortização da dívida pública, e lucra de forma exorbitante devido à taxa de juros brasileira. Uma dívida nunca auditada, resultante em larga medida da estatização de dívidas de entes privados.

Por incrível que pareça (mas que deveria ser realmente sublinhado), o plano econômico do governo não prevê limitação do dinheiro gasto com a dívida pública. Ou seja, fechar escolas e sucatear hospitais é sinal de "responsabilidade", "austeridade", prova que recuperamos a "confiança"; limitar os lucros dos bancos com títulos do Estado é impensável, irresponsável, aventureiro. Isso demonstra claramente que o objetivo da PEC não é o equilíbrio fiscal, mas a garantia do rendimento da classe rentista que comanda o país.

Como se trata de ser o mais primário possível, o dito "governo" e sua junta financeira comparam a economia nacional a uma casa onde temos que cortar gastos quando somos "irresponsáveis". Mas já que a metáfora primária está a circular, que tal começar por se perguntar que gastos estão realmente destruindo o "equilíbrio" da casa? Por que a casa não pede mais dinheiro para aquele pessoal ocioso que mora nos quartos maiores e nunca contribui com nada?

Ou seja, já que estamos em crise, que tal exigir que donos de jatos, helicópteros e iates paguem IPVA, que igrejas paguem IPTU, que grandes fortunas paguem imposto, que bancos com lucros exorbitantes tenham limitações de ganho, que aqueles que mais movimentam contas bancárias paguem CPMF?

É claro que nada disso será feito, pois o Brasil não tem mais governo, não tem mais presidente e tem um democracia de fachada. O que o Brasil tem atualmente é um regime de exceção econômica comandado por uma junta financeira.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
A consolidação de um poder teológico-político a comandar o Estado não é algo que seja um risco apenas em certos países muçulmanos ou na Polônia.

Ele é um fato cada vez mais evidente no Brasil com seus pastores-deputados aliados de saudosos da ditadura militar. Tal consolidação do poder teológico-político alcançará um grau inaudito caso o pastor Marcelo Crivella seja eleito prefeito da segunda maior cidade do país.

Crivella tentou se vender como um político "normal", mesmo relatando lei que obriga bibliotecas a terem uma Bíblia e pune funcionários que desrespeitem tal privilégio (por que não obrigá-las a terem também um Corão, a "Ilíada" ou o "Tratado Teológico-Político", de Spinoza?).

No entanto, ele é, na verdade, o principal representante político de um megaempreendimento religioso chamado Igreja Universal do Reino de Deus, comandado por seu tio, o arquiconhecido Edir Macedo. Sua eleição significa que a cidade mais emblemática do Brasil será governada pela Igreja Universal.

Alguém poderia perguntar qual o problema com o fato de um igreja governar o Rio de Janeiro. Afinal, Genebra foi governada por Calvino. Mas a Universal tem suas peculiaridades. Seu líder, cuja fortuna foi estimada pela revista "Forbes", em 2013, em R$ 2 bilhões, foi preso nos anos 1990 por charlatanismo, estelionato e curandeirismo.

Posteriormente, foi denunciado várias vezes pelo Ministério Público por crimes que vão de importação fraudulenta, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Crivella é o representante maior dessa associação com condutas, no mínimo, passíveis de questionamento judicial.

Mas não é só a obscuridade ética que ronda a Igreja Universal. Detentora de redes de televisão e emissoras de rádio, a igreja se consolidou, sob os governos Lula e Dilma, como um poder político terreno incontornável. Um poder que procura cada vez mais impor sua agenda ao país e que nada tem a ver com a ideia de uma república laica, plural e radicalmente tolerante.

Os trechos de livros de Crivella, nos quais outras religiões são tratadas como "demoníacas" e os homossexuais são definidos como portadores de "conduta maligna", podem ser vistos não como opiniões de um "jovem" que "amadureceu", mas como o núcleo duro de crenças alimentadas por sua igreja, momentaneamente caladas em situação eleitoral e que voltarão à tona quando esta se sentir mais forte.

Por outro lado, mesmo crescendo sob as hostes do lulismo, mesmo sendo ministro da Pesca de Dilma, Crivella resolveu ultimamente abraçar o neoliberalismo e defender o Estado mínimo. Ele gosta de perguntar a seu oponente, Marcelo Freixo, de onde sairá o dinheiro para que o adversário implemente seus programas de justiça social e defesa de serviços públicos.

Bem, valeria a pena lembrar ao pastor que certamente a Prefeitura do Rio de Janeiro teria muito mais dinheiro para ações de justiça social se sua igreja fizesse como eu e você e simplesmente pagasse IPTU.

Acho que eles tomaram um pouco ao pé da letra a afirmação de que a Igreja Universal não é terrena, mas celestial, e resolveram acreditar que uma instituição celestial não deve pagar impostos territoriais.

Entretanto, para alguns, é no mínimo cinismo o representante de uma instituição que tem tamanha benesse pública sair a público e defender cortes nos gastos, afetando diretamente educação e saúde.

Se a prefeitura não tem dinheiro é porque, entre outras razões, sua igreja com megaempreendimentos imobiliários não tem o mesmo tratamento a que eu e você somos submetidos.

Na verdade, esse desmonte final da capacidade de assistência do Estado brasileiro faz parte de um projeto claro de poder. Pois, assim, igrejas como a dele serão, ao final, as únicas responsáveis pela assistência social, criando uma relação perversa de dependência de populações carentes que se verão diante de um Estado cuja única função será deixar os ricos cada vez mais ricos.

PS: Há alguns dias, Alexandre Schwartsman resolveu desqualificar "opiniões" sobre a PEC 241, como a minha. Alguns acham que, por terem feito curso de economia, são os únicos que sabem fazer conta. De toda forma, suas colocações sobre os gastos com educação se esquecem que a comparação do Brasil com outros países da OCDE deve levar em conta a disparidade entre o tamanho dos desafios brasileiros e a situação já consolidada dos países da Europa e América do Norte.

Já a falácia de que a PEC não implicará limitação real dos gastos com educação e saúde é primária e será desmontada nos próximos anos.

Mas creio que sua maior preocupação não é com a educação nacional, mas sim com a garantia dos rendimentos de seus amigos banqueiros.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Na semana passada, o relator da medida provisória sobre as modificações do ensino médio, editada por aquilo que alguns chamam de "governo", fez algumas considerações a respeito de suas preferências. Dentre elas, ele sugere que as disciplinas de filosofia e sociologia deixem de ser disciplinas de fato e se transformem em "conteúdos transversais" lecionados em aulas de história. Ou seja, mesmo que seus filhos escolham seguir uma concentração em ciências humanas, tais conteúdos não seriam mais oferecidos como disciplinas autônomas, o que vai contra todo o discurso a respeito de oferecer mais condições para os alunos aprofundarem seus interesses efetivos.

Essa consideração do senhor relator nos leva, no entanto, a colocar questões a respeito da importância do ensino de filosofia e sociologia para adolescentes. Afinal, devem nossos adolescentes aprender filosofia e sociologia? Pois é claro que a proposta de reduzi-las a "conteúdos transversais" é apenas uma maneira um pouco mais cínica de retirá-las. Um professor de história, embora possa e deva conhecer questões de filosofia e sociologia que são pertinentes a seu objeto de estudo, não teria condições de tratar de tais conteúdos com a profundidade devida à docência.

Na verdade, o que procura se colocar é que filosofia e sociologia não são tão relevantes assim e poderiam muito bem ser eliminadas como disciplinas. Seus filhos poderiam muito bem viver sem elas. Mas coloquemos a questão implícita neste debate na sua forma correta, a saber: por que há setores da sociedade brasileira que se incomodam tanto com seus filhos aprendendo filosofia e sociologia?

Poderíamos contra-argumentar dizendo não se tratar de incômodo, mas de uma simples análise de prioridades. A prioridade na formação seria garantir a empregabilidade e a qualificação técnica. Nesse sentido, há de se cortar o que é supérfluo. Por outro lado, os estudantes brasileiros são sempre mal avaliados em disciplinas básicas, como línguas e matemática. Melhor então focar o essencial.

No entanto, tais argumentos não se sustentam. Limitar nossos alunos ao básico não é o melhor caminho para levá-los a lidar com realidades complexas e em mutação, como são nossas sociedades contemporâneas. Eles não conseguirão tomar melhores decisões com uma formação mais limitada. Por outro lado, se seus conhecimentos de línguas e matemática são deficitários, não é por alguma forma de "excesso" de disciplinas, mas pela péssima qualidade de nossas escolas, pela precarização de nossos professores (só o Estado de São Paulo perdeu 44.500 professores apenas nos últimos dois anos) e pela ausência de cultura literária de muitas famílias.

Nesse sentido, há de se lembrar o que significa aprender filosofia e sociologia. O ensino da filosofia, por exemplo, pressupõe o desenvolvimento de algumas habilidades fundamentais. Lembremos de ao menos três: a capacidade de constituir problemas a partir da crítica a pressupostos aparentemente naturalizados, a capacidade de articular problemas em campos aparentemente dispersos, desenvolvendo assim um forte pensamento de relações e quebrando a tendência atual em isolar o pensamento em especialidades incomunicáveis. Isto significa ser capaz, por exemplo, de compreender como questões éticas têm relações com questões de teoria do conhecimento, de estética, de política e de lógica, entre outras.

Por fim, e esta é sua característica mais impressionante, o aprendizado da filosofia pressupõe a capacidade de pensar como um outro. Lembro-me de um professor que, ao ver muita pressa em "refutar" Descartes, olhou para mim com sua sabedoria costumeira e disse: "Veja, não é possível ler um filósofo com luvas de boxe". Ou seja, é necessário saber, por um momento, pensar como um outro, até para poder se contrapor com mais propriedade.

Bem, é isto que alguns querem que seus filhos não aprendam. Eles sabem muito bem por que querem isso. Temo que o verdadeiro objetivo não tenha relação alguma com o futuro profissional de seus filhos. Temo que, no fundo, queira-se calar, de uma vez por todas, o projeto de alguns de nossos maiores filósofos, como Condorcet, quem dizia: "A função da educação pública é tornar o povo indócil e difícil de governar".
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Não faltaram análises sobre as  do último domingo (30). Mas talvez seja interessante começar a se perguntar até que ponto essa eleição foi realmente relevante, até que ponto foi um bom termômetro a medir o pulso da sociedade brasileira.

Pois a grande , nos dois turnos, mostra que parcelas significativas da população veem os embates eleitorais como uma pantomima esvaziada de sentido. Ou seja, o sentimento fundamental foi, em larga medida, de apatia.

Essa apatia é velha conhecida do Brasil. Ela descreve o sentimento de que as verdadeiras decisões políticas passam ao largo do processo eleitoral. Expressa a percepção de que somos chamados às urnas apenas para representar numa peça de teatro em que, no final, qualquer que seja a escolha, nossas vidas continuarão basicamente como antes.

Podemos acreditar que esse sentimento é fruto de um julgamento incorreto, mas é certo que ele está lá, presente, a expressar a degradação da crença na democracia brasileira e em seus atores.

Mas outro fenômeno acompanhou as últimas eleições: o colapso eleitoral da . Seria esse colapso resultado de alguma forma de  nacional que, pela primeira vez na história do país, caminharia em direção a uma verdadeira hegemonia política e cultural?

Não faltam os que gostariam de ler o momento atual desta forma, mas creio que eles agem mais por desejo do que por capacidade de análise.

Difícil imaginar que parcelas significativas votaram em Doria ou Crivella por entusiasmo com suas ideias. Mesmo a temática do  precisaria ser nuançada. Talvez seja mais correto dizer que, na verdade, esses votos foram votos de adesão à força.

Lembremos deste princípio fundamental em situações de crise e conflitos generalizados: há uma parte da população que escolhe aqueles que lhe parecem mais fortes. Creem que é melhor um governo forte do que uma comunidade em desagregação. De certa forma, votam a partir do medo e da procura por amparo. Este é um sintoma da redução da política à gestão do medo social.

Nesse sentido, a temática do voto sanção ao PT (e, por consequência, contra a esquerda) diz apenas metade da verdade. De fato, houve punição, mas não parece honesto dizer, por exemplo, que ela foi à corrupção.

É desrespeitar os princípios elementares de lógica acreditar que alguém recusa um partido envolvido em corrupção para abraçar um pastor representante de uma igreja cujo líder  corrida substancial na polícia ou, ainda, para se entusiasmar com um empresário cheio de negócios obscuros e representante de um grupo político prenhe de escândalos. Nenhum dos vitoriosos passa em um teste elementar de moralidade.

Muito menos seria correto dizer que tal sanção foi contra a incompetência no governo. Crivella foi sócio do lulismo até a última hora, seu partido era o partido de José Alencar. Imaginar que um julgamento sobre incompetência do governo anterior não o afetaria é desprovido de sentido. Da mesma forma, descrever os 20 anos de tucanato paulista como modelo de competência (com seu racionamento de água, fechamento de escolas, o metrô de construção mais lenta do mundo, etc.) é pouco sério.

Na verdade, a sanção contra o PT foi, de certa forma, uma sanção contra sua fraqueza. Os últimos anos do PT no poder foram anos de um governo fraco. Por mais cínico que possa parecer, o fato de um partido como o PSDB ser imune a processos e à Justiça, demonstra para certa parcela da população que ele tem força suficiente para "controlar o caos". O mesmo vale para uma igreja que parece sempre renascer das cinzas, imune a todo escândalo.

Esse culto da força sempre aparece quando a crença na transformação política desaparece. Ele é um sentimento reativo que convive, atualmente, com a apatia de outra parte da população.

Vencer esses dois sentimentos será o primeiro desafio se não quisermos ver o país se afundar na sua própria impotência.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Há uma passagem na "Dialética do Esclarecimento" na qual os filósofos Theodor Adorno e Max Horkheimer afirmam que, muitas vezes, não há nada mais estúpido do que ser inteligente.

Nessa passagem, eles descrevem como seus amigos intelectuais tinham análises detalhadas e bastante astutas para provar de forma cabal como a ascensão do nazismo nunca seria possível. Nenhuma delas serviu para impedir o que era, no final das contas, claro como o sol ao meio-dia.

Bem, a eleição de Donald Trump é, mais uma vez, a prova de como muitas vezes não há nada mais estúpido do que ser inteligente.

Até o último dia da eleição, as "chances" de vitória de Hillary Clinton eram creditadas em até 90%. A inconsistência de Trump, seu caráter errático, suas falas absurdas e caricatas eram salientados a todo momento para confirmar aquilo que as pesquisas pareciam indicar: que ele nunca seria o próximo presidente dos EUA.

No entanto, Trump viu algo que ninguém queria ver, a saber, que a democracia liberal acabou, que a política não passa mais pela conquista do centro e pela boa gestão da institucionalidade atual. Ela passa pelo deslocamento em direção aos extremos e pelo decisionismo soberano.

Tudo estava claro para quem quisesse ver. O "brexit" e a ascensão da xenofobia na Europa foram expressões de uma profunda descrença popular com os gestores da democracia liberal. Lembremos como os últimos anos demonstraram como as "recuperações" econômicas aplicadas através de planos de "austeridade" significaram aumento brutal da precariedade, da insegurança social e da desigualdade.

Esses planos de recuperação foram geridos de forma praticamente semelhante, tanto por liberais como pela "esquerda" (ou por algo que gostaria de, em certos momentos, se fazer passar por ela). A ira popular contra tal classe de gestores sociais era evidente e levaria a um forte sentimento anti-institucional.

Foi para vampirizar tal sentimento que entrou em cena Donald Trump. Denunciando a "elite política" e a "elite midiática" por esquecimento das "pessoas comuns", ele, o representante maior da elite financista e rentista que mais se beneficiou das políticas econômicas dos últimos anos, fez o inacreditável papel do "homem simples" indignado com a impotência dos burocratas e com a inércia dos partidos.

Sua imagem de bem-sucedido, junto à sua capacidade de mudar de opinião, de se contradizer a todo momento, podia muito bem aparecer como a prova de que estávamos diante de alguém que não respeitaria limites para "fazer o que deve ser feito". Foi o que aconteceu.

Fenômenos como Trump não são passageiros. Eles serão a regra daqui para frente. Clinton, com seu militarismo extremo e sua aliança orgânica com os interesses de Wall Street, era apenas uma direita mais tradicional que terá cada vez menos lugar. Já fenômenos como Trump se aproveitam da inexistência de esquerda no cenário político-partidário mundial e capitalizam todo o sentimento anti-institucional, dando à insegurança social o lastro do medo paranoico contra inimigos externos ou da raiva protofascista contra minorias internas. A história já demonstrou quão explosiva pode ser tal combinação.

No entanto, essa eleição mostrou também a limitação política de certas escolhas feitas ultimamente. Por coincidência, no dia da eleição norte-americana, eu estava na Universidade da Carolina do Norte, onde os estudantes fizeram várias pichações contra Trump. Na maior delas podia-se ler: "Trump: sexista, machista, racista, islamofóbico, homofóbico".

Tudo isso é verdade, mas era sintomático não haver nada sobre seu desejo em acabar com o sistema de saúde gratuito para os mais pobres ou sobre sua política econômica que implicará em concentração de renda e em aumento da precarização. De fato, a tentativa de desconstruir Trump passou, de forma majoritária, por tais pautas ligadas a políticas de reconhecimento.

Nada mais previsível, já que a luta por reconhecimento funciona atualmente como uma certa compensação à inexistência de um discurso econômico de esquerda com clara força de transformação das relações econômicas e com capacidade de implicar as classes empobrecidas.

Conseguimos transformar tais pautas, profundamente justas em si, na única modificação concreta que a esquerda consegue atualmente oferecer, já que estamos todos comprometidos com a gestão do mesmo modelo econômico, divergindo apenas sobra a intensidade da aplicação das mesmas políticas. Mas se o modelo econômico é o mesmo, se o problema é só de intensidade, então melhor entregar as chaves do cofre para alguém que sabe como as entranhas do capital realmente operam. Ao que parece, foi assim que metade mais um da população norte-americana pensou.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Na quarta-feira (16), o Brasil pôde assistir a mais um capítulo da regressão política que agora se expõe sem maiores disfarces. Um capítulo negro que revela com o que estamos de fato lidando.

Um grupo de 50 pessoas tomou de assalto o plenário do Congresso Nacional para vociferar palavras de ordem pedindo "intervenção militar" e "general aqui", enquanto se ouvia no plenário gritos de "viva, Moro". Do juiz em questão, diga-se de passagem, bastante afeito a declarações públicas, não se ouviu até agora repúdio algum ao uso de seu nome em cena tão macabra.

Um espetáculo de degradação desse nível não é gestado do dia para a noite. Esse é o preço pago pelo Brasil ser um país incapaz de encarar seu passado ditatorial, prender torturadores, exigir das forças armadas um mea-culpa pelo golpe contra a democracia, retirar o nome de membros da ditadura de suas praças e estradas, ensinar a seus jovens o desprezo por "intervenções militares".

A lei da história é implacável. Quem não elabora o passado será sempre assombrado por ele. Que algo dessa natureza ocorresse era só uma questão de tempo. O Brasil acreditou poder apresentar ao mundo uma conciliação sem trauma e sem "revanchismo".

Tudo o que conseguiu foi conservar todos os atores políticos envolvidos na ditadura no centro do poder, normalizando-os. Tudo o que conseguiu foi dar ao mundo a imagem de um país incapaz de acertar as contas com seus fantasmas do passado. A Comissão da Verdade, instaurada décadas depois do fim da ditadura, teve seu trabalho legado ao esquecimento.

Não nos enganemos. Essas pessoas que estão a vociferar por mais um golpe de Estado não estão "expressando uma opinião". Clamar por golpe militar não é uma opinião. É um crime, o pior de todos os crimes em uma democracia. Quem quer a causa quer os efeitos. Quem pede por golpe militar está a gritar por assassinato, tortura, ocultação de cadáver, censura, estupro, terrorismo de Estado.

Em qualquer democracia mais ou menos consolidada no mundo, o lugar dessas pessoas seria na cadeia, por sedição e incitação a crime.

Por isso, se ainda houver um mínimo de consciência de perigo neste país, o Congresso deve ser pressionado a aprovar uma lei que tipifique manifestação pública por golpe como crime contra a democracia passível de prisão. Essas pessoas não devem ser convencidas de sua posição equivocada, pois elas nunca serão convencidas de tanto.

É absurdo acreditar que alguém que chega a esse ponto está afeito a rever sua posição.

Eles devem simplesmente compreender que na democracia há proposições que não se dizem. Aquelas proposições enunciadas para reiterar violência (como as proposições racistas e preconceituosas) ou para clamar por um regime de violência (como uma ditadura) simplesmente não podem circular.

Uma sociedade que permite tal circulação cava sua própria cova.

Por outro lado, aqueles que colaboraram para esse espetáculo deveriam ser chamados à responsabilidade. Esses ditos "liberais" que ocuparam reiteradamente o espaço público para ridicularizar trabalhos de justiça de transição, que repetiam a teoria dos dois demônios (a ditadura teria sido um "excesso necessário" contra a luta armada), que sequer aceitavam o princípio liberal de direito de resistência contra a tirania são os responsáveis diretos pelo que acontece hoje.

No Brasil, não existem liberais. Quando necessário, eles apoiam golpes de Estado de todas as formas. Afinal, para quem trabalharam os "liberais" brasileiros como Simonsen, Roberto Campos e companhia? Alguém acha que seria diferente se houvesse um novo golpe de Estado?

Há anos alguns acreditavam que a democracia brasileira estava consolidada. Hoje, é claro que ela nunca passou de um acordo frágil e paralisado, fruto de uma redemocratização infinita que nunca se realizou. Não levar a sério os sintomas de uma regressão ainda maior será prova de mais um ato de irresponsabilidade.

Que a quarta-feira negra sirva ao menos para nos lembrar: nada morreu, tudo pode retornar.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
A democracia liberal como a conhecemos é uma invenção que se consolidou a partir do final da Segunda Guerra Mundial. Ela respondia a um sistema de acordos e equilíbrios entre setores sociais antagônicos. Sua base de sobrevivência foi a capacidade em orientar a política em direção a uma espécie de "luta pela conquista do centro".

Assim, por exemplo, os partidos de esquerda paulatinamente moderaram seus horizontes de ruptura institucional para acabar por serem gestores da social-democracia e do dito Estado de bem-estar social europeu. Mesmo os partidos comunistas da Europa, fortes até o final dos anos 1970, operaram no interior dessa lógica. Da mesma forma, os partidos de direita foram levados a aceitar a conservação de uma espécie de mínimo social a ser respeitado, mesmo agindo em vistas à liberalização da economia.

O primeiro tremor neste pacto se deu com a leva neoliberal de Thatcher e Reagan. Nos EUA, o pacto criado pelo New Deal de Franklin Roosevelt foi desmontado por meio de uma política de retração do Estado e redução de impostos para os mais ricos. O mesmo foi feito no Reino Unido, sob o fogo de uma luta incessante contra os sindicatos e as categorias profissionais.

No entanto, os anos 1990 pareciam inicialmente implicar certa retração do horizonte neoliberal com a ascensão do que se chamou à época de "onda rosa". Mas o novo trabalhismo de Tony Blair, o novo centro de Gerhard Schröder e a volta dos democratas com Bill Clinton demonstraram outra coisa.

Na verdade, tratava-se de um alarme falso. O que se viu foi apenas a consolidação da falência da social-democracia, seu enterro pelos próprios atores que, de certa forma, deveriam representá-la. A França de Lionel Jospin, com alguns tons de rosa mais vermelhos, foi apenas um ponto fora da curva, já que foi lá, em 1995, que ocorreu a última grande greve geral de defesa do Estado de bem-estar.

Essa conversão da "esquerda" à gestão de um neoliberalismo "com o rosto mais humano" era irreversível.

Isso ficou evidente com a crise de 2008 e com a ausência de alternativas a um modelo econômico falimentar. Todos os atores políticos mundiais foram forçados a aplicar a mesma política de "austeridade", com suas contenções de gastos públicos, seu desmonte de mecanismos de distribuição de renda e elevação dos interesses do sistema financeiro mundial a dogma inquestionável.

Nesse processo, os partidos de esquerda foram simplesmente dizimados, já que perderam de vez sua função de contraponto.

O resultado disso estamos vendo hoje. A ascensão de aberrações como Donald Trump, a protofascista Marine Le Pen, na França (em primeiro lugar nas pesquisas), e o Alternativa para a Alemanha, além da vitória do "brexit", são partes de um mesmo fenômeno. Essas escolhas expressam a ausência de escolha dentro da democracia liberal.

Elas demonstram, na verdade, que a democracia liberal acabou, que seu acordo não existe mais. A crise econômica destruiu a democracia liberal e levou populações a irem em direção ao extremo em vez de aceitarem as normas e a dogmática econômica que vigoravam no centro.

Há uma certa ironia macabra nessa situação. Durante anos, a imprensa mundial tentou nos fazer acreditar que EUA e Inglaterra eram dois países que haviam deixado a crise econômica para trás com suas políticas de austeridade. No entanto, não é assim que pensam os próprios cidadãos desses países. Na verdade, eles escolheram discursos que insistiam na pauperização, na insegurança econômica, na precarização e no fim da globalização.

Daqui em diante, esta será a dinâmica política. Como não há mais acordo possível de conservação de conquistas sociais elementares, a política irá para os extremos. Só que, neste momento, a "esquerda" não consegue mais organizar um discurso de alternativa econômica. Em países como França e Alemanha (já que o SPD governa com a CDU há anos), foi ela que levou a cabo os choques de austeridade.

Nessa lógica, o único setor que realmente faz política hoje é a extrema-direita com sua mistura de discursos de proteção social e proteção paranoica contra tudo o que é tachado como "corpo estranho" no interior de um delírio identitário de vida social. Por isso, ela cresce vertiginosamente.

Qualquer um que tentar, mais uma vez, a lógica fracassada de conquista do centro tem seu lugar garantido no balcão de devoluções dos equívocos históricos.

Os tempos são outros.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Há exatos 50 anos, aparecia nas livrarias um dos livros mais influentes das ciências humanas da segunda metade do século 20, a saber, os "Escritos", de Jacques Lacan.

Livro de escrita singular e ritmo vertiginoso, o primeiro trabalho publicado por Lacan em mais de 30 anos de atividade não se contentava em ser uma reflexão avançada sobre questões ligadas à clínica do sofrimento psíquico e sobre o campo de atuação da psicanálise.

Na verdade, tratava-se de um livro que expressava, de forma exemplar, como a reflexão sobre o sofrimento psíquico exigia a mobilização de um campo comum entre antropologia, linguística, filosofia, psicanálise e teoria literária.

Este verdadeiro programa interdisciplinar, animado pela visão de articulação conjunta produzida pelo estruturalismo, era resultado de um princípio fundamental que, infelizmente, foi esquecido por muitos.

Trata-se da compreensão de que o patológico não é um mero desvio em relação a estruturas normativas previamente asseguradas e definidas. Pois isto nos levaria a agir como se o patológico fosse a simples expressão da vida em erro, da vida incapaz de compreender o normal. Algo que deve ser extirpado o mais rápido possível, como retiramos um corpo estranho de um organismo adoecido.

Na verdade, se Lacan não cansava de lembrar que "não há sujeito sem sintoma", que há sintomas que não se curam, era porque o patológico aparecia como resposta às insuficiências daquilo que socialmente define-se como "normal". Mas em uma sociedade que gostaria de limitar a experiência humana ao campo do administrável, do controlável, do seguro, que ensina seus sujeitos a desejarem o que lhes confirma em suas narrativas de sempre, falar que o patológico é um campo de invenção de singularidades pode parecer algo de profundamente incompreensível. Mas Lacan sempre soube que a definição de saúde e doença no campo da vida psíquica, longe de ser algo assentado em meros critérios de déficits e excesso de variáveis orgânicas, mobiliza continuamente valores sociais exteriores à reflexão eminentemente clínicas.

Neste sentido, sua radicalidade merecia ser, mais uma vez, relembrada. Por exemplo, ao insistir que não deveríamos confundir sujeito e Eu, que só há sujeito lá onde não há mais consciência, Lacan não ia na contramão de séculos de filosofia ocidental moderna, para a qual sujeito, reflexividade da consciência e unidade do Eu são indissociáveis.

Ele abria um caminho inovador à clínica, ao afirmar que não há cura do sofrimento psíquico por meio do fortalecimento do Eu e de sua capacidade de adaptação social. Podemos sofrer por não sermos um indivíduo, ou seja, por não conseguirmos nos fazer reconhecer enquanto uma individualidade almejada. Mas podemos sofrer também por sermos apenas um indivíduo, ou seja, por não sabermos o que fazer com experiências que nos despersonalizam, que nos indeterminam, que aparecem de forma eminentemente negativa.

Mas ao separar sujeito e consciência, criando por exemplo, inversões do famoso cogito de Descartes ("Penso, logo sou") do tipo "Penso onde não sou, sou onde não penso", Lacan lembrava que a consciência é, entre outras coisas, uma forma de linguagem que define uma estrutura possível de experiências e um campo determinável de representações.

Esta forma de linguagem própria à consciência é continuamente atravessada por outras linguagens. Outras linguagens que procuram nos lembrar como há coisas que nunca conseguiremos falar enquanto não mudarmos nossa maneira de dizê-las.

O que explica porque um psicanalista como Lacan fosse levado a pensar principalmente por experiências literárias como Beckett, Joyce e Mallarmé.

Desta forma, os "Escritos" puderam aparecer como uma das mais impressionantes operações do pensamento crítico do século 20 e uma forma inusitada de lembrar que o humano cria quando ele aprende a não mais temer seus abismos.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Se alguém ainda tinha ilusões a respeito de o Brasil continuar como uma república, esta semana serviu para dirimir as últimas dúvidas. Ela termina com a reedição da antiga teoria medieval dos dois corpos do rei.

Um dos maiores historiadores do século 20, Ernst Kantorowicz ficou célebre por seus estudos sobre a especificidade da incorporação do poder na Idade Média.

Suas formulações apontavam, presente tanto no direito quanto nas representações políticas, para um duplo corpo do rei: o rei tem, ao mesmo tempo, um corpo mortal, corruptível, e outro imortal, incorruptível, sublime, que desconhece tempo.

Em algumas situações, lembrava Kantorowitz, chegou-se até a usar o corpo sublime contra o corpo perecível, julgando o rei em nome do rei.

O que não sabíamos é que Renan Calheiros também tem dois corpos. Um é réu em processo penal, por isso é corpo de suspeito de crime grave, o que o coloca como incapaz de assumir a função máxima de presidente da República. O outro é um corpo sublime, que não traz as máculas e as suspeitas do primeiro corpo e que, por isso, pode ocupar a presidência do Senado.

Enquanto não for chamado à função de substituto do "presidente", Renan se apresenta à República com seu magnânimo corpo sublime. Quando ele aparecer na linha de substituto, Renan voltará a existir em seu vil corpo réu. O bom e probo Eduardo Cunha não foi contemplado com tamanha escolástica. Uma pena.

Que uma aberração desta natureza possa ter sido gestada à luz do dia não devia, no entanto, surpreender ninguém. Quem decidiu a permanência de Renan Calheiros na presidência do Senado não foi o STF, mas a junta financeira que nos governa.

Renan é necessário para garantir a tramitação da PEC que congela os gastos públicos por 20 anos, enquanto libera do congelamento os bilhões pagos pelo governo federal com serviço e juros da dívida pública que fazem do sistema financeiro brasileiro um dos mais rentáveis do mundo.

Essa PEC, que retira do Congresso a possibilidade de realmente discutir o Orçamento, transformando-o assim em uma associação recreativa quer irá nos animar com cenas de xingamento, soco e outros pastelões, faz do Estado brasileiro um mero ente que visa capitalizar o dinheiro de rentistas privados. Um Estado privado, não uma república.

Aqueles que vendem a ilusão de que tamanho desmonte do serviço público brasileiro será o caminho triunfal para a saída da crise podem se mirar nos exemplos de todos os outros países que aplicaram "políticas de austeridade" (menos brutais que esta, diga-se de passagem).

Todos eles enfrentam processos de pauperização e precarização que serviram de campo livre para a extrema-direita. Mas por que você confiaria em "analistas" que são normalmente pagos de forma régia por aqueles mais interessados no assalto?

Retirar Renan da presidência poderia significar paralisar todo o butim resultante do saque do Estado brasileiro, por isso, ele fica.

O senhor Calheiros entrou na linha de tiro por querer limitar o poder do Judiciário, que acredita governar o Brasil na ausência de qualquer legitimidade substancial dos outros dois Poderes.

Mas, bem, os juízes também precisam se submeter à junta financeira. Eles aprenderam isso nesta semana. No entanto, eles podem ficar tranquilos pois serão recompensados, já que o governo, enquanto se propõe a destruir o que sobrava da previdência deste país, já ofereceu aumentos e outras regalias para nosso bravo Judiciário. E, claro, ele também não não se esqueceu de não incluir as valorosas Forças Armadas na reforma previdenciária. Nada estranho, já que todos eles sempre viveram em outro país.

Enquanto isto, os brasileiros que lutam para não serem espoliados de seus últimos direitos levam tiros de policiais que invadem igrejas para combater o velho inimigo interno de sempre: o próprio povo brasileiro. Enquanto eles lutam na linha de frente, a claque do domingo finge lutar contra a corrupção, esquecendo-se de gritar o nome do único "presidente" das últimas décadas a ser pego em flagrante de tráfico de influência. Deve ter sido um lapso.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
A democracia é um regime muito interessante. Nela, o Congresso Nacional é a representação dos interesses do povo. Povo este que, afinal, como costuma se dizer, é a fonte do poder, escolhendo em plena liberdade seus representantes.

Mas há estes momentos mágicos nos quais os representantes decidem contra os interesses e escolhas dos representados. Alguém poderia dizer que essa é prova cabal de como o sistema é farsesco, de como a representação é distorcida, de que o melhor seria dar ao povo a possibilidade de decidir diretamente sobre questões que tocam, de forma absoluta, seu destino. Mas não. Dizer isso seria "populismo", seria entregar às flutuações dos humores populares decisões que exigem "grande conhecimento técnico" e frieza analítica.

Coisa para especialistas, não para o populacho. Bem, é essa tecnocracia de combate que se chama hoje de "democracia".

Vejam que coisa interessante ocorreu nesta semana. O Senado se reuniu para se autoimplodir e, juntamente com sua imolação, implodir o resto de garantias sociais que havia no Brasil. A partir de agora, o Congresso não pode, de fato, discutir orçamento por 20 anos, já que terá que respeitar um teto construído a partir dos gastos atuais.

Gastos completamente inadequados, responsáveis pela situação falimentar de nossos hospitais e pelas dificuldades de nossas universidades. Como muitos já lembraram, o pagamento de juros e serviços da dívida pública, a verdadeira fonte dos gastos do Estado, ficou fora do teto, pode subir quanto for necessário. No que se mostra com quem o poder está realmente comprometido.

Enquanto o Senado tomava tal decisão, 63% da população afirmava ser completamente contra esta infâmia. Se, de fato, democracia houvesse, o Congresso passaria a decisão a sufrágio universal.

Afinal, quem paga a orquestra, escolhe a música e quem paga esse absurdo somos eu, você, os motoristas de ônibus, os agricultores, operários, profissionais liberais, em suma, quem realmente trabalha neste país.

Mas chamar a população "inculta" para deliberar diretamente sobre tamanha responsabilidade seria desatino populista, gritam os corvos economistas com seus ninhos de ouros patrocinados pelo sistema financeiro local.

O filósofo Bento de Spinoza, em seu Tratado Político, tem uma bela afirmação a respeito da pretensa "ignorância" popular: "Não é de se admirar que não exista na plebe nenhuma verdade ou juízo, quando os principais assuntos de Estado são tratados nas suas costas e ela não faz conjecturas senão a partir das poucas coisas que não podem ser escondidas. Suspender o juízo é, com efeito, uma virtude rara. Querer, portanto, tratar de tudo nas costas dos cidadãos e que eles não façam sobre isso juízos errados e interpretem tudo mal é o cúmulo da estupidez".

A afirmação foi publicada em 1670 e, desde então, a situação não mudou muito. Tratar os principais assuntos do Estado nas costas dos cidadãos, omitindo informações ou publicando informações relevantes no meio de discussões sobre quem foi para o paredão no último BBB é o que mais vemos entre nós.

Não é de se admirar que, em pesquisa do Instituto Ipsos Mori, descubramos que a população brasileira acredita que 25% do PIB é gasto com saúde, enquanto o número correto é 8%. Ela acredita que os 70% menos ricos dispõem de 24% da riqueza, enquanto eles dispõem, na verdade, de 9%. Não, nossa população não é "inculta". Ela é vítima de um sistema de bloqueio e desinformação.

Mas estamos apenas engatinhando na arte de governar de costas para o povo. Ao que parece, vem aí uma eleição indireta para presidente, tramada pela junta financeira em jantares caros pagos pelos juros imorais do seu cartão de crédito. Sim, a degradação institucional e a infâmia não têm limites nesse conchavo de oligarcas em que o Brasil se transformou. Contra isso, vale a pena lembrar: toda ação contra um governo ilegal é uma ação legal. A maior ilegalidade deste governo é temer seu próprio povo.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Foi sem palavras que o fotógrafo Mauro Restiffe resolveu publicar o primeiro livro com seus trabalhos (ed. Cobogó, 272 págs.). Não há aqui os textos introdutórios tão comuns em volumes sobre fotografia. Não há o título das obras em legenda –os títulos e créditos estão em um encarte à parte– nem sequer os números das páginas.

Em suma, não há fala, nada que se assemelhe a uma fala que viria em momento posterior à imagem, organizando-a, direcionando seu sentido, construindo exteriormente suas relações. Há apenas esse modelo muito singular de presença que nós chamamos normalmente de "imagem".

Um dos fotógrafos brasileiros mais consistentes de sua geração, Restiffe apresenta um livro capaz de construir por subtração, como se criar fosse, inicialmente, retirar as coisas do horizonte que normalmente lhes envolve.

Mas esse gesto de deslocamento não se dá por meio do ato bruto de suspender o objeto de seu contexto, como vemos em várias estratégias de produção da arte contemporânea que visam criar uma espécie de "aura de pedestal".

Aqui, a subtração se dá por corte. São espaços cortados, ângulos de construções arquitetônicas que emergem de sua função, cadeiras de praia em praias vazias, edifícios que aparecem como monumentos, monumentos enquadrados pela metade. Como se o corte liberasse o instante de seu fluxo, o espaço de seu código.

No entanto, há uma subtração ainda mais decisiva e impressionante. Há uma camada do mundo humano que falta.

Para liberar o instante de seu fluxo, o espaço de seu código, Restiffe retirou do horizonte de experiências uma camada de mundo humano. Há pessoas em suas fotografias, assim como há uma profusão de espaços sem pessoas.

Mas as pessoas, quando aparecem, na maioria das vezes, se manifestam como massa, como aglomeração, como grupo ou, ainda, como personagens de uma imagem que parece remeter a imagens arquetípicas do universo artístico. Raras são as fotos que colocam em cena algo que poderíamos chamar de "intimidade" (quando elas aparecem são como cortes de séries) e os poucos retratos humanos parecem guiados pela procura de "singularidades".

Em um mundo no qual a intimidade é submetida a um regime tirânico de superexposição, em que a "espontaneidade" é o espaço por excelência de imposição de códigos disciplinares de conduta e comportamento, em que os gestos aparentemente mais "livres" trazem em si o peso brutal de uma história de adestramento dos corpos e de padronização das individualidades, retirar uma camada do mundo humano é uma postura ética.

Ela consiste em não fazer da vida privada um refúgio ilusório, estratégia clássica do mundo burguês com a intimidade de suas homes desenhadas por decoradores, com sua memorabilia de viagens exóticas.

Mas esse ato de retirar camadas é uma forma de desvelamento. É desta maneira que Restiffe pode deslocar nosso olhar em direção ao lugar no qual os sujeitos efetivamente estão. Se Restiffe é um dos poucos fotógrafos atuais a saber fotografar processos históricos (vide sua bela série intitulada "Empossamento", sobre a posse de Lula em 2002, e suas fotos de manifestações populares na Rússia), é por saber que sujeitos não são indivíduos. Sujeitos são processos. Suas fotografias têm, em vários momentos, a força de quem apreende processos, de quem percebe grupos e massas em dinâmica de incorporação.

Mas, principalmente, há sujeitos também nas coisas, nas marcas das coisas construídas, deixadas normalmente fora do olhar, mas marcadas pela presença humana indireta. Há o tempo das coisas, que revela uma impressionante dimensão passiva do tempo humano. Um tempo passivo, distinto da atividade dos processos de incorporação. É da imbricação destes dois tempos distintos, tempos a respeito dos quais perdemos a capacidade de compreender sua humanidade, que as fotografias de Restiffe são feitas.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Na década de 1990, um grupo de cineastas dinamarqueses intitulado Dogma foi responsável por alguns dos melhores filmes da época. Eles se propunham a fazer filmes de baixo orçamento, com câmera na mão, parcos recursos de edição e grande sensibilidade para a crítica social.

Um dos mais impressionantes dessa leva se chamava "Festen" ("Festa de Família", em sua versão brasileira), de Thomas Vinterberg. Tratava-se da história de uma festa em homenagem ao 60º aniversário do patriarca de uma família.

Organizada em um castelo, a festa conta com grande número de convivas e atividades. Mas, logo no primeiro discurso, um dos filhos acusa o pai de tê-lo abusado sexualmente e de sua irmã, que se suicidara recentemente. Durante todo o filme, as revelações se seguirão. No entanto, há algo de absolutamente extraordinário: apesar das acusações e do mal-estar, a festa nunca para.

Dessa forma, Vinterberg forneceu uma das melhores figurações do que é uma sociedade autoritária. Pois uma sociedade autoritária não é simplesmente aquela submetida à brutalidade da autoridade patriarcal e de sua exceção soberana que a coloca, ao mesmo tempo, dentro e fora da lei. Há ainda um elemento talvez até mesmo mais aterrador. Uma sociedade autoritária é aquela na qual a festa nunca para.

De fato, não importa a violência que aconteça, as injustiças que se acumulam, as demandas que brutalmente serão silenciadas, a festa nunca pode parar, as brincadeiras deverão continuar, as atividades deverão ser celebradas, mesmo que elas já tenham perdido o sentido.

De certa forma, essa era uma das ideias políticas mais importantes do grupo de filósofos conhecido como Escola de Frankfurt. Ela consistia em lembrar que nossas sociedades pretensamente liberais mostravam uma forma muito peculiar de autoritarismo, algo diferente do clássico modelo "lei e ordem", no qual a repressão e o silêncio eram a lei.

Na verdade, nossas sociedades haviam constituído um modelo que misturava deliberadamente violência policial e frivolidade midiática, cenas de agressão estatal contra grupos vulneráveis e notícias sobre como "Foto de J-Lo e Drake juntos aumenta rumor de romance", informações sobre como o governo de São Paulo diminuiu o número de horas/aula de história juntas à descoberta impressionante de que "Jennifer Lawrence não quer mais tirar fotos com fãs".

Nas dinâmicas atuais de controle, política e economia libidinal andam juntas em uma mistura animada por violência estatal e indústria cultural.

De fato, independentemente do que está a acontecer, o recado principal é: a festa não pode parar.

A tristeza e indignação devem ser compensadas com a certeza de que "a vida continua e deve continuar", de que, apesar das dificuldades, não devemos deixar de celebrar.

Por isso, melhor seria lembrar como o riso nem sempre está do lado da crítica. Há momentos em que o riso está do lado do poder, em que a festa está do lado da ordem.

As pessoas são controladas por meio de suas formas de diversão, que moldam seus modos de sensação e seus circuitos de afetos.

Quem organiza a maneira com que você se diverte controla os fundamentos do poder. Assim, o autoritarismo pode se impor não através da censura e da proibição, técnicas bastante primárias. Ele acaba por se impor através de algo muito mais sofisticado: a irrelevância da verdade, a proliferação da frivolidade, a anestesia de quem não consegue mais sentir urgência alguma.

Nesse sentido, a verdadeira imposição disciplinar não é o antigo "Não reclame diante da crise, trabalhe". Não, você pode apelar a outra técnica, muito mais afeita aos engenheiros de relações públicas e às agências de publicidade, a saber: "Não reclame diante da crise, divirta-se".

De preferência, faça como os EUA, tenha um presidente que acabou de sair de um programa de TV e de patrocinar concursos de Miss Universo enquanto decretava falência quatro vezes para socializar suas perdas, ou, se não der, tenha um prefeito animador de festas do jet set. No mais, feliz ano novo.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"Ali não tinha nenhum santo." Foi com tal sentença que o governador do Amazonas veio a público comentar o massacre que ocorreu em prisão de Manaus. De fato, santo lá não havia, como, ao que tudo indica, não há em nenhum outro lugar do mundo sublunar.

Os presidiários não são santos, você também não é, nem eu e muito menos o senhor governador.

Se estivéssemos em uma sociedade de santos, não haveria necessidade de justiça, nem mesmo de governo.

Se existe direito, justiça e governo é porque aqui também, ou seja, fora do presídio, não há nenhum santo, há seres humanos com suas trajetórias erráticas e seus acordos precários. A justiça é uma construção humana para lidar com humanos.

Por isso, é possível que a frase do senhor governador quisesse dizer outra coisa. Talvez algo como: "Quem estava lá era sub-humano, não há porque estarmos concernidos com suas mortes". Essa é uma estratégia que os governos brasileiros se eximem em implementar desde há muito, impulsionados por uma parcela da própria população.

Trata-se de espoliar massas inteiras de sujeitos de qualquer forma de humanidade. Se eles morrem, não haverá nem nomes nem histórias. Haverá apenas números: 60 presos mortos. Você nunca saberá quem são, se eles estavam lá por assassinar a ex-mulher, o filho e seus parentes ou por ter vendido meia dúzia de cigarros de maconha.

Você nunca verá seus rostos. Até porque, desde que entraram na cadeia, eles já estavam desaparecidos, eles já não existiam mais, dessubjetivados, prontos para uma morte indiferente patrocinada pelo Estado e aplaudida por "pessoas de bem".

Entender como o governo brasileiro funciona é entender como ele administra o desaparecimento e o direito de matar. Esta é sua verdadeira forma de governo.

Com uma mão ele massacra parte de sua população, com outra ele lembra, à outra parcela, que o medo espreita e que é necessário "ser ainda mais duro".

Matar esses "60 presos" é visto, no fundo, como um direito soberano do Estado, como foi um direito soberano matar "111 presos" no Carandiru sem que isso tenha gerado maiores consequências, sem que houvesse rastos.

Não, não foi uma luta de gangues o que produziu o massacre em Manaus, mas uma política deliberada e pensada de administração da morte, feita nas pranchetas da omissão, do descaso, da perpetuação de condições medievais e da cumplicidade.

Então virão aqueles que aplaudem o ocorrido, seja com aplausos explícitos, seja com satisfação implícita. "Ali não tinha nenhum santo", dizem todos. Os que aplaudem sempre estiveram lá, no mesmo lugar, desde as execuções públicas medievais, as torturas públicas de escravos em fuga até os massacres policiais de hoje, com o mesmo rosto de "fizeram por merecer".

Desde tempos imemoriais eles repetem o mesmo raciocínio que confunde justiça e vingança, que acredita estar seguro quando submetido a um poder sem limites, que dirá "se você não faz nada, nada acontecerá contigo".

Mas o que você precisa fazer para ser preso no Brasil? Pouco mais de 10% dos presos brasileiros estão lá por homicídio (simples ou qualificado). Os outros 90% são pessoas que cometeram furtos e roubos de toda sorte, pichadores, pessoas que "desacataram" a autoridade e, principalmente, sujeitos com problemas ligados a drogas que não tiveram um bom advogado ou um sobrenome capaz de libertá-los.

Ou seja, em larga medida, pessoas que deveriam estar fora de presídios, cumprindo outra forma de pena –e estariam cumprindo se não fossem de classes sociais massacradas.

"Tem pena, leve para casa", grita a turba. Mas, sabe turba, não, não temos pena. Temos indignação, o que é algo totalmente diferente.

Não queremos levar ninguém para casa, queremos que o Estado brasileiro saia do banditismo que muitos aplaudem. Já os gregos sabiam, ao menos desde "Antígona": retirar a humanidade daqueles que o Estado julga criminosos é a forma mais rápida de destruir o próprio Estado, de fazer do Estado outro criminoso.

O Estado brasileiro age como o PCC, decidindo soberanamente quem irá viver e quem será deixado para morrer. Como ele espera julgá-lo?
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
NO FIM DE 2016, a Sony Records lançou "Philip Glass - The Complete Sony Recordings": uma caixa com 24 CDs na qual encontramos entrevistas e vários trabalhos gravados pelo compositor norte-americano a partir de 1982, além de "Einstein on the Beach", ópera montada juntamente com Bob Wilson e apresentada pela primeira vez em 1976.

O lançamento da série é um momento privilegiado para colocarmos questões a respeito deste que foi um dos movimentos mais influentes da música contemporânea, do qual certamente Philip Glass é o nome popularmente mais conhecido, a saber, o minimalismo.

A música contemporânea norte-americana, a partir principalmente da segunda metade do século 20, terá um relação singular com a pintura e as artes plásticas. Músicos como Morton Feldman, por exemplo, irão pensar visualmente, não apenas fazendo músicas inspiradas por artistas plásticos como Jackson Pollock, Philip Guston e De Kooning, mas ocupando o espaço musical através da construção de blocos e gestos, aproximando timbres e cores.

De fato, a música irá procurar certo apoio em relação a outras artes mais "estabelecidas" no cenário cultural norte-americano a partir dos anos 1940. Nesse sentido, a pseudomorfose entre música e pintura foi providencial em um momento em que Nova York se afirmava como centro mundial das artes visuais por meio do expressionismo abstrato. Ela forneceu aos músicos um campo renovado de debates graças à aproximação com uma esfera de produção cultural mais bem estabelecida. Não por outra razão, alguns desdobramentos maiores da música norte-americana continuaram a encontrar seu impulso na aproximação conceitual com o universo das artes visuais, como no caso do minimalismo a partir dos anos 1960.

Mas, para além de uma questão de sociologia das artes, havia algo a mais nessa relação entre música e pintura. Lembremos, por exemplo, do que dizia Philip Glass: "Minha música é um motor do espaço". Ou seja, a música ocidental normalmente se viu como uma arte do tempo, daí a definição canônica do crítico musical Eduard Hanslick: "Música são formas sonoras em movimento".

De certa forma, a música é uma reflexão sobre entrar em movimento, sobre criar dinâmicas, criar ressonâncias que fazem do tempo um contínuo no qual seus múltiplos instantes se interpenetram em reinscrição incessante. Mas Glass queria deliberadamente uma música que pensasse espacialmente, que construísse a experiência do "ex-tase", do tempo suspenso, que se desenvolvesse por acumulação, por sobreposição, por corte, como se estivéssemos diante de um objeto no espaço.

Essa suspensão deliberada do tempo musical era uma decisão de não mais trabalhar com a noção de tempo-duração, de narratividade com suas dinâmicas de tensão-distensão e, principalmente, recusa do trabalho da memória, tão fundamental para a audição musical.

Subia à cena o mecanismo bruto da repetição. Nenhum outro músico minimalista importante, como Steve Reich ou John Adams, continuou de forma tão deliberada a restringir seu material através de mecanismos de repetição como Philip Glass.

Por essa razão, sua música poderia parecer simples e mesmo regressiva com essas sequências contínuas de arpejos, de acordes perfeitos, ostinatos, com seu tonalismo aparente. Mas ela realizava um princípio construtivo bem descrito pelo artista plástico Sol LeWitt quando justificava seu cubos brancos em galerias de arte: "Resolvi tirar a pele das coisas e mostra a estrutura".

Ou seja, tudo se passava como se fosse o caso de retirar a pele das coisas, subtrair a gramática musical até chegarmos a seus princípios elementares, a fim de fazer do elementar não mais o momento potencial de um desenvolvimento, mas o ato de sua própria autossuficiência.

Através desse esfolamento da gramática musical, dessa desconstituição do tempo, a música acreditou ter a força de vencer o empobrecimento da nossa experiência do tempo e da linguagem mimetizando aquilo contra o qual nós nos batemos. Ela acreditou poder assim se aproximar de um outro tempo, de um tempo mítico em uma era sem mitos, o que talvez explique a fascinação de Glass pela música indiana, de Reich pela mística judaica.

Independentemente dos resultados e das limitações dessa estratégia, ela mostrou como a arte consegue produzir vida até mesmo mimetizando e insuflando vida no que está morto.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
A Universidade Estadual do Rio de Janeiro, uma das mais importantes universidades do país, com cinco campi e 35 mil alunos, está ameaçada de fechar por falta de repasse de verbas. O início de suas aulas foi adiado devido à ausência absoluta de condições.

Já no ano passado, vimos a cena desesperada de alunos e professores arrecadando cestas básicas para oferecer a funcionários com meses sem receber salários.

Longe de ser um caso isolado, a UERJ é apenas o exemplo mais dramático da situação da educação brasileira pública. Um país que leva universidades ao ponto de fechamento, sem causar nenhuma indignação social efetiva, é um país arruinado. Por isso, há de se dizer que o problema da UERJ não é apenas de seus professores e alunos. Ele é a expressão crua do fracasso puro e simples da sociedade brasileira.

Há dias, um ministro do Supremo Tribunal Federal, o sr. Roberto Barroso, achou por bem tecer considerações sobre o problema afirmando que deveríamos repensar o sistema público de ensino, de preferência apelando a um modelo de financiamento privado. No que ele expressa a opinião de alguns, para quem a educação deve aceitar não ser mais uma prioridade efetiva dos Estados, pois dinheiro não há.

É impossível não ver certa ironia em um representante do Poder Judiciário -o mesmo poder que recebeu, no meio da crise econômica que assola o país, aumento de seus salários monárquicos (causando um impacto de R$ 4,7 bilhões a menos só em 2017)-, falar que há de se aceitar que o Estado não tenha R$ 1,1 bilhão para garantir o orçamento de uma das nossas mais importantes universidades.

Alguém poderia começar por tentar explicar o que era, de fato, mais prioritário ao país: aumentar salários de desembargadores, juízes e afins ou garantir o funcionamento de nosso sistema público de ensino, levando a União a financiar universidades públicas (mesmo que estaduais) combalidas. Como se vê, o problema não é a falta de dinheiro. O problema é: para quem o Estado é, de fato, um Estado mínimo.

Mas tenhamos uma visão de conjunto. No mesmo momento em que o sistema de pesquisa e ensino brasileiro é desmontado, recebemos, graças a Oxfam, a notícia de que as oito maiores fortunas do mundo equivalem aos rendimentos de, simplesmente, metade da população mais pobre do planeta. Alguém poderia se perguntar o que esses dois fatos têm em comum. Eu diria: há uma relação profunda de causa e efeito.

Para que possamos chegar à situação repugnante de oito pessoas terem uma riqueza equivalente ao trabalho da metade mais pobre da população do planeta é necessário, ao menos, dois fenômenos.

Primeiro, uma desqualificação do trabalho manual e seus frutos, com claros interesses de espoliação. Não é apenas a concentração imoral de renda que choca, mas o caráter fictício do valor, que faz do trabalho manual, fundamental para a reprodução material da sociedade global, algo pago apenas no limite da sobrevivência da mão de obra.

Para que essas pessoas sejam ricas, é necessário que o trabalho que está na base da produção seja brutalmente desvalorizado.

Isso pode chegar ao extremo. Lembrem como um dos oito afortunados é dono da Zara, a mesma empresa denunciada, inclusive no Brasil, por se aproveitar de trabalho escravo. Assim se fazem as fortunas.

Um comentarista afirmou, com um tom de condescendência, que Bill Gates (outro afortunado) usa sua fortuna para programas de eletrificação na África. Bem, mas os africanos não precisam da filantropia de Bill, eles precisam apenas de preço justo para seus produtos.

O segundo fenômeno em questão é a demissão do Estado de sua responsabilidade social. Warren Buffett (outro afortunado) chegou a escrever artigos anos atrás dizendo que milionários como ele deveriam pagar mais impostos e que não conseguia entender por que era tão bem tratado pelo fisco do seu país.

Bem, Warren, enquanto pessoas como você são agraciadas, principalmente no Brasil, com o sorriso cúmplice do fisco e dos governos, universidades públicas são fechadas por falta de verba. Mas há sempre aqueles que se identificam com o agressor e julgam que nada disso vale uma batida de panela.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
A modernidade nos acostumou à ideia de liberdade como expressão da autonomia individual. Hoje, ela nos é uma ideia tão natural que parece simplesmente impossível pensar de outra forma.

Nossos professores procuram criar alunos autônomos, os pais lutam por terem filhos autônomos, os psicólogos agem para reconduzir seus pacientes à condição de sujeitos autônomos, a democracia pede por cidadãos autônomos.

O mesmo termo em tantos contextos diferentes expõe a força de um princípio normativo geral. Sair do horizonte que tal ideia de liberdade define seria, de certa forma, colocar em questão algo de aparentemente fundamental e decisivo em nossa própria identidade como sujeitos modernos.

Segundo essa concepção, seríamos livres quando fôssemos capazes de nos autogovernar, de sermos os legisladores de nós mesmos, de estarmos sob a jurisdição de nós mesmos. Essa seria a forma de realizar o que já dissera o filósofo Jean-Jacques Rousseau: ser livre é indissociável do ato de dar para si mesmo sua própria lei.

Tal capacidade de autogoverno aparece, para muitos, como a expressão mais bem acabada da maioridade produzida pela experiência de emancipação. Se não podemos dar para nós mesmos nossa própria lei, estaríamos em situação de alienação e servidão, pois seríamos dirigidos por um outro.

Mas notemos algo interessante nessa concepção. Ela parece nos fazer crer que o objetivo real de criar indivíduos emancipados e livres seria de levá-los a serem, em uma metamorfose contínua e reversível, o juiz e o acusado. Um pouco como se estivéssemos a ver uma simbiose perfeita entre a consciência que julga e a consciência que age.

Já se falou da razão como um tribunal. Mas nem sempre se falou que tal tribunal nos ensina, entre tantas outras coisas, que nossa liberdade seria a capacidade adquirida de se mover entre a cadeira do juiz, o olhar do júri, a fala do acusador e o peso do acusado, sem em nenhum momento se perder.

Há uma habilidade de prestidigitador neste jogo de cadeiras. Pois o elemento fundamental aqui é a noção de simetria das posições. Independente do lugar que ocupo, continuo sendo Eu mesmo. Ser livre é ser um só na multiplicidade de várias vozes. No entanto, faz parte das ilusões fundamentais da noção moderna de indivíduo acreditar que me torno eu mesmo em sua maior perfeição principalmente quando exerço a lei que me julga.

Ou seja, um dos maiores milagres dessa concepção foi nos fazer acreditar que liberdade é a crença de que entre as ações e as razões, entre os atos e as leis, há uma identidade absoluta de direito, pois todos eles são "meus".

Daí por que tudo o que é involuntário, inconsciente, insubmisso a leis, o contingente só pode aparecer como um atentado potencial à minha liberdade.

No entanto, poderíamos nos perguntar se não haveria um problema com tal concepção de liberdade.

Tudo o que causa minhas ações de forma involuntária, tudo o que quebra a jurisdição das leis que um dia pareci dar para mim mesmo é, de fato, um atentado à minha liberdade? Não haveria entre nós uma outra concepção de liberdade, mais difícil de enxergar, para a qual sou livre quando sou capaz de me abrir àquilo que não controlo completamente, àquilo que não se submete à lei que tomei por minha?

Essa outra concepção não dirá que liberdade é autonomia. Ela dirá que liberdade é saber que há sempre um outro que me causa uma alteridade profunda que me afeta, que por isso minhas ações nunca são completamente minhas.

No entanto, nem sempre essa heteronomia é sinônimo de servidão. Ou seja, liberdade é abrir-se a uma heteronomia sem servidão. Seria melhor pensar assim. Isso nos deixaria mais aptos a ouvir aquilo que nos atravessa sem nunca adquirir a forma de nós mesmos.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Uma das características maiores de certa tradição do pensamento crítico do século 20 foi a consciência da necessidade de pensar, de forma indissociável, crítica social e crítica cultural.

Este era o resultado da aceitação de uma premissa maior, a saber, a análise da produção cultural do presente não deveria ser pensada apenas a partir das funções que músicas, livros, peças de teatro e filmes desempenhariam na repetição dos padrões vigentes da vida social.

Ou seja, tal produção não deveria ser pensada apenas a partir da sociabilidade que ela sustenta, da reprodução das identidades sociais que ela ajuda a perpetuar, do prazer e do entretenimento que ela causa. A produção cultural deveria ser analisada a partir da emancipação social que ela seria capaz de gerar.

Desde Friedrich Schiller e seu "Educação Estética do Homem", havia a compreensão de que não existiria transformação social possível sem uma "revolução na sensibilidade", ou seja, sem que novas formas de sentir ganhassem corpo, sem que novos circuitos de afetos emergissem.

Mas, para isso, era necessária uma consciência crítica capaz de procurar a poesia que uma sociedade transformada clamaria, a música que a anunciaria. Produzir a imagem do que ainda não existe.

Quem não precisou ler Schiller para descobrir isso foi a indústria cultural (mesmo que alguns prefiram jogar esse conceito no lixo). À sua maneira, ela sabia que, se você não quiser uma revolução social capaz de produzir novas formas de vida e se estiver interessado em bloquear possibilidades de emancipação, a saída é gerenciar a cultura.

Assim, é possível impedir qualquer mudança na sensibilidade, controlar a capacidade de sentir, a velocidade das impressões e sensações, os modos de apresentação e de existência, o tempo dos desejos e o espaço das percepções.

Mas, para tanto, é necessário levar todos a acreditar que qualquer regime de crítica das formas atuais de sensibilidade é coisa de intelectual elitista desvinculado do contato direto com o povo e embriagado por um desejo inconfesso de desqualificação dos modos de vida populares. Gente que não compreende que Beyoncé já é a figura máxima da emancipação e do empoderamento feminino. Ou seja, para muitos, a indústria cultural fornece até mesmo a gramática para a nossa revolta.

Alguém neste país um dia disse sabiamente: "As massas ainda comerão o biscoito fino que fabrico". Esta era sua maneira de dizer que a alienação social está sempre ligada à restrição da circulação de formas de experiência. Quebrá-la é indissociável da capacidade ouvir poesia, especialmente aquela que é "incompreensível para as massas".

Infelizmente, se Oswald de Andrade voltasse hoje com frases desse calibre, eu temeria pelos impropérios que ele acabaria por escutar. Pois a ideia da necessidade de fazer circular produções que tensionam nossos modos de sensibilidade "populares" saiu de cena. A simples ideia de que pode haver muito de reacionário no que se vende como popular é quase um crime. A razão é simples: a própria ideia de crítica cultural enquanto projeto intelectual coletivo morreu. Ela é vista como um entulho autoritário de universitários em desamor com a sociedade democrática de massas.

Esse fim da crítica cultural é indissociável do processo de redução das expectativas de transformação social. Pois, para alguns, não se trata mais de lutar por transformações estruturais, mas de compreender a política como o ato de reconhecer, de respeitar e de permitir a generalidade de afirmações de si e de grupos.

Ou seja, trata-se de acima de tudo de "acolher", como se a cultura fosse o espaço terapêutico para tratamento de traumas sociais. Nesse processo, a própria ideia de análise estética sai de cena, em prol da proliferação de justificativas sociológicas.

Bem, se quisermos entender uma das raízes da miséria de nossa imaginação política atual recomendo voltar os olhos para o fim da crítica cultural. Pois sem reflexão crítica sobre a cultura nunca foi nem será possível quebrar o círculo de anestesia que perpetua a alienação social. Não deixa de ter sua ironia que isso ocorra exatamente no momento em que precisamos lidar com líderes autoritários e protofascistas saídos diretamente do último reality show.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Talvez isto até desse um enredo razoável de romance histórico-político do tipo Gore Vidal.

Em uma república em algum lugar na América Latina, o vice-presidente mobiliza toda a casta política para derrubar a presidente que o elegeu e "estancar a sangria" produzida por denúncias de corrupção a envolver toda a classe, além do próprio personagem em questão.

Depois do golpe, a sangria no entanto não para totalmente. A máquina colocada em funcionamento no Poder Judiciário continua, mesmo que aos trancos e barrancos.

Mas eis que um "terrível acidente" culmina na morte do juiz do Supremo Tribunal Federal responsável pelas homologações das delações contra a casta política, exatamente no momento em que elas pareciam envolver de vez os nomes-chave do governo do vice-presidente golpista e do partido fundamental de sustentação do seu governo, partido que poderíamos chamar em nosso romance de, digamos, PSDB.

No lugar do juiz acidentado, o vice-presidente nomeia em seu lugar seu próprio ministro da Justiça: homem organicamente vinculado a todos os esquemas do dito, digamos, PSDB. Alguém cuja meteórica passagem pelo referido ministério foi marcada por uma crise no sistema penitenciário que resultou no assassinato de centenas de presos, levando a república em questão a figurar no noticiário internacional devido ao seu sistema carcerário medieval.

No meio da crise, o ministro entrou para a história não por ter feito ações sensatas e precisas para conter o problema, mas por simplesmente ter mentido despudoradamente quando evidenciados sua inação e descaso à ocasião de um pedido de auxílio de uma governadora de Estado. Algo tão absurdo que até mesmo a imprensa, normalmente complacente com o vice-presidente golpista, foi obrigada a reconhecer que o ministro era o homem errado no lugar errado.

Como se não fosse suficiente, o personagem já tinha provocado polêmicas ao defender a tortura "em alguns casos", isto em um país no qual a polícia tortura mais hoje do que na época de seu antigo regime militar, e por usar a força militar e brutalidade de sua polícia para conter todo o tipo de manifestação e mobilização social.

Quando estava a sair do ministério, eis que um dos Estados da federação passa por uma greve da polícia e se transforma em pura e simples zona de anomia, com direito a saques em plena luz do dia, assaltos e afins. O que demonstra a incrível competência do nosso personagem, suas qualificações indiscutíveis para tão alto cargo.

Não, pensando bem, esse enredo não daria um bom romance. Muito óbvio, muito primário. Ninguém iria acreditar ser possível algo assim nos dias de hoje. Certamente, se isto ocorresse atualmente, haveria grandes manifestações nas ruas contra a natureza despudorada de tal esquema. Haveria uma mobilização da opinião pública contra a desagregação das instituições da República. Não, como romance o enredo definitivamente não funcionaria. Bem, talvez como comédia ele desse certo.

É, como comédia isso aí poderia funcionar. Nós poderíamos começar com a descrição de grandes manifestações populares a varrer as cidades da dita república exigindo combate feroz contra a corrupção e mostrando indignação cidadã.

Depois de a presidenta deposta, poderíamos mostrar essas mesmas pessoas tentando defender o vice-presidente envolvido em escândalos, indo para as ruas contra a corrupção, mas indignados não com o chefe do esquema, mas com um tal "presidente do Senado", isto em uma semana na qual o próprio vice-presidente fora pego em um escândalo primário de tráfico de influência envolvendo dois de seus ministros.

Poderíamos mostrar ainda essas mesmas pessoas caladas quando da nomeação do ministro "aos amigos tudo, aos inimigos a lei" convocado para empacotar os processos contra seu partido do coração.

Sim, seria hilário, o mundo todo morreria de rir.

É verdade que seria um pouco difícil acreditar na possibilidade de tudo isso, mas, em comédia, há sempre algo da ordem do vale-tudo, algo da ordem da ampliação caricatural até o absurdo, o que libera a imaginação para ganhar asas e pensar até mesmo o impensável. Ou seja, pensar o Brasil atual.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Há três formas de destruir um país. As duas primeiras são por meio da guerra e de catástrofes naturais. A terceira, a mais segura e certa de todas, é entregando seu país para economistas liberais amigos de operadores do sistema financeiro.

Em todos os países onde eles aplicaram suas receitas de "austeridade", a recompensa foi a pobreza, a desigualdade e a precarização.

Alguns países, como a Letônia, vendido por alguns como modelo de recuperação bem-sucedida, viu sua população diminuir em quase 10% em cinco anos, algo que apenas as guerras são capazes de fazer.

Ou seja, o preço para essa peculiar noção de sucesso foi expulsar quase 10% da população para refazer suas vidas em outros países.

No Brasil, não faltou economista a eleger, meses atrás, o Espírito Santo como um modelo de ajuste econômico e responsabilidade fiscal. O mesmo Espírito Santo que tem números piores do que média nacional (retração de 13,8% até o terceiro trimestre de 2016) e que há algumas semanas simplesmente entrou em colapso, virando uma zona de anomia em meio à greve de policiais. Não poderia ser diferente.

No mundo desses senhores não existe gente, não se levam em conta reações populares a medidas econômicas, muito menos experiências de sofrimento social e revoltas políticas contra processos de pauperização vendidos como "remédios amargos, porém necessários".

Outros tantos desses economistas encheram as páginas de jornais e tempo de televisão para levar a sociedade brasileira a acreditar que, conduzindo Michel Miguel à Presidência, a "confiança" dos mercados daria o ar de sua graça e, com ela, viria a estabilidade.

Bem, nos últimos dias, o Banco Mundial divulgou uma análise segundo a qual espera que, até o final do ano, 3,6 milhões de pessoas voltem à pobreza no Brasil. Para ser mais claro, 3,6 milhões de pessoas verão seus rendimentos caírem para menos de R$ 140 por mês.

Isso em um cenário no qual o Brasil tem a maior taxa de capacidade ociosa da indústria dos últimos 70 anos, já que não há mais compradores para seus produtos.

Se somarmos a isso a reforma da Previdência, a limitação de investimentos estatais para guardar dinheiro a fim de pagar os mais de R$ 400 bilhões em serviços da dívida pública, a proposta de terceirização irrestrita e o colapso do sistema brasileiro de serviços públicos teremos um cenário simples: o Brasil foi destruído pelas políticas implementadas desde a guinada neoliberal do governo Dilma. O próximo passo será a imigração em massa dos que puderem, normalmente os mais bem formados.

É claro que haverá aqueles que dirão que isso é "herança maldita" de políticas econômicas esquerdistas. Mas chamar governos que nunca foram capazes de propor a taxação progressiva de rendas e riquezas, a transferência paulatina da detenção dos meios de produção para as mãos dos trabalhadores e a limitação dos ganhos do sistema financeiro de esquerdista é algo da ordem do simples jogo de palavras.

Enquanto isso, uma parcela da população aplaude tudo, já que acredita ficar imune à degradação econômica nacional.

Essa mesma parcela julga-se hoje detentora de alguma forma de superioridade moral que faria calar os descontentes com este governo.

No entanto, que as coisas sejam ditas de forma clara: eles nunca estiveram nem estão, de fato, preocupados com julgamentos morais.

Os mesmos que gritam contra corruptos do antigo governo sempre votaram e continuaram votando em políticos notoriamente corruptos, continuaram calados diante de casos gritantes de corrupção neste governo, como ficaram calados quando, nesta semana, o STF publicou uma decisão inacreditável e criminosa para permitir o gato Angorá, vulgo Moreira Franco, com suas citações na Lava Jato, ocupar um ministério.

Nada estranho, já que o problema deles nunca foi a corrupção, e sim a luta contra políticos com os quais eles não se identificam. O discurso contra a corrupção era apenas uma grande farsa, senão produziria ações simétricas contra toda a classe política brasileira.

Julgamentos morais não aceitam usos estratégicos. Quem usa moral de forma estratégica é um "moralista da imoralidade". Na verdade, essas pessoas são atualmente cúmplices de um governo cuja única preocupação é se blindar e escapar da cadeia. Até porque, Michel Miguel e os seus não governam, eles têm coisas mais urgentes para fazer.

Enquanto tentam salvar a própria pele, terceirizaram o Brasil para gestores da catástrofe.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Um dos esquemas mais tradicionais de compreensão da arte parte do pressuposto de que o desenvolvimento formal de sua linguagem é expressão de uma forma de compensação social. Sem mais poder alimentar a ilusão de que seria o motor a impulsionar as transformações do mundo, a impulsionar as mudanças radicais em seus modos de apresentação, não teria restado à arte nada mais que duas saídas.

A primeira seria voltar-se a si mesma, tomar a si próprio como seu objeto, criando com isso uma dinâmica autorreferencial que apenas denunciaria sua impotência efetiva em ser uma prática social com capacidade de transformação de outras esferas sociais de valores.

Essa autorreferencialidade, ou seja, essa forma que a arte teria de, no fundo, falar de si mesma, de sua própria história, das questões internas à sua própria linguagem, seria para alguns um signo maior de sua perda de lugar.

Não podendo de fato transformar o mundo, não restaria à arte outra coisa do que falar de si mesma, deixando com isso de ter qualquer função social realmente relevante. A dificuldade e estranhamento de sua linguagem seria, para os que esposam tal leitura, apenas marcas de sua irrelevância.

A segunda saída consistiria em procurar desesperadamente uma função específica no interior do mundo social. O crítico de arte Pierre Restany afirmou décadas atrás que os artistas se transformariam em "engenheiros dos nossos lazeres".

Essa era sua maneira de dizer que a arte não seria mais o domínio dos objetos e processos que resistem à função. Ela paulatinamente assumiria a condição de uma engenharia de lazeres para turistas e pessoas à procura de alguma forma de sessão de beleza terapêutica capaz de nos retirar, por um momento, do universo cinza da vida ordinária e de seu tempo morto.

Assim, por exemplo, a partir principalmente dos anos 1970, os museus se transformaram em centros de entretenimento, onde contemplar uma obra de arte era uma atividade equivalente a ir ao restaurante, descobrir a mais nova sensação arquitetônica ou fazer compras em lojas que ofereciam design para classe média letrada. No fundo, os museus apareciam como os mais novos centros de lazer, impondo uma mutação na relação às obras de arte a partir da generalização da lógica desafetada do "acesso".

Isso quando não eram simplesmente uma peça fundamental de processos de financeirização e de rentabilização, tendo em vista os mais novos colecionadores potenciais.

Outra forma era tentar dar à arte alguma função explicita política fazendo dela o veículo de conteúdos de conscientização social ou de demandas de reconhecimento de grupos vulneráveis. Esta saída poderia parecer recuperar a esperança de uma arte que fosse enfim motor de transformação social.

No entanto, esta submissão da arte a uma lógica de propaganda apenas reiterava uma ideia fundamental que sustenta nosso mundo. Pois se trata de respeitar o veredito das sociedades capitalistas segundo o qual o que é desprovido de função não pode existir, o que não tem necessidade deve ser eliminado, o que é incompreensível deve ser visto como servindo apenas à perpetuação de formas de dominação. Ou seja, essa saída parecia engajada mas era muito mais conservadora do que gostaria de imaginar.

Nesse ponto, talvez seja útil lembrar que o destino da arte passa por nos mostrar como o que é desprovido de lugar, o que é desprovido de função pode expressar a insistência em um mundo outro, em uma forma outra de sensibilidade na qual a percepção das coisas não estará submetida à descrição unidimensional de sua função e lugar específicos.

Talvez isso explique um pouco porque toda sociedade autoritária despreza seus artistas. É interessante como elas sempre usam um termo recorrente para expressar tal desprezo, a saber, parasitas, desocupados. Um termo que voltou ultimamente a ser ouvido entre nós por nossos artistas. Pois há de fato uma dimensão de liberdade da arte em relação ao que se reduz à mera ocupação, ao mero preenchimento da reprodução de lugares já determinados que é insuportável a uma subjetividade embrutecida pela limitação do seu horizonte de experiência à perpetuação do presente.

Essa liberdade da arte sempre soou como uma afronta aos não querem outra coisa do que continuar a sustentar a reprodução de um mundo incapaz de produzir qualquer satisfação efetiva com sua existência.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Há alguns dias, foi publicada a última pesquisa CNT/MDA para a eleição presidencial de 2018. Três fenômenos são dignos de nota: a ascensão de Lula, que venceria hoje em todos os cenários, a queda de todos os candidatos ligados de forma ou outra ao atual desgoverno e a consolidação do sr. Jair Bolsonaro em segundo lugar, em empate técnico com Marina Silva.

Uma leitura mais detalhada da pesquisa revela fatos ainda mais surpreendentes. Bolsonaro é o candidato mais votado dentre aqueles que possuem ensino superior (20,7%) e aparece empatado com Lula na escolha dos que ganham acima de cinco salários mínimos (20,5%).

Já há algum tempo, o termo "fascista" é utilizado no embate político de forma meramente valorativa, e não descritiva. Ou seja, não se trata de descrever algum tipo específico de fenômeno político, mas simplesmente de desqualificar aquele que gostaríamos de retirar do debate político.

No entanto, há sim um uso descritivo do termo, há situações nas quais devemos nomear claramente o que, no final das contas, é a pura e simples adesão a práticas facilmente qualificadas como fascistas. Pois poderíamos dizer que todo fascismo tem ao menos três características fundamentais.

Primeiro, ele é um culto explícito da ordem baseada na violência de Estado e em práticas autoritárias de governo. Segundo, ele permite a circulação desimpedida do desprezo social por grupos vulneráveis e fragilizados. O ocupante desses grupos pode variar de acordo com situações históricas específicas. Já foram os judeus, mas podem também ser os homossexuais, os árabes, os índios, entre tantos outros. Por fim, ele procura constituir coesão social através de um uso paranoico do nacionalismo, da defesa da fronteira, do território e da identidade a eixo fundamental do embate político.

Neste sentido, não seria difícil demonstrar todo o fascismo ordinário do sr. Bolsonaro. Sua adesão à ditadura militar é notória, a ponto de saudar e prestar homenagens a torturadores. Não deixa de ser sintomático que pessoas capazes de se dizerem profundamente indignadas contra a corrupção reinante afirmem votar em alguém que louva um regime criminoso e corrupto como a ditadura militar brasileira (vide casos Capemi, Coroa-Brastel, Paulipetro, Jari, entre tantos outros).

Bem, quem começa tirando selfie com a Polícia Militar em manifestações só poderia terminar abraçando toda forma de violência de Estado.

Por outro lado, sua luta incansável contra a constituição de políticas de direito, reparação e conscientização da violência contra grupos vulneráveis expressa o desprezo que parte da população brasileira sempre cultivou, mas que agora se sente autorizada a expressar.

Por fim, o primarismo de um nacionalismo que expressa o simples culto do direito secular de mando, algo bem expresso no slogan "devolva o meu país", fecha o círculo.

Ora, o fato significativo é que a maioria da classe média brasileira com sua semiformação característica assumiu de forma explícita uma perspectiva simplesmente fascista.

Ela operou um desrecalque, já que até então se permitia representar por candidatos conservadores mais tradicionais. Essa escolha é resultado de uma reação à "desordem" e à abertura produzida pela revolta de 2013.

Todo evento real produz um sujeito reativo, sujeito que, diante das possibilidades abertas por processos impredicados, procura o retorno de alguma forma de ordem segura capaz de colocar todos nos seus devidos lugares. Nesse contexto, a última coisa a fazer é acreditar que devemos "dialogar" com tal setor da população.

Faz parte de um iluminismo pueril a crença de que o outro não pensa como eu porque ele não compreendeu bem a cadeia de argumentos.

Logo, se eu explicar de forma pausada e lenta, você acabará concordando comigo. Bem, nada mais equivocado. O que nos diferencia é a adesão a forma de vida radicalmente diferentes. Quem quer um fascista não fez essa escolha porque compreendeu mal a cadeia de argumentos. Ele o escolheu porque adere a formas de vida e afetos típicos desse horizonte político. Não é argumentando que se modifica algo, mas desativando os afetos que sustentam tais escolhas.

De toda forma, há de se nomear claramente o caminho que parte significativa dos eleitores tomou. Essa radicalização não desaparecerá, mas é embalada pelo espírito do tempo e suas regressões. Na verdade, ela se aprofundará. Contra ela, só existe o combate sem trégua.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Faz parte de uma certa leitura hegemônica da vida social moderna a ideia de que a razão se realiza necessariamente na vida social por meio da consolidação de um horizonte de diálogo.

Assim, uma sociedade cujas instituições e práticas são racionais seria necessariamente capaz de regular seus conflitos a partir da capacidade de exigir dos sujeitos a explicitação de suas razões para agir e a avaliação de tais ações a partir da procura do melhor argumento. Ou seja, a razão nos permitiria orientar nossas ações a partir do consenso possível produzido pela procura do melhor argumento.

Uma posição como esta, no entanto, só pode produzir niilismo e violência. Pode parecer paradoxal afirmar que a organização dos conflitos a partir da expectativa de diálogo produza necessariamente niilismo e violência, afinal aprendemos que o diálogo é exatamente o inverso da violência, que ele é seu melhor antídoto. Mas talvez devamos assumir que há uma violência implícita no diálogo.

O filósofo francês Jacques Derrida lembrava, com propriedade, que não há nada mais violento do que dizer: "posso ouvir suas considerações, posso levar em conta o que você tem a dizer, mas desde que você fale a minha língua".

Esta "minha língua" não é exatamente a língua que falo agora, mas algo mais determinante, a saber, o conjunto de valores, a gramática que organiza minha sintaxe, a compreensão do que é um enunciado válido ou não.

Para dialogar é necessário pressupor uma gramática comum. Mais do que isto. É necessário pressupor que todos os conflitos e todas as posições conflitantes farão sempre referência à mesma gramática comum.

No entanto, talvez o problema esteja exatamente neste ponto. Pois e se boa parte de nossos conflitos visassem exatamente mostrar que não há uma gramática comum no interior da vida social? Que quando nos digladiamos a respeito do que significa "liberdade", "justiça" não temos uma gramática comum na qual nos apoiarmos, pois estamos ligados, pois somos legatários de experiências históricas muito distintas?

Nossas sociedades não são só momentaneamente antagônicas. Não estamos simplesmente divididos e voltaremos a nos unir assim que as paixões se arrefecerem. Nossas sociedades são estruturalmente antagônicas e a divisão é sua verdade. Pois julgamos a partir da adesão a formas de vida e o que nos distingue são formas diferente de vida. Não queremos as mesmas coisas, não temos as mesmas histórias.

Neste ponto, há os que dirão que esta é a maior prova de que precisamos de sociedades baseadas no respeito a diferença. Sendo sociedades antagônicas, devemos neutralizar os combates e construir uma forma de convivência entre as diferenças.

Mas o que fazer quando temos aqueles que defendem a tortura, que exaltam ditaduras militares (e, por favor, que não venha pela enésima vez dizer: "mas, e Cuba?".

Há muitos de esquerda que não compactuam com regimes degenerados como o cubano) ou que naturalizam a espoliação social das mulheres? Há de se respeitar esta "diferença"? Mas você realmente acredita que podemos resolver tais diferenças por meio do diálogo?

Neste ponto, seria importante lembrar que nem todos os modos de circulação da linguagem se resumem ao diálogo e à comunicação.

A palavra que circula na experiência estética do poema, na experiência analítica da clínica e mesmo nas conversões de toda ordem não argumenta nem comunica. Ela instaura, ela mobiliza novos afetos e desativa antigos, ela reconstrói identificações, em suma, ela persuade com uma persuasão que não se resume a explicitação de argumentos, e isto vale também para os verdadeiros embates políticos.

O que nos falta não é diálogo, mas encontrar a palavra nesta sua força instauradora.

Triste é a sociedade que vê nesta persuasão a explosão da irracionalidade, pois ela conhece apenas um conceito de razão baseado em dicotomias que remetem, ao fim, a distinção metafísica entre o corpo e a alma. Um conceito pré-pascaliano de razão. Pois há de se lembrar de Pascal, para quem: "o coração conhece razões que a razão desconhece". A frase foi muito usada e gasta, mas a ideia era precisa. Compreender circuitos de afetos não é calar a razão, mas ampliá-la.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Faz parte da retórica neoliberal dizer que, diante dos choques de austeridade, não há escolhas.

O mantra é sempre o mesmo, independente da latitude, a saber, os gastos públicos estão descontrolados, é necessário assumir o princípio de realidade e aceitar que o Estado não pode tudo. Por isso, todos devem fazer esforços para sairmos da tormenta "cortando na carne". Foram medidas "populistas" que nos levaram a tal descalabro, agora é necessário ser responsável.

O alvo privilegiado nesses casos costuma ser a Previdência e o sistema de seguridade social. No sistema neoliberal ideal não haveria segurança social, todos estariam em perpétua dependência das relações de força do mercado, tendo que se adaptar às exigências de flexibilidade, de "inovação", de intensificação dos regimes de trabalho e diminuição tendencial dos salários.

Por isso, a Previdência é o alvo de uma espécie de reforma infinita. Ou seja, ela nunca terminará até que a própria Previdência seja extinta. Pois o objetivo é criar o Estado do mal-estar social, no qual governar é gerir a população através do medo do colapso econômico individual, já que não haveria mais nenhuma forma de amparo do Estado.

A maior prova de que estamos diante de uma reforma infinita é a história. Só no caso brasileiro, esta é a terceira reforma da Previdência em 20 anos. A primeira foi em 1998, com FHC. Depois, tivemos a reforma de 2003, uma das primeiras ações do governo Lula.

Agora, a pérola apresentada pelo governo, que aumenta para 65 anos a idade mínima de aposentadoria, iguala a idade de aposentadoria entre homens e mulheres (bem, que o desgoverno Temer tem problema com as mulheres não é exatamente uma novidade), e, esta é realmente de cair da cadeira, estabelece 49 anos de contribuição para a aposentadoria integral.

Ou seja, para ter aposentadoria integral com 65 anos, é necessário começar a trabalhar aos 16 anos e ter contribuído com a Previdência de forma ininterrupta. Como em várias regiões do Brasil a expectativa de vida não chega a 65 anos, a contribuição previdenciária será, para boa parte das pessoas, uma pura e simples forma de espoliação de seus rendimentos, já que elas morrerão antes de se aposentar.

Nesse contexto, o banqueiro Meirelles, capitão-mor da oligarquia financeira, lembrou que a maioria dos países da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) estabelece 65 anos como idade mínima para aposentadoria.

Como a honestidade intelectual não é exatamente forte nesses debates, ele esqueceu de lembrar que estamos a falar de países nos quais a expectativa de vida é, em média, de 80 anos, diferente do caso brasileiro (75 anos).

Por sua vez, o sistema de saúde desses países permite que sua população tenha uma vida saudável mais longa do que a brasileira, cuja média, vejam só vocês, é 65 anos e meio.

No entanto, como todos sabemos, diante de dados dessa natureza, ouve-se atualmente a "evidência" de que o Estado brasileiro está quebrado e que a economia está em sua pior recessão.

O argumento por trás é que, diante da crise econômica, se deve obrigar cidadãos e cidadãs a trabalharem o máximo possível, com o mínimo de direitos.

Você não ouvirá nada, mas absolutamente nada, sobre um fato que deixou estarrecido não uma revista de intelectuais comunistas, mas o jornal norte-americano "The New York Times".

Lembrando que o Brasil vive uma hemorragia de empregos e empobrecimento de sua população, o jornal lembra que "nem todo mundo está sofrendo": o Poder Judiciário foi contemplado com R$ 41 bilhões a mais, a Assembleia Legislativa do Tucanistão aprovou aumento de 26% dos salários dos deputados, e o governo continua a gastar mais de R$ 400 bilhões com uma dívida pública nunca auditada. Dinheiro que vai para o sistema financeiro e a elite rentista.

Triste que indignações dessa natureza sejam mais fáceis de encontrar em uma mídia norte-americana do que na imprensa brasileira.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Nunca na história da República o Congresso Nacional  tão contrária aos interesses da maioria do povo brasileiro de forma tão sorrateira. A terceirização irrestrita aprovada nesta semana cria uma situação geral de achatamento dos salários e intensificação dos regimes de trabalho, isto em um horizonte no qual, apenas neste ano, 3,6 milhões de pessoas voltarão à pobreza.

Estudos sobre o mercado de trabalho demonstram como trabalhadores terceirizados ganham, em média, 24% menos do que trabalhadores formais, mesmo trabalhando, em média, três horas a mais do que os últimos. Este é o mundo que os políticos brasileiros desejam a seus eleitores.

Nenhum deputado, ao fazer campanha pela sua própria eleição em 2014, defendeu reforma parecida. Ninguém prometeu a seus eleitores que os levariam ao paraíso da flexibilização absoluta, onde as empresas poderão usar trabalhadores de forma sazonal, sem nenhuma obrigatoriedade de contratação por até 180 dias. Ou seja, esta lei é um puro e simples estelionato eleitoral feito só em condições de sociedade autoritária como a brasileira atual.

Da lei aprovada nesta semana desaparece até mesmo a obrigação da empresa contratante de trabalho terceirizado fiscalizar se a contratada está cumprindo obrigações trabalhistas e previdenciárias. Em um país no qual explodem casos de trabalho escravo, este é um convite aberto à intensificação da espoliação e à insegurança econômica.

Ao menos, ninguém pode dizer que não entendeu a lógica da ação. Em uma situação na qual a economia brasileira está em queda livre, retirar direitos trabalhistas e diminuir os salários é usar a crise como chantagem para fortalecer o patronato e seu processo de acumulação. Isto não tem nada a ver com ações que visem o crescimento da economia. Como é possível uma economia crescer se a população está a empobrecer e a limitar seu consumo?

Na verdade, a função desta lei é acabar com a sociedade do emprego. Um fim do emprego feito não por meio do fortalecimento de laços associativos de trabalhadores detentores de sua própria produção, objetivo maior dos que procuram uma sociedade emancipada. Um fim do emprego por meio da precarização absoluta dos trabalhos em um ambiente no qual não há mais garantias estatais de defesa mínima das condições de vida. O Brasil será um país no qual ninguém conseguirá se aposentar integralmente, ninguém será contratado, ninguém irá tirar férias. O engraçado é lembrar que a isto alguns chamam "modernização".

De fato, há sempre aqueles dispostos à velha identificação com o agressor. Sempre há uma claque a aplaudir as decisões mais absurdas, ainda mais quando falamos de uma parcela da classe média que agora flerta abertamente com o fascismo. Eles dirão que a flexibilização irrestrita aumentará a competitividade, que as pessoas precisarão ser realmente boas no que fazem, que os inovadores e competentes terão seu lugar ao sol. Em suma, que tudo ficará lindo se deixarmos livre a divina mão invisível do mercado.

O detalhe é que, no mundo dessas sumidades, não existe monopólio, não existe cartel, não existem empresas que constroem monopólios para depois te fazer consumir carne adulterada e cerveja de milho, não existe concentração de renda, rentismo, pessoas que nunca precisarão de fato trabalhar por saberem que receberão herança e patrimônio, aumento da desigualdade. Ou seja, o mundo destas pessoas é uma peça de ficção sem nenhuma relação com a realidade.

Mas nada seria possível se setores da imprensa não tivesse, de vez, abandonado toda ideia elementar de jornalismo.

Por exemplo, na semana passada o Brasil foi sacudido por enormes manifestações contra a reforma da previdência. Em qualquer país do mundo, não haveria veículo de mídia, por mais conservador que fosse, a não dar destaque a centenas de milhares de pessoas nas ruas contra o governo. A não ser no Brasil, onde não foram poucos os jornais e televisões que simplesmente agiram como se nada, absolutamente nada, houvesse acontecido. No que eles repetem uma prática de que se serviram nos idos de 1984, quando escondiam as mobilizações populares por Diretas Já!. O que é uma forma muito clara de demonstrar claramente de que lado sempre estiveram. Certamente, não estão do lado do jornalismo.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
A filosofia no Brasil conheceu, dentre vários trajetos que merecem ser lembrados, uma experiência intelectual singular e terminada de forma abrupta em pleno desenvolvimento criativo. Há dez anos, falecia Bento Prado Júnior, certamente um dos filósofos mais representativos e originais que o país conheceu.

Gilles Deleuze costumava dizer que toda verdadeira experiência filosófica é a elaboração sistemática de apenas um problema. Este problema não estará lá para ser respondido, mas para produzir novas questões, para levar seu enunciador a procurar reconstituir formas de pensar, a dissolver divisões, a impulsionar a inquietude.

Ou seja, a verdadeira experiência filosófica é indissociável da capacidade de saber de fato ouvir um problema, de deixá-lo desdobrar lentamente sem ter medo de que tal tempo de desdobramento acabe por nos mudar profundamente. Pois um problema por muito tempo aberto é um território de placas tectônicas em movimento contínuo.

Poucos foram os filósofos entre nós fieis a tal ideia como Bento Prado Júnior. Seu primeiro trabalho fora uma tese de doutorado dedicada a Henri Bergson –"Presença e Campo Transcendental: Consciência e Negatividade na Filosofia de Henri Bergson" (Edusp, 1988, mas escrita em 1964).

Nela, já estava presente não apenas o problema que lhe animaria por toda sua vida intelectual, mas também sua estratégia singular e completamente inesperada. O problema foi por ele próprio enunciado: "Que seria ser si mesmo? Se a pergunta tem sentido, como pode articular-se com o ser outro: outros "si-mesmos", o Mundo, Deus, se tais entidades existem ou in-sistem em ex-sistir?".

Que seria ser si mesmo? O que significa falar na primeira pessoa? Mas, principalmente, que alteridade tal afirmação de si implica? Sim, porque há uma alteridade lá onde acreditava encontrar apenas o que me é "próprio".

Esta é talvez a alteridade mais difícil de apreender, mesmo que seja a mais necessária a desvelar. No momento em que a filosofia colocava em questão as certezas do sujeito, questionava os pressupostos das filosofias da consciência, Bento Prado procurava ouvir as explosões que a noção de "si mesmo" porta.

Enquanto alguns anunciavam a morte do sujeito, Bento Prado sabia encontrar diferença lá onde outros só viam identidade. O que não poderia ser diferente para alguém que dirá: "a intenção última é a de introduzir um mínimo de negatividade no debate acadêmico, revelando o que há de frágil na segurança moral-ideológica que está em sua base mais funda".

Daí seu interesse em produzir uma filosofia capaz de construir quiasmas com discursos do descentramento e do atravessamento de si, como a psicanálise e a literatura moderna. Bento não foi apenas o responsável por desenvolver entre nós uma certa liberdade da filosofia em relação a seus objetos, problemas e tradição (afinal, será difícil encontrar alguém capaz de colocar em debate Wittgenstein e Deleuze, Searle e Merleau-Ponty). Ele foi quem serviu-se desta liberdade para fazer perguntas como: O que é uma filosofia que ouve a linguagem bruta de Guimarães Rosa? O que é uma filosofia que se pergunta pela opacidade do inconsciente?

Sua obra posterior, composta principalmente de dois livros lançados em vida, "Alguns Ensaios" (Paz e Terra, 2000) e "Erro, Ilusão, Loucura" (Editora 34, 2004) e do póstumo "A Retórica de Rousseau e Outros Ensaios" (Organizado por Franklin de Mattos para Cosac e Naify, 2008) indicava a consolidação de um caminho que visava redundar em três obras que Bento Prado prepara no momento de sua morte, "Ipseitas", "Actio" e "Contemplatio".

A primeira seria sobre a teoria do sujeito, a segundo sobre suas manifestações ético-políticas e a terceira sobre poesia e metafísica. Destas, apenas a primeira começou a ser esboçada. Seus manuscritos, já em estado avançado, serão enfim publicados dentro de três meses pela Editora Autêntica.

Que esta seja uma ocasião para nós recuperarmos um dos momentos mais expressivos da inteligência nacional e de sua força especulativa. Que não sejamos um país que desconsidera sistematicamente a originalidade de suas próprias ideias.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Uma das ideias fundamentais da política moderna é a noção de representação. Aprendemos a compreender o espaço político como um espaço de conflitos organizado a partir de uma dinâmica específica de constituição de atores.

Essa dinâmica estaria necessariamente ligada aos processos de representação. Assim, só poderiam participar do campo de conflitos políticos aqueles que se submeteram à representação, ou seja, aqueles que representam algo, que falam em nome de um lugar que representam, seja esse lugar um grupo, um setor de interesses, um partido, uma associação. Em suma, o pressuposto central aqui é: uma multiplicidade não se apresenta de forma imediata; ela só pode existir como algo representado.

Várias consequências se seguem daí. Por exemplo, dentro dessa visão, uma sociedade plural seria aquela que permitisse a emergência de vários representantes e representações ao mesmo tempo. Quanto mais representações diversas, mais plural a sociedade. No entanto, por mais diversas que tais representações sejam, elas devem partilhar algumas coisas em comum. Pois a representação tem suas regras, tem seus modos de contagem, tem sua gramática, tem seus acordos. Aceitar sua gramática significa aceitar como as lutas se darão, em qual espaço, como os conflitos serão resolvidos.

Nesse sentido, existir politicamente é, ao menos para tal forma de pensar, aceitar se submeter a essas regras, modos de contagem, gramáticas e acordos. A essa submissão chamamos normalmente "democracia".

Mas o que aconteceria se abandonássemos a noção de representação? Não são poucos os que clamam o caos completo, a tirania, a desordem e todas as figuras imagináveis da catástrofe. Um pouco como esses cartógrafos medievais que desenhavam o mundo até certo ponto e depois dele colocavam monstros e abismos. Maneira de levar os navegadores a não querer ir mais longe.

No entanto gostaria de insistir que a representação é hoje um arcaísmo político que visa apenas nos afastar de uma democracia real. Na verdade, quem a defende, seja à direita ou à esquerda, encontra nela um bom álibi para esconder seus desejos de controle, para filtrar a sociedade construindo uma imagem da emergência popular mais fácil de controlar. Pois, definindo as condições de representação, sou capaz de controlar a fronteira entre a existência e a inexistência política. Mas a verdadeira tarefa política hoje não é consolidar mecanismos de controle. É criar uma sociedade descontrolada.

Pensemos um pouco a respeito de dois pontos.

Primeiro, temos atualmente todas as condições técnicas para criar uma sociedade de deliberação contínua baseada em uma democracia digital. Em sociedades que têm nível quase total de conexão virtual, não há mais dificuldades técnicas para imaginar processos decididos por meio de uma espécie de ágora virtual.

Quando falamos isso, sempre há os que dizem: mas como passar decisões técnicas sobre Orçamento, gastos, etc. para um povo despreparado e desinteressado? Como se nossos políticos fossem a imagem mais acabada do preparo e do conhecimento. No entanto, há de se lembrar que o desinteresse popular é diretamente proporcional à consciência da irrelevância de sua opinião. Ou seja, desinteresso-me porque sei que, no fundo, minha opinião não conta, que nada vai mudar. Quando percebo-me de fato investido de poder de decisão e influência, um processo de transformação subjetiva começa a ocorrer.

Por outro lado, lembremos como durante um bom tempo houve um embate entre dois modelos de democracia: um baseado no sufrágio universal e outro baseado no acaso, quer dizer, baseado na escolha de cidadãs e cidadãos ao acaso para desempenhar funções públicas.

Esse segundo modelo era muito mais imanente do que o primeiro. O que significaria, por exemplo, se os membros do Senado fossem escolhidos ao acaso dentre a generalidade de cidadãs e cidadãos brasileiros, evitando com isto a constituição de uma casta profissional de políticos que acabarão por pensar apenas em sua própria sobrevivência? Afinal, queremos lutar para "melhorar" a representação ou para fazer emergir outra forma de democracia?
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"O que temos no Brasil não é um negócio de cinco, dez anos. Estamos falando de 30 anos atrás". Foi bom, Emílio Odebrecht, que você tenha lembrado disso em sua delação premiada. Pois durante os últimos anos o povo brasileiro teve que assistir ao espetáculo patético de corruptos com ares de indignação cívica acusando corruptos, torcedores de corruptos saindo às ruas para clamar contra a corrupção.

Tudo isto para chegar neste momento catártico e todos os lados da Nova República serem expostos em suas relações incestuosas com o empresariado nacional.

O ilibado e endeusado pela imprensa local Fernando Henrique Cardoso, o defensor dos oprimidos Lula, o santo Alckmin, a guerrilheira Dilma, o indignado Aloysio Nunes, seu amigo e presidente natural Serra, os operadores do PT, os operadores do PSDB, os negociadores do PMDB, os trânsfugas da ditadura do DEM: em suma, toda a fauna da casta política brasileira no mesmo banco dos réus.

Os mesmos que ocupam os espaços na imprensa para pregar austeridade e destruição dos direitos dos trabalhadores são os que pilharam os cofres públicos de forma aberta e sem pudores. Os mesmos que exigem dos trabalhadores que trabalhem 49 anos para se aposentar de forma integral deram ao Brasil a honra de ter 24 de seus 81 senadores como alvo de inquérito no STF.

Os mesmos que fecham escolas e deixam apodrecer universidades sentavam à mesa fausta das negociações e levavam para casa milhões de reais.

Desde o aparecimento da primeira ponta do iceberg do esquema do mensalão, isto nos idos de 2004, tudo estava claro para quem quisesse ver.

O "maior esquema de corrupção da República" tinha sido simplesmente reciclado pelos novos inquilinos do poder a partir, como disse o patriarca Odebrecht, do business usual dos últimos 30 anos.

O mais cômico era ouvir aqueles que tentavam diferenciar os ocupantes do poder por "intensidade" de corrupção: "Não, mas este corrompeu muito mais". "Mas em relação a este são só ilações, é só tentativa de jogar todo mundo na lama para relativizar tudo".

É, meus amigos, o Brasil conhece como ninguém o cinismo dos que sabem muito bem, mas mesmo assim agem como se não soubessem.

Diante disto, poucas foram as vozes que se perguntaram: mas como chegamos até aqui? De onde veio a opacidade do Estado brasileiro e seu desprezo pela presença da soberania popular, único esteio real contra a corrupção dos entes privados? Será que há mesmo uma zona cinzenta de amoralidade em toda forma de governo a respeito da qual não é possível fazer nada?

No entanto, a maioria preferiu o jogo miserável de gritar "corrupto" enquanto abraçava seu corrupto do coração.

Melhor teria sido começar por se questionar sobre as relações incestuosas entre governos e empresariado que fazem do Estado brasileiro um Estado privado. Um Estado que serve para socializar as perdas do empresariado, transformando suas dívidas em dívidas públicas, que serve para rentabilizar o dinheiro ocioso de seus banqueiros enquanto joga a polícia para cima de seus trabalhadores.

Agora, aparecem os oportunistas de plantão com os mesmos truques de sempre. O nome da vez é o Sr. Doria. O mesmo que gostava de gritar para seus desafetos: "Vá para Curitiba", enquanto devia R$ 90 mil de IPTU para o município e cujas empresas receberam aportes de R$ 10,6 milhões de vários governos nos últimos anos.

Não, certamente não se trata de mais um caso de relações incestuosas entre empresariado e governos.

Diante da exposição produzida pela chamada "delação do fim do mundo", só gostaria de lembrar, como disse o filósofo francês Patrice Maniglier, que "outro fim do mundo é possível".

Que isto sirva principalmente à esquerda brasileira. Eis o resultado do seus "grandes operadores" e de seus "conciliadores que garantiriam uma transformação social segura".

Melhor teria sido lembrar que à esquerda só há um caminho possível: a mais austera virtude jacobina em relação ao bem comum e a recusa completa em operar no interior desta "governabilidade".

Sim, que este mundo acabe o mais rápido possível. Toda a história da Nova República só poderia acabar mesmo nesta confissão explícita de fracasso nacional. Que este trauma nos sirva de lição.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Você deixaria o seu futuro e o futuro de seus filhos ser decidido por criminosos ou por pessoas com fortes suspeitas de crimes? Pois é isso que está acontecendo agora.

Questões fundamentais para o seu futuro, como o sistema de aposentadorias e as leis trabalhistas, estão sendo decididas por pessoas indiciadas na participação em crimes milionários ou que são réus em ações penais correndo no STF. Só na última lista da Lava Jato são 24 senadores e 39 deputados indiciados, inclusive os atuais presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Além disto, quatro senadores e 50 deputados respondem atualmente por ações penais no STF.

Como se isso fosse pouco, ficou claro como todo o sistema político-eleitoral brasileiro é a expressão de uma máquina criminosa de financiamento visando preservar uma oligarquia cuja maior função é defender interesses de seus financiadores. Isso não é uma democracia, mas uma simples plutocracia violenta, com um braço policial descontrolado, que vê agora desnudada suas redes de corrupção e cooptação.

O mesmo presidente da Câmara, sr. Rodrigo Maia, que afirmava há alguns dias que a Justiça do Trabalho não deveria nem sequer existir, foi acusado por um delator da Odebrecht de receber R$ 350 mil diretamente em casa. Como alguém com tais acusações nas costas, em qualquer reles democracia liberal no mundo, poderia continuar presidindo a Câmara e decidindo modificações constitucionais?

Depois que o país viu exposto o grau de corrupção de seu sistema, toda e qualquer legitimidade de seus Poderes, em especial o Legislativo e o Executivo (já que do Judiciário até agora a população brasileira não teve o direito de saber nada), acabou.

Independentemente de ser um sistema presidencialista ou não, o mínimo a fazer seria dissolver esse Congresso, parar toda tramitação de qualquer tipo de emenda constitucional e discutir a única coisa que realmente importa agora, a saber, a reinstauração da institucionalidade política brasileira. Esse Congresso não existe mais.

No entanto, de nada adiantam novas eleições, pois o que está em questão não são apenas os ocupantes atuais do poder mas o caráter completamente farsesco do que se convencionou chamar de "democracia" no Brasil.

É certo que estes indiciados e réus procurarão se defender dizendo serem "representantes" do povo. Mas, se 93% do povo é contrário à reforma previdenciária tal como está, e 80% contrário à terceirização irrestrita (Instituto Vox Populi), então quem exatamente essas pessoas "representam"? Como é possível que a vontade da maioria seja "representada" por algo que não é a vontade da maioria? Na verdade, esse sistema é claramente um mero processo de "espoliação da vontade".

De toda forma, talvez seja o caso de lembrar que a soberania popular, o único fundamento possível de um regime democrático, não se representa. Um povo livre nunca delega sua soberania para quem quer que seja. Ele a conserva sempre junto a si. Passar sua soberania para outro é perdê-la. É como passar minha vontade a um outro e esperar que a vontade de um outro tenha alguma forma de identidade absoluta com a minha. Nem no amor isso é possível, quanto mais na política.

Deputados, presidentes não são "representantes" do povo. No máximo, eles são seus "comissários", como dizia Jean-Jacques Rousseau. Por isso, uma verdadeira democracia deveria ter, ao lado dos Poderes Executivo e Legislativo, a figura da assembleia popular a ratificar leis e apor seu aceite ou sua recusa. O povo deve ter as estruturas institucionais que lhe permitam continuamente se defender de quem procura lhe usurpar o poder.

Alguns dirão que questões econômicas são muito complexas para serem decididas pela soberania popular. No que eles mostram como seu conceito de governo não é uma democracia, mas uma tecnocracia. Só que as tecnocracias que conhecemos atualmente são tecnocracias da catástrofe, responsáveis normalmente pela pauperização crescente da população.

Contra isso, há de sempre se lembrar: quem paga a orquestra escolhe a música. Mas no caso brasileiro a pergunta que fica é: quem paga atualmente a orquestra?
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Segundo pesquisa recente feita pela consultoria Ipsos, 92% das brasileiras e brasileiros acreditam que o país está no rumo errado. No entanto, para quem ocupa atualmente o poder, estas pessoas não contam, a opinião delas é irrelevante. Para eles, a maioria absoluta da população brasileira deve ser tratada como crianças que se recusam a tomar "um remédio amargo" que, no entanto, seria necessário. Isto fica ainda mais evidente quando somos obrigados a ouvir alguns "analistas" a dizer que o governo deveria aproveitar a oportunidade de sua alta taxa de rejeição e impopularidade e "fazer as reformas de que o Brasil tanto precisa".

É sintomático que o caráter totalitário de afirmações desta natureza não provoque imediata indignação em alguns. Pois a pressuposição fundamental aqui é que a população seria irracional, incapaz de criar julgamentos a respeito de coisas que lhe concernem imediatamente, como leis de trabalho e Previdência. Por isto, o melhor governo seria aquele que não se preocupa com sua aceitação popular.

Se assim for, melhor definir governos por decreto. Pois essa pressuposição procura legitimar a crença de que não haveria de se ouvir diretamente o povo, pois o povo seria apenas uma somatória de interesses individuais ou de grupos e corporações facilmente manipulável, principalmente em momentos de crise. Caberia ao governo e a seus tecnocratas pensarem no interesse supremo do país e impor um duro processo de sacrifício que nos redimirá ao final.

É desta forma que o governo e os "analistas" que o apoiam a mando do sistema financeiro nacional procuram simplesmente se legitimar contra o povo, operar no interior de uma verdadeira guerra civil simbólica, retirando a existência do povo como sujeito político capaz de decisão. Os "representantes" do povo, de forma sintomática, acreditam saber melhor do que seus representados o que é realmente necessário para eles.

Contra esse tipo de arrogância do poder, a greve geral foi criada. Ela é a mais legítima de todas as manifestações políticas, pois, no seu cerne, está a recusa em se deixar desaparecer. Ela é a maneira profunda que o povo tem de dizer: "Nós existimos". Nós existimos como sujeitos, como os verdadeiros soberanos.

Quando os que ocupam o poder tentam calar a população e seu descontentamento explícito, ela deve então mostrar sua força de destituição. A paralisação da produção e do movimento, os aviões que ficam no solo, os ônibus que não circulam mais, as escolas fechadas, os bancos lacrados são a forma suprema de um poder de dizer "não", o mesmo poder que Maquiavel compreendia como definidor do povo, já que o povo sempre emerge ao dizer que não quer ser oprimido pelos grandes.

A greve geral que ocorre nesta sexta (28) não é a manifestação de força de um partido ou grupo político. Ela faz pouco caso dos embates eleitorais que parecem ser o único interesse real da casta política. Ela é fruto da revolta contra a invisibilidade, contra a inexistência.

Há um poder que quer nos jogar à inexistência para impor melhor um programa que, até agora, foi capaz de mandar de volta, somente neste ano, 3,6 milhões de pessoas à pobreza, enquanto conseguia conservar intactos os rendimentos e benefícios da elite rentista.

Esse poder quer nos fazer acreditar que é melhor para nós que, no interior de relações trabalhistas, o negociado prevaleça sobre o legislado, mesmo quando o negociado implique perda de direitos garantidos pela CLT.

Ele nos acha suficientemente estúpidos para acreditar haver ganho no fato de a trabalhadora gestante poder, agora, trabalhar em ambiente insalubre, de o empregado poder ser obrigado a ter apenas meia hora de almoço por dia, mesmo se trabalhar 12 horas; ou ainda, de haver ganho na introdução do contrato de jornada intermitente, no qual o trabalhador recebe apenas pelas horas efetivamente trabalhadas, mesmo que seja obrigado a ficar à disposição do empregado por tempo indeterminado.

Ou seja, em um exercício primário de sofistaria, alguns dizem: "como é possível que uma legislação de décadas (no caso, a CLT) possa garantir um mercado de trabalho 'moderno'". Bem, melhor se defender daqueles cujo conceito de 'modernidade' implica retornar às condições de trabalho do século 19. Contra esta regressão social primária, o Brasil irá parar.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"Os livros que são exemplares para nós foram, inicialmente, não livros, narrativas erráticas, monstros sem coluna vertebral". É com afirmações dessa natureza que se inicia "O Fio Perdido: Ensaios sobre a Ficção Moderna", de Jacques Rancière (Martins Fontes, R$ 39, 152 págs). Lançado em 2013, o livro recebe agora edição brasileira. Seu autor, um dos principais filósofos da atualidade, segue há anos de forma extensiva um projeto singular, a saber, expor as relações entre emancipação social e modificações nas estruturas da sensibilidade, ou ainda, modificações naquilo que o filósofo chama de "partilha do sensível".

Tal projeto fez do trabalho de Rancière nas últimas décadas uma reflexão sistemática sobre a força de transformação social da estética e das artes, sobre sua maneira de, ao reconstituir os campos de nossa sensibilidade, permitir a emergência de "uma nova forma individual e coletiva de vida", como ele mesmo dissera em outro texto. Pois essas decisões que uma obra de arte produz a respeito dos modos de partilha do sensível, decisões essas que falam dos modos de recortar o tempo e o espaço, de instaurar o visível e o invisível, o perceptível e o imperceptível, não poderiam ser indiferentes à maneira com que a vida social, em suas potencialidades de ação e transformação, emerge para nós.

Aristóteles costumava dizer que o que separa a ficção da vida ordinária é a existência de um começo, de um meio e de um fim. Maneira de afirmar que a ficção é o que dá ordem à vida, fornece-lhe uma racionalidade na medida em que define formas de ligação, de sucessão, de coexistência, de hierarquia entre acontecimentos.

Por mais paradoxal que possa parecer, o que chamamos de "ficção" é o que nos fornece as formas do possível e do atual, do contingente e do necessário, do real e do virtual. Pois a ficção nos faz narrar, definindo as estruturas formais para a produção do sentido.

Isso a ponto de Rancière se ver obrigado a lembrar: "Para se constituir como saberes científicos, a história e a ciência social, tiveram de pegar emprestado da poesia o princípio que declara a construção de um encadeamento causal verossímil mais racional que a descrição dos fatos 'como eles acontecem'".

Rancière parte dessa compreensão para se perguntar sobre a experiência imanente, principalmente, a esses romances instauradores da modernidade estética, como "Madame Bovary" e "A Educação Sentimental", de Flaubert, "Lord Jim" e "O Coração das Trevas, de Conrad, ou ainda "Mrs. Dalloway" e "Ao Farol", de Virginia Woolf.

São esses nossos "livros exemplares" que apresentam, ao contrário, uma narrativa errática, sem coluna vertebral. Há algo neles que parece anunciar a emergência de um mundo de objetos não mais submetidos a uma ordem causal, de sujeitos cujas ações parecem aberta às contingências e que, por isso, expõem a falência contínua da ação estratégica, de narrativas nas quais tudo parece igualmente importante ou igualmente insignificante por desconhecer a noção mesma de hierarquia.

Esse mundo, dirá Rancière, é o mundo igualitário da democracia, de uma democracia romanesca que irá, a partir de então, pressionar nossos modos de existência em direção a transformações. Um mundo no qual qualquer um poderia ser atravessado por um "turbilhão de acontecimentos sensíveis impessoais, de uma 'vida da alma' ainda desconhecida". Ele instauraria um espaço de movimento aleatório no qual nem coisas nem sujeitos estariam submetidos ao quadro das funções, dos lugares, dos meios e dos fins. Espaço no qual mesmo coisas e sujeitos perderiam muito de sua distinção, não porque coisificamos sujeitos, mas porque podemos agora ouvir a capacidade de agir das coisas, sua "subjetividade".

Dessa forma, Rancière mostra como a literatura moderna nos ensinou o verdadeiro sentido da igualdade. Pelas mãos de Flaubert e Conrad, a igualdade não se realiza pela construção de espaços homogêneos, mas através da instauração de campos de emergência de acontecimentos sensíveis que podem agir em qualquer um, que podem implicar qualquer um, levando-os a movimentos e gestos impredicados, a transformações de lugares.

Assim, o maior feito da literatura terá sido nos ensinar uma igualdade que é a condição da liberdade, que é o verdadeiro nome da liberdade; dessa liberdade que nos faz mover através de nossa atração pelo que é errático, pelo aberrante.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"Toda nossa época, quer seja pela lógica ou pela epistemologia, quer seja por meio de Marx ou de Nietzsche, tenta escapar de Hegel (...) Mas realmente escapar de Hegel supõe apreciar de maneira exata quanto custa se desvincular dele; supõe saber até onde Hegel, talvez de maneira insidiosa, aproximou-se de nós; supõe saber o que é ainda hegeliano naquilo que nos permite pensar contra Hegel e medir em que nosso recurso contra ele é ainda uma astúcia que ele mesmo nos opõe e ao final da qual ele mesmo nos espera, imóvel".

É difícil não lembrar destas afirmações de Michel Foucault quando se quer resenhar, em 2017, a primeira tradução completa em português de um dos mais importantes livros de Hegel, a saber, o primeiro volume de "A Ciência da Lógica" (Vozes, 461 páginas). Fruto do trabalho coletivo e cuidadoso de Christian Iber, Marloren Miranda, Federico Orsini e Agemir Bavaresco, a obra encontra-se agora acessível em português, mesmo que apenas depois de mais de 200 anos de sua publicação.

Este atraso talvez não deva ser creditado simplesmente à complexidade inegável do texto. Como dizia Foucault, há algo em nossa época que procura escapar de Hegel. Como se fosse o caso de, por meio da resistência a seguir o movimento de seu pensamento, evitar pensar algo que preferiríamos simplesmente continuar sem saber como pensar. Como se a experiência filosófica hegeliana implicasse uma metamorfose categorial estranha a "nossa época".

Pois "uma época" não é apenas um momento histórico marcado por certas formas de organização social, de instituições e sistemas econômicos. Uma época" é uma forma de pensar que se impõe de forma hegemônica produzindo modos específicos de existência e figuras historicamente determinadas da razão. E isso talvez nos explique por que Hegel começa seu livro dizendo o seguinte: "A transformação completa que o modo de pensar filosófico tem sofrido entre nós (...) teve até agora ainda pouca influência na configuração da lógica".

Se "A Ciência da Lógica" começa dessa forma, lembrando como havia uma transformação que parecia não alcançar essas "leis puras do pensamento" que chamamos de "lógica", leis que, aparentemente, seriam a-históricas, atemporais e cuja validade não estaria vinculada a gênese alguma, é para lembrar que a filosofia como crítica só poderia de fato começar quando esse pretenso solo estável desmoronasse.

Para tanto, era necessário, primeiro, lembrar que tais leis puras do pensamento não são metafisicamente neutras. Elas são a expressão de toda uma metafísica que, de maneira insidiosa, se faz passar por forma natural de pensar. Como se Hegel adiantasse em décadas a intuição de Nietzsche, para quem: "Nunca nos desvencilharemos de Deus enquanto acreditarmos na gramática". Pois a gramática define um modo de ser, ela nos diz, por exemplo, que para todo predicado deve haver um sujeito, para todo efeito deve haver uma causa. Ela cria mundos, como Deus.

Assim, a verdadeira filosofia só poderia ser uma crítica das pressuposições que se naturalizaram em nossa forma de pensar. Pressuposições que definem como evidentes distinções entre, por exemplo: forma e conteúdo, essência e aparência, ser e nada, finito e infinito, fundamento e fundado. Mas também pressuposições que se expressam nos princípios de não-contradição, do terceiro excluído, de identidade.

O leitor de "A Ciência da Lógica" é, assim, convidado a acompanhar um movimento por meio do qual todas as categorias centrais da metafísica e da lógica se dissolvem, o ser passa no nada, a qualidade passa na quantidade, o finito descobre-se como momento do infinito. Um movimento que, para Hegel, necessariamente nos retira de "nossa época" por abalar a forma de pensar que a sustenta.

Mas notemos como esta dissolução não é simplesmente negativa. Se exposição de conceitos da metafísica e crítica da metafísica estão juntas no projeto hegeliano é para que o pensamento possa, por meio da apreensão do movimento que denuncia a limitação de conceitos que até então pareciam sólidos, ver uma metamorfose categorial que Hegel chamará de "dialética". Essa metamorfose será, no entanto, o modo de emergência de uma experiência que estará impulsionando o horizonte de toda a ciência da lógica, a saber, a experiência de um conceito renovado de infinito. Conceito impossível de ser pensado nas formas tradicionais do progresso ao infinito, do infinito quantitativo, do sem medida: todas categorias que se dissolverão no decorrer da exposição do pensamento hegeliano. Um conceito de infinito (e este talvez seja o verdadeiro desafio da Ciência da Lógica) a respeito do qual o pensamento contemporâneo ainda necessita se medir.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Devemos obedecer a um governo ilegítimo? Devemos aceitar ordens de quem, de forma explícita, se mostra capaz de servir-se do governo para impedir o funcionamento da Justiça ou para fazer passar leis que contrariam abertamente a vontade da maioria? Essas perguntas devem ser lembradas neste momento. Pois a adesão pontual do povo a seu governo não se dá devido à exigência da lei, mas devido à capacidade dos membros do governo de respeitarem a vontade geral.

Essa capacidade está definitivamente quebrada. Não. Na verdade, ela nunca existiu. Se quisermos ser mais precisos, devemos dizer que apenas se quebrou a última de todas as aparências. O desgoverno Temer não consegue nem sequer sustentar uma aparência de legitimidade. Cada dia a mais desse "governo" é uma afronta ao povo brasileiro. O que nos resta é a desobediência sistemática a todas as ações governamentais até que o "governo" caia.

Temer entrará para a história brasileira não apenas como o primeiro vice-presidente a ter conspirado abertamente contra sua própria presidenta até sua queda final. Ele será lembrado como o primeiro presidente a ser pego operando diretamente casos de tráfico de influência (o caso de seu antigo ministro da Cultura sendo obrigado a liberar uma licença para viabilizar o apartamento de Geddel Vieira) e de pagamento para silenciar presos.

Exatamente no mesmo momento em que esse senhor exigia do povo brasileiro "sacrifícios" ligados à destruição de condições mínimas de trabalho e garantia previdenciária ele pedia ao dono da Friboi que continuasse a dar mesada para presos ficarem calados. O mesmo que entregará o país com 14 milhões de desempregados e mais 3,6 milhões de pobres garantiu lucros recordes para os bancos brasileiros no último trimestre.

Agora, alguns acham que o Brasil deve seguir então "os procedimentos legais" e empossar o investigado Rodrigo Maia para que convoque uma eleição indireta para presidente.

De todos os disparates nesta República oligárquica, este seria o maior de todos. Em um momento como o atual, o país não deve recorrer a leis claramente inaceitáveis, ainda mais se levarmos em conta a situação em que vivemos. Afinal, como admitir que um presidente seja escolhido por um Congresso Nacional de indiciados e réus, fruto de um sistema incestuoso de relações entre casta política e empresariado que agora vem à tona?

Uma das bases da democracia é não submeter a soberania popular nem a decisões equivocadas feitas no passado, nem a instituições aberrantes. O povo não é prisioneiro dos erros do passado, mas sua vontade é sempre atual e soberana. Ele pode desfazer as leis que ele mesmo fez e destituir instituições que se mostram corrompidas.

Por essa razão, o único passo na direção correta seria a convocação extraordinária de eleições gerais, com a possibilidade de apresentação de candidaturas independentes, para que aqueles que não se sentem mais representados por partidos possam também ter presença política.

Que o Brasil entenda de um vez por todas: em situações de crise, não há outra coisa a fazer do que caminhar em direção ao grau zero da representação, convocar diretamente o povo e deixá-lo encontrar suas próprias soluções. Toda democracia é um "kratos" do "demos", ou seja, o exercício de uma força ("kratos") própria ao povo em assembleia. Essa é a única força que pode abrir novos horizontes neste momento.

Pois que não se enganem. Como já dissera anteriormente neste espaço, Temer não existe. Esse operador dos escaninhos do poder, acostumado à sombras e aos negócios escusos, sempre foi politicamente ninguém.

Quem governa efetivamente é uma junta financeira que procura reduzir o Estado brasileiro a mero instrumento de rentabilização de ativos da elite patrimonialista e rentista. A mesma junta que impõe ao país "reformas" que visam destruir até mesmo a possibilidade de se aposentar com uma renda minimamente digna. Ela tentará continuar no governo independentemente de quem seja o manobrista no Palácio do Planalto. Ela tentará o velho mote: "Tudo mudar para que nada mude". Mas, para isso, precisará deixar o povo afastado de toda decisão política.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Devemos obedecer a um governo ilegítimo? Devemos aceitar ordens de quem, de forma explícita, se mostra capaz de servir-se do governo para impedir o funcionamento da Justiça ou para fazer passar leis que contrariam abertamente a vontade da maioria? Essas perguntas devem ser lembradas neste momento. Pois a adesão pontual do povo a seu governo não se dá devido à exigência da lei, mas devido à capacidade dos membros do governo de respeitarem a vontade geral.

Essa capacidade está definitivamente quebrada. Não. Na verdade, ela nunca existiu. Se quisermos ser mais precisos, devemos dizer que apenas se quebrou a última de todas as aparências. O desgoverno Temer não consegue nem sequer sustentar uma aparência de legitimidade. Cada dia a mais desse "governo" é uma afronta ao povo brasileiro. O que nos resta é a desobediência sistemática a todas as ações governamentais até que o "governo" caia.

Temer entrará para a história brasileira não apenas como o primeiro vice-presidente a ter conspirado abertamente contra sua própria presidenta até sua queda final. Ele será lembrado como o primeiro presidente a ser pego operando diretamente casos de tráfico de influência (o caso de seu antigo ministro da Cultura sendo obrigado a liberar uma licença para viabilizar o apartamento de Geddel Vieira) e de pagamento para silenciar presos.

Exatamente no mesmo momento em que esse senhor exigia do povo brasileiro "sacrifícios" ligados à destruição de condições mínimas de trabalho e garantia previdenciária ele pedia ao dono da Friboi que continuasse a dar mesada para presos ficarem calados. O mesmo que entregará o país com 14 milhões de desempregados e mais 3,6 milhões de pobres garantiu lucros recordes para os bancos brasileiros no último trimestre.

Agora, alguns acham que o Brasil deve seguir então "os procedimentos legais" e empossar o investigado Rodrigo Maia para que convoque uma eleição indireta para presidente.

De todos os disparates nesta república oligárquica, este seria o maior de todos. Em um momento como o atual, o país não deve recorrer a leis claramente inaceitáveis, ainda mais se levarmos em conta a situação em que vivemos. Afinal, como admitir que um presidente seja escolhido por um Congresso Nacional de indiciados e réus, fruto de um sistema incestuoso de relações entre casta política e empresariado que agora vem à tona?

Uma das bases da democracia é não submeter a soberania popular nem a decisões equivocadas feitas no passado, nem a instituições aberrantes. O povo não é prisioneiro dos erros do passado, mas sua vontade é sempre atual e soberana. Ele pode desfazer as leis que ele mesmo fez e destituir instituições que se mostram corrompidas.

Por essa razão, o único passo na direção correta seria a convocação extraordinária de eleições gerais, com a possibilidade de apresentação de candidaturas independentes, para que aqueles que não se sentem mais representados por partidos possam também ter presença política.

Que o Brasil entenda de um vez por todas: em situações de crise, não há outra coisa a fazer do que caminhar em direção ao grau zero da representação, convocar diretamente o povo e deixá-lo encontrar suas próprias soluções. Toda democracia é um "kratos" do "demos", ou seja, o exercício de uma força ("kratos") própria ao povo em assembleia. Essa é a única força que pode abrir novos horizontes neste momento.

Pois que não se enganem. Como já dissera anteriormente neste espaço, Temer não existe. Esse operador dos escaninhos do poder, acostumado às sombras e aos negócios escusos, sempre foi politicamente ninguém.

Quem governa efetivamente é uma junta financeira que procura reduzir o Estado brasileiro a mero instrumento de rentabilização de ativos da elite patrimonialista e rentista. A mesma junta que impõe ao país "reformas" que visam destruir até mesmo a possibilidade de se aposentar com uma renda minimamente digna. Ela tentará continuar no governo independentemente de quem seja o manobrista no Palácio do Planalto. Ela tentará o velho mote: "Tudo mudar para que nada mude". Mas, para isso, precisará deixar o povo afastado de toda decisão política.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
A quarta-feira passada entrará para a história do Brasil, entre outras coisas, por dois fatos. Dia 24 de maio de 2017 foi o primeiro dia, desde o fim da ditadura militar, em que o governo ordenou à polícia abrir fogo contra manifestantes em Brasília. Um manifestante foi encaminhado a um hospital por ferimento a bala.

Por coincidência, isto ocorreu no mesmo dia em que a Prefeitura de São Paulo, em uma reedição de políticas higienistas do século 19, ordenava a demolição de um prédio na Cracolândia para a "revitalização da área" e a valorização imobiliária da região. O detalhe macabro é que a demolição ocorreu com moradores dentro do prédio, com o resultado final de três feridos.

Esses são dois exemplos do que significa "governar" em um país como o Brasil. "Governar" é gerir uma guerra civil na qual se mobilizam afetos de uma parte da população contra outra, isto a fim de que a elite que nos governa possa passar incólume e se perpetuar em suas práticas de pilhagem e uso privado do Estado. Governar é criar inimigos internos, como os "drogados" ou os "baderneiros", e insuflar uma parte da população contra eles.

Tomemos, por exemplo, o que vimos em Brasília. Na última semana, o Brasil descobriu a estatura moral e criminal do senhor que ocupa atualmente a Presidência da República. Pego em flagrante de prevaricação, lobby, cumplicidade com organização criminosa, ele fez tudo o que criminosos de alta estirpe fazem: desqualificação das provas graças a "peritos" de plantão, chantagem ("sem mim, não haverá reformas") e, o mais clássico, a criação do caos como imagem da insegurança. Um caos cuja função é atemorizar setores da população que acabarão por aceitar a perpetuação desse governo contra a "baderna" que prometeria se instaurar.

Desde que começou a queda de Temer, a imprensa tem nos informado de suas reuniões periódicas com as Forças Armadas. Para um governo acuado, nada melhor do que o medo e sua força de paralisia social, com um chamamento às Forças Armadas ao final. Mas faltava um fato, um atentado, um ataque terrorista, um ministério pegando fogo, um Plano Cohen, um Reichstag. E, vejam só, um ministério pegando fogo apareceu depois de a polícia praticar seu manual completo de barbarismos e provocações.

Mas e se um dia descobrirmos infiltração da "inteligência militar" nos atos de depredação na última quarta? Pois não seria certamente a primeira vez que nossa polícia utilizaria suas já clássicas técnicas de infiltração e produção da desordem como tática para paralisar manifestações. O dado novo é a presença cada vez mais ostensiva das Forças Armadas na vida nacional. Nenhum país joga as Forças Armadas para o centro dos embates sociais impunemente. Mas uma casta política em decomposição é capaz de tudo.

Contudo o mais impressionante neste momento da história brasileira é como discursos normativos mostram rapidamente seu caráter farsesco. Nos últimos anos ouvimos vários setores da população a clamar por moralidade na política. Agora, muitos deles usam de argumentos do tipo: "Mas a queda de Temer provocará instabilidade no grande programa de retomada do crescimento". No que eles demonstram que, no Brasil, você pode fazer toda forma de crime e degradação, desde que defenda os interesses econômicos hegemônicos.

Ou seja, muitos agem a partir da lógica: "Ele é um corrupto, mas é nosso corrupto". Como se o governo lutasse pelos interesses nacionais na economia enquanto enfia o pé na lama na política.

Haveria, no entanto, de se perguntar em que universo paralelo vivem os analistas econômicos que assim entendem. Ou melhor: há de se perguntar sobre quem eles esperam enganar. Pois, mesmo se alguma forma de crescimento houver depois das reformas anunciadas, ele será um crescimento em um horizonte de concentração medieval de renda, queda dos salários, intensificação dos regimes de trabalho, brutalização social e desigualdade.

Nenhum país precisa de um crescimento desses. Na verdade, tal crescimento é outro nome para espoliação e exploração. Esse é um crescimento que só repetirá o que vemos hoje: 3,6 milhões de pessoas voltando à pobreza enquanto o banco Itaú Unibanco tem lucro líquido de mais de R$ 6 bilhões só no primeiro trimestre de 2017. Que tal então começarmos a nos perguntar: quem ganha com a permanência do que Temer representa?
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Trata-se de um fato que ocorreu na Revolução Francesa. Um fato que influenciará, de forma decisiva, nossas ideias de liberdade. Ele ocorre em um asilo para loucos em Bicêtre, na periferia de Paris.

Há de se pensar no fato de uma dimensão fundamental de nossa concepção de liberdade se definir exatamente em um asilo periférico, em um lugar até então obscuro e profundamente violento. Lugar de invisibilidade, no qual aqueles que lá entravam eram destinados ao desaparecimento social.

Pois até então, asilos dessa natureza eram depósitos humanos, nos quais eram acorrentados indefinidamente aqueles descritos à época como "dementes", "insanos", portadores de "vesânias" juntamente com libertinos, pequenos criminosos, entre outros. Local no qual se aplicava toda forma possível de coerção física e brutalização, o que era apenas uma das consequências de as práticas clínicas serem baseadas no que deveríamos chamar de "estratégias de dessubjetivação".

No interior de tais estratégias, a loucura era vista como uma perda da humanidade, uma regressão em direção à animalidade. Por isso, não se tratava de ver diante de nós um sujeito, mas alguém cuja fala seria apenas fruto da perda absoluta da razão, cujos atos não teriam nada a respeito do qual deveríamos compreender, cujos comportamentos seriam puramente condicionados.

Mentes aprisionadas pela compulsão, pelo delírio, possuídas pelo que eliminaria de vez qualquer possibilidade de autonomia.

Foi neste contexto que um médico, imbuído dos ideais iluministas e recém-nomeado à frente do asilo de Bicêtre, decide desacorrentar os loucos. Seu nome era Philippe Pinel.

O princípio fundamental da prática clínica defendida por Pinel se baseava na afirmação de que a loucura não era a exclusão absoluta da razão, mas seu enfraquecimento.

Assim, toda intervenção clínica só poderia ser bem-sucedida à condição de apelar a essa espécie de razão enfraquecida. Um apelo que não poderia ocorrer se o médico e a instituição asilar fossem sinônimos de violência e de brutalidade.

Pois a doença mental é, de certa forma, uma rebelião fracassada contra a própria ordem médica e disciplinar que procura "cura-la". Há de se saber lidar com o sentido de tal rebelião, com seu conteúdo de verdade e com sua força produtiva.

Diante da proposição de desacorrentar os asilados feita por Pinel, a Assembleia Nacional decide enviar uma comissão para o asilo. Encabeçada por Couthon, ela se assusta ao contato com os loucos acorrentados. "Cidadão, você deve ser louco para querer libertar loucos como esses", diz Couthon. "Eles agem dessa forma porque os privamos de sua liberdade", responde Pinel. "Faça como quiser, mas temo que você será vítima de sua própria presunção."

Bem, foi graças a essa presunção que não apenas começou a história da psiquiatria moderna, mas também a longa e turbulenta história da experiência da liberdade como condição para a emancipação diante do sofrimento psíquico.

O gesto de Pinel, mesmo que limitado (como mostrará Foucault), foi decisivo para que as relações entre razão e loucura fossem repensadas, para sermos mais sensíveis à maneira com que a ideia de razão presente no senso comum é baseada em mecanismos profundos de exclusão e violência. O gesto de Pinel e sua exigência de ressubjetivação vale para todas as práticas clínicas que queiram lidar com o sofrimento psíquico, seja ele a esquizofrenia, a angústia ou a drogadição.

Não seria possível esquecer desse momento fundador de nossas expectativas de emancipação e liberdade diante do tipo de barbarismo que a cidade de São Paulo assistiu nos últimos dias ao se deparar com o desejo de internação forçada de sujeitos com drogadição.

Barbarismo bem sintetizado nas palavras de seu "prefeito": "Não é possível imaginar que um dependente químico tenha capacidade autônoma. Está possuído pela droga". Bem, retirem "dependente químico" e coloquem "louco", retirem "droga" e coloquem "loucura" e vocês entenderão para que época regredimos.

Na verdade, o que não é possível é que, em 2017, ainda se imagine que drogaditos sejam possuídos (o vocabulário teológico não está aqui por acaso) e que as pessoas não devem ser tratadas por meio de uma aliança com seu desejo de autonomia. Mas quem interna à força e o faz em nome da "autonomia" devia tentar descobrir o que é o velho princípio de não contradição.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
"Na minha opinião, eles querem se libertar de toda a velharia e tornar-se disponíveis para algo de novo que ainda não sabem bem o que será. Não querem ser pegos de surpresa. Meu fotógrafo, por exemplo, recusa-se a se engajar, mas não é um amoral, um insensível, e eu o olho com simpatia; recusa-se a se engajar porque quer se manter disponível para algo que virá, que ainda não existe". Este é o cineasta italiano Michelangelo Antonioni falando sobre Thomas, o fotógrafo de moda personagem de "Blow-up: Depois Daquele Beijo" (1966), um de seus mais conhecidos filmes e, certamente, um dos mais importantes filmes da história do cinema.

Este depoimento encontra-se em um entrevista dada por Antonioni a Alberto Moravia à época do lançamento do filme. Ela faz parte do recém-lançado "Aventura Antonioni" (ed. Voa!, 720 págs.).

O livro é uma extensa compilação de textos escritos por Antonioni, além de entrevistas e críticas feitas à época (principalmente na imprensa italiana) sobre cada um dos seus 15 filmes. Dentre tal material, há textos preciosos de Roland Barthes, Italo Calvino, Alberto Moravia, Pier Paolo Pasolini, Wim Wenders, Giulio Carlo Argan. Há ainda uma entrevista realizada por Jean-Luc Godard.

Diante desta verdadeira reconstrução do horizonte de debates em torno da obra de Antonioni emerge os eixos principais de suas questões e sensibilidade.

Muito já se falou sobre uma espécie de "retorno à interioridade" que seria característica dos filmes de Antonioni com seus personagens em fuga, seus casais em crises mudas e em desabamentos imperceptíveis, sujeitos tocados em "suas relações epidérmicas com o mundo".

Assim, contra o ímpeto documental do neorrealismo italiano, Antonioni seria aquele que teria dito: "Porque hoje, num clima normalizado –bem ou mal, pouco importa– o que conta não é tanto a relação do indivíduo com o meio ambiente, mas o indivíduo em si, em toda sua complexa e inquietante verdade".

Mas a leitura de "Aventura Antonioni" demonstra como esta dicotomia não se sustenta. Pois a verdadeira questão de Antonioni é: o que é, de fato, um acontecimento, como ele é vivenciado pelos sujeitos, como ele opera? Ou seja, o que de fato nos revoluciona? Thomas (David Hemmings) recusa-se a se engajar não porque ele seja alguém perdido na frivolidade do mundo glamorizado das imagens, mas porque ele espera por um acontecimento. Sua câmera fotográfica procura alguma forma de choque, seja vindo da sexualidade, seja vindo do tempo incontado dos gestos fortuitos que se captam no exterior. E em um destes gestos ele encontra algo. Ele vê uma jovem mulher (Vanessa Redgrave) em um flerte aparente com um homem mais velho em um parque. Esta é a primeira mulher que se recusará a ser fotografada por ele, que exigirá os filmes das fotos que ele tirou sem permissão, que lhe seduzirá para desaparecer de seu sistema de imagens.

O resto da história, todos os cinéfilos conhecem. Thomas descobrirá as marcas de um assassinato ao ampliar as fotos, ele verá o corpo morto a noite, mas este corpo desaparecerá, sem deixar rastos. Pois, como dirá Antonioni: "não se penetra nos fatos com a reportagem". Não se descreve acontecimentos como se estivéssemos diante de uma linguagem descritiva de jornal. Por isto, aquele acontecimento continuará para ele impenetrável, como se fosse um jogo jogado com uma bola que, para ele, é inexistente. Até que ele aprenda, ao final, a pegar a bola que parecia inexistente.

É assim que os personagens de Antonioni se movem. Para quem os vê, eles parecem se mover lentamente. Mas, para eles próprios, eles estão em linhas de fuga, em desaparecimento e em outras estratégias que visam quebrar os círculos de alienação por meio de uma recomposição de suas sensibilidades.

Eles estão em irreversível afastamento da ordem da reprodução material da vida social, como Giuliana (Monica Vitti), a mulher do industrial de "Deserto Rosso" que vaga diante de paisagens de um mundo do trabalho desolado, mas com uma certa beleza melancólica. Vaga como quem diz que irá abandonar este mundo mesmo que, para isto, ela tenha que flertar com a neurose. Foi assim que Antonioni construiu as imagens de um outro engajamento, uma engajamento com o caráter disruptivo dos acontecimentos.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Freud nos traz um relato no qual um homem, depois de cuidar por meses de seu pai doente que acabara de morrer, começa a sonhar que ele estava novamente em vida e que lhe falava normalmente. Esse sonho era vivenciado de forma extremamente dolorosa, já que o pai agia de maneira natural, mas a condição de não saber que estava morto. Ao produzir um sonho dessa natureza, o sujeito demonstrava estar preso em um tempo assombrado por mortos que não estavam enterrados, mortos que ocupavam o lugar dos vivos, repetindo cenas e rituais que não tinham mais sentido algum, pois cenas e rituais de um morto que luta por não querer saber.

Podemos dizer que não apenas sujeitos mas sociedades podem entrar neste tempo paralisado e em apodrecimento. Elas serão submetidas a um espetáculo miserável de mortos que agem como se estivessem vivos, que ocupam o espaço dos vivos, que continuam a fazer discursos que já não têm realidade alguma, que julgam a partir de uma autoridade que eles já não têm.

Essas sociedades acreditam poder se estabilizar sobre uma profunda ausência de legitimidade, um pouco como esses personagens de desenho animado que continuam a correr mesmo que não estejam mais em solo firme, mas no abismo. Essas são sociedades cuja paixão central é o desejo de não querer saber.

O Brasil das últimas semanas demonstrou claramente o que isso significa. Comandado por uma casta política de pessoas mortas, em grau profundo de corrupção e desagregação, ele parece querer continuar sem saber que já não existe mais sequer como democracia mínima de fachada. O Brasil assumiu de vez sua face de oligarquia cujos governantes e juízes permanecem no poder a despeito de qualquer consideração pela vontade popular.

Pouco importa se seu governo foi indicado pela imprensa internacional como um dos cinco mais impopulares do mundo, se as manifestações contra ele se espalham pelo país. Isso não irá influenciar as decisões governamentais, não irá modificar seus discursos.

Pouco importa se seu "presidente" foi gravado em caso explícito de formação de quadrilha, prevaricação e cumplicidade com banditismo. Os juízes agirão como se as gravações não existissem e utilizarão, ainda, os mais rasteiros sofismas para se justificarem.

Mas, quando os mortos sobem à cena, uma explicitação importante ocorre no nível dos discursos. Vemos então uma forma de conservação de discursos desprovidos de legitimidade, de práticas discursivas repetidas tendo em vista certa "estabilização na anomia" que poderíamos chamar de "cinismo".

Cinismo não é apenas um julgamento moral, mas uma certa forma de racionalidade. Cínicas são as ações nas quais repetimos a aparência de legitimidade, mesmo sabendo que todos compreendem que se trata apenas de aparência. Um pouco como vimos na semana passada, com uma verdadeira aula de cinismo ilustrado dada pelo pilar do desgoverno atual, a saber, o grão-tucanato. O mesmo tucanato que entrou como uma ação de cassação de chapa Dilma-Temer, que insuflou o presidente do TSE, homem de relações orgânicas com o partido, a não levar adiante a cassação, para no final afirmar que iria recorrer da decisão tomada "por si próprio", mesmo que seu partido continue a prometer juras de amor e a sustentar o governo.

Essa racionalidade cínica exige que a repetição da aparência deva ser feita como se estivéssemos diante da exigência de continuar a jogar um jogo sem sentido, a ter uma crença desprovida de crença, a fingir que democracia ainda há.

Há uma função "terapêutica" nisso tudo. Pois assim poderemos ridicularizar o poder ao mesmo tempo que a ele nos submetemos.

De fato, em seus momentos de desagregação o Brasil não leva sua casta dirigente à guilhotina, não invade o Ministério da Fazenda ou seus palácios. Ele encontra alguma forma de alívio em submeter-se a um poder que não exige mais crença alguma. Como se fosse possível continuar a viver esquecendo, por um momento, que o poder existe.

No entanto países que um dia levaram seus dirigentes à guilhotina e à forca (como a França e a Inglaterra) conseguiram civilizar minimamente sua classe dirigente. Eles a civilizaram através de certo medo pelo povo que se inscreve no imaginário do poder. Com guilhotina ou não (pois isso pode ser visto apenas como metáfora), uma coisa é certa; no Brasil, falta ao poder temer o povo.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Há algumas dicotomias que parecem ter a força de atravessar o tempo e se imporem a nós com uma evidência inaudita. Em filosofia, conhecemos várias delas, assim como conhecemos suas maneiras de orientar o pensamento e as ações.

Tais dicotomias podem operar não apenas como um horizonte normativo pressuposto, mas também como base para a consolidação de certas modalidades de pensamento crítico. No entanto, há momentos em que percebemos a necessidade de questionar as próprias estratégias críticas e suas dicotomias. Pois, ao menos para alguns, elas parecem nos paralisar em vez de nos permitir avançar em direção às transformações que desejamos.

Um exemplo de dicotomia que tem força evidente no pensamento crítico atual é aquela, herdada de Spinoza, entre paixões tristes e paixões alegres. Paixões tristes diminuem nossa potência de agir, paixões alegres aumentam nossa potência de agir e nossa força para existir. A liberdade estaria ligada à força afirmativa das paixões alegres, assim como a servidão seria a perpetuação do caráter reativo das paixões tristes. Haveria pois aquilo que nos afeta de forma tal que permitiria a nossos corpos desenvolver ou não uma potência de agir e existir que é o exercício mesmo da vida em sua atividade soberana.

Sem querer aqui fazer o exercício infame e sem sentido de discutir a teoria spinozista dos afetos e sua bela complexidade em uma coluna de jornal, gostaria apenas de sublinhar inicialmente a importância desse entendimento de que a capacidade crítica está ligada diretamente a uma compreensão dos afetos e de seus circuitos. Nada de nossas estratégias contemporâneas de crítica seria possível sem esse passo essencial de Spinoza, recuperado depois por vários outros filósofos que o seguiram.

No entanto, valeria a pena nos perguntarmos o que aconteceria se insistíssemos que talvez não existam paixões tristes e paixões alegres, de que talvez essa dicotomia possa e deva ser abandonada (independentemente do que pensemos ou não de Spinoza).

É claro que isso inicialmente soa como um exercício ocioso de pensamento. Afinal, a existência da tristeza e da alegria nos parece imediatamente evidente, nós podemos sentir tal diferença e nos esforçamos (ou ao menos deveríamos nos esforçar, se não nos deixássemos vencer pelo ressentimento e pela resignação) para nos afastarmos da primeira e nos aproximarmos da segunda.

Mas o que aconteceria se habitássemos um mundo no qual não faz mais sentido distinguir entre paixões tristes e alegres? Um mundo no qual existem apenas paixões, com a capacidade de às vezes nos fazerem tristes, às vezes alegres. Ou seja, um mundo no qual as paixões têm uma dinâmica que inclui necessariamente o movimento da alegria à tristeza.

Pois, se esse for o caso, então talvez sejamos obrigados a concluir que não é possível para nós nos afastarmos do que tenderíamos a chamar de "paixões tristes", pois não há paixão que, em vários momentos, não nos entristeça. Não há afetos que não nos contraiam, não há vida que não se deixe paralisar, que não precise se paralisar por certo tempo, que não se vista com sua própria impotência a fim de recompor sua velocidade. Mais, ainda. Não há vida que não se sirva da doença para se desconstituir e reconstruir.

É difícil falar isso e não lembrar de um entrevista dada por Theodor Adorno à revista alemã "Der Spiegel" um pouco antes de morrer. A certa altura, o jornalista, que procurava fazer de tudo para criar a imagem de Adorno como um negativista doente, afirma: "Até agora, a sua dialética abandonou-se aos pontos mais negros da resignação, à esteira destrutiva da pulsão de morte". E Adorno responde: "Eu preferiria dizer que é o apego compulsivo ao positivo que provém da pulsão de morte".

Essa era sua maneira de afirmar que nossa servidão não vem exatamente das paixões tristes. Ela vem da luta desesperada em não ouvi-las. Luta desesperada em apegar-se compulsivamente a uma afirmação cristalina e sem sombras. Apego que, ao menos neste momento histórico, corre o risco de acabar por alimentar a visão capitalista da felicidade como conformação estoica ao que acontece.

No que Adorno repetia a intuição de um poeta, talvez o último dos grandes poetas metafísicos, Paul Celan. O mesmo Celan que lembrava: "Fala, mas não separe o não do sim/ Dá a sua palavra também o sentido/ Dá-lhe a sombra".
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Alguém precisa salvar o Brasil de seus salvadores. Neste momento em que, pela primeira vez em sua história, o país tem um presidente em exercício denunciado por crime, é sintomático a quantidade de vozes a ocupar a imprensa a fim de falar da "responsabilidade para com a nação", do "temos um compromisso com o país", do "não podemos deixar o país parar".

Tais vozes são sustentadas por um coro de analistas, juízes e jornalistas que entoa a cantilena do "não devemos desqualificar a política", do "é perigoso quando um povo já não acredita mais na política".

Mas estes que assim falam não são exatamente parte da solução. Eles são parte do problema. Há um exercício de tradução que se faz atualmente necessário quando se ouvem afirmações como essas. Pois onde se lê "temos que ter responsabilidade para com a nação", leia-se, por favor, "deixemos os negócios continuarem como sempre e deixemos o poder nas mãos dos que sempre o detiveram".

Já onde se lê: "não devemos desqualificar a política", entenda: "continuem a acreditar nas instituições deterioradas da república e seus ocupantes". Ou no lugar de: "é perigoso quando um povo já não acredita mais na política", entenda: "as acusações estão chegando muito perto de mim mesmo".

No entanto, o melhor que pode acontecer ao Brasil neste momento é, de certa forma, deixar tudo quebrar. A consciência de que o país entrou em colapso e de que nenhuma de suas instituições funciona de maneira minimamente adequada pode ser a única saída real do fracasso.

O filósofo Theodor Adorno uma vez afirmou: "O medo do caos, em música como em psicologia social, é superestimado". Isso vale para nós neste momento.

Muitos temem o avanço de um protofascismo aberto ou do populismo conservador que assombra o Brasil desde os idos de Jânio Quadros. Mas a única forma efetiva de combatê-los é tomar deles o discurso da ruptura e ir em direção a uma ruptura real, em vez de se deixar absorver por esses simulacros produzidos pela associação explícita de "novas figuras" com a antiga linha de comando da economia nacional.

Há ainda aqueles que reclamam do vazio político. Eles dizem que não há força de transformação alguma no horizonte e, por isso, qualquer movimento brusco será ainda pior.

Mas está evidente que tal "vazio" tem uma função clara: paralisar toda demanda social através de um raciocínio: "Ou isso que temos ou o vazio, o caos". Aqueles que se servem desse raciocínio agem como alguém que não sai de uma casa em chamas por não ter uma nova casa.

No entanto, só é possível construir outra casa quando se decide sair da antiga. Só quando os tijolos da antiga forem deixados para trás, o vazio desaparecerá. Há uma criação imanente de política no interior da vida social. O vazio é apenas uma ilusão vinda da fixação em um tempo arruinado.

Nesse sentido, não é verdade que estaríamos agora diante do risco da desqualificação geral da política. De certa forma, a verdade é que a política já não existe há muito em nosso país. O discurso gerencial, que é o discurso antipolítico por excelência, já fora utilizado na primeira eleição de Dilma Rousseff. Política é indissociável do exercício irrestrito da soberania popular e isso, há de ser honesto, nunca ocorreu no Brasil.

Mas a estratégia atual consiste em amedrontar a população com o discurso do futuro caótico, em vez de permitir que a imaginação política aja e crie o que o país ainda não sabe como fazer existir. Se isso continuar, no lugar de uma destruição criadora teremos apenas uma desagregação sem fim.

Não se pode temer que tudo fique estagnado para que o país entre em movimento com novos ritmos, novas intensidades.

Não temos outra saída a não ser terminar o que não quer morrer, recusar mais um acordo espúrio e confiar em nossa própria capacidade. Mas a confiança no povo é algo que o poder no Brasil sempre procurou impedir.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
O pensamento sociológico brasileiro conheceu, nas últimas décadas, um esforço sistemático de redimensionamento da crítica social. Na esteira de uma relação profícua e constante com a filosofia, ele procurou, em alguns dos seus melhores momentos, mostrar como não há crítica social àquilo que aparece aos sujeitos como experiência de injustiça que não seja fundamentada, em seu sentido mais decisivo, em uma crítica da razão.

Isso significa dizer que as experiências sociais de injustiça não devem ser apenas compreendidas como vinculadas a problemas de redistribuição de bens e de riquezas, de dominação do império da força e da tradição.

Elas devem ser analisadas como expressão e resultado do que entendemos por "razão". A razão não é apenas aquilo que nos permite fundamentar a crítica à injustiça. Ela é também o que produz aquilo que nos faz sofrer.

Saber manejar essa dialética nos permitiria mobilizar a força da autocrítica para compreender melhor a ambiguidade do que nossos valores são capazes de produzir. Posição que não deixa de ter uma atualidade sadia entre nós, já que nos lembra que a autocrítica não é sinal de demissão e fraqueza, mas o único traço real de força do espírito.

É com esse horizonte em vista que podemos abordar o novo livro de um dos nossos mais destacados sociólogos, Gabriel Cohn. "Weber, Frankfurt: Teoria e Pensamento Social 1" (Azougue, R$ 42,90, 272 págs.) é uma compilação de textos escritos nos últimos 15 anos cujo eixo central é, como diz seu autor, "como enfrentar, nas condições impostas pela constituição das sociedades em cada momento, os dilemas que se desenham para a ação".

Nele, encontramos ensaios sobre a autocrítica da razão na "Dialética do Esclarecimento", sobre os processos de racionalização e modernização segundo Max Weber, a noção de tempo na dialética, os modos de funcionamento da indústria cultura e a estrutura da ideologia e da identidade, além das tensões inerentes ao processo civilizatório.

O que deriva desse conjunto é, inicialmente, a compreensão de que tais dilemas para a ação não podem ser pensados de forma estratégica.

Antes, eles exigem compreender tais dilemas como expressão de uma razão que não é apenas modo de orientação do pensamento que visa a identificação do melhor argumento. Razão é, na verdade, a forma de vida que constitui expectativas de validade e legalidade de instituições e agentes sociais. Ou seja, como leitor atento de Weber, Gabriel Cohn nos mostra como "razão" é uma questão de modos de racionalização de esferas sociais de valores.

No entanto, como um processo que se dá no interior do tempo, a razão e seus "produtos" obedece a movimentos próprios que têm sua essência no tempo socialmente organizado. Movimentos que não são "mero deslocamento linear de A para B, mas tensão interna ao objeto pronto a se metamorfosear" e, em muitos casos, a voltar-se contra si mesmo. Seguir tais metamorfoses é algo que Gabriel Cohn faz com o auxílio de seus estudos precisos a respeito da Escola de Frankfurt, em especial de Theodor Adorno.

Isso permite, por exemplo, que ele analise as estruturas do preconceito (em sua figura do antissemitismo) e encontre nelas o sintoma de uma razão fascinada pelo seu princípio de identidade e de dominação dos objetos.

Uma razão incapaz de compreender que "esclarecimento" não significa exatamente iluminar seus objetos, mas se conformar a eles. Ou seja, não exatamente lançar luz sobre aquilo que precisaria do nosso olhar para encontrar seu lugar, mas compreender que as coisas não são apenas projeções especulares de quem as conhece.

Assim, fenômenos particulares, como o antissemitismo, recebem uma leitura sintomática por meio da qual revelam as tensões internas aos processos globais e nos preparam para compreender a real extensão de seus riscos.

Nessa articulação bem-sucedida entre crítica social e crítica da razão, delineia-se um modelo capaz de aliar reflexão especulativa e análise das condições concretas de nossa existência no interior da sociedades do capitalismo avançado. Movimento que nos lembra como "especulação" nunca foi sinônimo de reflexão vazia, mas do esforço mais decisivo do pensamento que não quer se deixar fascinar pela pretensa concretude do dado.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Aqueles que, nas últimas décadas, acreditaram que o caminho do Brasil em direção a transformações sociais passava necessariamente pelo gradualismo deveriam meditar profundamente nesta semana de julho.

Não foram poucos os que louvaram as virtudes de um reformismo fraco porém seguro que vimos desde o início deste século, capaz de paulatinamente avançar em conquistas sociais e melhoria das condições de vida dos mais vulneráveis, enquanto evitava maiores conflitos políticos graças a estratégias conciliatórias.

"Há de se respeitar a correlação de forças", era o que se dizia. Para alguns, isso parecia sabedoria de quem lia "A Arte da Guerra", de Sun Tzu, antes de reuniões com José Sarney e a lama do PMDB. Eu pediria, então, que meditássemos a respeito do resultado final de tal sabedoria.

Pois o verdadeiro resultado dessa estratégia está evidente hoje. Nunca o Brasil viu tamanha regressão social e convite à espoliação do mundo do trabalho.

O salto de modernização que nos propõem hoje tem requintes de sadismo. Ou, que nome daríamos para a permissão de mulheres gestantes trabalharem em ambientes insalubres e de que trabalhadores "tenham o direito" de negociar seu horário de almoço?

Tudo isso foi feito ignorando solenemente o desejo explícito da ampla maioria da população. Ignorância impulsionada pelo papel nefasto que tiveram setores majoritários da imprensa ao dar visões completamente monolíticas e unilaterais das discussões envolvendo tal debate.

Mas isso podia ser feito porque não há mais atores políticos capazes de encarnar a insatisfação e a revolta. Hoje, o governo pode atirar contra a população nas ruas em dias de manifestação e sair impune porque não há ator político para incorporar rupturas efetivas. Eles se esgotaram nos escaninhos de tal modelo de gestão social brasileiro.

A reforma trabalhista apenas demonstra que o gradualismo pariu um monstro. Os mesmos que votaram para mandar a classe trabalhadora aos porões de fábricas inglesas do século 19 estavam lá nas últimas coalizões dos governos brasileiros, sendo ministros e negociadores parlamentares.

Ou seja, a política conciliatória os alimentou e os preservou, até que eles se sentissem fortes o suficiente para assumirem a cena principal do poder. "Mas era necessário preservar a governabilidade", era o que diziam. Sim, este é o verdadeiro resultado da "governabilidade" do ingovernável, da adaptação ao pior.

Como se fosse apenas um acaso, no dia seguinte à aprovação da reforma trabalhista o Brasil viu o artífice deste reformismo conciliatório, Luiz Inácio Lula da Silva, ser condenado a nove anos de prisão por corrupção. Esse era um roteiro já escrito de véspera.

De toda forma, há de se admirar mais um resultado desta política conciliatória –a adaptação ao modelo de corrupção funcional do sistema brasileiro e, consequentemente, a fragilização completa de figuras um dia associadas, por setores majoritários da população, a alguma forma de esperança de modernização social.

O Brasil agora se digladia entre os que se indignam com tal sentença e os que a aplaudem com lágrimas de emoção. Engraçado é ver outros políticos que também mereciam condenação pregarem agora moralidade.

No entanto, o problema é que só existirá essa sentença, nada mais. Este é o capítulo final. Da mesma forma que o capítulo final do julgamento do mensalão foi a prisão de José Dirceu. Perguntem o que aconteceu com o idealizador do mensalão, o ex-presidente do PSDB Eduardo Azeredo.

Ou perguntem sobre o que acontecerá a outro presidente do mesmo partido, aquele senhor que foi pego em gravação telefônica dizendo que deveria procurar um interceptador para propina que pudesse ser assassinado.

Ou o ex-presidente FHC, citado nos mesmos escândalos que agora condenam Lula. Muitos reclamam da parcialidade da Justiça brasileira: há algo de comédia nessa reclamação.

Que esta semana seja um sinal claro de que uma forma de fazer política no Brasil se esgotou, seus fracassos são evidentes, suas fraquezas também. Continuar no mesmo lugar é apenas uma forma autoinduzida de suicídio.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Uma das palavras mais evitadas na política brasileira atual é "autocrítica". Para muitos, ela é sinal de fraqueza, coisa de quem tem a estranha compulsão por jogar no time adversário ou o infantilismo de quem desconhece a dureza da realidade do embate político.

No máximo, autocrítica é algo que se faz entre quatro paredes, sem exposição pública e de forma discreta. Esta perspectiva, infelizmente, é moeda corrente em todas as posições e espectros políticos.

Há de se perguntar, entretanto, que tipo de pensamento político é este no qual a autoinspeção pública de suas crenças e práticas é compreendida como impotência, e não como a verdadeira força.

Um pensamento que precisa alimentar a ilusão falocêntrica de infalibilidade ou de que, como se diz à cantonada atualmente, "estamos sendo julgados pelas nossas virtudes, não pelos nossos erros".

Tal pensamento insistirá que agora não é hora para autocrítica, afinal nos encontramos em embate renhido contra forças opostas.

No entanto, é interessante como, para seus defensores, a hora da autocrítica nunca deve chegar, até porque sempre estaremos em luta constante, sempre será necessário alimentar a mobilização através do "não podemos parar agora".

Contudo, para o tempo da autocrítica chegar, eles deveriam aceitar que o melhor governo não é aquele que repete compulsivamente que fizemos tudo certo, mesmo que tudo tenha dado errado.

O melhor governo é aquele que reconhece o caráter falível de suas ações e a necessidade de revê-las a partir de suas consequências. Segurança ontológica não existe em política e saber disso é a única maneira de ser realmente fiel ao que realmente conta.

Porém, o mais interessante nesse tipo de pensamento é o que acontece quando são criticadas as opções de governo, como essas que foram feitas nos nossos últimos anos de democracia formal, já que democracia agora não há, nem mesmo em sua versão formal.

Se você insiste nas consequências catastróficas das opções gradualistas e conciliatórias que marcaram nossos últimos anos, a acusação imediata será a de "voluntarismo político". Afinal, dizem, você acha que é simplesmente tendo vontade que se produzem transformações em um país como o Brasil?

O que eu particularmente mais gosto nesses tipos de afirmações é seu tom de reprimenda paterna.

Lembra o pai que, de forma impaciente, volta-se contra o filho e diz: "Mas você não sabe nada do mundo, a realidade é muito mais complexa. Você verá como o curso das coisas quebrará a petulância da sua vontade".

Há muito mais "pais de plantão" do que imagina sua vã filosofia. Afirmações como essas, todavia, são um boa maneira de expor não exatamente o onirismo do filho, mas a impotência do pai, ou melhor, sua tentativa de travestir a impotência com as vestes da sabedoria. Algo muito comum entre nós atualmente.

Mais honesto seria começar por lembrar como esquecemos, nestes últimos anos, de um princípio elementar: nada pode ser transformado se as estruturas políticas permanecem as mesmas.

A primeira coisa a fazer quando aqueles comprometidos com transformações profundas assumem o poder é exatamente modificar o poder, e não tentar operar aceitando suas regras explícitas e, principalmente, implícitas.

Mas aqueles de boa memória lembrarão que a primeira ação da esquerda brasileira no poder foi, pasmem, uma reforma previdenciária, e não uma refundação da institucionalidade política brasileira. Sequer discussão séria e pressão política houve nesse sentido.

Falar em correlação desfavorável de forças em governos que chegaram a ter impressionantes 80% de popularidade é algo da ordem da desonestidade intelectual. Creio que isso, na verdade, diz muito a respeito do que os defensores da "autocrítica depois" ou da "autocrítica tudo bem, mas de leve" talvez realmente queiram, porém sem saber. Talvez eles queiram, atualmente, apenas que tudo volte a ser como antes. Difícil imaginar que se vai muito longe assim.
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Roberto Bolaño (1953-2003) foi um dos escritores latino-americanos que talvez melhor tenha compreendido o que significa escrever a violência. Pois, no fundo, é possível que a América Latina seja inicialmente isso: uma forma de violência.

Principalmente, uma violência que afeta nossa memória, nossas formas de narrar, que redefine o ritmo de nossa linguagem. Seria fácil falar de seus clichês coloniais, exotismos, da "vida" que pulsa em um ritmo contagiante. Esta seria, no entanto, a mera visão reflexa de um olhar colonial secular, agora internalizado pelos antigos colonizados.

Mas talvez uma visão realmente interna deva partir da maneira como a violência nos forma e nos molda.

"Noturno do Chile", por exemplo, é a longa rememoração da descoberta do amor do jovem padre Sebastián Urrutia Lacroix pela literatura.

Por meio de seus fluxos de memória –frases contínuas que duram, às vezes, duas páginas–, com suas parataxes que justapõem imagens em deslocamento metonímico, Bolaño descreve a história recente do Chile como um grande pano de fundo. À frente do cenário, aparece na verdade o desejo de literatura, quase como um desejo de defesa contra o silêncio deste "lugar esquecido", que no romance ganha o nome de Chile.

Mas esse desejo de literatura não se encontra apenas na rememoração do padre Urrutia. Ele se encontra na própria escrita de Bolaño, em sua maneira de se servir de formas literárias completamente díspares, como a estrutura tipificada do romance policial e os fluxos temporais proustianos, um pouco como alguém que está em um lugar esquecido e que precisa lidar com objetos empoeirados que um dia vieram de fora.

Procurando injetar vida no que já fora usado, às vezes muito usado, Bolaño injeta tragédia onde ela nunca existiu (em romances policiais) e ironia onde ela sempre pareceu estranha (nas formas proustianas).

Notem como já há algo de defesa contra a violência do desterro aqui. Os personagens de Bolaño sempre estão a lidar com um desejo de saber que ganha, no mais das vezes, um tom comicamente enciclopédico.

Assim, em um dos momentos dramáticos do encontro entre o padre Urrutia e seu iniciador no mundo literário, o crítico Farewell, então acamado e doente, Urrutia começa a lembrar da história dos papas. Ele descreverá a vida dos pontífices mais obscuros como se recitasse um verbete da "Enciclopédia Mirador" ou como um aluno que descreve os afluentes da margem esquerda do rio Amazonas.

Em "Estrela Distante", veremos listas inumeráveis de revistas literárias e nomes de poetas obscuros cortando periodicamente o texto.

Que este saber sem lugar e função, tão próprio de um latino-americano que descobre livros antigos em uma biblioteca velha, seja afirmado pela literatura, seja transformado em ironia suprema de uma literatura renovada; eis algo que diz muito.

Pois tal enciclopedismo será a descrição indireta de lugares que lutarão para anular a força de toda experiência de saber, que procurarão o esquecimento contínuo de sua própria violência, o bloqueio de sua própria autorreflexão.

Neste sentido, há de se perceber como a história recente entra nos romances de Bolaño. Ela sempre entra como aquilo do qual seria melhor não falar, como a queda de Allende e a ascensão da ditadura chilena contada em um conjunto rápido de frases curtas. Ou como a ex-mulher de um torturador que dava saraus literários em sua casa enquanto o marido torturava presos políticos no porão, e sua recusa em elaborar aquilo do que fora cúmplice.

A violência deixa marcas em frases encurtadas, em ruas que ficam silenciosas, em imagens que rapidamente se dissolvem, como se ficássemos sem saber se eram ou não reais. É dessa forma que a literatura fala da violência que nos constitui.

Se me permitem uma nota pessoal final, é-me difícil escrever sobre essa violência do silêncio que conhecemos tão bem sem lembrar de que tenho uma filha no terceiro ano do ensino médio que confessou recentemente nunca ter tido aulas sobre a Nova República e os últimos 30 anos da história brasileira.

No que têm razão aqueles que descobriram que os escritores aparentemente mais "fantásticos" (como Kafka e o próprio Bolaño) eram, no fundo, os mais "realistas".
É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.
Há algo de instrutivo no ritual que o Congresso Nacional ofereceu ao país na última quarta-feira, quando um ocupante do cargo da Presidência, gravado em situação flagrante de prevaricação e corrupção passiva, formalmente denunciado pela Procuradoria Geral da União, foi poupado.

É difícil imaginar algum país no mundo que chegaria a um espetáculo tamanho de degradação comandado por uma casta de políticos dignos de filmes de gângsteres série B. Ao menos, depois dessa confissão de desprezo oligárquico pela opinião pública, quem sabe agora parem de falar que estamos em uma "democracia".

Enquanto o país assiste a universidades públicas suspenderem as aulas por se encontrarem em situação falimentar, serviços públicos entrarem em deterioração, agências de pesquisa decretarem estado de calamidade e 3,6 milhões de pessoas saírem da classe média baixa em direção à pobreza, o ocupante do trono da Presidência, único presidente da história brasileira a ser denunciado pela Justiça no cargo, gastava milhões de reais em suborno explícito de deputados, uso de cargos públicos para aliciamento de votos e liberação de emendas escusas a fim de garantir sua sobrevida.

Ou seja, bem-vindos a uma cleptocracia que agora não faz nem sequer questão de conservar as aparências. Há algo de terminal quando até mesmo as aparências já não são mais conservadas. Tudo isso com o beneplácito daqueles que dizem que o país precisa, afinal, de "estabilidade".

Com se vê, há algo de muito interessante no conceito de "estabilidade" que circula atualmente. Uma estabilidade da pauperização, da precarização do emprego, do desmonte dos serviços públicos e da redução final da república brasileira a uma farsa macabra.

Contra isso, há aqueles que falam que receberam uma "herança maldita" do governo anterior. Alguém deveria explicar essa repetição compulsiva que nos acomete. Vivemos em um país onde todo governo usa o expediente de culpar a herança maldita do anterior para mascarar sua própria impotência. O cômico é que eles sempre encontram alguém a continuar a vociferar a mesma estratégia surrada de sempre.

Mas o que pode realmente impressionar alguns é o silêncio com que este momento foi recebido por setores da sociedade brasileira ou, antes, os expedientes que vemos para justificar a passividade. Por que as ruas não queimam, perguntam?

Ao menos três fatores deveriam ser levados em conta aqui.

Primeiro, porque estamos falando de um governo que atira em manifestantes em toda impunidade, como vimos na última manifestação de greve na Esplanada dos Ministérios. Ele usa seu braço armado para cegar estudantes com bala de borracha, atemorizar a população nas ruas com sua polícia gestora da desordem, ameaçar com punições os que entram em greve e ridicularizar o fato de 35 milhões de pessoas pararem o país (como na última greve geral). Ou seja, boa parte das pessoas não sai às ruas porque elas têm medo da violência do Estado, já que elas tacitamente sabem que não têm mais garantias alguma de integridade.

Segundo, porque há um setor da sociedade brasileira que nunca teve problemas com corrupção, mesmo que tenham saído às ruas em 2015 falando o contrário. Eles sempre votaram em corruptos notórios e continuarão fazendo isto. O único problema deles era com o governo anterior. Derrubado o governo, todos eles voltaram para casa e continuarão lá para todo o sempre.

Por fim, não há ninguém nas ruas porque a esquerda brasileira entrou em colapso. Presa entre a tentativa de ressuscitar o que morreu e a incapacidade de encontrar outra forma de incorporação genérica de sua multiplicidade de demandas em um ator político unificado, ela encontra-se paralisada e sem capacidade de dizer claramente o que quer, qual seu horizonte.

Queremos simplesmente retornar ao passado recente, conservar o que está sendo desmontado, ou temos algo a mais a propor? Conseguiremos fazer a maioria da população brasileira sonhar e acreditar em sua própria força de transformação e luta ou empurraremos todos a um horizonte desinflacionado de mudanças, como se isso fosse a expressão de um realismo duro, porém pretensamente necessário?

Sem clareza acerca desses pontos, ninguém avançará um passo.
